Por Maria Letícia Cornassini
*Texto
escrito a partir de entrevista com a Professora.
Pelos
corredores do UNICURITIBA, circula uma das 100 primeiras formadas de Relações
Internacionais do país. Descendente de uma família de imigrantes, a professora
Angela Moreira foi inspirada pela história dos pais, seu gosto por cinema – e
com isso o conhecimento de culturas de outros países- e suas habilidades com
idiomas para embarcar na jornada das Relações Internacionais. Não só isso, a
professora conta que seu desejo por trabalhar com uma coisa que a fizesse feliz
pelo resto da vida e o respeito pelas diferenças- cultivado desde cedo dentro
de sua família- foram também fatores contribuintes na escolha de seu curso,
mesmo que ele fosse tão novo.
Ativista
desde cedo, a professora lutava pela redemocratização já antes de iniciar a
faculdade. Chegou a ir ver Fernando Gabeira no dia de sua colação do segundo
grau. Em seus tempos de UNB, conta que havia um respeito maior pelas críticas
de lados opostos dentro do meio acadêmico. Após a faculdade, estava num mercado
que rapidamente absorvia os profissionais de R.I. que não iam para o Itamaraty,
devido a alta demanda. Durante a faculdade, a professora dava aulas particulares
de apoio à crianças, mas começou de fato sua carreira como internacionalista
formada na Secretaria de Assuntos Internacionais com a UNESCO.
Com
vontade de falar Francês, a professora buscou nos jornais da época bolsas que a
oferecessem essa oportunidade, se candidatou e foi aceita no programa de bolsas
para francofonia ofertado pelo Governo do Quebec, no Canadá. Ela conta que
sempre teve encorajamento dos pais para que buscasse esse tipo de experiência e
como não queria seguir o padrão que ainda era imposto às mulheres no Brasil,
embarcou rumo a um novo país. Mesmo não falando direito o idioma, a vontade de
crescer a fez persistir e cursar o mestrado no Canadá.
Ainda
no Canadá, trabalhou na Organização da Aviação Civil Internacional e, além da
experiência de trabalho em uma Organização das Nações Unidas, conta que a
experiência a deu muita autoconfiança e oportunidades de convivência com
diferentes pessoas e culturas – até mesmo dentro dos elevadores. Suas
experiências no país não pararam por aí, participou de um programa da rádio
comunitária em que toda semana, por três anos, ajudava a divulgar o Brasil em
francês. Também fez trabalho voluntário auxiliando o governo como tradutora nos
atendimentos à crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade vindos da
Ilha da Madeira e dos Açores.
Com
uma carreira que nunca foi planejada, e sim guiada pelas oportunidades, a
professora voltou para o Brasil e foi trabalhar na UFPR, logo em seguida indo
trabalhar na Renault, quando a empresa começou a ser instalada em Curitiba. Sua
carreira na docência começou com um convite de seu chefe da UFPR para
incorporar o curso de Relações Internacionais em uma outra faculdade, já que
naquela época Angela era a única internacionalista de formação em Curitiba. Sua
carreira no UNICURITIBA começou com as aulas de Política Internacional
Contemporânea nos primórdios do curso de R.I. na instituição. Logo em seguida
foi convidada a assumir a Coordenação do curso, e, em meio à circulação entre
diversas universidades - a professora chegou a trabalhar em quatro
universidades ao mesmo tempo - e participações em bancas, foi conhecendo e
chamando professores para compor o corpo docente do curso.
Nestes
anos como internacionalista, conta que percebeu dificuldades na carreira
acadêmica por ser mãe, já que muitas vezes a dupla jornada não deixava tempo
para dedicação a produção acadêmica. Além disso, conta que muitas vezes o fato
de ser mulher acaba não gerando convites para convivência nos círculos sociais
em que circulam as oportunidades.
Quanto
aos objetivos futuros, a professora diz que planeja continuar a aprender e sair
de sua zona de conforto.
Após
toda sua trajetória, a professora Angela não é apenas uma internacionalista com
um currículo ilustre. Ela é uma mulher que durante toda sua carreira sempre
esteve disposta a enfrentar o medo. Que ousou quebrar padrões numa época em que
já se tinha pré-estabelecido qual seria seu papel. Que estabeleceu as fundações
de um curso inteiro, proporcionando oportunidades a centenas de alunos que
almejavam uma carreira de internacionalista. Acima de tudo, uma grande mulher
que - muitas vezes inconsciente disso - ali de cima do tablado inspira tantas
outras a traçarem grandes histórias.
