terça-feira, 25 de setembro de 2018

Acontece no UNICURITIBA: Professor Isaak Soares dá entrevista sobre estudos geracionais


Isaak Soares, professor de gestão e marketing do curso de Relações Internacionais, em entrevista para o blog do curso de Marketing, fala sobre os estudos geracionais e como isto pode ser visto pelo mercado e em trabalhos acadêmicos.

O estudo geracional é uma perspectiva de ver as pessoas a partir da geração em que elas nascem e crescem. Baby boomers, geração X, millenium e pós-millenium são cortes que permitem vermos diferenças entre as pessoas, seja em termos de ofertas para mercado, relações de trabalhos e comportamentos sociais.

Para os profissionais de Relações Internacionais torna-se interessante compreender tais gerações e ver o quanto esta compreensão sobre as pessoas é válida ou apenas uma forma de categorizá-las.

Confira a entrevista: Parte 1 - Parte 2
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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Redes e Poder no Sistema Internacional: O uso do racismo como forma de Violência Institucionalizada - o caso do Apartheid na África do Sul


A seção "Redes e Poder no Sistema Internacional" é produzida pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Redes e Poder no Sistema Internacional (RPSI), que desenvolve no ano de 2018 o projeto "Redes da guerra e a guerra em rede" no UNICURITIBA, sob a orientação do professor Gustavo Glodes Blum. A seção busca compreender o debate a respeito do tema, trazendo análises e descrições de casos que permitam compreender melhor a relação na atualidade entre guerra, discurso, controle, violência institucionalizada ou não e poder. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.


O uso do racismo como Violência Institucionalizada
O caso do Apartheid na África do Sul

Tiago Viesba *

Dentro de um escopo de consequências, frutas da colonização do continente africano, e em maior grau, do Imperialismo do final do século XIX temos o surgimento de ideologias raciais e a ideia da superioridade da raça branca, em detrimento dos (não) brancos. Um dos casos mais marcantes dessa dominação é, sem dúvida, o que ocorreu na África do Sul no decorrer do século XX. 

O regime do Apartheid (que perdurou entre 1948-1994), o qual institucionalizou o segregacionismo das raças não brancas naquele Estado, pode ser compreendido através da percepção de construção de uma arquitetura jurídica que legitimou o racismo (um produto cultural – aqui no sentido de invenção - de relações históricas, sociais e de “tradições”). Para tanto, utilizou-se das mesmas bases do Estado-Nação (E.N.), como forma de criar uma legitimidade a tal “separação”. Assim, com o intuito de se entender como essa forma de violência institucional afetou a população negra daquela época, há necessidade de aproximação de alguns conceitos. Também, se buscará com isto, o desenvolvimento de um instrumento de observação que melhor permita elucidar o uso da violência estrutural como forma de segregar a sociedade dentro de um território, através do uso do espaço atrelado a construção de uma narrativa racista. 

Um primeiro conceito, necessário para desvendar essa arquitetura jurídica em questão, é a ideia de nação. Esta é base legitimadora do Estado moderno e de suma importância para a estruturação do Apartheid. Segundo Benedict Anderson (2008), a nação, um conceito melhor comparado a um “parentesco” ou “religião”, pode melhor ser entendida como “uma comunidade política imaginada – e imaginada como sendo intrinsecamente limitada e, ao mesmo tempo, soberana”. Neste sentido, ela é imaginada porque os membros jamais entrarão em contato com a maioria de seus companheiros, embora todos tenham em mente a imagem viva da comunhão entre eles. Ela é limitada porque mesmo a maior delas, possui fronteiras finitas, ainda que elásticas, para além das quais existem outras nações - nenhuma delas imagina ter a mesma extensão da humanidade. 

Ela é soberana porque o conceito nasceu na época em que o Iluminismo e a Revolução estavam destruindo a legitimidade do reino dinástico hierárquico de ordem divina. Amadurecendo numa fase da história humana de percepção do pluralismo religioso e da essência entre princípios e a extensão territorial de cada credo, as nações sonham em ser livres — e, quando sob dominação divina, então diretamente sob sua égide. A garantia e o emblema dessa liberdade é o Estado Soberano. Por último, ela é imaginada como uma comunidade porque, independentemente da desigualdade e da exploração efetivas que possam existir dentro dela, a nação sempre e concebida como uma profunda camaradagem horizontal. 

Durante a história da humanidade houve quatro ondas do século XVIII ao XIX: 1.O nacionalismo como instrumento de legitimação das lutas de independência colonial na América; 2.Nacionalismo Oficial da Europa e a consolidação dos Impérios europeus; 3.O imperialismo, lógica de dividir para conquistar as sociedades africanas e asiáticas que passam a ser subordinadas; e 4.As lutas de independência neocoloniais do século XX. A nação está ligada pela língua, religião, passado histórico comum, símbolos nacionais e cultura. Não existe nação entre dois indivíduos apenas. Devo me imaginar como parte de um grupo muito maior e mesmo que nunca encontre todos, tenho a convicção que eles se sentem tão nacionais quanto eu. 

Outro conceito relevante para esse debate é o de tradições (inventadas) estudado por Eric Hobsbawm. Estas se traduzem como invenções sociais que dão a ideia de continuidade e ligação com o passado. São instrumentos de consolidação/subordinação dos seres humanos á lógica do E.N. Dão a impressão que sempre foi assim, oferecendo legitimidade às bases dessas comunidades imaginadas formando uma simbologia numa materialidade. Elas podem tanto manter relações positivas, quanto negativas. Transmitindo a ideia de se sentir parte integrante de um grupo e dentro dessa nação, compartilhando determinados símbolos, celebrações e cerimônias. Ou o contrário, construindo a ideia do outro - aquele que não faz parte deste grupo por não entender nossas tradições. 

Desta forma, a construção do E.N. veio num entrecho posterior ao surgimento das nações. Sendo que, o Estado é diferente da nação, que é diferente do E.N. O primeiro é constituído por uma tríade - Território, População e Governo. Estes elementos balizam as tentativas de exercício do poder, ou seja, numa lógica de inversão, eles criam uma dependência de quem quer exercer o poder em relação ao Estado (devem ser trabalhados). Já a nação, passa a ser adotadas como instrumento de legitimidade de existência do Estado, uma vez que para a lei ser igual para todos, todos precisam ser iguais para a lei. Assim, utiliza-se da ideia de nação para justificar o Estado, este tem um vínculo jurídico com sua nação e a ela responde como “protetor”. 

Por consequência deste movimento, num conjunto de nacionais aparecem a figura do nacional e o (não) nacional. Cada indivíduo deveria ser pertencente a uma nação apenas, ou seja, o estrangeiro, nesta lógica, caracteriza-se como o pertencente a uma determinada nação diferente da minha. No meu território, ele é o não nacional, não pertencente. Uma vez que os Estados têm direito (soberania) de exercer uma política de repressão ao de fora, com a orientação de proteger/priorizar os seus nacionais. Aqui podemos ver a lógica do outro, individualização de um coletivo. 

Portanto, essas estruturações jurídicas vieram no entrecho de permitir a estruturação de um regime segregacionista como o Apartheid. A África do Sul foi uma colônia europeia no contexto do Imperialismo e teve influências holandesas e britânicas principalmente. Como fruto do cientificismo da época, atrelado ao surgimento das ideias do “fardo do homem branco”, criou-se o discurso que legitimou a dominação desses povos “menos civilizados”. Como consequências diretas desse período, tivemos a instrumentalização, na África do Sul, do regime do apartheid (que significa separação). Este era baseado em uma segregação racial entre brancos e não brancos. 

Tal regime era baseado na construção de leis segregacionistas dos mais diversos exemplos e também, com a estipulação de fronteiras, os bantustões (países dentro da África do Sul, onde os negros viverem isolados), como Lesoto e a Suazilândia. A lógica era muito parecida, ao se negar a nacionalidade sul africana – no período, entendida como fatores como a língua, a raça e as tradições de uma cultura europeia que remetiam a época da colonização -, então meu Estado pode adotar medidas de repressão e segregação baseadas neste tom racial. O estrangeiro é o outro. Podia-se assim, a partir desta estrutura jurídica institucionalizada, justificar a exclusão e legalizar o preconceito racial – fruto de um passado histórico colonial e que passou a ser incorporado como componente da nacionalidade sul africana. 


*Tiago Viesba é acadêmico do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA) e pesquisador do Grupo de Pesquisa "RPSI - Redes e Poder no Sistema Internacional".


Referências 

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. 1° Edição, 5° Reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 


ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. 1° Edição, 8° Reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. 


BOBBIO, N. et al. (Org.). Dicionário de política. Brasília: Editora UnB, 2007. 2v. 


HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (org.). A invenção das tradições. 6° Edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. 


VISENTINI, Paulo G. Fagundes; PEREIRA, Analúcia Danilevicz. África do Sul – História, Estado e Sociedade. Brasília: FUNAG/CESUL, 2010.
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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Redes e Poder no Sistema Internacional: Guerra de Procuração e a Guerra no século XXI - O mosaico libanês no fogo cruzado


A seção "Redes e Poder no Sistema Internacional" é produzida pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Redes e Poder no Sistema Internacional (RPSI), que desenvolve no ano de 2018 o projeto "Redes da guerra e a guerra em rede" no UNICURITIBA, sob a orientação do professor Gustavo Glodes Blum. A seção busca compreender o debate a respeito do tema, trazendo análises e descrições de casos que permitam compreender melhor a relação na atualidade entre guerra, discurso, controle, violência institucionalizada ou não e poder. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.


Guerras de Procuração e a Guerra no Século XXI - O mosaico libanês no fogo cruzado


Heloísa Orsatto *

Infrequentemente os grandes veículos de informação ou a academia nos trazem notícias ou conceitos que remetam as guerras de procuração. Uma lacuna sobre o conceito de um elo que vem amarrando os conflitos e as relações internacionais desde o fim da Guerra Fria, e que afirma-se como uma das bases mais sólidas para o entendimento da complexidade e da evolução dos conflitos contemporâneos e estudos estratégicos e de segurança.

Segundo Karl Deusch, em 1964, as guerras de procuração poderiam ser entendidas como “...um conflito internacional entre duas grandes potências estrangeiras, acontecendo no solo de um terceiro país, disfarçado como um conflito interno desse último, e utilizando-se de seus recursos, territórios e força militar para atingir preponderantemente objetivos e estratégias estrangeiras” . Mas esse conceito, mesmo que com perfeita aplicação atual, traz algumas problemáticas no que se refere a metamorfose dos conflitos no decorrer do século. A definição de Karl é centrada no Estado, e acaba por ignorar atores não-estatais, como grupos insurgentes, que cada vez mais tomam espaço dentro desses conflitos. Isso implica a ausência de um poderio absoluto sobre o país procurado, mostrando que o conflito não seria possível se no país já não houvesse terreno e condições para insurgência.

Esse é o cenário onde se deu a Guerra Civil Libanesa (1975-1990), que englobou a invasão israelense ao país em 1982.

A complexidade do panorama libanês, como bem aponta Márcio Scalercio , é intimidadora. Os grupos políticos que compõe o governo são antagônicos e historicamente dependentes de um frágil equilíbrio que garanta que não troquem tiros simultaneamente entre si enquanto tentam administrar um país recheado das mais diversas comunidades e vizinho de duas grandes potências: Israel e Síria.

O contexto de Guerra Fria – como o ocidente já estava bem acostumado – e a familiar teoria dos jogos que a regia, já não pode mais ser utilizado para uma análise precisa dos conflitos presumivelmente polarizados do século XXI. A ascensão de grupos insurgentes, juntamente com uma nova hostilidade por parte da população frente à guerras – a Síndrome do Vietnã - e o avanço das tecnologias movidas pela percepção de risco dos Estados começam a entrar e são fundamentais na equação do conflito. A percepção de risco, segundo Andrew Mumford, é a inviabilidade e injustificabilidade de um conflito direto, que contaria com custos (políticos, financeiros ou materiais) e a saia justa que o Estado teria de enfrentar para explicar a legitimidade de um conflito que poderia ser evitado. Mas, segundo o mesmo autor, os próprios países procurados possuem seus sistemas particulares, complexos e intrincados, que eventualmente começam a desenvolver maiores percepções de autonomia, questionando a natureza e as reais intenções por trás do conflito.

Mesmo no cenário de esgotamento pós-1945, os países ainda precisavam de uma maneira que não fosse a guerra “estado vs estado” propriamente dita para alcançar interesses nacionais ou conquistas ideológicas. E esse novo comportamento marcou a mudança na natureza do sistema internacional e de como ele opera. Essa mudança é caracterizada por quatro pontos chave: a insustentabilidade do apetite público por conflitos e a recessão econômica mundial pós-Vietnã; o crescimento e ascensão de empresas militares privadas (PMC) e a inserção do espaço cibernético como uma ofensiva indireta.

Uma análise da política externa israelense nos mostra um imperativo étnico anacrônico e dificilmente defensável, respaldada no “demographic threat” , que pode ser essencialmente definido como o medo de, em algum futuro possível, Israel atingir uma população de maioria árabe que votaria o Estado abaixo. Nesse cenário, Israel ainda se vê frente ao Irã, país que pós Revolução Iraniana emergiu como o maior território capaz de contestar a hegemonia americana no Oriente Médio, criando uma atmosfera de The New Middle East. A Síria também é uma preocupação, e embora fraca, a influência iraniana cria conexões e militâncias anti-israelitas. E é nesse contexto que o país dos cedros é trazido para dentro do conflito.

Quando posicionadas em território libanês no contexto da Guerra Civil, as forças sírias foram o primeiro alvo de algumas das políticas decorrentes do medo israelense citado acima. Com amparo e patrocínio americano, Israel possuía (e ainda possuí) um dos mais avançados programas de monitoramento e operação de drones da atualidade, e já em 1982 contava com esse elemento de alta tecnologia, que até mesmo para o ocidente era surpreendente, para as tropas sírias foi então um sobressalto. Monitoradas exaustivamente pela FDI (Força de Defesa Israelense) com aparelhos sofisticados, foi constatada a pouca movimentação síria, que acabava facilitando cada vez mais seus a previsão israelense de seus movimentos e tornou um mapeamento detalhado dos acampamentos possível, e foi aí que Israel entrou com os drones em cena.

Quando o dispositivo adentrava o espaço áereo onde as tropas estavam, todos seus sistemas de defesa eram acionados, pois não possuíam tecnologia o suficiente para dizer se a ameaça era um avião de ataque completo ou um drone. Porém logo atrás dos drones vinham os aviões da FAI (Força Aérea Israelense) munidos com mísseis anti-radiação, que eram guiados por ondas emitidas por radares (os mesmos sírios que não conseguiam discernir um equipamento do outro). Além de identificar as tropas, os drones também interferiam nos sistemas de comunicação e nos radares adversários. 

O Líbano, por sua vez, desde sua criação como Estado nunca foi um país convencional. Criado a partir de uma ambição francesa em ter um estado cristão no Oriente Médio, o país cresceu e junto com ele cresceram diversas comunidades que hoje (e desde o último censo, extremamente desatualizado) compõe o governo. Tal composição se dá na divisão de cargos entre cristãos maronitas (maioria não numérica mais poderosa do país), muçulmanos sunitas e muçulmanos xiitas. Cada comunidade visava aumentar seu peso político e conseguir mais cadeiras no Parlamento. No entanto, a desunião entre os muçulmanos (também haviam comunidads drusas) era curiosa, fato que se deu até a entrada da OLP e dos palestinos no país. Xiitas que majoritariamente habitavam o sul (fronteira com Israel) cresciam em seu ativismo político e inicialmente possuíam franca amizade com os judeus e inimizade com os palestinos e guerrilheiros da OLP. Mas a presença cristã maronita como soon-to-be aliada dos israelenses converteria o cenário.

Análises mais profundas que serão abordadas na pesquisa indicam um caminho tortuoso para a compreensão da trajetória dos conflitos que moldam o cenário internacional hoje, e principalmente, na perspectiva não-ocidental. Uma nova concepção da Teoria dos Jogos começa a dar as caras, e embora as guerras de procuração tenham sido presentes durante toda a história, novos elementos começam a despontar, mostrando que, afinal de contas, o verdadeiro xadrez nunca teve somente dois jogadores.

* Heloísa Orsatto é acadêmica do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA) e pesquisadora do Grupo de Pesquisa "RPSI - Redes e Poder no Sistema Internacional".
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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Acontece no UNICURITIBA: Visita técnica - Grupo Boticário






Na terça-feira, dia 28 de agosto, alunos e professores de Relações Internacionais foram conhecer a fábrica do Grupo Boticário, em São José dos Pinhais.

O objetivo da atividade foi observar e compreender o processo de produção de uma grande empresa de cosméticos, além de realizar um bate-papo com Felipe Salomão, Marina Sperafico e Thomas Lampe, egressos do curso e responsáveis pelas relações governamentais do grupo.

O acadêmico do sétimo período, Daniel Andrade, preparou um relato sobre a experiência para o Blog Internacionalize-se. 



"Agradeço ao Centro Universitário Curitiba - UNICURITIBA e ao curso de Relações internacionais pela oportunidade oferecida de visitar uma das maiores empresas sustentáveis do Brasil, o Boticário.

Pudemos conhecer toda a fábrica e vislumbrar o processo de montagem de muitos dos produtos. Mais do que isso, tivemos a oportunidade de conversar com os egressos do Unicuritiba Felipe Salomão, Marina Sperafico e Thomas Lampe, responsáveis pelas relações governamentais do grupo. Uma conversa única, pois, as experiências deles me fizeram abrir os olhos para novas oportunidades de mercado e prospecção de carreira e também pude ter a certeza que fiz a escolha certa quanto ao meu curso: Relações Internacionais.

Muitas vezes temos dúvidas sobre como será a aplicabilidade da teoria aprendida da sala de aula na prática do mercado de trabalho, e em uma conversa única entre os egressos com os nossos professores, pudemos perceber no compartilhamento de suas experiência o quão importante cada matéria foi para a sua formação e a ocupação que hoje eles estão.

O Boticário é um grande exemplo de sustentabilidade para todas as indústrias, pois a forma como cada setor se preocupa com a eliminação ou redução da emissão de desperdício, é algo sério e tem pessoas que trabalham para esse setor específico. Também é um símbolo empresarial pelo seu processo de internacionalização: uma indústria brasileira ultrapassando as fronteiras".


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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Migrações Internacionais: Fantine, somos todos miseráveis!






Rafaela Pacheco
Estudante de Direito no Centro Universitário Curitiba, e integrante do Grupo de Pesquisa A nova lei de migração brasileira (lei nº 13.445/2017) e as mudanças no tratamento de migrantes e refugiados no Brasil, orientado pela Profª Michele Alessandra Hastreiter.


"Enquanto existir nas leis e nos costumes uma condenação social que cria infernos sociais em plena civilização, juntando ao destino —  que é divino por natureza —  um fatalismo que provém dos homens; enquanto não forem resolvidos os três problemas do século: — a degradação do homem pela pobreza, o aviltamento da mulher pela fome, a atrofia da crença pelas trevas; enquanto continuar em certas classes a asfixia social; ou por outras palavras e sob um ponto de vista mais claro: — enquanto houver no mundo ignorância e miséria, os livros desta natureza não são de todo inúteis."
Victor Hugo, 1862[1]


            Em 23 de agosto de 2018, Katy Watson, repórter da BBC News, teve sua matéria A ponte que simboliza o desespero do êxodo venezuelano publicada. Este foi um dentre tantos outros relatos e denúncias oriundos da crise socioeconômica e política que deixou quatro em cada cinco venezuelanos impotentes diante da taxa de desemprego e pobreza crescentes em seu país. Como reflexo da crise, parte da população venezuelana vem abandonando seus lares em busca de condições dignas de vida em países vizinhos como a Colômbia e o Brasil. Em sua reportagem, Watson preocupou-se em apresentar a situação real, de pessoas reais, na ponte da fronteira entre San Antonio del Táchira, na Venezuela, e Villa Del Rosário, na Colômbia. A matéria cumpre a função de nos lembrar que essas pessoas que migram possuem nomes e sobrenomes, que sentem fome e medo, e que vivenciam o inferno social que instaurou em suas vidas a incerteza e a miséria.

            A ponte é chamada pelos guardas de "corredor humanitário" e, do outro lado dela, na Colômbia, Watson narrou as relações de troca que se formam na chamada La Parada, local em que são realizadas transações comerciais por uma comunidade que objetiva o lucro. Há vendedores ambulantes, lojas e empresas de ônibus prestando seus serviços aos venezuelanos. A repórter presenciou a história de Laura Castellanos, uma jovem venezuelana que estava na fila para a travessia da ponte com seus três filhos e o marido. Laura, naquele dia, atravessara a ponte com sua família e vendera seus cabelos a um comprador de La Parada com intuito de comprar insulina para Andrea, sua filha mais velha, que tem diabetes. Laura relatou à Watson que há pessoas morrendo em seu país por não conseguirem os medicamentos.  

            Laura se tornou Fantine, na mais íntima proximidade possível, vivendo o medo de não conseguir salvar sua filha, lutando contra a escassez de um sistema falho que nega a ela e sua família uma vida digna e saudável. A personagem Fantine, do romance Os Miseráveis de Victor Hugo, vendera seus cabelos e dentes para pagar os cuidados de sua filha Cosette, isto porque encontrava-se desempregada. Cada passo de sua trajetória, vivendo um dia por vez, alternando a esperança e a vulnerabilidade diante das circunstâncias, conduziu Fantine para a rafa e o definhamento. O que Hugo e Watson narraram é a frieza das transações que coordenam vidas. Cabelos e dentes por dinheiro, dinheiro por saúde. É a miséria e a ignorância testando e corrompendo virtudes, despindo o amor próprio, esvaziando o ser, limitando sonhos e condenando vidas ao sofrimento.

            Fantine, além de um retrato da desigualdade social do século XIX, bem como Laura, vivendo as mazelas migratórias do século XXI, possuem corpo e alma que persistem, marginalizadas, em nossa sociedade. Fantine viveu, e ainda vive, uma vida que a condenamos viver. Fantine não é apenas um nome, uma palavra, uma mulher, mas como já diria Levi-Strauss[3], ela é signo e valor. Não apenas a mulher sofre, mas todos que a cercam e dela se alimentam. Ela é aquela que detém o dom de gerar a vida e, desta forma, não é apenas Fantine, Laura e Andrea — ou a mulher — que padecem, mas toda a vida que é depreciada nos limites da sobrevivência. Assim, Fantine são todos aqueles que lutam por viver e por melhores condições de vida. São aqueles que se despem de toda vaidade e interesses próprios em prol da sobrevivência dos seus, pois Fantine fez tudo que pôde por uma vida digna para sua filha Cosette, sua única família. Ela era honesta e, no fundo de si, guardava virtude e pudor. Tal pudor que advém de construções sociais e que, esta mesma sociedade que a ensinou a ter pudor, violou-o, deixando para Fantine a culpa e a vergonha. E todo este ciclo de virtudes e sentimentos oprimidos que compreendem o inferno social a que Victor Hugo se refere, advém da sociedade e por ela são geridos.


“Que vem a ser esta história de Fantine?
É a sociedade comprando uma escrava.
A quem?
À miséria.
À fome, ao frio, ao isolamento, ao abandono, à nudez.
Dolorosa negociação! Uma alma por um pedaço de pão.
A miséria oferece, a sociedade aceita!”
(HUGO, 1---, p. 297)

            É preciso falar sobre a miséria, a miséria  como falha moral e a miséria de quem padece. Uma fomenta a outra propagando o sofrimento. Aproximadamente dois séculos depois da publicação de Os Miseráveis a miséria se faz presente em nossos cotidianos. E, diante de tanta ignorância e penúria, Victor Hugo compreendeu a necessidade de tornar público o que muitos tentam se esquivar: a miséria está em nós, em nossas vidas, em nossa história.

            Os fluxos migratórios que presenciamos, cada vez mais constantes por conta de instabilidades ambientais, socioeconômicas e políticas vão além de negociações internacionais, aparatos legais e atuações governamentais. Precisamos olhar para as Fantines da migração e compreender seus medos e aflições diante de cenários que destroem sua essência de ser, que desamparam promovendo a insegurança, a fome e o desespero.

            O crescente fluxo migratório que vivemos claramente está vinculado ao temor e à violação da dignidade humana. E se faz necessário refletirmos que, além de catástrofes ambientais e perseguições provenientes de conflitos e guerras, a instabilidade econômica e a má gestão pública de um governo também causam medo, desespero e insegurança à população. Temos que compreender que a migração econômica em massa traz consigo o mesmo vazio e incerteza aos migrantes, como os vividos por um refugiado. Basta observar o contexto em que Lauras e Andreas se encontram, para entendermos que a angústia e o sentimento de perda de direitos básicos são profundos, e por isso não podemos permitir que a história de Fantine se repita.

            Somos todos miseráveis! Provavelmente essas seriam as palavras de Victor Hugo diante do cenário que se alastra nas fronteiras dos países. Miseráveis por conivência, miseráveis por omissão, miseráveis por proporcionarmos a propagação do desespero, do temor e do sofrimento, por criarmos infernos sociais elegendo Fantines para encenarem a deterioração do ser em face das estruturas sociais, políticas e econômicas que as esmagam. A miséria e a ignorância são perpetuados pela sociedade, e em relação à migração é gerida por atitudes xenófobas, por leis falhas e governantes incompetentes.

            A matéria de Watson é necessária pois, por vezes, presenciamos vidas sendo reduzidas a terminologias e adjetivos que detém o poder de garantir ou extinguir direitos fundamentais para as suas existências. Conhecer as pessoas que partilham o mundo conosco promove a sensibilização com aquele que antes era desconhecido, e assim passamos a compartilhar sentimentos, esperanças e vivências comuns. E, baseando-se nas palavras de Victor Hugo, enquanto houver no mundo inércia, descaso e violações à vida digna, todas as palavras em defesa e garantia da dignidade humana não são de todo inúteis, e sim necessárias.





[1] HUGO, Victor. Os Miseraveis. v. 1. Porto: Livraria Chardron, 1---.
[2] WATSON, Katy. A ponte que simboliza o desespero do êxodo venezuelano. BBC News. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/amp/internacional-45275901>. Acesso em: 04/09/2018.
[3] LEVI-STRAUSS, Claude. As Estruturas Elementares de Parentesco. Petrópolis: Vozes, 2012.

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sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Redes e Poder no Sistema Internacional: Uso e abuso da força em operações de paz das Nações Unidas

A seção "Redes e Poder no Sistema Internacional" é produzida pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Redes e Poder no Sistema Internacional (RPSI), que desenvolve no ano de 2018 o projeto "Redes da guerra e a guerra em rede" no UNICURITIBA, sob a orientação do professor Gustavo Glodes Blum. A seção busca compreender o debate a respeito do tema, trazendo análises e descrições de casos que permitam compreender melhor a relação na atualidade entre guerra, discurso, controle, violência institucionalizada ou não e poder. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.


Uso e abuso da força em operações de paz das Nações Unidas

Bruno Dal-Prá Araldi* 


Mesmo que ausente no texto da Carta das Nações Unidas de 1945, o estabelecimento de operações de paz sob a bandeira da Organização das Nações Unidas passou a configurar, desde 1948, um dos principais e mais pragmáticos métodos para a Organização das Nações Unidas, em particular a partir da atuação de seu Conselho de Segurança, cumprir com seu papel originário de promover e preservar a paz no sistema internacional.

Com o final da Guerra Fria e a consolidação de uma nova ordem mundial a partir do início da década de 1990, a prática do estabelecimento de operações de paz como instrumento da ONU para atender às novas demandas da agenda de segurança internacional não somente se expandiu, como também passou a adquirir contornos mais complexos (MATIJASCIC, 2010, passim). De acordo com Bellamy, Griffin e Williams (2010, p. 33-39), com a emergência das “novas guerras” e a deflagração e predominância de numerosos conflitos de natureza intra-estatal no sistema internacional a partir dos anos 90, a natureza das operações de paz promovidas pelas Nações Unidas passou por transformações significativas, em direção àquilo que os autores caracterizam como peacekeeping pós-Westphaliano.

Essas mudanças sobre a natureza das operações de paz, sobretudo entre a virada das décadas de 1980 e 1990, tanto de caráter quantitativo (tendo-se em vista o aumento significativo de operações de paz sustentadas pela ONU a partir do final do século passado), quanto qualitativo e normativo (BELLAMY; GRIFFIN; WILLIAMS, 2010, p. 97), podem ser explicadas por uma variedade de fatores. Em primeiro lugar, o fim da Guerra Fria e o período de transição da ordem global e a subsequente (embora relativamente breve) “desordem” no sistema internacional, em especial com o surgimento das “novas guerras” e suas peculiaridades, aumentou a demanda global por operações de paz enquanto mecanismo de solução de conflitos e promoção da paz no sistema internacional pelas Nações Unidas. Além disso, essa transformação também se deve ao aumento do interesse de governos nacionais em contribuir (com o envio de agentes de segurança, equipamentos e financiamento) com operações de paz mais complexas, mesmo em regiões sem alguma espécie de importância estratégica.

Para Bellamy, Griffin e Williams (2010, p. 94-96), isso pode ser explicado por ao menos quatro fatores gerais: o aumento da “permissividade” e o descongelamento do Conselho de Segurança com o esfacelamento do bloco soviético; os efeitos da globalização contemporânea, notadamente a aceleração da democratização, a propagação da pauta de Direitos Humanos; o efeito midiático sobre a política dos países em matéria de crises humanitárias (efeito CNN), que fizeram com que os governos identificassem as operações de paz como “politicamente desejáveis” (ROBINSON, 2002 apud. BELLAMY; GRIFFIN; WILLIAMS, 2010, p. 95); e a maior capacidade militar e interesse de diversas forças armadas em participar das operações de paz com o fim dos desafios estratégicos presentes durante a Guerra Fria.

No entanto, apesar de um sucesso inicial significativo em alcançar os objetivos estabelecidos em seus mandatos, as operações de paz da ONU passaram por uma série de falhas e retrocessos ainda na década de 1990. Com a pressão de episódios que ainda hoje assombram a organização, como o desastre em Mogadishu em 1993, e a passividade das Nações Unidas e suas operações de paz diante do genocídio em Ruanda em 1994 e do Massacre de Srebrenica em 1995, por exemplo, exigiu-se da organização uma readaptação a uma atitude proativa diante dos conflitos internacionais, independentemente de sua natureza.

É importante notar que essa nova fase das operações de paz da ONU como principal instrumento da organização para mediar conflitos e preservar a paz tem apresentado seus próprios dilemas e constrangimentos, sobretudo com a participação de mais atores compondo esses processos nas chamadas missões multidimensionais que não incluem somente o componente militar (SANTIAGO, 2017, p. 4), principalmente a partir dos anos 2000. Notadamente, se antes eram criticadas por sua ineficiência, passividade e negligência, as missões de paz das Nações Unidas passaram a sofrer pesadas críticas em relação a diversos abusos e excessos cometidos por seus peacekeepers: as denúncias e vários relatórios e estudos apontam para problemas como corrupção, negligência, uso excessivo e desproporcional da força, abuso sexual e exploração de menores, bem como a falta de transparência da organização em relação a essas denúncias.

Apesar de reconhecer a existência dessas faltas entre os contingentes a ela submetidos nas missões de paz e manter uma retórica de tolerância zero[1], a organização tem feito pouco mais do que estabelecer ouvidorias específicas e canais de denúncia, bem como recomendado ao Secretariado que solicite a repatriação de unidades militares de um contingente em que se tenha evidências credíveis de abuso e exploração sexual (como é o caso da Resolução do Conselho de Segurança 2272, de 2016). Nesse caso, a questão da impunidade diante das variadas formas de abuso por peacekeepers se configura como um dos grandes obstáculos para as operações de paz contemporâneas.

Essa impunidade dos agentes a serviço das missões de paz das Nações Unidas se deve, principalmente, a duas razões: a deficiência da própria organização em garantir um accountability eficaz da conduta das tropas e pessoal a ela submetidos e, por outro lado, a própria lógica de privilégios e imunidade penal e civil delegada a corpos diplomáticos que, consagrada pelo Direito Internacional, são estendidas aos contingentes compostos por militares, policiais e civis que constituem as operações de paz das Nações Unidas. Essa imunidade, semelhante à dos corpos diplomáticos nacionais, que é atribuída aos agentes a serviço da ONU (mesmo que não funcionários desta) já é prevista desde a Convenção Sobre os Privilégios e Imunidades das Nações Unidas, adotada em 1950 e são reiteradas (embora variem conforme o caso) nas Resoluções do Conselho de Segurança e acordos que estabelecem as operações de paz em determinado país ou área de conflito e que também regulam sobre as capacidades de uso da força (AGUILAR, 2016, passim), ou as “Regras de Engajamento”. 

Essas imunidades legais, portanto, possibilitam a recorrência de práticas de abuso por parte dos peacekeepers, visto que os mesmos passam a estar sujeitos a jurisdição de seus países de origem mesmo enquanto em missão e, em especial (sobretudo no âmbito militar) sujeitos ao julgamento através de seus pares, e não ao ordenamento jurídico do país hospedeiro da missão ou de alguma espécie de tribunal especial. No entanto, essa imunidade também serve como uma espécie de “faca de dois gumes” para a efetividade das operações de paz da ONU, tendo-se em vista que a falta delas poderia desencorajar os países-membros da ONU a contribuir com o envio de tropas, prejudicando assim a disponibilidade de efetivo para as missões.


* Bruno Dal-Prá Araldi é acadêmico do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA), e pesquisador do Grupo de Pesquisa "RPSI - Redes e Poder no Sistema Internacional". 


REFERÊNCIAS 

AGUILAR, Sérgio Luiz Cruz. A Situação Jurídica das Operações de Paz das Nações Unidas. Rev. Fac. Direito UFMG, Belo Horizonte, n. 68, pp. 685-706, jan./jun. 2016. Disponível em: <https://www.direito.ufmg.br/revista/index.php/revista/article/view/1776> . 

BELLAMY, Alex J.; WILLIAMS, Paul D.; GRIFFIN, Stuart. Understanding Peacekeeping. 2ª ed. Cambridge: Polity Press, 2010. 

CONSELHO DE SEGURANÇA DAS NAÇÕES UNIDAS. Resolution 2272 (2016). Disponível em: <http://www.refworld.org/docid/56e915484.html>. 

MATISJASCIC, Vanessa Braga. As Operações de Manutenção de Paz das Nações Unidas no Início da Década de 1990. Revista Eletrônica de Ciência Política, vol. 1, n. 2, pp. 171-192, dez. 2010. Disponível em: <https://revistas.ufpr.br/politica/article/view/20435>. 

ONU. Convention on the Privileges and Immunities of the United Nations. Disponível em: <http://www.un.org/en/ethics/pdf/convention.pdf>. 

ONU News. UN to enforce ‘zero tolerance’ policy on sexual exploitation and abuse, senior official tells Member States. 5 abril 2016. Disponível em: <https://news.un.org/en/story/2016/04/526082-un-enforce-zero-tolerance-policy-sexual-exploitation-and-abuse-senior-official#.WYGCsOV95aS>. 

SANTIAGO, Ana Elisa. O conceito de paz sob a perspectiva antropológica. 17f. Pesquisa (Doutorado) – Programa de Pós Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de São Carlos (PPGAS/UFSCar), São Carlos, 2017. Disponível em: <http://www.inscricoes.fmb.unesp.br/upload/trabalhos/201789111351.pdf>. 

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[1] A título de exemplo, o Secretariado da ONU já se manifestou acerca do comprometimento da organização com o cuidado com as vítimas e sobre garantir que não houvesse impunidade nos casos de exploração e abuso sexual, à luz de denúncias feitas à agências especializadas nos últimos anos.
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quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Filmografia em destaque: Análise do filme "Eu não sou um homem fácil" e o feminismo nas Relações Internacionais.

Artigo apresentado na disciplina de Análise em Política Externa e Relações Internacionais, ministrado pela Profa Dra Janiffer Zarpelon, do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba. As ideias contidas no artigo não expressam a opinião da instituição, mas somente dos seus autores. 

* Bruna Galani
    O que você acharia se existissem propagandas com homens seminus em poses sexualizadas? Se os cargos de liderança nas empresas fossem todos ocupados por mulheres? Se alguém te oferecesse a oportunidade que tanto quer em troca de “favores” sexuais? Se a pressão por um “corpo perfeito” fosse transferida para os homens? Se mulheres saíssem para correr sem camisa e sem a preocupação de serem assediadas?
       É exatamente isso que o filme francês “Je ne suis pas un Homme Facile” (Eu Não Sou Um Homem Fácil), de Eléonore Pourriat, nos mostra de maneira cômica e irônica. Damien, interpretado por Vincent Elbaz, é um machista clássico que carrega todas as características do arquétipo do patriarcado. Ele é um “conquistador” e trata as mulheres como objeto. Além de que acredita existir exclusividades de gênero, como roupas, formas de comportamento, tipos de bebidas para mulheres e dentre outras coisas.
      Porém, após bater a cabeça numa placa das ruas de Paris enquanto assobiava para duas adolescentes na rua, Damien acorda num mundo invertido em que homens e mulheres têm seus papéis trocados de todas as formas possíveis.
      Alexandra, a mulher por quem ele tinha ficado interessado antes da mudança, se tornou a versão feminina dele mesmo. A personagem, interpretada por Marie-Sophie Ferdane, faz com que Damien sinta na pele a consequência de seus atos. Afinal, o que é melhor do que perder os privilégios para captar que eles sempre existiram?
    No início, quando vai a pé para o trabalho e mulheres começam a olhar para suas pernas e bunda, Damien até acha engraçado. Mas, não demora muito para ele não aguentar mais viver no “mundo feminino”. Chega um momento em que procura e apoia os grupos "masculinistas" existentes. Tanto o "masculinismo” de “Je ne suis pas un Homme Facile”, quanto o Feminismo, são movimentos importantes e que carregam a bandeira da igualdade.
    Outro ponto interessante para notar é que a comunidade LGBT do mundo invertido é delineada como a “normalidade” do nosso mundo – existem mulheres de vestido e homens de blazer, além de festas reservadas aos olhos do público, por exemplo. Percebe-se que independente do mundo a sociedade marginaliza o diferente.
    A cena em que Damien está alcoolizado e é assediado física e verbalmente num bar escancara como o contrário choca. No mundo real, chovem notícias de mulheres que passam por situações iguais ou piores que, muitas vezes, passam, lamentavelmente, como algo comum.
     Existem situações mais sutis retratadas no longa que também merecem destaque, como por exemplo, nesse universo às avessas, a carta mais importante no jogo de pôquer é a Rainha e não o Rei.
   De uma forma geral, Eu Não Sou Um Homem Fácil usa dos clichês tradicionais do gênero para construir sua narrativa com o objetivo principal de criticar a sociedade patriarcal, o machismo, a misoginia e a desigualdade de gênero existente.
     O feminismo é um conjunto de movimentos políticos, sociais, ideologias e filosofias que têm como objetivo a igualdade política, econômica e social entre os sexos. Surgiu por volta do século XIX e a história do movimento é dividida em três "ondas".
     De uma maneira geral, pode-se dizer que a Primeira Onda (século XIX e início do XX) contempla principalmente as lutas pelo Sufrágio Universal – direito ao voto, direito à herança e à propriedade. A Segunda Onda (1960-1990) foi marcada pelas reivindicações ao direito reprodutivo e ao mercado de trabalho. Já a Terceira Onda, que se iniciou nos anos 90, tem foco na Ideologia de Gênero.
    Vale ressaltar que o movimento feminista não é homogêneo, pelo contrário, tem uma pluralidade de vozes e se desenvolveu em várias vertentes por diferentes países, uma vez que as realidades das mulheres são diferentes ao redor do mundo.
    Nas Relações internacionais o Feminismo chegou como uma crítica ao mainstream teórico. Promoveu a desconstrução do conhecimento sobre as RI com base no gênero (fez crítica ao realismo moderno; ao desenvolvimento de um debate teórico masculinizado e militarista); e trouxe a reconstrução/construção de teorias que levem em consideração a questão do gênero.
    O Feminismo Empírico trata o gênero ligado ao sexo biológico, ou seja, exploração de gênero seria a exploração da mulher. O Feminismo Analítico aborda o gênero como categoria teórica/analítica para refutar a distinção de gênero, além de compreender seus aspectos nas Relações Internacionais. O Feminismo Normativo traz o processo de teorização como parte da construção de uma agenda de transformação social e política (discurso como um campo de luta); tem o objetivo de mudar valores.
   Existem algumas autoras que merecem destaque, dentre elas Ann Tickner. No livro “Gender in International Relations: feminist perspective on achieving International security.” (1992), fala sobre o comportamento dos Estados estarem baseados em “identidades masculinas”; sobre o poder estar relacionado ao masculino (uma vez que se a mulher adquire poder também adquire comportamentos masculinos para se impor).
     A contribuição de Cynthia Enloe, no livro “Bananas, beaches and bases.” (1990), é sobre a relação entre violência sexual e violência internacional. Ela aborda as mulheres nos casos de estupro e conflitos étnicos.
    Já Christine Sylvester vem com uma teoria pós-moderna em que o objeto de estudo são os atos de linguagem. Traz a psicanálise ao falar que existe uma subconsciência masculina e o seu objetivo é mudar conceitos e sentidos; tentativa de quebra da estrutura falocêntrica.
O Feminismo forneceu novas perspectivas para o mundo acadêmico. Sua importância está justamente em promover questionamentos e mudanças para maior igualdade na sociedade em geral, seja na academia, nas relações entre os países ou no dia a dia de cada pessoa.
    O universo criado por Eléonore Pourriat no filme “Je ne suis pas un Homme Facile” mostra que uma sociedade matriarcal seria tão ruim quanto a patriarcal. A roteirista usa da comédia para abordar assuntos que muitos não levam a sério, como o Feminismo; ela constrói uma obra que promove a igualdade e salienta o fato o gênero ser uma construção imposta.
     É um filme que deveria ser assistido por todos; passado em escolas para os alunos do Ensino Médio e no ambiente acadêmico acompanhado de reflexões sobre suas mensagens. Com um elenco talentoso, Eu Não Sou Um Homem Fácil, é uma experiência de empatia; e entrega, ao mesmo tempo, boas risadas e alfinetadas em todos.


REFERÊNCIAS

SARFATI, G. Teorias de Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva, 2005.

Referências eletrônicas:



* Bruna Galani é monitora da disciplina de Instituições Internacionais e estudante do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba. 
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