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quarta-feira, 19 de maio de 2021

Israel e Palestina: entenda o conflito que persiste há 100 anos


    Mísseis. Atentados. Mortes. Inocentes. Religião. Território. Jerusalém. Gaza. Judeus. Árabes. Israel. Palestina. São estas algumas das palavras que tomaram os noticiários nas últimas semanas. O conflito entre Israel e Palestina tem protagonizado confrontos violentos que foram agravados no começo do Ramadan, período de jejum sagrado árabe. O combate tem chamado atenção devido à resposta agressiva da força militar israelense contra protestantes palestinos. A luta é em parte motivada pela disputa por Jerusalém, cidade considerada, pelos israelenses e pelos palestinos, a capital de seus respectivos Estados. Entretanto, o que vemos em 2021 é resultado dos mesmos fatores nascidos há mais de 100 anos. Então quando, e como, tudo isso começou?
    Após a queda do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial, a Grã-Bretanha deteve o controle da região da Palestina. Tensões começaram a surgir quando os britânicos propuseram um “Lar Nacional” para a comunidade judaica no território da Palestina. A carta que estabelecia a terra para o povo judeu tinha 67 palavras e foi assinada em de 2 de novembro de 1917. Chamada de “Declaração Balfour”, é o ponto inicial do conflito israelense-palestino. 
    Antes da declaração, a Palestina possuía maioria árabe, e apenas 15% da população era judaica. Após a implementação do novo território, entre 1920 e 1940, milhares de judeus migraram para a Palestina escapando das perseguições e atrocidades do Holocausto, e a violência entre árabes, judeus e contra os britânicos aumentou expressivamente. Em resposta, A Organização das Nações Unidas, em 1947, votou pela divisão da Palestina em Estado Judeu e Estado Árabe, mas Jerusalém, sagrada para ambos, recebeu o título de cidade internacional.

Divisão da Palestina votada pela ONU. Reprodução: BBC 


    A divisão proposta pela ONU foi bem aceita pelos líderes judaicos, mas não satisfez os palestinos. Em 14 de maio de 1948, após a saída dos britânicos da Palestina, os judeus declararam a criação do Estado de Israel. Por consequência, Israel foi invadida por forças árabes, que incluíam a Jordânia e o Egito, o que culminou na Primeira Guerra Árabe-Israelense (1948-1949). A guerra foi devastadora para os palestinos. Jerusalém foi dividida em parte ocidental pertencente a Israel, e a oriental, a Jordânia. A faixa de Gaza foi ocupada pelo Egito.

Divisão após a Guerra. Reprodução: BBC 


    Os conflitos continuariam por décadas. Em 5 de junho de 1967 começava a Guerra dos Seis Dias, que após seu término, favoreceu Israel na conquista de territórios e redesenhou o mapa do Oriente Médio. Agora, Gaza e Cisjordânia (no mapa como “West Bank”) foram ocupadas por Israel. O desenho de 67 é similar ao atual, com mudanças geradas por tratados de paz de Israel com países vizinhos e o aumento da influência israelense nos territórios palestinos, através da instalação de assentamentos, o que é ilegal perante o direito internacional.


Divisão de 1967 e divisão atual. Reprodução: BBC 

    Voltando para o presente, vamos recapitular Jerusalém, cidade dividida durante as guerras árabe-israelenses, com israelitas no Oeste e palestinos ao Leste. Para Israel, a cidade proclamada capital é patrimônio religioso por ser a “terra prometida” dada por Deus à Abraão. Para os Palestinos, Jerusalém é sua herança histórica e capital da nação que desejam formar. Diversas tentativas de instaurar a paz aconteceram, algumas propunham a solução de dois estados, ou “estado duplo”.
    A chamada solução de dois estados foi a fórmula consagrada na Resolução 181 para a partilha da Palestina entre um estado judeu e um árabe. Na verdade, nenhum dos dois povos queria a partilha. Os judeus consideravam a chamada Terra Prometida como sua, desde a Antiguidade com base na Torá e os palestinos por sua vez, que já habitavam a região há 1400 anos, não compreendiam por que tinham que dividir a terra onde viviam há tanto tempo com grupos de alemães, russos, poloneses e outros povos europeus por causa de uma perseguição (o Holocausto) com a qual eles não tinham relação alguma. Ocorre, no entanto, que o movimento sionista se organizou e se preparou muito melhor do que os árabes, angariando votos para a aprovação da Resolução 181 na Assembleia Geral, enquanto os árabes aparentemente não acreditavam que a mesma passaria ou que seria efetivada (lembremos que a ONU era uma Organização recém-criada e sua antecessora a Liga das Nações ficou célebre pela não efetividade de suas resoluções).” – Comenta o Professor Andrew Traumann.
    Atualmente presenciamos um dos momentos mais críticos da batalha herdada de décadas de guerras por território. As áreas de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém são focos da tensão entre palestinos e israelenses. A faixa de Gaza é comandada pelo grupo militar chamado “Hamas”, que desde 2007, ano de sua criação, tem enfrentado Israel. Israel e Egito controlam severamente as fronteiras que dividem com Gaza para impedir a entrega de armas para o Hamas.
    O conflito que vemos hoje agravou-se com a expulsão de famílias palestinas da região leste de Jerusalém, e com a proibição imposta aos árabes de celebrarem o Ramadan no tradicional Mosque Al-Aqsa. Os palestinos em Gaza e Cisjordânia dizem sofrer pelas restrições de Israel, este que justifica suas ações como um modo de proteção contra a violência palestina. Israel tem sido alvo de críticas por usar de sua avançada força militar para bombardear as áreas ocupadas por palestinos, como Gaza, que não possuem condição de retaliação no mesmo nível. 
    Até o dia de hoje, aproximadamente 200 pessoas, maioria palestinos, morreram nos confrontos. A situação deixa uma série de questões sem concordância entre os dois lados: para onde irão os refugiados palestinos, se os judeus instalados em territórios palestinos devem ser removidos, se Jerusalém deve ser dividida e se o Estado da Palestina deve ser criado.
    Acho muito difícil uma vez que desde 1967 Israel vem construindo assentamentos ilegais nos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias. Segundo a Resolução 242 esses territórios capturados juridicamente encontram-se sob disputa e oficialmente não pertencem a ninguém. Por isso Israel é acusado de ocupar a Cisjordânia com judeus para criar o que chamamos nas Relações Internacionais de fait accompli, ou seja, um fato consumado e alegar que não pode retirar aquelas famílias que já moram na região há muitos anos. Não creio que ocorra uma mudança muito grande fora dessa dinâmica de conflitos esporádicos que tem sido a tônica nos últimos anos. Não há vontade política na opinião pública israelense, no Mundo Árabe e tampouco da comunidade internacional para que vejamos mudanças significativas a curto prazo.” – Andrew Traumann.
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sábado, 6 de junho de 2020

"É para o meu TCC": MARCAS DO IMPÉRIO - AS RELAÇÕES ENTRE JAPÃO E O LESTE ASIÁTICO NO PÓS-GUERRA





Rafael Kouhei Sumiya*



É  de conhecimento geral de que após a abertura dos portos para o mundo e a Restauração Meiji em 1868, o Japão teve uma transformação substancial, modificando a sua essência rural e feudal para um Estado industrializado e extremamente belicoso. Este evento significa que o poder retorna para o imperador novamente, já que anteriormente se encontrava com o xogunato de Tokugawa. Mas acima disso, é a adaptação japonesa frente as tendências mundiais capitalistas, liderada pelas elites capitalizadas, intelectuais e tecnocratas. É então a partir desse momento, que a ocidentalização não apenas da economia, mas do Japão como um todo começa, visto que alguns dos líderes da época enxergavam que era uma forma de resistir as forças ocidentais e ter um protagonismo no cenário internacional. Sim, “alguns”, já que não existia uma centralidade nessa questão, pois os anos que se seguiram após 1868, foram surgindo diversos polos de poder dentro do Japão, com várias facções conflitantes.

Uma das formas de unificação desses grupos foi a noção da identidade japonesa, a ideia do “Grande Império japonês”. A glorificação do passado foi utilizada demasiadamente, além da perspectiva dos japoneses como um povo singular, usando a homogeneidade da língua, o passado compartilhado, o isolamento que o país passou, e etc., como justificativas para ter um orgulho nacional. Nesse momento, já havia começado o processo para que esse nacionalismo se tornasse um ufanismo sem controle. Tendo em vista como exemplo, a expulsão dos ainus (grupo étnico indígena habitante do Japão e Rússia) para o extremo norte do país, nas terras ainda não exploradas, já que os mesmos não eram considerados japoneses. Além da glorificação do passado e a língua comum, a religião xintoísta foi utilizada também para reforçar a identidade nacional, pois os japoneses teriam conexão com a linhagem imperial, ou seja, ligação com a deusa do sol Amaterasu. Esse argumento foi usado pelos nipônicos para se diferenciarem dos outros povos, consequentemente, colaborou para intensificar a crescente xenofobia no país.

Focando na pauta do desenvolvimento industrial, os líderes do arquipélago sabiam que suas terras não teriam matérias primas o suficiente para oferecerem. A partir disso, foi se articulando as ideias para a expansão territorial japonês, a começar pela Coreia, que era cobiçada pela China e Rússia também. Dentro desse desenrolar, ocorreu a Guerra Sino-Japonesa dentro do território coreano, que se estendeu até as terras chinesas, em Manchúria, com a vitória dos nipônicos. É desse conflito que o Japão mostra o seu potencial bélico para o mundo ocidental, da onde surgiu a expressão “perigo amarelo”. Logo após esse evento, Japão entrou em outra relação bélica, agora contra a Rússia, na Batalha de Tsushima em 1905, na qual o país do sol nascente saiu vitorioso novamente.

Já nesse período, o Império japonês havia deixado muitas cicatrizes nos países dominados, principalmente na Coreia e Taiwan, o que posteriormente só iria piorar. Foram enviados inúmeros japoneses para essas terras dominadas, para disseminar a ideia dos nipônicos como os vencedores, a adoração para o imperador, e a noção desses povos


como súditos dos japoneses. O número de coreanos e taiwaneses que estavam sob trabalho forçado no Japão excede 5,5 milhões até o final da Segunda Guerra Mundial. E há várias denúncias sobre diversas práticas sexuais abomináveis pelos soldados japoneses com a população dominada, além de “médicos” que realizaram experimentos com coreanos, como os nazistas haviam feito com prisioneiros de campos de concentração. A expansão do Japão pela Ásia definitivamente o colocou numa posição de destaque no cenário internacional, mas também, evidenciou as suas práticas desumanas e condenáveis.

O trabalho que estou desenvolvendo para a minha monografia tem o intuito de evidenciar essas marcas profundas deixadas nesses países que estiveram sob o domínio do Império japonês, e como o Japão seguiu após a derrota na Segunda Guerra, com suas práticas políticas e diplomáticas. O arquipélago saiu destruído, não somente pelas duas bombas atômicas, mas também em termos militares, devido a Declaração de Potsdam, assinados por Harry Truman, Winston Churchill e Chiang Kai Chek. Vários oficias japoneses foram condenados por crimes de guerra pelos diversos atos desumanos praticados no Leste Asiático, e muitos civis japoneses sequer tinham conhecimento dessas crueldades da guerra, e que veio a público algumas décadas depois, após denúncias de diversas vítimas. Além disso, toda a estrutura política e hierárquica do Estado japonês foi remodelado, chegando ao ponto do imperador perder sua condição divina, e sendo criada uma nova Constituição em 1946. A partir desse momento, iria surgir um novo Japão das cinzas do Império, tanto na sua projeção econômica quanto cultural. Mas as marcas deixadas pela guerra são profundas, e implicam nas práticas diplomáticas japonesas até os dias de hoje.



Referências Bibliográficas:

YAMASHIRO, José. Pequena história do Japão. Editora Herder, 2ª edição, 1964.

SAKURAI, Célia. Os Japoneses. Editora Contexto, 1ª edição, 2007.

WATANABE, Paulo Daniel. Segurança e política externa do Japão no pós-Segunda Guerra Mundial. Editora Alameda, 1ª edição, 2015

HOBSBAWN, Eric. Era dos extremos - O breve século XX 1914 - 1991. Editora Companhia das Letras, 2ª edição, 1997.

田中 史郎, 戦後 70 年 日本経済の軌跡 (O milagre econômico do Japão, 70 anos após a guerra). 「日立システムズホール仙台」にて行われた本学、人文社会科学研究所、第 24 回公開講演会(シンポジウム)での報告 (Relatório do

24°Simpósio realizado no Hitachi Systems Hall Sendai, do Laboratório de Ciências Sociais).

郭 洋春, 戦後世界経済と東アジア            (A economia mundial no pós-guerra e o Leste

Asiático). 立教経済学研 (Iniciação Científica de Economia da Universidade de Rikkyou).


李 炯,  日本の東アジア外交60年 (60 anos de relações exteriores do Japão com o



Leste Asiático). 長崎県立大学東アジア研究所 (Laboratório de Leste Asiático da Universidade Federal do estado de Nagasaki).



黒田 東彦 (アジア開発銀行総裁 2005 2 1 2013 3 18 , Presidente



do Banco Asiático de Desenvolvimento 2005 a 2013), 東アジアの安定的成長と日本



の役割   (O crescimento estável do Leste Asiático e o papel do Japão). 一橋大学



(Universidade de Hitotsubashi).

*Rafael é aluno do Curso de Relações Internacionais do UNICURITIBA. A presente pesquisa é parte de seu trabalho de conclusão de curso, orientado pelo Professor Andrew Traumman.
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terça-feira, 12 de maio de 2020

"É para o meu TCC": Intolerância religiosa - uma análise sobre os casos europeus e brasileiros

Fonte da imagem: https://conic.org.br/portal/noticias/2943-21-de-janeiro-o-dia-nacional-de-combate-a-intolerancia-religiosa



Isadora Pereira da Fonseca*

O presente artigo tem como objetivo trazer um breve resumo histórico a respeito do antissemitismo e a islamofobia disseminados na Europa, fazendo uma correlação com a discriminação sofrida pelos credos das religiões afro-brasileiras.
O termo “antissemitismo” refere-se a manifestação de ódio contra o povo de origem semita, no entanto está mais vinculado a perseguição sofrida pelos judeus desde a antiguidade. Considerada a religião monoteísta mais antiga do mundo, o judaísmo surgiu no oriente médio há cerca de 3300 anos e originou-se através do patriarca Abraão após o mesmo receber de Deus (denominado Javé ou Jeová) a ordem de buscar pela terra prometida. O princípio do judaísmo é marcado pela ascensão do povo judeu que através de reis como Saúl, Davi e Salomão se tornaram um povo muito influente.
A ruína do Primeiro Templo após a invasão de Jerusalém pelos Babilônios em 587 a.C. e a destruição do Segundo Templo pelas mãos dos romanos no ano 70 d.C. são dois eventos marcantes para a história da aludida religião, pois acabou transformando os judeus em um povo diaspórico, ou seja, estes episódios acarretaram a expulsão e dispersão de seu povo. Ademais, os judeus, ao rejeitarem Jesus Cristo como o Messias e contribuir para sua condenação e morte (como sugere o Novo Testamento), transformaram-se num povo deicida. Por esta razão, a Igreja Católica condenou os judeus a “servidão perpétua”, impedindo-os por exemplo, de ocupar cargos e atuar em diversas áreas profissionais.
Com isso, nasceu o sentimento de insegurança de uma minoria condenada a constantes perseguições. Ao longo de sua história, os judeus conviveram em pequenas comunidades, ocupando diferentes regiões pelo mundo. Eles não possuíam território próprio, mas eram considerados uma nação e conservaram sua identidade através da língua, religião, costumes e hábitos. Isto sem levar em consideração o momento histórico do holocausto, o qual partiu da ideia de que os judeus estariam se aproveitando da desgraça dos alemães, já que lucravam com os juros dos empréstimos de dinheiro.  A 2ª Guerra Mundial resultou na morte de cerca de 5 milhões de judeus. Desde o início do século XXI até os dias atuais, por conta do conflito entre Israel e os palestinos a Europa assiste uma onda de manifestações antissemitas
Não muito distante do supracitado antissemitismo, o termo islamofobia está relacionado ao preconceito, medo ou ódio contra o Islã e consequentemente os muçulmanos. O Islamismo ou simplesmente Islã, segunda maior religião monoteísta do mundo, surgiu no século VII por meio das ações de Maomé, que na história foi intitulado profeta, quando através do anjo Gabriel recebeu a revelação de Allah (que nada mais é do que a palavra Deus em árabe). A partir deste episódio, Maomé passou a receber mensagens que foram passadas a seus seguidores, e mais tarde compiladas em um livro sagrado chamado Alcorão. No entanto, diferente dos judeus, os muçulmanos não desconsideram as mensagens de outros profetas como Jesus Cristo, apenas defendem que Maomé teria sido o último mensageiro de Deus.
Embora tenha significado semelhante ao antissemitismo e em alguns momentos da história do islamismo os fiéis tenham sido perseguidos por conta de suas doutrinas, a islamofobia está muito mais entrelaçada com a política internacional do que propriamente com a fé da maior parte dos muçulmanos.
A partir dos anos 80, os EUA bombardeou e ocupou cerca de 15 países islâmicos, isso sem contar com as mais de 20 bases militares estabelecidas.  Desde o início da década de 90 e principalmente após o atentado de 11 de setembro de 2001 provocado pela Al-Qaeda (grupo de militares fundamentalistas islâmicos), as discussões sobre a islamofobia se intensificaram no mundo. Esses eventos fomentaram uma série de julgamentos e uma generalização arbitrária relacionada ao islã, que foram promovidos a bárbaros, irracionais, inimigos da liberdade e do ocidente. Ainda, a Guerra na Síria iniciada em 2011, apesar de interna, corrobora o choque entre países ocidentais e grupos islâmicos. Essa guerra civil, que perdura até os dias atuais, gerou uma imensa onda de imigração para a Europa, que seria o lugar de mais fácil acesso dos imigrantes, a maioria de origem árabe.
A tentativa de introduzir a cultura ocidental nos países de origem mulçumana suscitou uma dura resposta através da radicalização dos ideais islâmicos: o fundamentalismo, que levou a Al-Qaeda aos ataques e motivou a invasão do Afeganistão e Iraque pelos EUA. Percebe-se então que esse círculo vicioso se alterna entre intolerância e uso da religião para promover atos de violência e incitar guerra.
Observando um outro lado do prisma da intolerância religiosa, o Brasil foi palco de inúmeras perseguições e até tentativas fracassadas de catequização de povos primitivos anos após a sua descoberta. Ao longo da história, houve uma grande miscigenação, consequência da colonização, e isso fez com que o país abrigasse um vasto leque não apenas cultural, mas também religioso.
Os cultos de matriz africana que conhecemos hoje, surgiram a partir do comércio de escravos, provenientes de povos e territórios diferentes (Iorubás, Fon, Bantu, etc) que misturados nas senzalas fizeram surgir o candomblé. Outras práticas são derivadas do sincretismo que se fez presente no Brasil colônia, e começou a se formar no momento em que os católicos deram início à catequização de índios e negros com o propósito de apagar as crenças dos povos escravizados. A Umbanda é fruto desse sincretismo, mas só se iniciou de fato em 1908, quando Zélio Fernandino de Moraes anunciou a criação do novo culto em Niterói, estado do Rio de Janeiro. Essa nova religião se propõe como cem por cento brasileira, pois possui grande influência do kardecismo e do catolicismo vindos da Europa, do culto aos Orixás, oriundo do Candomblé e de ritos de pajelança tipicamente indígenas.
Embora sua grande diversidade, percebe-se pela história que o Brasil se fundou basicamente no cristianismo elitizado, por este motivo vemos ainda hoje uma grande dificuldade na aceitação de outras crenças ainda que a partir de 1890 o Estado já tenha sido declarado laico. As religiões de matriz afro-brasileiras foram por muitos séculos marginalizadas e reprimidas pela legislação, além de serem consideradas juntamente com o protestantismo e judaísmo, heresia e “crime contra a fé” pela Igreja Católica, já que colocavam em risco a prevalência dos dogmas da mesma.
Pouco mais adiante, durante o período do Estado Novo (1937 – 1946), houve atuação da Polícia Civil dentro do processo de repressão às religiões afro-brasileiras, fazendo com que a perseguição a terreiros aumentasse muito. Neste mesmo período umbanda fez um esforço para se consolidar dentro do campo religioso a partir de um discurso de embranquecimento e mestiçagem, com intuito de afastar essa repressão.
Além disso, nas últimas décadas o crescimento dos segmentos evangélicos neopentecostais no Brasil, levando em conta a prosperidade multinacional da igreja Universal do Reino de Deus, a tensão e os casos de intolerância só aumentaram pois seus fiéis passaram a demonizar a Umbanda e o Candomblé, especialmente em bairros periféricos onde os Terreiros seriam concorrentes a serem derrotados neste mercado da fé.
Isso posto, percebemos que a intolerância, isto é, comportamento odioso e agressivo àqueles que possuem diferentes opiniões, esteve sempre presente no decorrer da história da humanidade nas mais diversas culturas, podendo também ser interpretada a partir no conceito freudiano “narcisismo das pequenas diferenças” como um pensamento de que, justamente as diferenças mínimas entre os povos que, de fato são iguais, formam a base dos sentimentos de estranheza e hostilidade.


Bibliografia:       

HILBERG, RAUL. A destruição dos judeus europeus – 2016.

SORJ, Bila. ANTI-SEMITISMO NA EUROPA HOJE. Novembro de 2007.

European Monitoring Centre on Racism and Xenophobia - MUSLIMS IN THE EUROPEAN UNION: DISCRIMINATION AND ISLAMOPHOBIA – 2006

NOGUEIRA DOS SANTOS, Robson – A EXPANSÃO DO MUNDO ISLÂMICO PARA A EUROPA – dezembro de 2017.

CESARI, Jocelyn. Muslims In Western Europe After 9/11: Why the term Islamophobia is more a predicament than an explanation – 2006 - GSRL-Paris and Harvard University

SILVA, Daniel Neves. "O que é Estado Islâmico?"; Brasil Escola. Disponível em:https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-estado-islamico.htm. Acesso em 20 de abril de 2020.

NEVES SILVA, Daniel. Islamismo. Disponível em: https://www.historiadomundo.com.br/religioes/islamismo.htm Acesso em 17/04/2020

CARVALHO, Leandro. Judeus na História. Disponível em: https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/historiageral/judeus-na-historia.htm Acesso em 16/04/2020.

SANTIAGO, Emerson. Judeus. Disponível em: https://www.infoescola.com/cultura/judeus/ Acesso em 16/04/2020

AMARAL TOMÉ DE SOUZA, Fabíola. O pensamento freudiano sobre a intolerância. 2016.
FERNANDES DE OLIVEIRA, Nathália. A repressão policial às religiões de matriz afro-brasileiras no Estado Novo (1937-1945). 2015.

*Isadora é aluna de Relações Internacionais do UNICURITIBA. O artigo acima é parte de sua pesquisa do Trabalho de Conclusão de Curso, orientada pelo Professor Andrew Traumann.






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sábado, 4 de janeiro de 2020

Em pauta: A Crise entre Estados Unidos e Irã, explicada pelo Professor Andrew Traumann








As tensões entre Estados Unidos e Irã não vem de hoje, mas o assassinato do general iraniano Qasem Soleimani em um bombardeio americano no aeroporto de Bagdá na data de ontem provocou uma onda de reações na comunidade internacional. 

Para melhor explicar a situação e seus possíveis desdobramentos, ninguém melhor do que o Professor de História das Relaçãos Internacionais, Andrew Traumann - grande referência quando o assunto é o  Oriente Médio e, em especial, o Irã. 

Confira o vídeo preparado pelo professor.








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terça-feira, 14 de julho de 2015

O Significado do Acordo Nuclear Iraniano



Chanceleres de China,França,Alemanha,União Europeia,Irã,Rússia,Reino Unido e EUA hoje em Viena : após muitas idas e vindas,o Acordo foi assinado.
                                                                                           
Por Andrew Patrick Traumann*

Hoje em Viena,após três prorrogações de prazo  finalmente o P5+1 (os 5 países membros do Conselho de Segurança mais a Alemanha),chegaram a um entendimento com o Irã acerca de seu programa nuclear.O numero de prorrogações de prazo  demonstravam  uma grande vontade política da dupla Obama/Kerry para que o Acordo saísse. A oposição norte-americana repetiu incansavelmente o mantra “No deal is better than a bad deal”, enquanto Obama com as bênçãos de Clinton, dizia que “A good deal is better than no deal at all”. Mesmo que o Senado ou a Câmara norte-americanos não aprovem o Acordo ,Obama poderá vetar o “Não” por se tratar de Acordo Executivo e não de um Tratado Internacional. Apenas se o “Não” obtiver dois terços dos votos no Senado o veto pode ser derrubado,o que é improvável,pois colocaria os EUA numa situação delicada frente a  Reino Unido,França,Alemanha,China e Rússia,os demais signatários do Acordo.

Mas o que está em jogo? Muita coisa : de um lado temos um país ansioso para sair de um isolamento internacional de 36 anos ,com mais da metade da população formada por jovens,muitos deles com nível superior e  que buscam emprego e estabilidade econômica. No Irã existe uma enorme expectativa acerca de como seria a vida sem as sanções. Os jornais iranianos diariamente noticiam a vinda de investidores ocidentais ansiosos pelas novas oportunidades que se abrem . 

Para começar o Irã receberá  de volta cerca de US$ 150 bilhões de dólares que estavam bloqueados em contas nos EUA e Europa,voltará a ser um player no mercado petrolífero mundial. Com a quarta  maior reserva de petróleo do mundo e a terceira de gás natural,as expectativas são altíssimas e tem sido alimentadas por um regime que vem sendo questionado pela jovem classe média urbana,que nem havia nascido quando houve a Revolução e que deseja uma política mais aberta no que tange as liberdades individuais. O governo,por sua vez, aposta na melhoria dos índices econômicos para conquistar essa parcela do eleitorado hostil ao regime,uma vez que quando a economia vai bem,a tendência é o enfraquecimento da oposição.

Para que as sanções contra Teerã sejam suspensas,o Irã aceitou descartar 98% do material nuclear que possui ,desativar dois terços de suas centrífugas,não enriquecer urânio por quinze anos,serão impedidos de comprar e vender armas por cinco anos e mísseis balísticos por oito.


Já para os EUA,os interesses são antes de tudo estratégicos : o Irã seria um aliado-chave de Washington para tentar solucionar a Crise na Síria,uma vez que são aliados do presidente Bashar Al Assad. Também seriam um parceiro na luta contra o Estado Islâmico na própria Síria e no seu ex-rival histórico e hoje aliado Iraque,poderia influenciar o Hezzbollah no Líbano (uma vez que é seu principal financiador) e levar a uma solução negociada no Iêmen,todos países onde há alguma forma de conflito envolvendo grupos xiitas. Um Irã sofrendo inspeções constantes da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) ,aceitando condições geralmente  impostas a países derrotados em guerras sem realmente ter tido a necessidade de levar o país a uma aventura militar,parece ser mais uma vitória da diplomacia de Obama. 

*Andrew Patrick Traumann,Doutor em História,Cultura e Poder pela UFPR é Professor de História das Relações Internacionais no UNICURITIBA.
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terça-feira, 15 de julho de 2014

A Escalada da Desesperança: O Novo Conflito em Gaza



A manifestação em Tel Aviv é de 2009,mas a imagem vale para hoje: além dos bombardeios,a população civil sofre com as privações do dia a dia....

Por Andrew Patrick Traumann*

Mais uma vez assistimos a uma ofensiva israelense na Faixa de Gaza. É a terceira desde o desmantelamento dos assentamentos israelenses por Ariel Sharon em 2005 e as três têm características semelhantes. O fracasso nas negociações e algum incidente envolvendo civis de ambos os lados deflagra uma nova operação militar que não possui chance alguma de ser bem-sucedida. A mídia, imediatista como é de sua característica, reduz o conflito  atual a uma resposta ao assassinato de três colonos israelenses. Evidentemente este foi o estopim (lembrando que dias depois um jovem palestino foi queimado vivo por um grupo de israelenses) e não a causa da atual ofensiva do governo de Tel Aviv.
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domingo, 6 de julho de 2014

ISIS:o Califado e a Desagregação Completa do Estado Iraquiano




Propaganda do grupo ISIS divulgando a "libertação" da cidade de Mossul das mãos do governo iraquiano

*Por Andrew Patrick Traumann

O califado é uma instituição criada em 632 d C na ocasião da morte do Profeta Maomé. A palavra Khalifa em árabe significa sucessor e portanto o califado foi criado para liderar a comunidade muçulmana na ausência de Maomé. O falecimento de Maomé vai marcar também o primeiro cisma no islamismo,a divisão entre sunitas e xiitas. Os primeiros queriam que o califa fosse escolhido por aclamação entre os membros da comunidade enquanto os segundos os Shi’at Ali (partidários de Ali) queriam que o califado fosse um sistema dinástico,e que Ali,primo e genro de Maomé fosse o novo califa. A ruptura política mais tarde evoluiria para uma série de diferenças teológicas entre os dois grandes ramos do islamismo. Os sunitas consideram apenas os quatro primeiros califas como rashidun ou corretamente guiados espiritualmente falando. O fato é que com a expansão do Império Islâmico os califas se tornaram cada vez mais líderes  políticos e menos espirituais. Esse papel passou a ser exercido por clérigos que exerciam sua autoridade religiosa apenas a nível local. De todo modo o califado enquanto instituição existiu até 1924 quando foi abolido por Kemal Ata Turk, pai da Turquia moderna.
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terça-feira, 26 de novembro de 2013

Acordo Nuclear Irã-Ocidente: um realinhamento de forças?

        
As delegações norte-americana e iraniana se cumprimentam após chegarem a um acordo provisório.

*Por Andrew Patrick Traumann

Os próximos seis meses serão decisivos para o tabuleiro do Oriente Médio. O presidente norte-americano Barack Obama tem mostrado muito mais disposição á paz do que  seu antecessor George W. Bush. Primeiro cancelou um ataque que parecia iminente á Síria após a Rússia obter um acordo com o governo de Damasco e agora,contra seus principais aliados na região Arábia Saudita e Israel,e também a oposição doméstica, vem se aproximando daquele que é considerado por muitos o mais obstinado rival norte-americano: o regime islâmico de Teerã.
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segunda-feira, 27 de maio de 2013

O conflito na Síria como proxy war contra Teerã



     O líder do Hezzbollah,Hassan Nasrallah em visita ao presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad


                                                                                      Por Andrew Traumann *

O líder do Hezzbollah Hassan Nasrallah declarou neste final de semana que a organização que ele lidera está entrando numa nova fase. O Hezzbollah que sempre reiterou que seu único objetivo era a defesa contra Israel e o apoio aos palestinos, agora está combatendo sunitas em território sírio. Oficialmente o propósito do grupo é proteger minorias xiitas em pequenos vilarejos no país vizinho, mas o discurso de Nasrallah de “lutar até o fim para proteger o regime de Bashar Al Assad”,esconde outros objetivos.
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sábado, 27 de outubro de 2012

A luta por corações e mentes no Paquistão




            
Por Andrew Patrick Traumann *
       

A tentativa de assassinato da estudante paquistanesa  Malala Yousafzai de 15 anos de idade no último dia 9 pode ser considerado um turning point nas relações entre a sociedade paquistanesa e a ideologia Talebã. Há muito não se via tamanha comoção no país.  Malala, que desde os 11 anos de idade já escrevia num blog em urdu para a BBC sob o codinome Gul Makai (Flor de Milho em urdu) e que já foi indicada a diversos prêmios internacionais pela sua luta em nome da educação feminina no Paquistão é um símbolo de uma luta que ocorre não só naquele país,mas também no vizinho Afeganistão: a luta por corações e mentes. Num país onde 25 milhões de crianças estão fora da escola o nome da batalha é educação.
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quinta-feira, 19 de julho de 2012

Hora da decisão para Assad




Por Andrew Patrick Traumann*

Após o assassinato de três membros do alto escalão do regime de Bashar Al Assad,ontem, a crise na Síria, que se arrasta há meses chegou a um turning point. Há relatos de deserções no Exercito,o principal pilar do regime e o governo de Assad pode estar entrando em seus estertores. Dentro do Conselho de Segurança os debates têm sido intensos.
EUA e União Europeia querem uma resolução com a inclusão do artigo 41 do capítulo 7 da carta da ONU, ameaçando com  sanções o regime sírio caso não coopere com o plano de Kofi Annan.
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sábado, 26 de maio de 2012

O Programa Nuclear Iraniano



Por Andrew Patrick Traumann*

O programa nuclear iraniano tem sido um dos temas mais debatidos nas Relações Internacionais nos últimos anos. Previsões apocalípticas de como seria o mundo com um Irã nuclear tem pipocado frequentemente na mídia. O problema é que essas notícias não são novas.
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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Trinta Anos da Guerra das Malvinas


Afundamento do Cruzador General Belgrano em 2 de maio de 1982 por forças britânicas: o navio pertencera aos EUA (como USS Phoenix) e havia escapado aos ataques japoneses à Pearl Harbour na II Guerra Mundial sendo repassado aos argentinos em 1951.

Por Andrew Patrick Traumann*

Na semana em que a Guerra das Malvinas completa trinta anos,o tema tem voltado à  pauta dos fóruns internacionais,não pela efeméride,mas por seguidas manifestações do governo de Cristina Kirchner acerca da reivindicação da soberania argentina sobre as ilhas. Há um viés ideológico anticolonialista nessa visão a partir do momento em que um dos argumentos utilizados é que o fato de um país possuir uma base militar a mais de doze mil quilometros de distância de sua capital se configura inaceitável no século XXI. O governo argentino apresentou uma queixa formal á ONU e sanções às empresas britânicas que exploram petróleo e gás na região. Aliás, este componente econômico acirrou ainda mais as posições dos dois oponentes desde que o petróleo foi descoberto no litoral das ilhas Malvinas na década de 1990. 
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sábado, 5 de novembro de 2011

Entrevista com o Professor Andrew Traumann no Tela Mundo, em 03 nov. 2011


Dois territórios instáveis receberam uma carga de mudanças recentemente: a Líbia perdeu seu ditador e a Palestina foi aceita como membro pleno da UNESCO. E quem tem papel importante nessas duas situações é outro país: Estados Unidos.

No Tela Mundo de 03 de novembro de 2011 temos a participação do Professor Andrew Traumann comentando sobre a Líbia sem Khaddafi e a Palestina na Unesco. A apresentação é de Thomas Mayer. Para assistir ao programa acesse o seguinte link: http://www.youtube.com/watch?v=sefsioRC6Oc
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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A Ascensão da Islamofobia na Europa




 Por Andrew Patrick Traumann* (publicado originalmente no jornal Gazeta do Povo de 09/08/2011)

O massacre de 77 noruegueses por Anders Breivik no último dia 22 de julho  mostra uma faceta da Europa que muitos preferiam não ver: a da extrema-direita radical em busca do resgate de uma  Europa branca e cristã idealizada.Contudo,se fizermos uma análise de longa duração da História europeia observaremos um longo período de paganismo,no qual escandinavos como os antepassados de Breivik adoravam Odin,depois há a  ascensão do Cristianismo a partir do século IV,mas  que só consegue realmente se estabelecer e esmagar os resquícios das antigas religiões com a força da Inquisição a partir do século XII,e o momento atual o qual muitos filósofos chegam a denominar de descristianização da Europa, tal a diminuição do papel da religião na vida das pessoas,o que pode ser observada no esvaziamento das igrejas e no aumento do número de europeus que se dizem agnósticos ou ateus.
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terça-feira, 31 de maio de 2011

A força do lobby judaico e a questão palestina


Por Andrew Patrick Traumann*

Há cerca de duas semanas, no primeiro discurso de Barack Obama endereçado ao Mundo Árabe desde a morte de Osama Bin Laden,o presidente norte-americano se colocou inequivocadamente a favor da criação de um Estado Palestino nas fronteiras de 1967,após a Guerra dos Seis Dias,admitindo um outro ajuste ou "troca de terras". A reação do governo israelense foi imediata: o premiê Benyamin Netanyahu afirmou que a volta à situação de 1967 era totalmente "irrealista" e que Obama "não conhecia a situação na região.".
Ao discursar ao Congresso norte-americano Bibi como é conhecido na política israelense foi sucessivamente interrompido em seu discurso por aplausos entusiasmados dos parlamentares especialmente quando disse que Judeia e Samaria (nomes bíblicos de partes da Cisjordânia) jamais estiveram em negociação. Mas o que faz Bibi dizer "não" ao homem mais poderoso do mundo de forma tão orgulhosa e ostensiva?
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sábado, 14 de maio de 2011

Decifrando o Código Hamas




 Por Andrew Traumann*

O dirigente do Hamas Mahmoud Zahar declarou nesta semana que o movimento islâmico  está disposto a aceitar o estabelecimento de um Estado palestino nas fronteiras de 1967, embora ressalte que nunca reconhecerá Israel. Suas declarações ocorrem em meio a esforços para formação de um Governo de união nacional que inclua os membros do Hamas e do movimento nacionalista Fatah, depois do acordo de reconciliação assinado entre as duas facções no dia 4 de maio no Cairo.


Zahar fez as afirmações à rádio da agência Palestina Independente "Maan", ocasião em que afirmou que qualquer reconhecimento formal do Estado judeu poderia "suspender o direito para as futuras gerações de libertar suas terras".
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terça-feira, 26 de abril de 2011

Diário de Guantanamo



Por Andrew Patrick Traumann


O governo norte-americano tem mantido desde 2002 centenas de prisioneiros sem acusação formal,incluindo doentes psiquiátricos, idosos com deficiência física e adolescentes. Ali vigora um sistema cujo único objetivo era obter informações a qualquer preço,principalmente por meio da tortura. É esta a conclusão de 759 documentos secretos divulgados pelo site WikiLeaks na última  segunda-feira 25 de abril.
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terça-feira, 5 de abril de 2011

O fim da Primavera Árabe e o caso da Síria

Bashar Al-Assad, presidente sírio.
Por Andrew Patrick Traumann *

Muito se tem falado sobre os acontecimentos na Líbia, que parecia ser a próxima pedra do dominó árabe a cair após os levantes da Tunísia e Egito. No entanto, o tempo se encarregou de mostrar que os protestos  na Líbia possuem um caráter muito diferente do que ocorreu em países vizinhos. A oposição líbia na verdade não possui compromisso algum com reformas democráticas e o perfil de seus integrantes está muito mais ligado a uma luta tribal com nuances nacionalistas do que a revolução comandada por jovens integrados a redes sociais como vimos no Egito.
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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Jogada de Mestre

Andrew Traumann

Recentemente, o Itamaraty anunciou que reconhece a eventual criação de um futuro Estado Palestino nas fronteiras pós Guerra dos Seis Dias em 1967. Neste conflito, Israel capturou a Cisjordânia, Faixa de Gaza, as Colinas de Golã, a península do Sinai e a cidade de Jerusalém. A primeira se mantém sob ocupação até hoje, e a construção de assentamentos para os colonos judeus, considerados ilegais pelas leis internacionais, continua sendo o calcanhar de Aquiles das negociações entre os dois povos. Gaza foi desocupada unilateralmente em 2005 pelo então primeiro-ministro Ariel Sharon e hoje é governada pelo Hamas. A península do Sinai foi devolvida ao Egito em 1980 e Golã e Jerusalém, sagradas para judeus, muçulmanos e cristãos, definitivamente anexadas, sendo esta última declarada “capital eterna e indivisível” do povo judeu, mesmo que política e administrativamente a capital israelense continue sendo Tel Aviv.
O apoio brasileiro à causa palestina não é novidade. Vale lembrar que o estabelecimento de relações formais entre Brasil e a Autoridade Palestina data de 1975, quando a OLP foi autorizada a montar uma representação em Brasília, com sede na então existente Liga dos Estados Árabes. No ano anterior, o chanceler brasileiro Francisco Azeredo da Silveira discursou na ONU a favor da soberania e autodeterminação do povo palestino, opondo-se à guerra de conquista perpetrada por Israel. Em 1993, a representação foi elevada à categoria de "Delegação Especial da Palestina", com status diplomático semelhante às organizações internacionais credenciadas no Brasil, de acordo com os termos de um acordo concluído em novembro desse ano entre o governo brasileiro e a OLP por um intercâmbio diplomático. Agora, a representação palestina terá status oficial de embaixada, coisa que na prática já ocorre desde 1998.
Hoje, mais de cem países reconhecem o Estado Palestino, inclusive China, Rússia e Índia, os países que juntamente com o Brasil formam o BRIC, bloco dos principais países emergentes. Seguindo a iniciativa brasileira, Argentina e Uruguai também reconheceram o Estado Palestino e os três governos fizeram questão de enfatizar que tal gesto em nada muda suas relações com Israel e seu direito de viver em paz e segurança com seus vizinhos.
Mas, afinal, o que quer a Autoridade Palestina com esses pedidos de reconhecimento de seu Estado, sendo que na prática seu território continuará sob ocupação? Na verdade, pode-se notar uma mudança de estratégia dos palestinos sob a liderança de Mahmoud Abbas, no sentido de buscar as vias diplomáticas, já que décadas de violência em nada adiantaram, mas, pelo contrário, só prejudicaram a causa de seu povo. Mesmo sabendo que uma resolução sobre o reconhecimento da Palestina fatalmente seria vetada pelos EUA no Conselho de Segurança da ONU, os palestinos então levariam o caso à Assembléia Geral, onde certamente obteriam a maioria. Israel não teria como se opor, já que foi criado da mesma forma, em 1947 (numa sessão presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha), e os palestinos teriam a seu favor o peso do reconhecimento do mais importante organismo internacional para utilizar nas negociações com Israel. Em maio deste ano, os países árabes, a Turquia e o Irã aprovaram um adendo ao TNP (Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares) que propõe um Oriente Médio livre de tais armas até 2012, obviamente com o intuito de fazer com que Israel, a única potência atômica da região, o assine. São os árabes  aprendendo a jogar pelas vias diplomáticas.

Andrew Traumann é professor de História das Relações Internacionais pelo Unicuritiba,mestre em História e Política pela UNESP e doutorando em História,Cultura e Poder pela UFPR.
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