domingo, 26 de maio de 2019

Opinião: A renúncia de Theresa May e o Brexit na Teoria dos Jogos de Dois Níveis


Por Maria Eduarda Siqueira*



A teoria dos Jogos de Dois Níveis, desenvolvida por Robert Putnam em meados dos anos 1980, apresentou um modelo político de resolução de conflitos internacionais entre democracias liberais. O objetivo do modelo apresentado por Putnam era analisar situações políticas caracterizadas pelas pressões provenientes das esferas internacional e nacional, uma vez que:

“É infrutífero debater se a política doméstica realmente determina as relações internacionais ou se é o inverso. A resposta para essa questão é clara: ‘Algumas vezes uma influencia a outra’ ” [PUTNAM, 2010, p.147]

Seu modelo de análise descreve os níveis interno e externo, como um ambiente no qual, no nível II, da esfera doméstica, os grupos perseguem seu interesse pressionando o governo a adotar políticas favoráveis aos mesmos, enquanto os atores políticos buscam o poder angariando apoio entre tais grupos. No nível I, da esfera internacional, os governos nacionais buscam maximizar sua capacidade de satisfazer as pressões domésticas, enquanto minimizam as consequências adversas do ambiente externo (PUTNAM, 2010, p.151).

Dessa forma, é denominado Jogos de Dois Níveis a ideia de que um corpo político joga, simultaneamente, dois jogos: um na arena interna e outro na arena externa, e nenhum deles pode ser ignorado. Apesar de parecerem contraditórios, existem grandes vantagens para que haja coerência entre ambos e as mesmas são lembradas por Snyder e Diesing ao afirmarem que a previsão sobre resultados internacionais melhora significativamente ao se compreender as barganhas internas. (SNYDER & DIESING, 1977, p.510-525).

Neste contexto, é possível analisar o movimento BREXIT (união das palavras Britain, Grã-Bretanha, e exit, saída) que se desenvolve no Reino Unido com relação a sua saída da União Europeia desde meados de 2015, mas é datado como um conflito histórico.

O Reino Unido, finalmente, ingressou na União Europeia em 1973 após uma série de tentativas. Sua entrada oficial teve de ser aprovada pelos países já membros e foi possível somente após o afastamento de Charles de Gaulle como estadista francês. Contraditoriamente, mesmo após o árduo ingresso na União Europeia, o Reino Unido não adotou algumas das principais medidas do bloco, como o uso do euro. Por esse histórico de conflitos e a não adoção total dos princípios do bloco econômico, somado ao posicionamento geográfico do Reino Unido, parte de sua população sempre apoiou a saída dos países da União Europeia e, em outras palavras, parte de sua população na época não aceitou a entrada dos países na União Europeia.

Com vista a esse cenário, se faz necessário uma análise de David Cameron e seu governo que acreditava ser possível mudar a relação do Reino Unido com a União Europeia. Grande defensor do bloco econômico e da participação dos países nesse, o governo de Cameron, foi marcado por uma política multilateralista que visava grande participação e cooperação do Reino Unido no cenário internacional.

Voltando a análise de Putnam sobre os Jogos de Dois Níveis, Cameron era visto como líder ou negociador-chefe - que não deve ter preferências políticas independentes e sim buscar encontrar um entendimento que será atrativo para suas bases, no caso, agrupando os níveis I e II. (PUTNAM, 2010, p. 153). Como promessa de campanha, foi realizado em 23 de junho de 2016 um referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia onde 52% dos votos foram favoráveis à saída do RU do bloco econômico, tendo as pequenas ou médias cidades e as regiões dominadas por ingleses e galeses como regiões com maior porcentagem de votos pró BREXIT.

Dessa forma fez-se valer do que foi dito por Putnam onde algumas ratificações poderiam envolver processos formais de votação no nível II ou qualquer processo decisório que seja necessário para endossar ou implementar um acordo formal ou informal do nível I. (PUTNAM, 2010, p. 153). Apesar da votação ter acontecido com 43 anos de atraso, ela ainda assim representa a vontade da população em não fazer parte do bloco econômico e representa também a eclosão da pressão interna pela saída reprimida durante tantos anos.

Permanecendo a análise do referendo pró BREXIT, é importante trazer à tona o conceito de win-set, ou conjunto de vitórias, estabelecido por Putnam que já ressaltava que os conjuntos de vitórias do nível II são muito importantes para estender-se aos acordos do nível I e que as preferências e coalizões do nível II afetam diretamente o tamanho do conjunto de vitórias (PUTNAM, 2010, p.154-157). No cenário em questão, a vitória do referendo a favor da saída do Reino Unido demonstra que, apesar da longa permanência dos países no bloco, a preferência da população/opinião pública fez com que, anos após o acordo, o mesmo não fosse mais aceito e tivesse que ser contestado.

Segundo Putnam, a credibilidade (e, portanto, a capacidade de obter acordos) no nível I é acentuada pela capacidade comprovada do negociador em “executar” no nível II. (WINHAM, 1980, p.377-397; 1986). Dessa forma, o negociador, após não ser capaz de executar o prometido em nível nacional, renuncia ao cargo alegando que “Os britânicos votaram pela saída (da União Europeia) e sua vontade deve ser respeitada”. Com a aceitação do pedido de renúncia de David Cameron por parte da rainha Elizabeth II, assumiu o cargo de primeira-ministra do Reino Unido a conservadora Theresa May, em 13 de julho de 2016.

Diferentemente da política que até então guiava o Reino Unido no cenário internacional, May liderou um governo voltado ao unilateralismo onde o foco central de suas ações deixava de ser a participação no cenário internacional e visou proteger os países sob sua liderança em um contexto principalmente econômico e político. Em suas primeiras falas oficiais após assumir o cargo, May garante a construção de “[...] um novo papel (do Reino Unido) audacioso e positivo no mundo”, além de prometer a proteção à união do Reino Unido.

Dessa forma, May, uma conservadora determinada a defender o Projeto do BREXIT, na tentativa de responder às expectativas da população, apresentou um governo oposto ao último observado, com credibilidade e capaz de sobrepor as vitórias esperadas no cenário nacional e internacional. Entretanto, suas expectativa, e por consequência as expectativas da população britânica, não foram atingidas e o resultado foi um governo desorganizado, com inúmeras brigas internas e que, mais uma vez, não apresentou o prometido.

Marcada para o da 29 de março de 2019, a saída do Reino Unido da União Europeia não aconteceu. Após a tentativa de um novo acordo com o Bloco, o que levaria a um segundo referendo interno, e a intensa pressão do Partido Conservador, May anunciou no dia 24 de maio sua renúncia ao cargo de Primeira Ministra, com água nos olhos combinando com a típica garoa em uma manhã cinzenta de Londres.

Enquanto seu sucessor não é definido, resta a dúvida de quem assumirá o Reino Unido e se, diferente de Cameron e May, o escolhido será alguém capaz de cumprir com o prometido ou se será mais um a tornar a tradicional política inglesa em uma balbúrdia. E até que o novo Primeiro Ministro seja anunciado, a chuva continuará caindo em Londres na esperança de que não caia dos olhos do seu povo.
 


Referências
PUTNAM, Robert. Diplomacia e Política Doméstica: A Lógica dos Jogos de Dois Níveis (PDF). Disponível em: www.redalyc.org/html/238/23816091010/ . Acesso em 08 de abril de 2018.


*Maria Eduarda Siqueira é acadêmica do sétimo período de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba - UNICURITIBA.

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