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sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Me indica uma série: “Versalhes” e a construção das relações de poder






Há algum tempo que as séries políticas vêm ocupando nossa imaginação. Desde a estreia de “House of Cards”, as séries de streaming a respeito da política institucional dos diversos países no mundo têm mesmo chegado a se confundir com a realidade. Seja na sátira política de “Veep” ou no fato de um comediante ter chego à presidência na Ucrânia depois de representar o presidente de seu país, essa discussão está no gosto do povo e demonstra, com detalhes, os jogos de poder que envolvem o Estado. Para aqueles que gostam deste tipo de entretenimento, “Versalhes” é uma série imperdível por alguns motivos.
Passada no início do longuíssimo reinado de Luís XIV na França, “Versalhes” aproveita a construção do palácio mais conhecido da Europa Ocidental para apresentar a formação do absolutismo francês sob a égide do Rei Sol.  Em se tratando do monarca que mais tempo ficou no trono na Europa até hoje (em que pese Elizabeth II esteja se aproximando cada dia mais desta marca), contabilizando 72 anos no poder, seria impossível fazer um resumão da vida de Luís XIV. A série, porém, aposta num aspecto mais fundamental: a construção das relações de poder dentro e fora da “sociedade política” diante da consolidação da monarquia absolutista na França.
São três temporadas, cada uma com dez episódios – o que faz da série uma ótima pedida para maratonas nos finais de semana ou nas férias, como confesso ter feito. Esse tamanho, porém, permite uma outra vantagem: a construção e conclusão de alguns arcos, e a compreensão de um debate profundo sobre o poder na época posterior à famosa Guerra dos Trinta Anos.
Este período, que é trabalhado dentro das Relações Internacionais como seu “mito fundador”, tem aspectos muito importantes para compreender a política atual. Sequestros, mortes e traições nos ajudam a compreender o surgimento de alguns dos princípios fundamentais das Relações Internacionais em geral, e da Diplomacia em específico: princípios de ação, primado da lei e dos tratados internacionais e imunidade diplomática para citar apenas alguns exemplos. Por outro lado, as relações de poder na corte e junto aos Ministros de Estado nos ajudam a compreender melhor o princípio do absolutismo, e o papel dos pequenos gestos de poder na consolidação de um grupo político.
Se as roupas, joias, jardins e salões enchem os olhos, as intrigas políticas, as relações de amor, poder e sexo e a busca pela permanência no poder enchem a cabeça e a nossa imaginação política. Aconselho assistir a série com o controle da TV numa mão e o celular por perto: você sentirá vontade de ir pesquisar mais a respeito de vários dos assuntos, casos e fatos citados ao longo da série. E, com certeza, compreenderá muito mais os detalhes desse período tão citado mas tão pouco explorado das Relações Internacionais que foi o absolutismo.
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domingo, 28 de julho de 2019

Me indica um filme: O Pianista e sua importância no tempo presente








Por Manuella Paola




“Se nos espetardes, não sangramos?
Se nos fizerdes cócegas, não rimos?
Se nos derdes veneno, não morremos?
E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos?”

            O trecho da obra O Mercador de Veneza, de Shakespeare, citado por Henryk, o irmão do protagonista, relaciona-se com todo o sofrimento pelo qual a família Spilzsman passou na Polônia da Segunda Guerra Mundial. O filme nos mostra que a intolerância para com os judeus começou de forma não tão sutil: primeiro, cada família só poderia possuir 2.000 zlotys, a moeda local; o que sobrasse deveria ser entregue aos alemães. Depois, eles eram obrigados a usar uma faixa ao redor do braço, com a estrela de Davi costurada. Os que a portavam e não comprimentavam oficiais nazistas nas ruas da Varsóvia, eram espancados abertamente - e ninguém movia um dedo para impedir. Em seguida, as violações contra a vida dessas pessoas foram ficando cada vez mais à vista: os judeus foram forçados a se mudarem para uma área delimitada pelos alemães, que logo após construíram um muro ao redor dos apartamentos, dando início aos guetos. Eles podiam sair dali e andar livremente por sua cidade? De forma alguma. Quem saísse sofreria graves consequências.

            Durante todo o filme, Adrien Brody interpreta o pianista Wladyslaw Szpilman com tanta sinceridade e emoção que é impossível não ficar tocado. Sua solitária jornada é angustiante e deixa o espectador com o coração na mão, esperando que a qualquer momento ele seja capturado e enviado para um dos temidos campos de concentração - que eram vendidos como campos de trabalho, onde as pessoas teriam uma vida melhor. A situação do pianista melhora (aliás, não piora, pois é difícil ver alguma positividade num momento como o dele) pois ainda havia boas pessoas em Varsóvia. Alguns amigos o ajudaram a se esconder, em diferentes localizações, para que os nazistas não o encontrassem. Depois de um tempo, Wladyslaw passou a se esconder em prédios destruídos pela guerra.

            Varsóvia já não era a mesma, e nem o pianista era o mesmo homem alegre de antes da guerra. Sozinho e com fome, a força que Wladyslaw deve ter tido para passar por toda aquela provação é inimaginável e nos faz pensar que nenhum ser humano deveria sofrer dessa maneira. Baseado em fatos reais, a mensagem de O Pianista é clara: não devemos nunca nos esquecer das atrocidades que foram cometidas contra um grupo de pessoas apenas pela escolha da sua religião. Sabe-se que ainda há muito preconceito contra diversos grupos - raça, orientação sexual, nacionalidade. Mas o que deve permanecer em nossas mentes é que não foram apenas monstros que permitiram que o Holocausto acontecesse. Foram, também, pessoas normais, que simplesmente escutaram o que um louco disse e não fizeram nada a respeito. Esse erro não pode se repetir.

            O Pianista é baseado na autobiografia homônima de Wladyslaw Spilzman e dirigido por Roman Polanski, que teve os pais mandados para campos de concentração. É um filme que toca nossos corações, através da música e do sofrimento. É um filme que nos faz perceber a força das pessoas que passaram por essa angustiante e triste situação e deixa uma pergunta em aberto: onde elas encontraram essa determinação para viver? Talvez a centelha de esperança em seus corações de que o mundo melhorasse um dia nunca tenha se apagado. E não deve se apagar nos nossos.

            Bom filme!
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sexta-feira, 26 de julho de 2019

Me indica um filme: Horas de Desespero (“No Escape”): guerra civil, Convenções de Viena e Haia e a ideologia anti-EUA

Figura 1 - Ilustração publicitária em título original "No Escape" (Fonte: Taxicafé[1])

Por Igor Vieira Brandão

Horas de Desespero (2015), tem em seu título uma presunção muito assertiva, porque a cada minuto o telespectador é mantido preso no sofá acompanhando a aflição de uma família americana que se vê em uma situação no mínimo... terrível. Imagine ser estrangeiro em um país asiático onde de repente “estoura” uma guerra civil, a população manifestando-se contra a influência das potências sobre a sua vida rotineira e que, por grande azar, o seu país de origem é a maior potência. Tudo piora pelo fato de estar com suas duas filhas pequenas e quando o consulado/embaixada de seu país foi invadido e destruído.
Owen Wilson interpreta Jack Dwyer, um funcionário da empresa americana Cardiff, especializada em sistemas de água, que está a estabelecer negócios no país. Após ficar claro que os rebeldes estão em busca frenética por estrangeiros selecionados para assassiná-los a sangue frio, Jack tem o desafio de fugir para os mais variados esconderijos, tendo que lidar com o insucesso de sempre ser descoberto. Após encontrarem agentes do governo britânico em uma situação parecida, são informados da única maneira de salvar a vida de sua família, juntamente a esposa, e este caminho retrata muitos assuntos abordados em sala de aula sobre ato de guerra (e a Convenção de Haia) - já sendo essa uma boa justificativa para assistir este grande filme de thriller/ação. Somado a isto, podemos ver claramente uma exemplificação dos descumprimentos das re
soluções da Convenção de Viena sobre a imunidade das repartições consulares e sedes ou escritórios de representação de organismos internacionais, e da visão anti-EUA, cada dia mais presente principalmente em discursos terroristas, fazendo dos assassinatos um verdadeiro genocídio, pelo fato de que o ódio empregado está associado a busca de realizar um ataque sociopolítico para extinguir uma determinada porção de pessoas.
O filme é dirigido pelo americano John Erick Dowdle, ganhador do BloodGuts UK Horror Award, pelo citado filme.
Bibliografia:
1. Taxicafé - http://www.taxicafe.com.br/tag/horas-de-desespero/
- “No Escape (2015 film)” - Wikipédia - https://en.wikipedia.org/wiki/No_Escape_(2015_film)
- “John Erick Dowdle” - Wikipédia - https://en.wikipedia.org/wiki/John_Erick_Dowdle
- “John Erick Dowdle – Awards” - IMDb - https://www.imdb.com/name/nm0235719/awards

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sábado, 8 de junho de 2019

Me indica um filme? - Operação Final






Ricardo Klement, morador de Buenos Aires, vivia com a esposa e seu filho, e saia todos dias trabalhar como qualquer um dos seus vizinhos. Uma coincidência, entretanto, levou o grupo de agentes israelenses a descobrir que aquele homem, na verdade, era Otto Adolf Eichman, o alemão, judeu, que foi significante mentor e operador logístico do holocausto.

A captura foi feita secretamente – já que a Argentina na época tinha diversos nazistas, um pedido de extradição formal tinha grandes chances de ser negado: o filme mostra tudo que foi necessário para tirá-lo do país simulando sua própria vontade.

Israel e Argentina, após o incidente, passaram a ter conflitos, já que o segundo passa a exigir o retorno de Eichman, o que não acontece; ele é julgado em Jerusalém no ano de 1961 e enforcado em 1962.  

Ao longo do filme é possível enxergar nos diálogos, partes da multifacetada realidade do caso: a começar pelo ator que interpreta o nazista, que  é o mesmo a interpretar Gandhi no  filme de 82  (e ganhar o oscar de melhor ator).

É um paradoxo compreender o tamanho da barbárie que pessoas não necessariamente intencionadas ao mal são capazes de cometer, esse é um apontamento de Hannah Arendt, filósofa que esteve no julgamento, sobre o qual produziu sua obra “Eichman em Jerusalém”. Como a escritora aponta, o homem julgado entendia que estava “fazendo apenas o seu trabalho”, entretanto, em política, obediência e apoio são a mesma coisa. O réu foi julgado e condenado sobre seus atos e, enquanto o mundo inteiro assistia, já que  tudo estava sendo televisionado, foram divulgados os horrores do nazismo, sendo importante marco para que nunca o massacre do holocausto seja esquecido.

Operação final é um filme para ser visto: é um daqueles que mostra fatos interessantes, é bem feito, tem bons atores e nos faz refletir sobre quanto o mal ainda pode ser banal, e quanto mal pode haver nos nossos atos sem que percebamos. É um compromisso coletivo fazer com que o holocausto seja memória viva, para que mesmo sob regras imorais, sempre se dê valor, acima de qualquer coisa, à empatia e ao respeito entre todos.
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quinta-feira, 6 de junho de 2019

Me indica um livro? - A Grande Ilusão, de Norman Angell






Por Matheus Cavichiolo Flores*



Reconhecida como uma das principais obras contemporâneas do pensamento das Relações Internacionais, “A Grande Ilusão”, de Norman Angell, é um texto publicado em 1909, abordando duas questões muito atuais para sua época: (a) o diagnóstico e a análise de um caso concreto de eminência de conflito entre duas influentes potências (Inglaterra e Alemanha), que acabaria despontando na Primeira Guerra Mundial, apenas cinco anos mais tarde, em 1914, e (b) a exposição e a revisão dos axiomas considerados fundamentais na relação entre a guerra e a economia, que no momento era abordada como uma relação de afirmação mútua.

Ambas as questões são quase sempre abordadas pelo autor em relação uma à outra, colocando as tensões entre Inglaterra e Alemanha e suas possíveis consequências para ambos os países sempre como um caso concreto da abordagem relativa entre a guerra e a economia.

De acordo com Angell (1909),

Admite-se, de modo geral, que a rivalidade europeia em matéria de armamentos - e particularmente a que reina hoje entre a Inglaterra e a Alemanha - não pode prolongar-se indefinidamente na sua forma atual (ANGELL, 1909, p. 3).

Evidencia-se, desse modo, a impossibilidade de haver um ponto de equilíbrio estático e que as tensões automaticamente teriam de participar de uma dinâmica de progressão ou de retroação do conflito, visto que o constante aumento no poder militar de cada um dos polos inferia um dilema de segurança entre ambos os Estados.

          Entretanto, Angell (1909) passa longe de ter uma perspectiva ofensiva sobre o caso, sendo um dos mais técnicos idealistas de sua geração, o que passa a ser evidenciado a partir do capítulo 2 de sua obra, logo após terminar as exposições gerais sobre o corpo já desenvolvido da questão. De forma muito interessante, passa a trazer à luz uma concepção desconhecida e muito pouco intuitiva sobre a relação guerra-economia, demonstrando no capítulo 3 a divergência entre o crescimento econômico e o poder militar, que faz o leitor concluir que não há, de fato, nenhuma relação positiva entre ambos, podendo haver, inclusive, uma relação indiferente e, até mesmo, prejudicial, na grande maioria das situações.

Em contrapartida, também mantém-se cético em relação ao pensamento de seus colegas contemporâneos da escola idealista no que diz respeito a uma abordagem pacifista do eminente conflito, levando em conta que seu objeto de análise era uma abordagem da relação entre a economia e a guerra, afirmando que

O defensor da paz invoca o "altruísmo" das relações internacionais e, ao fazê-lo, admite de fato que o êxito na guerra favorece os interesses do vencedor, mesmo quando imorais (ANGELL, 1909, p. 6-7).

Essa posição crítica dá-se, pois, para Angell (1909), como é exposto posteriormente, no capítulo 3, não há nenhuma vantagem no conflito bélico, seja de que forma for, estando os axiomas vigentes quase que hegemonicamente em sua época da relação que lhe é objeto completamente fundados no que ele vem a denunciar como “o caráter de uma ilusão de ótica” (ANGELL, 1909, p. 22). Não havendo fundamento prático e verdadeiro para o benefício econômico vindo da guerra, logo não haveria como concordar com os pacifistas que compartilhavam com ele o espaço no campo teórico da escola de pensamento.

Desse modo, Angell (1909) passa a maior parte do capítulo 1 expondo a composição dividida do corpo doutrinário da questão, majoritariamente composto pelo pensamento ofensivo e minoritariamente pelo pensamento pacifista, sendo esse segundo grupo descrito, com muita propriedade, pelo autor, como “uma minoria de pessoas, consideradas nos dois países como sonhadoras e doutrinárias” (ANGELL, 1909, p. 3).

Mencionando, desse modo, pensadores participantes do mesmo contexto, como o historiador inglês Frederick Harrison, que o autor anunciou como sendo “conhecido como o filósofo protagonista do pacifismo” (ANGELL, 1909, p. 5), e o “liberal” Barão Karl von Stegel (ANGELL, 1909, p. 14), Angell (1909) traz extensos exemplos de como a formatação do pensamento da época estava completamente voltado à crença de que a guerra, em si mesma, era um fator inalterável da natureza humana e da importância do armamento ofensivo para o bom desenvolvimento da economia em uma nação próspera e estável, independentemente da perspectiva particular de cada pensador sobre se isso era o correto ou não, tendo alguns pacifistas, inclusive, afirmado que “as leis naturais contradizem, neste ponto, a lei moral” (ANGELL, 1909, p. 6).

Posteriormente, no terceiro capítulo, o autor constrói uma abordagem revisionista dos axiomas considerados quase que hegemônicos sobre o tema, deixando evidente sua perspectiva de que a guerra é essencialmente um atraso para o desenvolvimento na dimensão econômica, independentemente da situação. Dessa forma, são explicitados sete novos axiomas para a análise dessa relação, fundamentados numa comutatividade negativa entre os dois agentes, buscando demonstrar que, em quaisquer sejam casos, a economia de ambos os Estados é afetada prejudicialmente pelo conflito bélico (ANGELL, 1909, p. 22-25).

Entretanto, o que acaba por ficar evidente na obra é que seu autor não passa de um produto de um espírito cultural antecipado em sua época. Sua cosmovisão, profundamente enraizada na análise dos níveis de prosperidade econômica, acaba por descartar a importância da guerra como motor dialético da História, o grau máximo dos conflitos culturais e estruturais do Sistema Internacional, que precisam constantemente evoluir em seu fluxo de criação, destruição e reestruturação.

De acordo com a perspectiva que pode ser pinçada desde as páginas dos escritos de Thomas Carlyle (1841) sobre as relações entre os heróis e o próprio progresso histórico, valendo ressaltar a obra “On Heroes, Hero Worship and the Heroic in History” (CARLYLE, 1841) pode-se afirmar que a História pode ser descrita com base na análise dos papéis dos heróis em suas próprias histórias particulares em relação ao todo do contexto ordenado do momento histórico, como se o próprio motor da História fosse o heroísmo de alguns poucos espíritos elevados.

Ademais, afirma Hegel (1820) que

352 - A verdade e o destino das ideias concretas dos espíritos dos povos residem na ideia concreta que é a universalidade absoluta. Esse é o Espírito do mundo. Em volta do seu trono, os povos são os agentes da sua realização, testemunhas e ornamentos do seu esplendor. Como espírito, é ele o movimento da atividade em que a si mesmo se conhece absolutamente, se liberta da forma da natureza imediata, se reintegra em si mesmo, e, deste modo, os princípios das encarnações desta consciência de si no decurso da sua libertação, que são impérios históricos, são quatro. (HEGEL, 1820, p. 312)

Essa concepção de que o Mundo é uma imensa composição animada pelo fluxo constante de um espírito próprio, expresso como uma consciência dinâmica, corrobora diretamente com a visão carlyleana de que o corpo e a estrutura da História podem ser explicados pela vida dos próprios heróis que integram esse processo dialético. Pode-se ver esse pensamento expresso no momento em que Hegel encarnou em Napoleão o chamado “Espírito do Mundo”: “Eu vi o Imperador, essa alma (espírito) do mundo, atravessar a cavalo as ruas da cidade (...) Sentado sobre um cavalo, estende-se sobre o mundo e o domina” (apud NÓBREGA, 2005, p.8).

Naturalmente, de modo denominável “progressista” e “avançado” para alguns, essa perspectiva seria essencialmente “reacionária” ou “retrógrada”, mas os fatos existem objetivamente a certo grau, e as características ontológicas que compõem a realidade humana, tanto como sua natureza quanto como sua própria existência, são objetivas. Seguindo nessa linha, torna-se evidente que a importância do heroísmo é fundamental para exaltação e completude do Homem enquanto ente ontologicamente reafirmado e para toda a construção histórica, visto que todo o processo civilizacional é resultado dessa reafirmação para a constituição de um imaginário cultural e coletivo.

Tanto o heroísmo carlyleano quanto o heroísmo napoleônico de Hegel só podem ser alcançados por meio do conflito, cuja expressão máxima é, de fato, a guerra. Desse modo, torna-se claro que parte da existência humana, em uma de suas formas mais elevadas, necessita da guerra.

De forma clara Angell (1909), cujos sete axiomas explicitaram magistralmente as profundas divergências entre prosperidade econômica e a progressão de conflitos bélicos, acaba por focar-se estritamente no plano individual dos Homens, tentando minimizar a existência da dor e maximizando o avanço da prosperidade. Entretanto, essa tendência de unidimensionalização normativa da História acaba por não compreender de forma convergente o processo de construção civilizacional em seu âmago, gerando, desse modo, uma abordagem materialista e desconexa da própria realidade dinâmica e transcendental.

Em conclusão, sua obra torna-se incompleta no que diz respeito a um diagnóstico completo da circunstância por (a) não compreender de forma profunda a importância da guerra para própria dinâmica do progresso histórico, (b) não compreender a função do conflito enquanto forma de reafirmação ontológica do Homem na História e (c) não compreender que o caso concreto, em si mesmo, não era resumível apenas a uma análise de dimensão econômica ou estrutural, no que diz respeito às motivações da guerra, mas também participante do determinismo próprio da História enquanto espírito do mundo. Sem contribuir para esses três setores da análise, essenciais para a compreensão profunda do tema, sua análise torna-se estéril ou, no mínimo, incompleta para a visão do panorama verdadeiro que compõem a estrutura das próprias relações internacionais.


Fontes:
ANGELL, N. A Grande Ilusão, 1909.
HEGEL, G.W.F. Princípios da Filosofia do Direito, 1820.
CARLYLE, T. On Heroes, Hero Worship and the Heroic in History, 1841.

*Matheus Cavichiolo Flores é acadêmico do terceiro período de Relações Internacionais. A leitura do livro "A Grande Ilusão" foi uma sugestão da Professora Jannifer Zarpelon, que ministra a disciplina de Teoria das Relações Internacionais no UNICURITIBA.
 



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