quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Análise crítica do discurso Primeiro Ministro canadense, Justin Trudeau, na Assembleia Geral da ONU em 2016.

Artigo apresentado na disciplina de Análise em Política Externa e Relações Internacionais, ministrado pela Profa Dra Janiffer Zarpelon, do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba. As opinões retratadas no artigo pertencem aos seus autores, e não representam a posicionamento da instituição. 






* Erlon Murilo da Silva Madeira
 

O discurso do Primeiro Ministro Justin Trudeau na Assembleia Geral da ONU marca um novo rumo de política externa a ser seguido pelo Canada, que não somente deseja ser lembrado como um pioneiro em questões ecológicas e humanitárias, além de sua conhecida hospitalidade para refugiados, e orgulho por seu multiculturalismo, mas também usar esses argumentos como forma de ganhar espaço no tabuleiro internacional. Semelhante ao que acontece com a Alemanha, o Canadá se enquadra num segundo escalão global de influência política, apesar de ter economias e qualidade de vidas em excelentes níveis, visa subir alguns degraus de influência ao mostrar preocupações com problemas que muitos países não se podem dar ao “luxo” de discursar na tribuna, pelo fato de terem preocupações mais pertinentes a serem discutidas. Trudeau usa este tempo focar em crescimento sustentável, questões de gênero que estariam dificultando a experiência feminina no mercado de trabalho, preocupação com o ingresso de jovens no mercado e crescimento sustentável.
Por ter condições sociais e econômicas muito melhores que boa parte dos membros da ONU, o Canadá pode se desenvolver em áreas que requerem certo nível de infraestrutura interna de alta qualidade, e usar o espaço de discurso na ONU como forma de mostrar sua aptidão à desempenhar papéis de maior visibilidade no cenário político internacional, sem deixar a “humildade” de lado, assumindo equívocos que o governo canadense teve ao se relacionar com povos nativos ao longo de sua história. O Primeiro Ministro não hesita em colocar o Canadá abertamente como candidato a liderar missões pela ONU também, mostrando disposição em utilizar expertise militar em prol de ações humanitárias da organização. Ao fim do discurso, o Ministro cita ainda a grande acolhida canadense à onda de imigração Síria, reforçando a importância que seu país dá às diferenças culturais, religiosas e étnicas, colocando a diversidade como motivo de orgulho e força do povo canadense, mais uma vez utilizando um ponto muito forte para atribuir uma boa imagem ao Canadá, sendo interrompido por aplausos dos demais membros.
Fazendo uma análise crítica deste discurso, é claro o descontentamento que o Canadá tem em ainda ser considerado um anão político. O discurso se deu num período que antecedia as eleições norte americanas, e o Primeiro Ministro deixa implícita sua desaprovação quanto aos ideias mais restritivos na questão migratória que tem o atual presidente Trump, mostrando assim a disposição que o Canadá está assumindo em se destacar no cenário internacional. Trudeau é frequentemente associado à uma figura mais liberal e progressista por ser muito jovem para o cargo que ocupa, e por suas ações à frente do poder político canadense, como a nomeação de muitas mulheres e pessoas de diferentes etnias e religiões ao formar seu corpo ministerial. Essa grande diversidade representada oficialmente nos gabinetes oficiais, é trabalhada no discurso como uma grande vantagem e motivo de orgulho aos canadenses, numa tentativa de amenizar os diversos conflitos e grandes desentendimentos que o governo canadense teve ao longo de muito tempo, com os povos nativos indígenas, evidenciado num formal reconhecimento de que nem sempre o Canadá consegue ser exemplar.

Como todos os países fazem em seus discursos, versando mais contundentemente em áreas de domínio, o discurso canadense de “good guy” é usado até como tentativa de piada para quebrar gelo no início do discurso quando o Ministro diz que “canadenses são muito educados, até mesmo para reclamar”. O papel progressista e acolhedor do Canadá não é novidade, esta política esta presente à muito tempo e é uma identidade nacional, mas com a recente onda de refugiados de guerra e a reafirmação de que sim, o Canadá ainda está de braços abertos para receber quaisquer religiões e etnias que necessitem de abrigo, passa a ter maior foco frente à manifestações nacionalistas que vem crescendo na Europa, que não estão tão dispostas a receber refugiados como o Canadá se mostra, fazendo que o discurso seja entendido como um “puxão de orelha” aos demais países que se eximem de receber refugiados, ou pelo menos não são tão adeptos à recebe-los. Ao final do discurso, Trudeau ainda coloca as forças armadas canadenses à disposição da ONU, mostrando pro-atividade em ter seu pessoal militar engajado em operações além de suas fronteiras, de modo que expanda sua influência no cenário internacional.

Erlon Murilo da Silva Madeira: aluno do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba.
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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Redes e Poder no Sistema Internacional: Os conflitos internacionais, a violência e as Relações Internacionais



A seção "Redes e Poder no Sistema Internacional" é produzida pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Redes e Poder no Sistema Internacional (RPSI), que desenvolve no ano de 2017 o projeto "Redes da guerra e a guerra em rede" no UNICURITIBA, sob a orientação do professor Gustavo Glodes Blum. A seção busca compreender o debate a respeito do tema, trazendo análises e descrições de casos que permitam compreender melhor a relação na atualidade entre guerra, discurso, controle, violência institucionalizada ou não e poder. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.

Os conflitos internacionais, a violência e as Relações Internacionais

Gustavo Glodes Blum *


Durante o ano de 2017, o Grupo de Pesquisa “Redes e Poder no Sistema Internacional” – RPSI se dedicou ao estudo dos conflitos internacionais. Dentro deste projeto, denominado “As redes da guerra e a guerra em rede”, buscamos, tanto coletiva como individualmente, trazer para a discussão das Relações Internacionais questões relevantes para a compreensão destes mesmos conflitos. E, a partir deste momento, os membros do RPSI passarão a trazer, para este espaço no Blog Internacionalize-se, alguns dos resultados de suas pesquisas - e tive a honra de poder começar a debater alguns dos elementos importantes que debatemos até agora.

Um primeiro elemento a se considerar quando analisamos os conflitos internacionais é a sua composição. Não há como analisar os conflitos internacionais sem tentar entender quais são as partes envolvidas, e nem a forma como elas se relacionam com processos socioespaciais relevantes para a evolução daquela questão, e o uso da violência no Sistema Internacional. Isso decorre do fato de que, como afirma Hew Strachan (2013), “A guerra é (...) não a aplicação unilateral de políticas, mas o produto de trocas recíprocas entre propostas políticas diversas” (p. 13). Se consideramos que a guerra é marcada pela multilateralidade, então torna-se necessário compreender o envolvimento destas partes, sendo que elas podem tanto ser beligerantes no conflito como partes envolvidas no processo de forma indireta.

Como, porém, compreender a intencionalidade destes atores? Por serem processos sociais, as guerras envolvem, necessariamente, estes agentes socioespaciais. E, se eles agem – mesmo em direção ao uso da violência como um todo – isso significa que o desenvolvimento das práticas de uso da violência direcionado à eliminação ou neutralização do inimigo traz, consigo, intenções e motivações. 

Poderíamos afirmar que as intenções são aquilo que alguém ou algum grupo pretende realizar, o objetivo de qualquer ação, uma vez que a realização de algum ato nunca é desinteressada, nem não-intencional (SANTOS, 2012; FOUCAULT, 2014). Ao utilizar a violência ou aplicar práticas de guerra, os grupos organizados em torno dos conflitos internacionais buscam atingir seus objetivos, sejam eles bem específicos e materialmente delimitados (como no caso das guerrilhas), sejam delineados em grandes temas de caráter quase transcendental (como é o caso do terrorismo nacionalista ou religioso). O uso da violência aparece como a forma necessária para atingir esse objetivo, e por isso compreender as intenções das partes é algo tão importante.

Por sua vez, as motivações podem ser consideradas as causas de desenvolvimento das ações, o que significa dizer que são as causas conforme interpretadas pelos atores beligerantes, que levam à tomada de ações com o cunho de participar, envolver-se ou inclusive se sobrepor ao conflito. Essas causas, porém, não podem ser consideradas causas individuais, já que seria simplificar os diversos processos sociais e históricos pelos quais passam esses grupos beligerantes. Assim, as guerras sempre devem ser compreendidas a partir de uma perspectiva longa duração, seja através da ideia de forças profundas de Pierre Renouvin e Jean-Baptiste Duroselle, seja através da ideia de longas curvas de Ferdinand Braudel. 

Assim, analisar o jogo de forças de todas essas naturezas se apresenta como um método interessante para compreender a forma como os agentes beligerantes formularam suas motivações para agir através do uso da violência. Da mesma forma como os discursos justificadores da ação, e as cosmovisões dos beligerantes, as forças profundas nos permitem uma leitura contextual muito importante para que os conflitos possam ser encarados não como uma questão superficial, mas sim como “sintomas” de processos muito mais profundos e mais relevantes para a sua compreensão e, em última instância, sua resolução.

Fazer a relação entre os conflitos, o uso da violência e as Relações Internacionais, porém, exige debater com profundidade alguns elementos que permitem nos compreender a forma como esses elementos interagem entre si. Um aspecto relevante, por exemplo, é compreender a forma como estes conflitos interagem com outras regiões mundiais, ou se ele permanece circunscrito ou não à região onde se originou. Aí, dois conceitos geográficos podem auxiliar: a ideia de mobilização dos agentes socioespaciais e a amplitude do fenômeno – a escala (CASTRO, 1995) – e a forma como as ocorrências da violência afetam outras áreas do Sistema Internacional – as verticalidades e horizontalidades dos conflitos (SANTOS, 2012).

Por fim, uma última discussão que se faz necessária é a percepção a respeito da relação entre as partes envolvidas em sua dinâmica de conflito. Ao longa da pesquisa, nos pareceu interessante perceber que as definições tradicionais sobre a guerra surgiram apenas neste local, uma vez que percebem a guerra como combate, o que são questões diferentes e que estabelecem resultados diferentes dentro das suas análises. As categorias que utilizamos foram a de simetria jurídica, de capacidade e de números entre as partes; os meios utilizados para alcançar os objetivos da guerra; o tipo de armamento utilizado; e, os métodos de destruição utilizados durante o conflito. Ao longo deste semestre, os pesquisadores do RPSI apresentarão os resultados de suas pesquisas também a partir desta metodologia.

O que buscamos, ao longo deste projeto, é apresentar algumas discussões que devem ser aprofundadas sobre os conflitos internacionais. Nos parece que, embora tenham sido alvo de diversas discussões ao longo da história, os conflitos internacionais não têm recebido a devida atenção dos analistas das Relações Internacionais enquanto fenômeno social, e não enquanto problema a resolver. Desta maneira, esperamos que os debates aqui apresentados permitam discutir melhor a questão, assim como apresentar algumas possibilidades de análise.

Assim, as pesquisadoras e os pesquisadores do RPSI divulgarão dois tipos de textos ao longo deste semestre. Em uma primeira rodada, apresentarão a discussão que realizaram a respeito de seis tipos específicos de conflitos internacionais: as Guerras Tradicionais, as Guerrilhas, os Extermínios, a Guerra Contra o Terrorismo e o caso da Tecnologia aplicada à Guerra. Em um segundo momento, apresentarão, nesse espaço, os resultados das pesquisas individuais que estão desenvolvendo. Assim, convidamos a todos da comunidade acadêmica e interessados no tema a debaterem, em conjunto conosco, estes temas tão relevantes na atualidade.


REFERÊNCIAS
CASTRO, Iná E. de. O problema da escala. In: CASTRO, Iná E. de; GOMES, Paulo C. da C.; CORRÊA, Roberto L. Geografia : Conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 1 : A vontade de saber. São Paulo: Paz e Terra, 2014.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço : Técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2012.

STRACHAN, Hew. The direction of war : Contemporary strategy in historical perspective. Cambridge, Reino Unido: Cambridge Univesity Press, 2013.


* Gustavo Glodes Blum é Internacionalista e Mestre em Geografia, especializado em Geografia Política e Política Internacional Contemporânea. É professor do curso de Relações Internacionais do UNICURITIBA e orientador do Grupo de Pesquisa "Redes e Poder no Sistema Internacional".
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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Por que comemorar os cem anos da Revolução Russa?

Artigo apresentado no curso de extensão “História, Cultura e Poder", ministrado pelo Prof. Eduardo Teixeira de Carvalho Junior, no Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA). As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.



* Por: Raphael Rigoni Rodrigues 

Completando cem anos em outubro deste ano, a Revolução Russa é provavelmente o maior símbolo histórico do século XX. Em menos de cinquenta anos a Rússia, um feudo atrasado, se tornaria a segunda maior potencia industrial do mundo, controlando por sua influencia metade do mundo. Por esses e outros motivos ela merece ser lembrada e estudada.
A Revolução Russa foi um movimento além do seu tempo e ficará marcada por toda historia. A revolução foi comandada por Vladimir Lenin que depôs a família imperial dos Romanov, líderes do Estado Russo desde o século XVI. A revolta popular era clara, a Rússia de 1917 era um Estado majoritariamente rural e atrasado que ainda vivia das glórias do passado, afundado em crises internas, em meio a uma guerra onde russos eram massacrados, a comida não era suficiente e o czar mais impopular que nunca. A revolução nos olhares populares representou mais do que simplesmente uma mudança, mas uma esperança de um povo desacreditado em seus czares. Ao decorrer dos anos os Romanov adquiriram uma fortuna dificilmente igualada pelos maiores dos burgueses, porém o povo russo somente poderia sonhar com o esplendor real da família imperial. Quando Lenin surge e fala para o trabalhador, a própria teoria Leninista foi moldada de acordo com as necessidades do povo russo, como a união do trabalhador do campo e do trabalhador urbano. Pela primeira vez em muito tempo alguém falava para a população. Dos primeiros passos de uma insatisfação popular até a morte de um Rei, qualquer semelhança entre as revoluções Russa e Francesa não é mera coincidência, se olharmos nas mentes dos dois principais nomes da revolução de outubro, Lenin e Trotsky, vemos o grande impacto deste evento na elaboração das teorias revolucionarias dos bolcheviques, um revolucionário francês em Moscou em 1920 teria dito “Eles conhecem a revolução francesa melhor que nós” (Hobsbawm, 1996, p. 73 e 62).
Ocorrendo 128 anos antes, a Revolução Francesa não foi um fenômeno isolado, mas sim uma dentre outras revoluções que tomaram forma no final do mesmo século. Entretanto foi a mais fundamental, sendo muito mais radical que qualquer outro levante, representou o fim não só de uma dinastia, mas de todo um sistema.  Representado a primeira republica moderna europeia, simboliza o inicio de um novo tempo, e por consequência o fim de outro. Ela surge primeiramente da insatisfação da população francesa em relação a sua monarquia. A burguesia, com o apoio das classes mais baixas, acabaria por degolar o rei, sua esposa, mas não só eles, toda a estrutura de mundo antigo e seu sistema. A Revolução Francesa representou para o mundo da sua época algo nunca visto antes. A completa destruição do status quo, da tomada de Bastilha até os dias finais da revolução, ela só tinha um objetivo, o povo. Segundo Hobsbawm (2010) ela não foi liderada por um partido ou movimento organizado, nem ao menos chegou a ter lideres, o que a difere da maioria dos outros movimentos, geralmente centrados na figura de uma única pessoa. Foi o consenso geral de ideias de um grupo social coerente que deu ao movimento uma unidade, esse grupo foi a burguesia. Porém fazendo uma referência ao livro Revolução dos bichos de George Orwell “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que os outros”.
A Revolução Francesa, por sua vez, deu o terreno necessário para o desenvolvimento da burguesia, semelhante à Revolução Russa, grande parte da massa era constituída por membros das classes mais baixas, os Sans-Coulouttes, entretanto foram os burgueses, que no controle politico revolucionário, colheram os frutos da revolução. Pode-se dizer que a Revolução Russa surge como uma consequência inevitável da Francesa, surgindo como um processo de maturação. Como citado anteriormente a burguesia foi a força motriz para os franceses e eles fariam o possível para salvaguardar seus direitos. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão em seu primeiro artigo define “Todos os homens nascem e são livres e iguais em direitos”. Porém neste mesmo artigo reconhece distinções sociais em utilidade comum e ainda assume a propriedade privada como um bem natural e inviolável.
Por outro lado, a Revolução Russa, influenciada pelas ideias marxistas, enxerga na burguesia um inimigo, a guerra de classes. Ela teria como foco o russo comum, o trabalhador. Fazendo uma referência a Revolução Francesa, a Revolução Russa foi uma continuação por outros meios, foi uma Revolução de Sans-Culottes. O nome vem de um grupo da revolução francesa de mesmo nome, eram os membros das classes mais baixas ou lideres entre os comuns. Seu nome vem do Francês “Sem Calções”, vestimenta associada aos membros das classes superiores. A ausência de uma burguesia russa influenciou muito no formato da sociedade soviética, uma vez que a população era majoritariamente dividida entre nobres e ex-servos.
A Revolução Russa merece ser lembrada, pois como sua antecessora francesa teve um papel de destaque na formação de uma maneira diferente de se ver o mundo, a quebra de status quo. Em primeira vista a União Soviética pode ter acabado em 1989, e sua influencia direta pode ter também se exaurido com o tempo, mas seus impactos sociais estarão para sempre presentes no mundo. O mundo nunca mais foi o mesmo depois de 1917, assim como 1789. Os lideres de Estados vizinhos, tiveram que lidar com uma situação nunca vista antes, a justificação de poder que fugia do socialmente aceito. Em 1789 foi quebrada a relação soberano e servo, pela primeira vez a liberdade, igualdade e fraternidade foi mostrada ao mundo, a França pós-revolucionaria estenderia seus domínios de Portugal até a Polônia e da Normandia até o sul da Sicília, um Estado do povo havia subjugado seus inimigos monarcas e espalhado os ideais de sua revolução pelos quatro cantos da Europa.
Já em 1917, o individuo quebra as correntes que o aprisionavam em classes, a paz, o pão e terra foram cobrados de cada nobre e a Rússia czarista de servos e proletários, tornara-se a primeira republica socialista do mundo. Essa que vivia uma situação de quase pleno emprego, enquanto em 1930 os países capitalistas enfrentavam a pior crise da historia. Vale lembrar que em 1945 os russos colocariam sua bandeira sobre o Reichstag. Mas mais que isso a Revolução Russa mostrou para o mundo uma coisa ainda maior, como uma fênix, ela nos mostrou que existe sim uma forma diferente de se pensar, diferente do status quo. Afinal, não existe muita diferença entre o pão, a paz e a terra e a liberdade a igualdade e a fraternidade. Quando colocada em perspectiva, a Revolução Russa demonstra muito mais para a humanidade do que ela própria: a luta de toda sociedade pela liberdade. Toda uma luta inerente a qualquer sociedade.

Referencias Bibliográficas
FLORENZANO, M. A Revolução Russa Em Perspectiva Histórica e Comparada. São Paulo. 2008.
HOBSBAWM, E.  Ecos da Marselhesa: dois séculos reveem a Revolução Francesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
HOBSBAWM, E. A Era Das Revoluções. Rio De Janeiro. Paz & Terra, 2010.

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terça-feira, 5 de setembro de 2017

Os BRICS e o Impulso à Cooperação Econômica




A seção "Refletindo sobre a Economia" traz textos desenvolvidos pelos alunos na disciplina de Economia Brasileira, sob a orientação da professora Patricia Tendolini Oliveira. A seção busca debater diversos aspectos relacionados à economia e sua importância no mundo atual. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.




Os BRICS e o Impulso à Cooperação Econômica
Otávio Bomfim*



As crises nos sistemas de cooperação econômica global não são tão recentes. As contradições entre os interesses da minoria de grandes potências e a maioria de nações mais “fracas” vêm se concretizando em obstáculos à globalização econômica há décadas. Não obstante, a pressão exercida pelos poderes relativos dos países centrais sobre os periféricos, seja diretamente ou por meio de instituições internacionais (como o FMI), acabou por garantir o desenrolar de um processo globalizatório prepóstero, inadequado e desigual. A Terceira Revolução Industrial acompanhou o processo supracitado, estendendo ainda mais o gap tecnológico entre os países desenvolvidos e os subdesenvolvidos, tendo este um caráter ainda mais intransponível. Nesse âmbito, os múltiplos desafios impostos ao processo de integração econômica global, como o Brexit e a retirada dos EUA da Parceria Transpacífico, abrem espaço para tentativas de inserção de players regionais no protagonismo desse processo.
Evidente o papel importantíssimo das instituições internacionais na manutenção da hierarquia no sistema internacional, é óbvia a necessidade da criação de instituições cooperativas entre os BRICS, como uma agência de classificação de risco de crédito, uma agência de energia e o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), que os tornem independentes da influência massiva de atores mais poderosos. Nesse sentido, a Rússia demonstra grande interesse num aumento dos investimentos mútuos dentro do grupo, enquanto a China defende a participação de novos países que sejam associados às nações dos BRICS, como integrantes do Mercosul. A vontade de expansão expressa pelos dois membros mais economicamente imponentes do grupo é, de forma indubitável, um sinal de que essa cooperação tende a crescer e a se diversificar. Em detrimento da benevolência entre países parceiros, a associação em questão se dá por interesses nacionais próprios, como a necessidade dos russos em manter a exportação de gás e óleo (frequentemente dificultada por sanções ocidentais), esta apoiada financeiramente por corporações indianas e chinesas.
Embora o PIB de alguns países dos BRICS tenha crescido menos ou até, no caso do Brasil, por exemplo, tenha diminuído, a relevância do grupo continua elevada. O NBD possibilita a criação e o incentivo de projetos de desenvolvimento de forma independente ou complementar às indicações do FMI. A própria discussão sobre a criação do Novo Banco de Desenvolvimento originou-se da resistência à reformas do FMI, este, assim como as grandes potências econômicas, completamente deslocado da realidade dos países emergentes. Os BRICS, então, deixaram a retórica de lado para colocar em prática um processo de integração horizontalizado, de crescimento e de cooperação, negado pelo FMI.
Bartleby, personagem do conto de Herman Melville, sempre que recebia alguma ordem em seu trabalho, respondia: “Eu preferiria não fazer”. Não enfrentava diretamente seu superior, pois sabia da ineficácia desse tipo de ação, mas também não se rendia. Os BRICS, paralelamente, tomam atitudes e assumem discursos retóricos similares ao de Bartleby. Não confrontam as potências, apenas tentam livrar-se de sua órbita de influência, sem que isso impeça uma cooperação entre o grupo e os países desenvolvidos. Não se trata, portanto, de um movimento de resistência per se, mas de um movimento de quebra com a lógica do alinhamento automático preeminente na Guerra Fria.
O novo paradigma proposto, mesmo que indiretamente, pelos BRICS não se constitui em bases maniqueístas, mas sim de um desenvolvimento multilateralizado, multipolarizado e flexível. Diferentemente dos Tigres Asiáticos (denominados dessa maneira os países asiáticos que investiram na educação de produtividade e basearam seu crescimento econômico e industrial na exportação de produtos), o Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul buscam o desenvolvimento completo de suas economias e sociedades, entrando no mercado global como competidores, não como subordinados ao capital transnacional.
A quebra com as relações de extrema dependência entre os países emergentes e as potências, baseadas em uma espécie de Síndrome de Estocolmo econômica, mostra-se como uma alternativa após as diversas crises do fim do século XX , estas causadas pela total subordinação do desenvolvimento econômico dos países subdesenvolvidos à liquidez internacional, fato que promovia a instabilidade frente à modificações no cenário global.
Na segunda década do século XXI, as contradições das “potências emergentes” começam a se evidenciar. Os EUA, apesar de não possuírem mais o status de hegemonia política, econômica e militar, ainda representam uma nação indispensável no sistema internacional. Nesse sentido, seu poder de barganha continua a colocar em xeque as tentativas de liderança institucionais dos BRICS, principalmente da China e da Rússia. Ademais, apesar de insuficiente, o apoio europeu continua sendo de grande importância para os EUA e, paralelamente, para as nações emergentes. Embora o poder relativo europeu tenha sofrido golpes consecutivos de crises econômicas e políticas, a relevância do continente continua colossal. Finalmente, o crescimento implacável da economia chinesa constitui-se como um monstro lovecraftiano aterrorizante às nações vizinhas, que, ironicamente, buscarão apoio estadunidense para resistir à aniquilação de suas independências econômicas.
As dificuldades de subversão do sistema internacional pelas economias emergentes não se restringem à realpolitik bilateral ou multilateral. A participação mais significativa em instituições formais já estabelecidas, como  o Conselho de Segurança da ONU, dependeria exponencialmente do apoio estadunidense. As instituições atualmente estabelecidas para o controle dos poderes estatais buscam a estabilidade que, invariavelmente, beneficia o status quo. Nesse sentido, criam-se as Sociedades Permissivas de Zizek, que recebem permissões de seus superiores, mas não conquistam seus direitos e sua posição de comando. Além disso, alguns dos BRICS têm, recentemente, experimentado crises econômicas e instabilidades políticas fortíssimas, derivadas de fraquezas institucionais.
Embora obstáculos se apresentem, o desenrolar da formação e do recrudescimento dos BRICS é recheado de expectativas. Para além do NBD, progressos como a criação do Arranjo de Contingente de Reservas, uma espécie de fundo para socorrer membros dos BRICS com balanças de pagamentos extremamente desequilibradas ou à beira do calote, a abertura de canais de diálogo entre os membros para uma maior coordenação entre as suas ações e a cooperação em áreas diversificadas (educação, infraestrutura etc), sinalizam a capacidade e a viabilidade do sucesso do bloco. Em contrapartida, o crescimento econômico constante é necessário para a eficácia ao ocupar posições de maior relevância no cenário internacional, e essa parece ser a maior dificuldade para membros como o Brasil e a Rússia. Invariavelmente, a integração e a cooperação econômica regionais apresentam-se como soluções plausíveis para momentos de crise da globalização, e a tendência é de que parcerias desenvolvimentistas comecem a surgir expansivamente.

Referências:
http://foreignpolicy.com/2016/07/06/brics-brazil-india-russia-china-south-africa-economics-recession/
http://tass.com/sp/947361

Melville, Herman. Bartleby, O Escrevente. São Paulo: Autêntica. 2015.

Stuenkel, Oliver. Os BRICS e o Futuro da Ordem Global. São Paulo: Paz e Terra, 2017.

Zizek, Slavoj. Primeiro Como Tragédia, Depois Como Farsa. São Paulo: Boitempo, 2011.

Figura: Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150706_avancos_brics_ru>. Acesso em: jun. 2017







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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Análise em Relações Internacionais: "Bioterrorism: Then and Now"

Artigo apresentado na disciplina "Global Security" da "University of Winnipeg" do Canadá, durante intercâmbio da aluna do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba.


* Por: Gabriela Gasperin


The United Nations define biological weapons as “complex systems that disseminate disease-causing organisms or toxins to harm or kill humans, animals or plants. They generally consist of two parts – a weaponized agent and a delivery mechanism. In addition to strategic or tactical military applications, biological weapons can be used for political assassinations, the infection of livestock or agricultural produce to cause food shortages and economic loss, the creation of environmental catastrophes, and the introduction of widespread illness, fear and mistrust among the public”[1]. The “Convention on the Prohibition of the Development, Production and Stockpiling of Bacteriological (Biological) and Toxin Weapons and on their Destruction”, that entered force in 1975 and is revised every five years, aims to control and eradicate biological military threats – but, even if not all the members of UN ratified it, is aimed mostly at states – when non-state agencies are most probable to make use of this kind of weapon.
The development and use of biological weapons in a terrorist setting can be split into three generations. The first one, the simplest in terms of technology, is the use of naturally infected with biological – harmful materials. South-American native tribes - especially the Waorani from Brazilian Amazonia – would infect the end of their arrows and darts with poison extracted from plants and some animals. In the 1960’s, during the Vietnam War, the Vietcong guerrillas used booby traps compost of sharp bamboo stakes covered with feces to promote infections in the generated wound. This set of traps were responsible for about 2 percent of the US personnel losses and injuries during the war.
The second generation is categorized by the ability to yield small portions of biological agents – although the dissemination methods still are non-complex, such as contamination of food and water or direct injection into the target. The most usual agent in this period was the ricin, even if it’s not suitable for large-scale attacks.
The third generation of biological terrorism possesses the technology to disseminate particles through an aerosol, in a range of 1-10 microns. Since this technology is recent – surging around the 1990’s – no group has perfect this kind of contamination – despite quite a few attempts around the world. The most famous case of the third generation was the anthrax attack after the 9/11 events – even if they did not use any sort of bomblets or sprays.
It is surging a fourth generation, where the attackers can modify existing agents through the advance of life sciences, such as genetic engineering. No group has declared intention on using this kind of technology, for it’s extremely complex and difficult. This possibility is used only as a fear-inducing discourse, to this moment.
In 1990’s, the city of Wasco County, Oregon, had some of its salad bars infect with the bacteria “Salmonella typhimurium”. The CDC research about the case determined that the spreading crisis was not fault of poor hygiene in the restaurants, but a deliberate attack by the group called “Rajneeshees”. The cult contaminated the water used in these restaurants with the intention of incapacitating Oregon voters – since they sought positions into the government. It was discovered after that the group – which had built a whole community – had contacts inside the Rajneesh Medical Corp., where it was being researched not only the salmonella agent but a deadlier strain of typhoid and even an HIV virus more easy to contaminate. More than 750 people were affected – in a city with around 10.000 habitants.
In 1994, the Japanese cult “Aum Shinrikyo” released then nerve gas sarin in the city of Matsumoto and, 1995, the gas was once again released on Tokyo’s subway system. In these occasions, they killed nineteen people and injured over a thousand. Despite these cases of success – and the technological and monetary resources the group had – the failed in creating an aerosolized weapon that could cause mass causalities. Despite being a religious-rooted group with apocalyptical beliefs, they indented to overthrow the Japanese government – which did not work, either.
After the 11/9 attacks, the most famous biological terrorist attack took place. In September and October of 2001, seven letters – addressed to Senators Thomas Daschle (D-SD) and Patrick Leahy (D-VT), as well as five media outlets (American Media International (AMI) in Boca Raton, Florida, the editor of the New York Post, Tom Brokaw at NBC, Dan Rather at CBS, and ABC News) – were mailed, containing a dry powder of “B. anthracis”. The attack caused twenty-two cases of infection, five of them fatal. These letters also contaminated the postal system – due to the process the letters go through the facilities -, government buildings and media offices. The total cost for decontaminating was at least $250 million dollars, and the total cost of the attack was estimated in $6 billion. After a long investigation by the FBI, the researcher Bruce Ivins was found the main suspect in the attacks – but he was never held in court since he committed suicide before that. Also, radical-Islamist movements might be involved in the case.
Despite the limited number of examples in history of biological weapons being put in action, this issue is still a threat to the international system – especially when considering the possibility of bioterrorism. 
The terrorist agencies represent a “second force” against the power of the state, working in a different measure to compensate its complications against the national, well-stabilised power.  One of the main characteristics that differentiate the terrorist’ actions is the element of surprise, the core of this kind of process. The idea of striking abruptly is to, not only catch the targeted population or government without them having time to build a comeback strategy, but to generate attention. Usually the procedure is aimed to lead the sympathy of certain groups, at the same time where they instigate fear in communities considered “enemies”. 
Over the situation, the policymakers – usually the government, those in charge of starting the process of securitization – start building a discourse of aggressively towards the threat, which, if well-built, leads to exceptional measures being taken to regenerate peace and security.
The process of generating fear is key to most of terrorist acts, since it brings commotion and leads the population to pressure their governments into acting – whether declaring the group as an enemy, and therefore legitimizing their efforts as self-defence or generating allies, especially inside the western countries.
In a process like this, the use of biological weaponry is considered, by most people, as a “barbaric way”. The horror we, humankind, feel towards sickness and those using them as warfare tools create an opportunity to generate discomfort and panic over the targeted -  a goal most of the terrorist groups claim.
Unlike nuclear, chemical and other kinds of mass weaponry, the biological agents used in attacks can be found in the environment, most of the times in places targeted by the groups. The use of genetic engineering by terrorist cells is low, since they require a level of knowledge and physical capacity these units not often possesses.
Although, the advance of science and technology, allied with the widespread of high-level education brings opportunities to those desiring to acquire a biological weapon, since the opportunity of finding someone that possesses the abilities are greater than never.
Past experiences with biological weaponry indicate the preference of toxins and bacteria over viruses, for they are simpler to transport and maintain alive. The most common strains used by terrorist groups are ricin, plague, tularemia, botulinum and anthrax, where the FBI notes that ricin and botulinum toxin are two of the most toxic substances in the world.
The biggest reason of why biological mass weapons are so alluring for terrorist unities is that it is a relatively low-cost technology. Most of the major universities have labs equipped enough to this purpose and the core is found in the wild without much trouble. Again, the information available on internet is enough to create simpler weapons, and the training many individuals possesses is competent to develop more sophisticated ones. 
In an event of biological attack, time is precious. There’s a small window between the surging of the first infected and the calamity, especially generated by the fear a biological attack would generate. There’s already a strong setting dedicated to preventing and acting in case of health events – such as hospital dedicated to controlling pandemics, vaccinations and even simpler methods, such as face masks. Despite that, no system is perfect, especially if we consider a covert attack that can be misinterpreted as a regular spread of disease, such as the flu. Despite all the modernization in the world we live in, the pathogens still exist along and, as history already stated, they can – and sometimes will – be used as weapons, and we may not be ready for when this happens.

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* Gabriela Gasperin: estudante do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba. 
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