sexta-feira, 13 de julho de 2018

Redes e Poder no Sistema Internacional: Ciberguerra - um novo campo de conflitos


A seção "Redes e Poder no Sistema Internacional" é produzida pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Redes e Poder no Sistema Internacional (RPSI), que desenvolve no ano de 2018 o projeto "Redes da guerra e a guerra em rede" no UNICURITIBA, sob a orientação do professor Gustavo Glodes Blum. A seção busca compreender o debate a respeito do tema, trazendo análises e descrições de casos que permitam compreender melhor a relação na atualidade entre guerra, discurso, controle, violência institucionalizada ou não e poder. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.



Ciberguerra - um novo campo de conflitos

Samuel W. S. Pelentrir *

A internet surgiu nos EUA em plena época de Guerra Fria com a União Soviética. Os estadunidenses possuíam sistemas de redes que interligam a ARPA (Advanced Research and Projects Agency) às suas bases militares. Porém, o sistema era extremamente vulnerável a qualquer ataque físico, e com o objetivo de evitar essa vulnerabilidade, foi criada a Arpanet em 1969, criada abaixo da superfície e sem centro definido ou única rota de informação.

Após sua criação, a internet só evoluiu e hoje é uma rede de computadores que compartilham informações em grande velocidade, se tornando indispensável. Sua utilização acontece em diversas área: desde o entretenimento com imagens, vídeos e todo tipo de documentos, até a quase total integração de Estados nesse espaço digital. Com essa integração, os conflitos políticos também marcam presença.

Um dos resultados de toda essa integração digital é a ciberguerra ou guerra cibernética, que vem se tornando mais frequente a cada ano. Seus alvos são, em geral, as infraestruturas críticas dos países, por exemplo. Serviços de energia, água e transporte se tornaram alvos preferidos destes ataques. Além disso, uma das suas principais vantagens, para quem ataca, é a dificuldade do rastreamento dos responsáveis.

Os ataques podem ser efetuado por netizens, ou "cibercidadãos". Ocorrendo a partir da sociedade civil, esses ataques podem acontecer por inúmeras razões, como o patriotismo e o ativismo, por exemplo. Os responsáveis pelo ataque muita das vezes não conseguem causar grandes danos pela falta de sofisticação de seu ataque, que pode se concentrar na negação de serviços ou apagar páginas de sites na web. Porém, eles podem ter, ainda assim, o suporte não formal de seu estado, levando em conta casos como o da Estônia em 2017.

Os países mais propensos a sofrer com ataques e não conseguir se defender rapidamente, são os mais integrados na internet e que não possuem capacidade de desligamento da rede no país inteiro ou limitação do uso para utilizadores não essenciais. Um país com capacidade de defesa elevada é a Coreia do Norte: ela não está integrada totalmente como outros países na rede mundial de computadores, e, por isso, não tem uma dependência cibernética muito alta.

Entre os ataques, os mais sofisticados necessitam de mais tempo para programação, e uma estrutura muito mais avançada para obter impactos mais profundos quando existe objetivos políticos subjacentes, tendo maior utilização na espionagem. Os prováveis fornecedores de todo esse aparato são os Estados. Exemplo disso é o ataque que ocorreu na Ucrânia em 2015 com a interrupção do fornecimento de energia: voltando a acontecer após 2015, os ataques foram atribuídos à Rússia pelo presidente ucraniano. 

Porém, de todos, o mais conhecido é o que sucedeu no Irã, causado pelo vírus "stuxnet" em 2010. Esse vírus infectou pelo menos dois países, e que, segundo o que se suspeita, seu objetivo foi o controverso programa nuclear iraniano. O ataque a esse Estado não tem oficialmente autoria de outro país, mas se costuma atribuir a ação ao cibercidadão ou hackers patrióticos.

Por mais que não houvesse anúncio oficial, o que tem como certo é que o desenvolvimento veio da operação "Olympic Games" (jogos olímpicos), que foi criado no governo George W. Bush e contou com a ajuda de Israel. O vírus causou destruição física nas centrífugas de enriquecimento de urânio atrasando de forma significativa o programa iraniano. Outro Estado afetado foi a Índia, ainda que com danos menores.

A criação de armas não físicas que podem trazer danos reais em pequena ou grande escala podendo ser danos financeiros, materiais e sociais. Tendo como objetivo atingir entidades estatais, pode ser considerado não só uma guerra do futuro, mas uma guerra do presente. Não haverá, provavelmente, uma substituição do espaço geográfico pelo ciberespaço, mas a coexistência e cooperação entre eles, como já existe. A intensificação do desenvolvimento da cibersegurança e a sofisticação dos conhecimentos para criação de armas cibernéticas serão consequências de um maior aprofundamento nesse espaço no futuro.


* Samuel W. S. Pelentrir é acadêmico do Curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA) e participou do Grupo de Pesquisa "RPSI - Redes e Poder no Sistema Internacional".
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terça-feira, 10 de julho de 2018

Teoria das Relações Internacionais em destaque: Do Brasil à Fora: a fábrica nacional de motores e a Interdependência no processo de industrialização do Brasil.

Artigo realizado na disciplina de Teoria das Relações Internacionais I, ministrado pela Profa Dra Janiffer Zarpelon, do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba. As ideias contidas no artigo não representam a visão da instituição, mas sim dos seus autores. 

Guilherme Gusso


Sabe-se que até 2014 o Brasil representava parte significativa no mercado consumidor automotivo, sendo o 4° no ranking dos países que mais possuía participação ativa no mercado de compra e venda de automóveis no mundo. Eis que surge então uma pergunta, que vem aquecendo debates entre economistas a respeito do desenvolvimento tecnológico no setor automobilístico brasileiro: “por que não possuímos industrias automotivas genuinamente nacionais para suprir nossas altas demandas? ”
A resposta para esta pergunta pode ser um pouco extensa e necessita que voltemos nossos olhos para o Brasil das décadas de 30 e 40, que é, segundo Carlos Lessa, no documentário “Um Sonho Intenso” (2015), o período chave para entendermos os rumos que a economia, política e cultura brasileira tomaram até os dias de hoje. A problemática em questão não se restringe apenas aos vieses econômicos, mas permeia de maneira muito significante um recorte histórico das Relações Internacionais brasileiras e sua crescente interdependência tecnológica-industrial.
Segundo Joseph Nye, a interdependência é caracterizada por uma rede complexa de dependência entre os atores internacionais, sejam nações, organizações ou empresas, tais redes de dependência geram resultados mútuos para os atores envolvidos em um sistema. Erroneamente, algumas correntes de pensamento liberal acreditam que a única forma para extinguir a velha competição entre as nações seria por intermédio da cooperação, porém, apesar dos benefícios conjuntos, a interdependência não elimina a concorrência no sistema internacional. Por outro lado, a aplicação de sanções, como forma de punição a condutas subversivas, dentro das relações de interdependência, vem a ser uma alternativa a violência.
As origens destas interações provem dos interesses nacionais, e visam pôr em prática acordos e tratados que trabalhem a favor de ganhos conjuntos. Trata-se de classificar a interdependência de várias formas, podendo ela variar entre:  ecológica, militar, política e econômica. É interessante colocarmos em pauta o contraste entre poder e interdependência, pois, no mundo globalizado, o poder soberano mais forte irá emanar do Estado mais autônomo, sendo os investimentos em tecnologia o carro-chefe do progresso.
Buscando interligar o conceito de interdependência com os primeiros passos dados pela industrialização brasileira, avaliaremos através deste artigo a interdependência do Brasil com relação as primeiras tentativas de se criar uma indústria nacional.
Na virada do século XIX para o XX, as indústrias brasileiras ainda eram indústrias leves, ou seja, a carência tecnológica e a ausência de indústrias pesadas (de base) durante este período é de suma importância para estruturar este trabalho e entender a posição do Brasil como um mercado extremamente interdependente na produção e no desenvolvimento de novas tecnologias.
Até a instauração do Estado Novo por Getúlio Vargas na década de 30, as indústrias nacionais eram fadadas ao primitivismo e ao retrocesso se comparadas as grandes potências da época. Caracterizado por industrias de bem de consumo não duráveis, o Brasil dos anos 20 era representado por uma economia agraria, principalmente cafeeira. A indústria têxtil e as demais indústrias brasileiras ainda se limitavam a pequenas fabricas e oficinas que importavam seus bens de produção.
O Brasil de fato só iria dar seus primeiros passos rumo a modernização industrial em meados dos anos trinta. A “Missão Aranha”, atendia a um convite pessoal do próprio Presidente Roosevelt para discutir o posicionamento brasileiro em função da Segunda Guerra Mundial, não foi apenas um marco para a intensificação das relações Brasil-Estados Unidos na época, como também antecedeu o que mais tarde ficaria conhecido como Os Acordos De Washington.
Em 1941, os EUA entram na Segunda Guerra Mundial, surge então a necessidade de uma parceria estratégica com o Brasil. Os Acordos de Washington tinham como principal objetivo a adesão do governo Vargas aos Aliados, quebrando a neutralidade da nação brasileira em relação a guerra. Em troca, seriam concedidos ao Brasil empréstimos de até 100 milhões de dólares para financiamento de projetos industriais que prometeriam nos tirar da posição de primários exportadores e nos colocar nos trilhos da industrialização.
A Fabrica Nacional de Motores, ou popularmente conhecida como “fenemê”, teve sua sede em Duque de Caxias-RJ e foi inaugurada em 1942 durante o governo de Getúlio Vargas. Seu propósito era a construção de motores aeronáuticos destinados a aviões de treinamento militar. Foi um dos frutos dos empréstimos estadunidenses firmados pelos Acordos De Washington. A Curtis-Wright, transnacional norte-americana, na época, considerada uma das maiores fabricantes de aviões do mundo foi quem licenciou a produção e forneceu o maquinário necessário para que o Brasil pudesse começar a desenvolver seus primeiros motores. O maquinário ficaria pronto apenas em 1946, com o fim da guerra, a produção já era considerada obsoleta e o Brasil ficaria novamente para trás, porém, desta vez com um razoável polo industrial em mãos.
Visto que o investimento estrangeiro trouxe para o país um maquinário de produção excelente, a Fabrica Nacional de Motores, em uma tentativa de manter suas maquinas em funcionamento, até 1948 produziu desde peças para trem até geladeiras e bicicletas.
O período do pós-guerra é considerado um momento de reconfiguração mundial, os países europeus haviam sido destruídos pelos violentos conflitos em seu território, e uma nova potência se instaurava no Ocidente. Através do Plano Marshall, os Estados Unidos buscaram investir bilhões de dólares afim de reconstruir alguns países da Europa, cujo o poder de consumo era interessante para reestabelecer o mercado internacional norte-americano. A Itália foi um dos países que mais se beneficiou com a verba do Plano Marshall, e segundo o site oficial do Itamaraty, 1944 foi o ano em que as relações diplomáticas entre Brasil e Itália foram plenamente restabelecidas. Sabendo que a economia italiana voltava aos eixos, o governo brasileiro toma mais uma medida de cooperação industrial, associando a Fabrica Nacional De Motores com a italiana Alfa Romeo no começo dos anos 50, afim de evitar a bancarrota.
Segundo Thomas Skidmore em sua obra: “Brasil, De Getúlio a Castelo” (1979), mais de 70 por cento dos trabalhadores brasileiros, antes dos anos 30 estavam concentrados no campo, pois a economia era de maioria agrícola. Visando o fato de que o interior brasileiro ainda era de difícil acesso, a Alfa Romeo em parceria com a FNM deram início a produção de caminhões e ônibus, que durante a época serviriam para integrar o país de forma bem rudimentar, embora que a verdadeira integração e “expansão para o oeste” brasileira só viriam a se concretizar no governo de JK.
A cooperação industrial abre as portas para um Brasil que produz por intermédio de capital estrangeiro, e que aos poucos perde sua soberania em função da instalação de bases militares norte-americanas no Nordeste brasileiro. Em troca, derramaríamos sangue nazista em solo alemão, tardiamente faríamos parte do progresso e da indústria, o Estado novo se encarregaria da gestão do povo brasileiro, até então esquecido nas lavouras de café e refém da opressão das elites paulistas, mas que no final das contas, nas garras do populismo, tinha apenas o direito de permanecer calado.
 “É importado”; “é coisa boa”, de onde vem a mentalidade brasileira de que a mercadoria que vem de fora é melhor? Se não de um tácito reconhecimento da incapacidade da indústria brasileira de produzir com qualidade, das necessidades populistas de controle de massa, da falta de investimentos em tecnologia e educação, da descarada forma que o governo da época encontrou de admitir essa incompetência, logo refletida na nossa cultura de consumo. Parece que não só as indústrias brasileiras se modernizaram através do bem de capital estrangeiro, mas a mentalidade do brasileiro comum como consumidor também se transforma, se torna até interessante imaginarmos os primeiros operários entrando na nova fábrica de motores, se deslumbrando com toda aquela tecnologia de produção importada, chegando em casa e contando pra família sobre mais um dia de trabalho, consolidando o que viria a ser a mentalidade dos futuros brasileiros e conduzindo a economia insistir nos mesmos erros.
Visualizamos através da história da Fábrica Nacional de Motores, diversas tentativas do governo de modernizar a economia através de estratégias de cooperação industrial, as fabricas estavam produzindo em solo brasileiro, a mão-de-obra era nacional, mas o maquinário de produção (bem de capital) sempre se manteve importado. A carência de desenvolvimento tecnológico industrial, ou seja, o desenvolvimento de tecnologias de produção- maquinário nacional- não era prioridade, o investimento internacional feito em solo brasileiro sempre foi a nível de mercado emergente, por mais moderna que as grandes montadoras pareçam elas não são divisões nacionais, não fornecem nem sua melhor tecnologia, nem seus melhores produtos. O fato é que até mesmo hoje em dia, o que vemos são multinacionais no Brasil e não do Brasil.

Referências:

BAER, Werner. A Economia Brasileira. São Paulo: Nobel, 1996.


KEOHANE, Robert O.; NYE JR., Joseph S. Poder e Interdependencia: La política mundial em transición. Grupo Editor Latinoamericano, 1988.

SKIDMORE, Thomas. Brasil : de Getúlio a Castello (1930-64). São Paulo : Companhia das Letras, 2010.

Documentário:


Um Sonho Intenso. Dirigido por: José Mariani.
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segunda-feira, 9 de julho de 2018

Bolsa de Mestrado do Governo Sul-Coreano: informações sobre o programa e dicas para o processo seletivo


O aluno Gabriel Thomas Dotta está concluindo o curso de Relações Internacionais neste ano e acaba de ter sido selecionado em um Programa do governo da Coreia do Sul que arcará com todos os custos (passagens aéreas, custos acadêmicos, mesada pra habitação, alimentação etc) para que ele faça seu mestrado naquele país. Ao Blog Internacionalize-se, o acadêmico compartilha informações sobre o programa e dicas para o processo seletivo. 

Parabenizamos o Gabriel por esta incrível conquista e agradecemos por compartilhar sua experiência conosco!

Confira! 


"O Korean Government Scholarship Program (KGSP) é uma bolsa do governo sul-coreano. Tendo sido um dos brasileiros selecionados neste ano (Mestrado em Ciência Política, Kyung Hee University, 2018-2021), e ciente do interesse de muitos acadêmicos na bolsa, além da necessidade de estimular outros mais a buscarem oportunidades similares, esse texto tem por objetivo explicar um pouco mais sobre o programa, seu processo seletivo e, acima de tudo, trazer dicas aos acadêmicos interessados.

            Por meio do KGSP, o governo da República da Coreia (Coreia do Sul) leva estudantes de mais de 150 países para realizarem seu mestrado ou doutorado no país. Ao Brasil são reservadas, anualmente, cerca de doze vagas: seis para a chamada Embassy Track, e seis para a University Track, que serão explicadas em seguida. Por meio da bolsa, o governo provê: passagens aéreas de ida e volta, custos acadêmicos (como matrícula, mensalidade e custos para a impressão da dissertação), um auxílio de cerca de mil dólares por mês (que deve cobrir habitação, alimentação e despesas pessoais), e seguros.

            Para o programa de mestrado, a bolsa dura três anos. No primeiro deles, o acadêmico deve dedicar-se integralmente ao estudo da língua coreana, com aulas diárias custeadas pelo governo. Para o estudo da língua, o governo coreano designa uma cidade no interior. Ao fim dele, o acadêmico deve comprovar sua proficiência no idioma para, então, nos anos seguintes, realizar o mestrado escolhido, seja ele onde for. 

            Os critérios de elegibilidade dos candidatos são que sejam nacionais de um país contemplado (como o Brasil), que dominem a língua inglesa, que tenham terminado a graduação ou estejam em seu último semestre, e que tenham o GPA (média de notas de todas as disciplinas da graduação, ponderada por créditos) acima de 80%. Podem participar do programa acadêmicos de qualquer área do conhecimento, contanto que encontrem um mestrado compatível em alguma universidade coreana.

            Segundo o edital, são priorizados estudantes de ciências materiais e naturais. No entanto, neste ano a grande maioria dos estudantes escolhidos foram das ciências sociais (Relações Internacionais, Comunicação, Psicologia, Design e outros). Por isso, a priorização de algumas ciências não exclui bons candidatos das demais áreas.

            O processo seletivo inicia-se, tradicionalmente, ao fim do mês de fevereiro ou início do mês de março, sendo o resultado final divulgado em junho e o embarque para a Coreia ocorrendo ao fim de agosto, para início dos estudos em setembro.

            Existem duas formas de se inscrever para o programa, sendo que metade das vagas é reservada para cada uma das formas. A primeira é a chamada University Track. Nesse sistema, o aluno escolhe uma (e somente uma) instituição e curso que pretende cursar na Coreia e submete sua inscrição diretamente a esta universidade. Se o estudante for aprovado pela universidade, passa para uma segunda e última etapa: a análise pelo NIIED (Instituto Nacional para Estudos Internacionais, departamento do Ministério da Educação da Coreia). Sendo aprovado nessa segunda etapa, recebe a bolsa e estudará na universidade a que submeteu a inscrição na primeira etapa.

            A segunda forma é a Embassy Track (a que escolhi), em que o processo seletivo tem três etapas. O maior diferencial é que o acadêmico pode escolher três opções de instituições. A primeira etapa é feita pela Embaixada da Coreia no Brasil, a segunda pelo NIIED e a terceira pelas três universidades escolhidas. Se for aprovado em ao menos uma universidade, recebe a bolsa e deve estudar naquela instituição; se for aprovado em duas ou mais, recebe a bolsa e pode escolher em qual delas quer estudar.

            Assim, a principal diferença está na primeira etapa, que costuma ser a mais criteriosa. No University Track, o principal crivo é feito por uma universidade escolhida; no Embassy Track, é feito pela Embaixada. Em ambos os casos, depois disso é que se passa pelo NIIED. Não existe um sistema mais fácil ou mais difícil. Em linhas gerais, o University Track é mais recomendado aos estudantes que já tenham conhecimento suficiente sobre o departamento da instituição a que querem se inscrever (por exemplo, Departamento de Relações Internacionais da Universidade X, seus professores, principais linhas de pesquisa, critérios de seleção etc.) e estejam seguros de que seu perfil esteja adequado àquela universidade específica, que será sua única opção.

            A inscrição é feita por meio do envio de um conjunto de documentos discriminados em edital publicado pelo NIIED (no caso do University Track, envio diretamente à universidade na Coreia, e no caso do Embassy Track, envio à Embaixada em Brasília). Em ambos os casos, o envio é feito uma única vez, para a primeira avaliadora. Para as etapas seguintes, o mesmo conjunto de documentos é repassado entre as instituições avaliadoras. No University Track, depois da análise de documentos, é feita uma entrevista (por Skype ou telefone) com a universidade. No Embassy Track, é feita uma entrevista (por telefone) com a Embaixada na primeira fase, e, normalmente, novas entrevistas na terceira fase com as universidades escolhidas.

            Os documentos para a inscrição são: documentos “burocráticos” gerais (diploma ou certificado de futura conclusão do curso, comprovante de nacionalidade do candidato etc.); uma carta falando sobre si e seu interesse no programa; uma carta com o projeto de pesquisa; uma carta discorrendo sobre “planos futuros após o término do programa”; duas cartas de recomendação de fontes acadêmicas; histórico acadêmico; e outros documentos opcionais (mas altamente recomendáveis): certificado de proficiência em língua inglesa, publicações científicas, e prêmios ou certificados em geral que o candidato julgue pertinentes. No caso do Embassy Track, cada documento deve ser enviado em quatro vias: uma para a Embaixada e NIIED, sendo as outras distribuídas pelo NIIED às três universidades de interesse.

            Todas essas informações, e muitas outras, encontram-se devidamente expostas no edital publicado anualmente (em inglês), normalmente em fevereiro, pelo NIIED. Ao fim do texto consta o link do edital, FAQ e formulários do processo seletivo de 2018 (raramente há qualquer alteração entre um ano e outro).

            Antes de partir para dicas a respeito do KGSP, é importante mencionar que o governo coreano não é o único que possui bolsas desse caráter. Infelizmente, costumamos olhar apenas para o eixo Europa-América do Norte, mas a Ásia e também outras regiões costumam oferecer bolsas muito atraentes (normalmente, mais que as dos governos ocidentais) para acadêmicos do mundo todo, além de serem regiões com contribuições inestimáveis tanto em conhecimento científico quanto cultura, e serem crescentes polos internacionais. O governo japonês, por meio da bolsa MEXT, e o governo chinês, com a bolsa CSC, ambos têm abordagens similares a do KGSP: cobertura integral de custos, para mestrado ou doutorado, incluindo um período para o estudo da língua. Ao fim do texto constam links para essas duas bolsas, também. 

            As dicas que dou aos interessados no KGSP são de dois tipos. O primeiro é pensado no longo prazo: atividades a serem feitas no tempo hábil anterior ao período de inscrição da bolsa e que devem ter grande efeito na avaliação durante o processo seletivo. O segundo diz respeito à inscrição em si: documentação, entrevistas etc.

            Aos que ainda têm tempo na graduação, a principal dica que dou é atenção aos estudos e às notas. Bem sabemos que o sistema de avaliação universitária é bastante débil e injusto. Porém, o GPA ainda é visto como um dos principais critérios de seleção na bolsa. Isso não quer dizer que aqueles que tenham o IRA entre 8 e 9 não tenham chance no programa (especialmente se se destacarem em áreas como atividades extracurriculares), mas sim que, quanto maiores suas notas, maiores suas chances com a bolsa. Por isso, é primordial tentar manter notas altas ao longo da graduação.

            Outra dica é que se dediquem a atividades extracurriculares ao longo ou após a graduação. Minha principal recomendação é que tentem publicações em revistas. Embora o envio de publicações não seja obrigatório, é muito bem visto. O mesmo se aplica a apresentação de pesquisas em eventos acadêmicos. Outras atividades também são importantes: centro acadêmico, voluntariado em ONGs, monitoria e também estágio – tudo isso pode entrar na seção “awards” da inscrição e é muito bem visto. Essas atividades indicam o potencial do candidato de “aplicar” o conhecimento adquirido durante seus estudos, além de provar sua capacidade de engajamento acadêmico.

            Também recomendo que os interessados busquem, de alguma forma, se engajar em atividades relacionadas à Coreia (ou Japão ou China, no caso das outras bolsas), como eventos promovidos pela Embaixada ou mesmo pesquisa acadêmica que se relacione ao país. Isso mostra que sua decisão em se inscrever no programa foi pensada com antecedência e que você tem conhecimento acerca do país.

            Passo agora a dicas para a inscrição em si. A dica, de longe, mais importante que dou é: seja “pragmático” – reflita sobre os objetivos, declarados ou não, do governo estrangeiro com aquele programa, que envolve vultuosos recursos, e adapte sua inscrição a isso. No KGSP, os objetivos declarados em edital são “promover as trocas internacionais no âmbito da educação” e “fortalecer os laços de amizade entre os países”. A isso se somam alguns objetivos tácitos que podemos presumir, como a propagação da boa imagem da Coreia do Sul no mundo e a promoção do desenvolvimento dos países parceiros. Tenha isso em mente em todo o processo seletivo – na seleção dos certificados, na decisão do objeto de pesquisa, na redação das cartas e nas entrevistas. 

            Nas cartas, encontre uma forma de demonstrar que sua participação é adequada aos interesses do governo sul-coreano: que, no futuro, você conseguirá contribuir para o alcance da academia coreana; que sua atuação terá um “efeito multiplicador” do aprendizado adquirido; e que de alguma forma contribuirá para as relações entre a Coreia e o Brasil. Suas experiências anteriores à inscrição são as melhores formas de se demonstrar tais potenciais. No âmbito do projeto de pesquisa, pense, por um lado, na expertise daquele país no tema, e, por outro, na relevância social desse tema para o Brasil. Pouco adianta um projeto cientificamente ótimo se o governo daquele país o considere de pouca relevância internacionalmente, ou se naquele país o tema tiver pouco espaço nos debates acadêmicos. No caso da Coreia, um (mas não o único) tema clássico nesse sentido, no âmbito das ciências sociais, é o desenvolvimento. 

            O segundo ponto de maior importância é: tenha todo o cuidado do mundo com a parte “burocrática” da inscrição. Quais documentos devem ser enviados, em quantas vias, validados de qual forma (tradução, autenticação etc.), separados de qual forma, dispostos em qual ordem etc. A organização dos documentos, conforme trazida pelo edital, é extremamente minuciosa e deve ser seguida de forma rígida. A Embaixada já se pronunciou em um comentário dizendo que há candidatos muito bons, mas que são preteridos por pequenos erros na organização da documentação.

            Outro ponto extremamente importante, e que está associado à dica acerca dos objetivos do programa, é demonstrar que você possui amplo conhecimento acerca do país. Isso pode ser feito de várias formas: por meio da exposição de experiências prévias relacionadas ao país, na sua justificativa do porquê de estar interessado no programa etc. Isso está associado tanto ao objetivo de contribuir para a projeção internacional do país no futuro quanto à garantia de que não haja a desistência na bolsa. A título de exemplo, em um comentário a Embaixada disse uma vez que “há candidatos academicamente muito aptos, mas para os quais falta o ‘elemento Coreia’”.

            No meu caso, pesou muito o fato de ter tido uma experiência passada no país, também em razão de bolsa de pesquisa do governo. No entanto, dos selecionados deste ano apenas eu e outra candidata já receberam alguma bolsa desse tipo, e vários dos candidatos nunca estiveram na Coreia – mas de alguma forma mostraram conhecimento acerca do país, por exemplo, por meio de suas pesquisas ou participação em eventos.

            Também é interessante mostrar que você não terá dificuldade excessiva no aprendizado da língua ou na adaptação à cultura. Caso tenha alguma experiência prévia no exterior – mesmo que apenas a turismo – ou mesmo de convivência em ambientes internacionais no Brasil, e/ou no aprendizado de alguma língua estrangeira além do inglês, estas são ótimas formas de se demonstrar isso.

            Além de, sempre que possível, enviar certificados relacionados às questões que coloquei, não hesite em trazê-las ao longo da redação das cartas – associando-as expressamente aos objetivos do programa e a questões que presumimos serem de interesse ou preocupação do governo coreano. Acredito que seja muito bem visto pelo governo o fato de o candidato estar ciente dessas questões “tácitas”, como a supremacia dos objetivos do programa, a adaptabilidade e o conhecimento sobre o país.

            Uma dica final é: pesquise bastante acerca do programa. Leia os posts passados da Embaixada sobre a inscrição, as interações da Embaixada com os candidatos no facebook e procure vídeos no youtube de pessoas que receberam a bolsa e dão dicas sobre a seleção. Embora cada caso seja sempre um caso, é bastante útil ter em consideração o máximo de experiências positivas passadas que se puder.

            Por fim, é importante colocar que essas dicas são baseadas em minha experiência com o processo seletivo. Não há uma “fórmula de ouro” para a inscrição, e entre os aprovados deste ano constam pessoas bastante diversas. Acima de tudo, é importante que cada um tenha ciência de seus pontos fortes e fracos, e a partir de uma leitura criteriosa do edital, molde sua inscrição com base nisso – tendo sempre em horizonte o objetivo de convencer os avaliadores de que se é “um bom investimento” no contexto do programa. Me coloco a inteira disposição para tirar dúvidas específicas dos interessados e espero que cada vez mais pessoas se interessem pela educação nesses países".

Gabriel Thomas Dotta - gabriel_dotta@hotmail.com

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sexta-feira, 6 de julho de 2018

Redes e Poder no Sistema Internacional: A política de tolerância zero de Trump e a vulnerabilidade das crianças que emigram


A seção "Redes e Poder no Sistema Internacional" é produzida pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Redes e Poder no Sistema Internacional (RPSI), que desenvolve no ano de 2018 o projeto "Redes da guerra e a guerra em rede" no UNICURITIBA, sob a orientação do professor Gustavo Glodes Blum. A seção busca compreender o debate a respeito do tema, trazendo análises e descrições de casos que permitam compreender melhor a relação na atualidade entre guerra, discurso, controle, violência institucionalizada ou não e poder. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.

Política de Tolerância Zero de Trump e a vulnerabilidade das crianças que imigram

Suelyn Bidas *

Nas últimas semanas, todos os olhos se voltaram para os Estados Unidos da América, graças a uma fotografia. Nela, várias crianças aparecem desacompanhadas, deitadas sobre finos colchonetes estirados ao chão e com apenas mantas aluminizadas sobre seus corpos, enquanto totalmente cercadas por grades. São as vítimas da chamada nova política de migração de “tolerância zero” do governo de Donald Trump.

Segundo essa nova política, os imigrantes que forem pegos cruzando a fronteira de maneira irregular não serão mais apenas deportados, mas sim processados criminalmente e julgados em tribunais federais norte-americanos. Mesmo os que vieram para pedir asilo (o que não é ilegal) são separados de seus filhos na fronteira. Essas crianças ficarão sob a custódia do chamado “U.S. Department of Health and Human Services”, órgão governamental que ficará responsável por alocar cada criança com um familiar, um tutor voluntário ou em um abrigo. Segundo funcionários da administração Trump, essa é, acima de tudo, uma maneira de desencorajar a “imigração ilegal”.

Após serem colocadas sob a tutela de um familiar ou tutor, as crianças aguardarão os devidos procedimentos legais, e é aí que um fato ainda mais estarrecedor vem à tona: crianças, tão jovens quanto três anos de idade, estão sendo obrigadas a comparecer sozinhas perante o juiz que decidirá seu destino. Crianças em tribunais de migração simplesmente não têm direito a um defensor público gratuito.

Apesar disso, essas crianças têm o direito de serem representadas por advogados de ONG’s ou escritórios de advocacia que trabalham com casos pro bono. O que acontece, porém, é que muitas delas não conseguem acesso a nenhum destes, que não têm recursos suficientes para atender a enorme demanda de casos que lhes são apresentados.

Não é uma tática nova fazer menores desacompanhados passar sozinhos pelo processo de deportação. Porém, desde a efetivação da controversa política de migração de Trump, mais crianças estão sendo afetadas. É provável que as mais de 2.000 crianças que foram separadas na fronteira desde abril terão que lidar com o processo legal de deportação sozinhos, ao mesmo tempo em que vivenciam o trauma de terem sido arrancadas de seus pais. Geralmente, os pais que eram julgados junto a seus filhos é que explicavam ao juiz as condições de violência e violação de direitos fundamentais em seus países de origem que os fizeram migrar para os EUA. 

Muitas vezes, só os pais da criança estão cientes dos motivos pelos quais a família fugiu de seu país e a falta deles perante o julgamento coloca a criança em uma posição de extrema desvantagem. Segundo dados coletados pela Universidade de Siracusa, entre 2015 e 2017 cerca de 300 mil crianças desacompanhadas tiveram que comparecer sozinhas a audiências de deportação, ao que metade delas não possuía representação legal. Uma criança que não tem advogado é quatro vezes mais propensa a receber uma ordem de deportação.

No tribunal, o procurador argumentará pela deportação da criança. Em teoria, a criança sem representação legal tem a oportunidade de se defender das acusações e apresentar as evidências e argumentos a seu favor. Isso, porém, não funciona na prática, uma vez que uma criança não tem a capacidade e discernimento para exercer esse direito por si só.

Atualmente, não existem regras ou diretrizes indicando qual a idade mínima para que uma criança possa ser obrigada a se defender sozinha perante um tribunal. O judiciário provê um tradutor, caso seja necessário, mas é discricionariedade dos juízes adiar as audiências para que a criança tenha tempo de obter representação legal. Lindsay Toczylowski, diretora executiva do Centro de Defensoria de Imigrantes de Los Angeles (Immigrant Defenders Law Centre), segundo veiculado pela ONG “Kaiser Family Foundation”, contou que recentemente representou uma criança de três anos que havia sido separada dos pais. No meio da audiência, esta começou a subir em cima da mesa, o que, para Lindsay, evidenciou o quão absurda é essa situação.

Após a polêmica trazida pela divulgação da foto, Trump cedeu à pressão internacional e assinou uma ordem executiva para cessar a separação de famílias na fronteira (apesar de dias antes ter declarado que isso só poderia ser feito por meio do congresso, e nunca por ordem executiva). Nessa ordem, porém, não há diretrizes sobre os casos em que as famílias já foram separadas. Foi um juiz federal da Califórnia quem ordenou que elas fossem reunificadas em um prazo de 30 dias. Enquanto isso, as crianças ainda se apresentarão sozinhas perante tribunais de imigração.

É evidente, portanto, que ainda serão necessárias muito mais medidas e esforços por parte do governo dos EUA a fim de sanar as inúmeras consequências da política de tolerância zero.


* Suelyn Bidas é acadêmica do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA), e pesquisadora do Grupo de Pesquisa "Redes e Poder no Sistema Internacional".
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