sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Redes e Poder no Sistema Internacional: A violência como instrumento de moldagem de uma sociedade - o Etnocídio na relação entre Inglaterra e Irlanda


A seção "Redes e Poder no Sistema Internacional" é produzida pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Redes e Poder no Sistema Internacional (RPSI), que desenvolve no ano de 2018 o projeto "Redes da guerra e a guerra em rede" no UNICURITIBA, sob a orientação do professor Gustavo Glodes Blum. A seção busca compreender o debate a respeito do tema, trazendo análises e descrições de casos que permitam compreender melhor a relação na atualidade entre guerra, discurso, controle, violência institucionalizada ou não e poder. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.


A violência como instrumento de moldagem de uma sociedade
O etnocídio na relação entre Inglaterra e Irlanda

Eduardo Werner *

Pierre Clastres, antropólogo e etnógrafo francês, discorre em "Arqueologia da Violência" (1980) sobre o conceito de etnocídio e a sua relação com a ideia de Estado-nação. Para Clastres, o etnocídio difere do genocídio ao não buscar sistematicamente o extermínio de um grupo étnico-racial, mas sim de sua cultura e dos seus modos de vida e pensamento. Em suma, o genocídio assassina os povos em seu corpo, enquanto o etnocídio os mata em seu espírito. 

Em ambos os casos, é formada uma ideia do outro. O outro é a má diferença, sendo que o genocida busca pura e simplesmente negá-la: extermina-se os outros porque eles são absolutamente maus. O etnocida, por outro lado, acredita que os outros são maus sim, mas que é possível melhorá-los, obrigando-os a se transformar até que se tornem idênticos ao modelo que lhes é imposto. Assim, percebe-se que o genocídio é de certa forma pessimista, pois não vê a possibilidade de salvação do outro, diferentemente do etnocídio, que é otimista, como afirma o pensador francês. 

Segundo Clastres, toda sociedade é etnocêntrica, pois busca avaliar e julgar as culturas de outras comunidades com base nos padrões de sua própria cultura. Isso não implica, porém, que toda cultura seja etnocida. Somente as sociedades, ocidentais ou não, organizadas sob um Estado é que são etnocidas, pois o etnocídio pertence à essência unificadora do Estado. A dimensão da autoridade do Estado consiste no expansionismo da sua língua e da sua cultura. A nação só pode se dizer constituída e o Estado só pode proclamar-se detentor exclusivo do poder quando as pessoas sobre as quais se exerce a autoridade do Estado falam a mesma língua e praticam, no geral, a mesma cultura. 

Os Estados ocidentais "civilizados", porém, são evidentemente mais etnocidas que os Estados não-ocidentais. Os Incas, por exemplo, também praticavam o etnocídio de outros povos, mas de forma mais branda, buscando incorporar outras culturas ao seu Império através da assimilação cultural forçada. Clastres acredita que a causa disso seja o regime de produção econômica da civilização ocidental, seja ele liberal, privado, como na Europa ocidental, ou planificado, como fora na Europa oriental. A sociedade industrial, a mais formidável máquina de produzir, é por isso mesmo a mais tremenda máquina de destruir. Raças, sociedades, espaço, natureza, florestas, subsolo: tudo é útil, tudo deve ser utilizado, tudo deve ser produtivo; trata-se de uma produtividade levada a seu regime máximo de intensidade. 

Com o conceito de etnocídio e a sua relação com a noção de Estado bem definidos, é possível entrar a fundo nas relações entre Reino Unido e Irlanda ao longo da história, já que se constitui um exemplo perfeito de etnocídio. O domínio inglês na ilha da Irlanda começou no século XII, mas só chegou a um nível considerável no século XVI, junto com a reforma protestante que acabou trazendo diferenças religiosas entre os irlandeses (católicos) e os britânicos (seja anglicanos ou presbiterianos). As políticas de plantation, colonização britânica em áreas da ilha da Irlanda, principalmente no Ulster (hoje na Irlanda do Norte), foram realizadas pelos governos de Henrique XVII, Elizabete I e Oliver Cromwell. Com essa política, grande parte das terras da Irlanda passaram para as mãos de lordes ingleses, que expulsaram violentamente os irlandeses que nelas viviam. Essas terras deveriam, necessariamente, produzir alimentos ou recursos para serem utilizados no processo de industrialização da Inglaterra, constituindo um regime colonial de expropriação dos recursos naturais da Ilha. 

Os irlandeses foram submetidos, ao longo dos séculos, a diversas leis e imposições que visavam acabar com a sua identidade e mantê-los submissos ao poder inglês: as chamadas Penal Laws, como por exemplo a proibição do uso da língua irlandesa, a exclusão dos católicos da maioria dos cargos públicos, a proibição de compra de armas e cavalos, proibição do voto, da participação no Parlamento em Westminster por mais de 100 anos, entre outras medidas. As coroas da Inglaterra e da Irlanda se juntaram em 1800, formando o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, porém as leis discriminatórias foram revogadas em sua totalidade somente em 1920 após uma série de movimentos nacionalistas que levariam à independência de parte da Ilha em 1922. 

A questão da língua e a expansão da autoridade do Estado, como afirmado acima, é de extrema importância para entendermos as relações de poder, principalmente as relações de colonialismo. A ilha da Irlanda foi, entre 1177 e 1800 (quando se tornou parte integral do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda) uma possessão direta da coroa inglesa, algo equivalente à uma colônia. Para expandir o seu domínio político e territorial sobre a Irlanda, a coroa inglesa, além de se impor militarmente para confiscar terras e forçar a conversão do povo irlandês para o protestantismo, também promoveu a morte sistemática da língua irlandesa. Os Estatutos de Kilkenny, de 1366, por exemplo, proibiam qualquer inglês ou irlandês que vivesse entre ingleses de usar a língua irlandesa, sob a pena de confisco de terras. Leis seguintes proibiam a miscigenação entre os dois grupos e exigiam que irlandeses usassem sobrenomes ingleses. 

Por muito tempo o uso da língua irlandesa foi visto como um sinal de deslealdade com a coroa britânica e a causa do temperamento selvagem e agressivo dos irlandeses, estereótipo que dura até hoje. Charles Trevelyan, importante político inglês durante a Grande Fome da Irlanda, período entre 1845 e 1849 no qual mais de um milhão de pessoas morreram e mais de dois milhões emigraram da Irlanda devida à fome e doenças ocasionadas por ela e que foram fortemente agravadas pela má administração inglesa, proferia regularmente a sua visão sobre os irlandeses, que representava grande parte da opinião pública na Inglaterra. Em um de seus discursos mais incisivos, afirmou que: 

''O julgamento de Deus enviou a fome para ensinar uma lição aos irlandeses, essa calamidade não deve ser aliviada. O real mal que nós devemos combater não é mal físico da fome, mas sim o mal moral do caráter egoísta, perverso e turbulento dessa gente''.

A Irlanda passou por uma guerra de independência e uma guerra civil no começo do século XX para que, somente em 1937, aprovasse em referendo que todos os vínculos que o país tinha com o Reino Unido fossem removidos. Todos esses séculos de domínio britânico sobre a ilha, porém, ainda deixam marcas profundas. A Irlanda do Norte, que ocupa quase 1/5 do território da ilha, faz parte integral do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. Lá, somente 10,6% da população afirma ter algum conhecimento da língua irlandesa, enquanto apenas 4,130 pessoas (0,2% da população) usa a língua em casa no dia-a-dia. Na República da Irlanda, 39,8% da população afirma ter algum grau de conhecimento do irlandês, porém somente 4,2% a usam no dia-a-dia. 


* Eduardo Werner é acadêmico do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA) e pesquisador do grupo "Redes e Poder no Sistema Internacional" - RPSI.
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sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Redes e Poder no Sistema Internacional: A violência autoinflingida com resposta aos padrões da atualidade



A seção "Redes e Poder no Sistema Internacional" é produzida pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Redes e Poder no Sistema Internacional (RPSI), que desenvolve no ano de 2018 o projeto "Redes da guerra e a guerra em rede" no UNICURITIBA, sob a orientação do professor Gustavo Glodes Blum. A seção busca compreender o debate a respeito do tema, trazendo análises e descrições de casos que permitam compreender melhor a relação na atualidade entre guerra, discurso, controle, violência institucionalizada ou não e poder. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.


Violência autoinfligida como resposta aos padrões da atualidade

Gustavo Andretta Ferreira * 

A necessidade de pertencer aos diversos ambientes que habitamos e que cada vez exigem mais de nós com base em padrões de beleza, sucesso, moda, raciocínio, entre outros aspectos, nos persegue constantemente. Isso faz com que precisemos nos moldar, em nossos corpos e nossos comportamentos, em busca de corresponder às expectativas. Nessa busca por aceitação e pela perfeição diante dos modelos da atualidade, acabamos cometendo violências banalizadas contra nós mesmos que ou se tornam pequenas em relação ao dano maior que vai ser o fracasso e a rejeição, ou são alternativas de amenizar os efeitos dos dois. 

O filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han, encara essas pressões sociais dos padrões como um tipo de violência sutil, que não necessita do uso de agressões diretas, de coerção exterior. Ela é, por outro lado, uma violência sistêmica que atinge a sociedade como um todo. Portanto, até a noção de liberdade que temos pode ser colocada em xeque, pois as escolhas são direcionadas por parâmetros, e é possível afirmar que não há o livre arbítrio de fato: tudo é policiado para que se siga os moldes atuais e quem faz o papel da polícia, agora, somos nós mesmos. Se a coerção exterior já não existe, é porque ela deu lugar ao que Han chama de autocoerção. Han diz que “hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”, e nós acreditamos que não somos mais submissos. “Do que você está reclamando?”, é a pergunta que reverbera na atualidade – “Foi VOCÊ que escolheu fazer isso”[1]. Assim, a coerção interna torna-se mais eficiente para extrair um desempenho mais intenso, pois ela é acompanhada da falsa sensação de liberdade. 

Essa exploração, motivada pela demanda excessiva de produção e desempenho, acaba por produzir danos na nossa mente. É por isso que Han configura nossa época como uma era em que as patologias são neurais: “[c]ada época possuiu suas enfermidades fundamentais (...). Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não e definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal. Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (Tdah), Transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a Síndrome de Burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do século XXI”[2]

Seguindo o raciocínio de Han, essa virose neural causada pela nossa própria autoexploração faz com que nos consumamos e com que surja a autoagressividade, ou seja, provocamos violências em nosso corpo, física e psicologicamente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define e subdivide essa violência autoprovocada, ou autoinfligida, em comportamento suicida e autoagressões. Muitas vezes os dois andam lado a lado, mas as autoagressões podem não ser só aquelas escancaradas, como se cortar. O fato de alterar a naturalidade do corpo por questões estéticas também é por si só uma violência, por exemplo. 

Numa época globalizada, em que a transparência e a queda de fronteiras são um mote, somado ao medo da não aceitação e não pertencimento, o narcisismo e a hiperexposição (à qual Han se refere como pornográfica[3]), crescem enormemente, chegando ao ponto em que se transformam em exibicionismo e voyeurismo potencializados pelas redes sociais e seu abuso. Com elas, todos se vigiam mútua e constantemente, dada a necessidade de expor nossa felicidade, saúde e vida no geral. O ser humano agora precisa ser seu próprio objeto de propaganda e por isso o corpo é seu cartão de visita, é ele que antecipa toda relação antes que a interação de fato aconteça, como por exemplo, antecipa o conteúdo sexual sem que haja sexo. Assim, o corpo precisa ser ideal, seguindo o padrão dos corpos propagados pelos novos formadores de opinião e meios de comunicação da nossa época, as redes e seus influencers. Para Han, “[a] ‘alegria’ que se encontra nas redes sociais tem sobretudo a função de elevar a autoestima narcisista de seus consumidores, na medida em que oferece o ego ali exposto como uma mercadoria”[4]

No Brasil, o padrão de beleza é caótico: enquanto se exalta a volúpia, os músculos definidos, nádegas avantajadas, grandes peitos e os lábios carnudos, também se exige a pureza, a ausência de gordura, a falta de pelos, a vagina infantil. Não por acaso, o país é o segundo maior consumidor de cirurgias plásticas com fins estéticos no mundo e líder desse tipo de procedimento entre os jovens, que têm como objetivo se aproximar do corpo ideal, por mais meticuloso e sintético que ele possa ser. Próteses de silicones, lipoaspiração, bichectomia, ninfoplastia, rinoplastia, são cada vez mais comuns e feitas cada vez mais cedo. 

Slavoj Žižek (2014) refere-se ao abuso das cirurgias estéticas como uma atitude tendenciosa do nosso sistema, perpetuando essa confusão que existe entre livre arbítrio e aderência dos padrões como vontade. A modificação não é feita porque o sujeito não se sente bem em relação à determinada parte do corpo ou quer prevenir uma possível falha futura: isso é uma ilusão, já que o sistema e seus padrões fizeram com que essa parte do jeito que está seja indesejável, coagindo o sujeito a querer modificá-la. Segundo o autor, “[é] intolerante quando não é dado aos indivíduos de outras culturas a liberdade de escolha – o que é evidente a propósito de questões como a excisão clitoridiana, o casamento infantil, o infanticídio, a poligamia e o incesto. No entanto, ignora as terríveis pressões que, por exemplo, compelem as mulheres das nossas sociedades liberais a se submeterem a práticas como a cirurgia plástica, os implantes cosméticos e as injeções de botox, que se destinam a mantê-las competitivas no mercado sexual”[5]

Entretanto, não são só as mulheres que se sujeitam aos implantes, cortes e mutilações da cirurgia plástica. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica o número de processos estéticos masculinos quase quadruplicou entre 2012 e 2017, e os homens também precisam se manter “competitivos”. Porém, a autoviolência mais evidente nos homens ainda não são as cirurgias estéticas, mas o abuso do fitness, não exclusivo do sexo masculino. O excesso de tortura corporal e hormonal por meio da musculação desenfreada, da ingestão de anabolizantes, do crossfit e da filosofia do no pain no gain, rompendo as fibras dos músculos para alcançar a deformação, também conhecida como shape trincado, não tem apenas aquela premissa de saúde e beleza, ou melhor, o padrão de saúde e o padrão de beleza, elas correspondem ao exibicionismo e padronização também. 

Outros modismos, por mais cool que sejam, não escapam dessa lógica. Gastar horas arranhando e injetando tinta nas camadas da pele não é mais sinal de transgressão, uma vez que virou norma. Por mais que digam que tatuagens têm seus significados, e mesmo que tenham, eles já foram banalizados. A função principal delas agora é tornar alguém descolado. Mas, se todo mundo tem, isso deixa de ser descolado, e só encaixa o sujeito de novo no padrão. As tatuagens tribais, o símbolo do infinito, o coração minimalista, a âncora old school, as frases de música, os animais sazonais e genéricos, leão, lobo, coruja: todas elas são novos adereços que podem inserir alguém numa determinada tribo, ou apenas serem ostentados ao vivo e no Instagram. 

Por fim, acabamos não escapando da máxima “violência só gera violência”. Pode não ser na mesma forma com que sofremos – uma violência invisível ao olho, sem autor identificável, que não pode ser respondida na mesma moeda. A alternativa, então, é responder em nós mesmos e, consequentemente, propagá-la. A diferença é que os sintomas são múltiplos. Ao mesmo tempo que quem pode pagar pelos processos estéticos continua a fazer suas “festas do botox”, ingerir seus esteroides, pagar o estúdio de crossfit, fechar o braço com o tatuador badalado, ainda assim ainda se degrada mentalmente. A classe alta não está livre da depressão e do suicídio, até porque a violência auto infligida é só uma resposta, não significa que é a correta e vai resolver a questão. Quem não tem os mesmos recursos, por sua vez, perece mais rápido na ansiedade, estresse, depressão, ou acha alternativas para seguir os padrões, injeta synthol nos músculos e paga em diversas prestações por um processo clandestino em uma cobertura na Barra da Tijuca sem as condições pra realizar o procedimento estético. 


REFERÊNCIAS


HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço, Editora Vozes, 2015.
HAN, Byung-Chul. Sociedade da Transparência, Editora Vozes, 2017.
HAN, Byung-Chul. Topologia da Violência, Editora Vozes, 2017.
ZIZEK, Slavoj. Violência. Seis reflexões laterais, Boitempo Editorial, 2014.

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[1] ZIZEK, 2014, p. 99.
[2] HAN, B. Sociedade do cansaço, 2015, p. 7.
[3] HAN, B. Sociedade do cansaço, 2015, p. 209. A sociedade exposta é uma sociedade pornográfica, onde tudo está exposto e voltado para fora. Esse excesso de exposição transforma tudo em mercadoria e as correntes ininterruptas de hiperinformação e hipercomunicação são obcenas, à medida que transparecem tudo sem pudor.
[4] HAN, B. Topologia da violência, 2017, p. 73.
[5] ZIZEK, S. Violência. Seis reflexões laterais, 2014, p.97.
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terça-feira, 23 de outubro de 2018

A INSOLVÊNCIA HUMANA COM O MEIO AMBIENTE

Artigo realizado na disciplina de Análise em Relações Internacionais e Política Externa, ministrada pela Profa Dra Janiffer Zarpelon. As opinões apresentadas no artigo não refletem o posicionamento da instituição, mas sim dos seus autores. 

* Alejandra Alcon Morais


Sistemas sociais, políticos, culturais e econômicos frequentemente passam por processos de alteração decorrentes das mudanças na forma de vida e das necessidades das comunidades. Tal mutação traz consigo alterações não somente para a sociedade em questão, como também para as que de alguma forma estão ligadas a ela. Este poder de influência entre os Estados começou a ser nítido a partir do início da Modernidade, onde os costumes e organização social da Europa no século XVII difundiram-se para o sistema internacional. Tais influências foram progredindo para conexões interestatais ligadas por um novo tipo de sistema social, que começava a passar pelos processos intensificados da globalização.
            O desenvolvimento tecnológico advindo do forte investimento de capital aplicado no mercado com o intuito de agilizar e facilitar as relações comerciais tanto a nível nacional, quanto a nível internacional, proporcionou uma grande redução do tempo de produção e uma expansão na capacidade produtiva nacional. Atualmente, o sistema econômico predominante no cenário internacional, é o sistema capitalista, que propiciou a aceleração da globalização, já que, o mesmo tende a expansão para os mercados internacionais, uma vez esgotada a capacidade dos nacionais. Porém este processo não trouxe apenas uma maior industrialização nos Estados e uma facilidade na obtenção de recursos indisponíveis no mercado nacional, o mesmo também teve resultados negativos para alguns países.
Marx e Durkheim viam a modernidade como uma era sombria, pois afirmavam assertivamente que haveria consequências desagradáveis para os países subdesenvolvidos. Por uma visão marxiana o avanço tecnológico nos países desenvolvidos acarretaria numa dependência por parte dos subdesenvolvidos justamente por não ter meios de aprimorar sua tecnologia, deixando-os em uma posição periférica permanente no sistema internacional, enquanto os Estados desenvolvidos continuariam na disputa na balança de poder. Falava-se muito das consequências sociais da modernidade, porém, não foi previsto a potencialidade destrutiva que esta traria para os recursos naturais em longo prazo.
            Num sistema internacional onde as relações comerciais favoreciam em maior ou menor escala a grande parte da comunidade internacional, não existia uma preocupação de fato com o meio ambiente, pois este precisava ser explorado para a obtenção dos recursos e espaços que viriam a gerar lucro e com isso, poder e desenvolvimento. O avanço que veio de mãos dadas com a modernidade tem sua dupla face. Por um lado, facilitou a comunicação entre os povos, possibilitou o fácil acesso às informações, favoreceu a economia e a produção nacional, dentre outras vantagens. Porém, seu lado negativo é bem evidente.
No plano ambiental, a degradação humana de uma sociedade industrial é tão alta que torna a capacidade de auto- renovação da natureza insuficiente para restaurar os danos sofridos e, no plano social, a desigualdade é um fator agravante para a situação ambiental. Para Ignacy Sachs (2000), todos os seres humanos degradam o meio ambiente, seja por necessidade e falta de opção, ou por falta de consciência e interesse. Logo, estes dois tipos de estragos naturais criados pelo ser humano tem motivações totalmente distintas, sendo a primeira mera questão de sobrevivência, e a segunda uma egoísta busca pelo poder.
            Os debates sobre o meio ambiente foram impulsados pela Guerra do Vietnã (1959) que denunciou a questão ambiental e assim auxiliou a projeção dos debates para a comunidade internacional. Neste período, o sistema internacional ainda tinha uma visão antropocêntrica baseada no padrão societal europeu. Começaram a haver mudanças comportamentais favoráveis ao meio ambiente a partir de casos julgados em câmaras de arbitragem internacional, envolvendo a questão ambiental.
O caso Trail Smelter, ocorrido em 1941, é de suma importância para o entendimento da visão do planeta como um todo, deixando a um lado a visão Estatal individualista. Uma fábrica de Zinco e Cobre instalada no Canadá jogava seus dejetos no trecho de Washington, levando a poluição a se alastrar ao território estadunidense, afetando às pessoas, animais e bens que ali residiam. Os EUA entenderam o ocorrido como um caso de Estado e recorreram a uma câmara de arbitragem internacional.
 No caso Trail Smelter, o princípio que regia as relações internacionais foi alterado, pois tecnicamente o Canadá estava poluindo dentro de seu território, onde gozava de soberania absoluta. Porém, a resolução arbitrária constatou que em casos como este, o princípio da soberania absoluta estatal não deveria ser aplicado, pois estaria prejudicando outro Estado. Então, foi aplicado o princípio da soberania relativa (que se tornou uma vertente para a ecopolítica internacional), onde o Estado tem liberdade para atuar como desejar dentro do seu território desde que suas atitudes não atinjam bens, pessoas e animais de outro Estado.
            Diante das mudanças que estavam ocorrendo nos diversos setores da sociedade e no comportamento das comunidades como um todo, Ulrich Beck (1998) desenvolveu a teoria da Sociedade de Risco, onde defende a ideia de que a sociedade está passando por uma reconfiguração, a qual está se transformando em uma sociedade industrial de risco, geradora também de ameaças ecológicas.
Beck define a sociedade de risco como um emaranhado de incertezas construídas, mediante inovações tecnológicas que induzem a um cenário internacional dominado pelas incertezas não mensuráveis dos riscos globais, ou seja, uma sociedade de descontrole por não ter a capacidade de monitorar tais riscos (como a ameaça nuclear ou até mesmo um desastre natural). A natureza dos riscos os tornam mais globalizados, quer dizer, pelas grandes proporções de suas consequências, grande parte do planeta, senão todo sofreria com os resultados da eclosão de algum risco produzido pelo progresso. Beck não configura mais as ameaças existentes como riscos de classes, pois tratando-se do meio ambiente, todo o globo seria afetado, entretanto, não descarta a ideia de que alguns riscos são mais propensos a tornarem-se uma realidade entre os hipossuficientes econômicos, porem seriam mais pontuais.
Os riscos concebidos por Beck (1998) em sua teoria, não apenas poderiam desencadear em algum desastre, como também são riscos positivos. A modernidade oferece um maior conhecimento científico, então os riscos decorrentes podem ser entendidos também como oportunidades de mercado. Considera-se o indivíduo como elemento central das ações no mundo, ou seja, a responsabilidade quanto ao nível de exposição a um determinado perigo, é somente do ser humano, sendo também o responsável pela criação dos riscos.
A incerteza advinda da Sociedade de Risco representa a forte presença de inseguranças constantes em todo o globo, sendo estas, militares, ecológicas, terroristas, financeiras, bioquímicas, etc. A atual possibilidade de conflito nuclear entre Estados põe a comunidade internacional diante de uma possibilidade de risco anteriormente inexistente. Pode ser que tais incertezas nunca sucedam, porém, o comportamento humano molda-se em decorrência ao “perigo iminente” e passa a agir de forma a retardar ou impedir a concretização do risco.
            Uma vez deixada no passado à visão dos riscos como resultado de ações divinas, pode-se analisar mais assertivamente as suas causas. Para Niklas Luhmann (1979 apud Giddens, 1991), sociólogo alemão, foi fundamental o entendimento de que a atividade humana e suas consequências são socialmente criadas, e não decorrentes da vontade de Deus ou apenas da natureza para a compreensão de que um dos fatores mais influentes na ação humana é seu imperativo moral, logo, as consequências decorrentes dos riscos, são causadas majoritariamente pelo comportamento humano. Luhmann (1979 apud Giddens, 1991) afirmava que não haveria risco, caso não houvesse ação individual, posicionamento firmemente criticado por Giddens (1991), ao declarar que Luhmann não estaria considerando as consequências globais das ações, pois mesmo que um indivíduo se abstenha de uma atividade, este ainda pode ser atingido pelo fruto da ação alheia ou até mesmo de catástrofes naturais.
            A quantidade de riscos ecológicos procede da ação humana transformadora na natureza. Em sua maioria, os perigos gerados são socializados internacionalmente. A poluição dos mares que afeta consideravelmente a vida marinha, a radiação emanada pelas usinas, a situação cada vez mais grave da atmosfera devido aos gases poluentes, o desmatamento de vastas áreas de florestas, afetam a todos os seres humanos independente de sua localização geográfica ou classe social, seja pela poluição da água, do ar ou pela destruição das fontes básicas de produção de oxigênio.
            Os riscos de alta consequência não desaparecerão, embora possam ser minimizados, mesmo tendo passado por um grande período de descaso pelas comunidades do sistema internacional. Especificamente os riscos ecológicos, apenas começaram a ganhar espaço na pauta de debate internacional a partir de meados do século XX com o surgimento de organizações internacionais que tinham em sua agenda a defesa dos direitos humanos. Existiram convenções que tratavam de assuntos relacionados com o meio ambiente, porém os Tratados anteriores a 1972 em sua maioria, ou tinham um cunho econômico, buscando a proteção da natureza apenas para potencializar os recursos naturais para sua exploração, ou davam proteção a apenas uma espécie do meio ambiente.
Foi somente após 1972 que a proteção ao meio ambiente por um viés econômico foi substituída por uma preocupação real a ser debatida a nível global. A Conferência de Estocolmo iniciada neste mesmo ano foi a base para a construção da ecopolítica internacional, onde foram expostos em seu preâmbulo sete pontos principais, sendo o mais importante deles, a concepção do meio ambiente como essencial para o Direito Humano. Os demais pontos abordavam questões como o desenvolvimento, a proteção à biodiversidade, a poluição, o uso da tecnologia e suas consequências e o desarmamento.
Com a expansão da preocupação pelas questões ecológicas, surgiram várias correntes que buscavam uma solução para os problemas ambientais, sendo estas: a corrente Neomalthusiana, a mais conservadora, que acreditava que a superpopulação era a culpada pela finitude dos recursos naturais, propondo um controle populacional; a corrente Ecoanarquista, considerada progressista, questionava o poder do Estado, da igreja e da propriedade privada. Acreditava na teoria de Gaia e apoiava o retorno as comunas para que houvesse uma produção de autossuficiência para evitar o desperdício; a corrente da Ecologia Profunda, preocupada com o consumo desenfreado dos seres humanos, pois este seria a maior causa de degradação do meio ambiente, então acreditavam que uma consciência coletiva baseada na Teoria de Gaia reduziria os impactos dos seres humanos no meio ambiente; e finalmente a corrente Ecossocialista, convicta de que o capitalismo seria a única causa dos problemas sobre o meio ambiente, questionando assim, os meios de produção. Nunca se chegou a uma solução definitiva para reparar os danos causados ao meio ambiente, principalmente pela divergência de ideais e de interesses dos Estados no sistema internacional.
Em detrimento de gerações de negligência com o meio ambiente, os seres humanos começaram a fazer uso de sua herança global há 48 anos. Existe um nível de exploração tolerada pelo ecossistema, onde os recursos naturais conseguem regenerar-se de forma natural e assim possibilitar a existência de um equilíbrio entre a exploração dos recursos com a auto-renovação natural. Porém, este cenário de equilíbrio ecológico não acontece desde 1970, quando o dia de sobrecarga da terra começou a ser antes do fim de um ano. Este dia demarca a data média em que as populações de todo o globo esgotam os recursos que a Terra é capaz de regenerar em doze meses, consequentemente, a partir desse dia é utilizada a herança natural da Terra.
A exploração dos recursos naturais está tornando-se cada vez mais intensa, e ano após ano o dia da sobrecarga vem sendo marcado cada vez mais longe do fim do décimo segundo mês. O consumo atual de recursos naturais equivale a 1,7 Terras. O preço desse consumo desenfreado torna-se evidente nas marcas deixadas no planeta, como a poluição do ar e dos oceanos, a erosão do solo, o desmatamento, e principalmente, a mudança climática. Este ano, o dia de sobrecarga da Terra foi dia primeiro de agosto, ou seja, gastamos em 8 meses o que o planeta consegue produzir em 12. Com este padrão de alto dispêndio o planeta sofrerá consequências devastadoras em longo prazo.
É de suma importância a conscientização humana sobre a consequência de seus atos no planeta. A nível individual, a redução do consumo exacerbado de alimentos, energia e meios de transporte particulares potencialmente produtores de dióxido de carbono ajudaria a neutralizar os impactos ecológicos. As potenciais mudanças favoráveis ao meio ambiente são implantadas a nível global, devido a que sua influência é sumamente maior. Para tentar combater as ameaças vindas das mudanças climáticas, foi criado o Acordo de Paris, com o intuito de limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais mediante a redução das emissões de gases de efeito estufa por meio de medidas implantadas por cada Estado que tenha ratificado o Acordo. Com compromissos internacionais de cunho ecológico, seria possível uma neutralização e em longo prazo uma redução dos danos causados ao meio ambiente.
Para mitigar os impactos decorrentes da inconsequência humana, deve-se deixar a um lado a concepção antropocêntrica do mundo para compreender que os recursos naturais são essenciais para qualquer tipo de vida, e assim entender o ser humano como uma parte de um todo, e não mais em uma posição de centralidade em relação ao universo. Se o conhecimento do mundo social e das consequências das nossas ações melhorasse, os riscos indesejados seriam cada vez mais raros e os problemas gerados pela falta de recursos naturais seriam amenizados.


Referências bibliográficas:

BECK, Ulrich. Sociedad de Riesgo: Hacia una nueva modernidad. Barcelona: Paidós, 1998.

_________. “Climate risk teaches us that the nation is not the centre of the world.” IN: The Metamorphosis of the World. Cambridge: Polity 2016, p. 06.

GIDDENS, Anthoy. As Consequências da Modernidade. 1ª ed. São Paulo: Editora UNESP, 1991.

SACHS, Ignacy. Caminhos para o desenvolvimento sustentável. Coleção Idéias
Sustentáveis. Organizadora: Paula Yone Stroh. Rio de Janeiro: Garamond, 2000.
TORRES, Fillipe; DAGNINO, Ricardo; OLIVEIRA, Antônio. Contribuições Geográficas. Ubá: Ed. Geographica, 2009.

Sítios eletrônicos consultados:










* Alejandra Alcon Morais é estudante do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba.
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segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Redes e Poder no Sistema Internacional: As relações de poder na escravidão sexual infantil no Afeganistão - os Bacha Bazi


A seção "Redes e Poder no Sistema Internacional" é produzida pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Redes e Poder no Sistema Internacional (RPSI), que desenvolve no ano de 2018 o projeto "Redes da guerra e a guerra em rede" no UNICURITIBA, sob a orientação do professor Gustavo Glodes Blum. A seção busca compreender o debate a respeito do tema, trazendo análises e descrições de casos que permitam compreender melhor a relação na atualidade entre guerra, discurso, controle, violência institucionalizada ou não e poder. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.


As relações de poder na escravidão sexual infantil no Afeganistão
Os Bacha Bazi

Camila Duda *

A República Islâmica do Afeganistão é um Estado que possui uma emaranhada e complexa composição ética, religiosa e histórica. Entre inúmeras particularidades, está uma tradição conhecida como Bacha Bazi, a qual consiste na prática em homens adultos pagam para assistirem meninos de dez a dezoito anos travestidos de meninas dançarem e entreterem convidados. A origem da tradição não possui relato histórico, mas acredita-se que se originou em grupos tribais na região da fronteira entre Paquistão e Afeganistão, lugar aonde ainda é praticado com mais frequência.

Esta tradição secular possui práticas contestadas internacionalmente e que podem vir a ferir os direitos básicos daqueles submetidos a elas. Os meninos que realizam este tipo de performance quase sempre se encontram em situação de rua, ou foram sequestrados de suas famílias. Uma vez sobre a tutela de seu captor, o menino aprende a dançar, usar maquiagem e vestidos, tocar instrumentos e entreter cavalheiros. A partir desse momento, ele passa a ser, efetivamente, propriedade de seu senhor, que pode praticar vários tipos de transações econômicas com a vida de seu capturado: alugar, vender ou para uso próprio, entre outras atitudes.

O Afeganistão, enquanto inserido em um contexto quase constante de conflitos, se tornou um cenário perfeito para o aprofundamento e uso dessa violenta tradição como arma de guerra. A violência sexual contra crianças neste país possui diversas camadas de historia, opressão e relações de poder. Porém, muito mais do que um problema regional, as dinâmicas do conflito e as esferas de influência, bem como os mecanismos que perpetuam esses abusos, possuem um caráter internacional.

O tratamento das crianças e seu uso como objeto desafiam os princípios mais básicos de Direitos Humanos. Entretanto, em um país periférico e fortemente marcado pela instrumentalização política de algumas interpretações da religião, onde imperam os interesses das elites e das potencias internacionais, tal prática se mantém estável e por vezes crescente. O que resta a população, que não possui voz frente a um Estado controlado por governantes que protegem e tomam parte nas mais nefastas disseminações de violência infantil?. 

É necessário analisar esta situação sobre uma ótica aguçada, tendo em mente a complexidade e as fragilidades envolvidas nessa forma de violência estrutural. Não podemos deixar de lado a importância e o papel da religião enquanto principio guiador dessa sociedade, as concepções de família e as relações de poder entre homens e mulheres, todas circunstancias as quais de alguma forma possibilitaram o florescimento de uma tradição desumana.

Outro ângulo importante para o estudo dessa particularidade seria o efeito sobre as crianças inseridas nesta pratica, qual seria o real dano e as consequências enfrentadas pelas crianças afegãs.

* Camila Duda é acadêmica do curso de Relações Internacionais, e pesquisadora do Grupo de Pesquisa RPSI - Redes e Poder no Sistema Internacional.
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terça-feira, 25 de setembro de 2018

Acontece no UNICURITIBA: Professor Isaak Soares dá entrevista sobre estudos geracionais


Isaak Soares, professor de gestão e marketing do curso de Relações Internacionais, em entrevista para o blog do curso de Marketing, fala sobre os estudos geracionais e como isto pode ser visto pelo mercado e em trabalhos acadêmicos.

O estudo geracional é uma perspectiva de ver as pessoas a partir da geração em que elas nascem e crescem. Baby boomers, geração X, millenium e pós-millenium são cortes que permitem vermos diferenças entre as pessoas, seja em termos de ofertas para mercado, relações de trabalhos e comportamentos sociais.

Para os profissionais de Relações Internacionais torna-se interessante compreender tais gerações e ver o quanto esta compreensão sobre as pessoas é válida ou apenas uma forma de categorizá-las.

Confira a entrevista: Parte 1 - Parte 2
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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Redes e Poder no Sistema Internacional: O uso do racismo como forma de Violência Institucionalizada - o caso do Apartheid na África do Sul


A seção "Redes e Poder no Sistema Internacional" é produzida pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Redes e Poder no Sistema Internacional (RPSI), que desenvolve no ano de 2018 o projeto "Redes da guerra e a guerra em rede" no UNICURITIBA, sob a orientação do professor Gustavo Glodes Blum. A seção busca compreender o debate a respeito do tema, trazendo análises e descrições de casos que permitam compreender melhor a relação na atualidade entre guerra, discurso, controle, violência institucionalizada ou não e poder. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.


O uso do racismo como Violência Institucionalizada
O caso do Apartheid na África do Sul

Tiago Viesba *

Dentro de um escopo de consequências, frutas da colonização do continente africano, e em maior grau, do Imperialismo do final do século XIX temos o surgimento de ideologias raciais e a ideia da superioridade da raça branca, em detrimento dos (não) brancos. Um dos casos mais marcantes dessa dominação é, sem dúvida, o que ocorreu na África do Sul no decorrer do século XX. 

O regime do Apartheid (que perdurou entre 1948-1994), o qual institucionalizou o segregacionismo das raças não brancas naquele Estado, pode ser compreendido através da percepção de construção de uma arquitetura jurídica que legitimou o racismo (um produto cultural – aqui no sentido de invenção - de relações históricas, sociais e de “tradições”). Para tanto, utilizou-se das mesmas bases do Estado-Nação (E.N.), como forma de criar uma legitimidade a tal “separação”. Assim, com o intuito de se entender como essa forma de violência institucional afetou a população negra daquela época, há necessidade de aproximação de alguns conceitos. Também, se buscará com isto, o desenvolvimento de um instrumento de observação que melhor permita elucidar o uso da violência estrutural como forma de segregar a sociedade dentro de um território, através do uso do espaço atrelado a construção de uma narrativa racista. 

Um primeiro conceito, necessário para desvendar essa arquitetura jurídica em questão, é a ideia de nação. Esta é base legitimadora do Estado moderno e de suma importância para a estruturação do Apartheid. Segundo Benedict Anderson (2008), a nação, um conceito melhor comparado a um “parentesco” ou “religião”, pode melhor ser entendida como “uma comunidade política imaginada – e imaginada como sendo intrinsecamente limitada e, ao mesmo tempo, soberana”. Neste sentido, ela é imaginada porque os membros jamais entrarão em contato com a maioria de seus companheiros, embora todos tenham em mente a imagem viva da comunhão entre eles. Ela é limitada porque mesmo a maior delas, possui fronteiras finitas, ainda que elásticas, para além das quais existem outras nações - nenhuma delas imagina ter a mesma extensão da humanidade. 

Ela é soberana porque o conceito nasceu na época em que o Iluminismo e a Revolução estavam destruindo a legitimidade do reino dinástico hierárquico de ordem divina. Amadurecendo numa fase da história humana de percepção do pluralismo religioso e da essência entre princípios e a extensão territorial de cada credo, as nações sonham em ser livres — e, quando sob dominação divina, então diretamente sob sua égide. A garantia e o emblema dessa liberdade é o Estado Soberano. Por último, ela é imaginada como uma comunidade porque, independentemente da desigualdade e da exploração efetivas que possam existir dentro dela, a nação sempre e concebida como uma profunda camaradagem horizontal. 

Durante a história da humanidade houve quatro ondas do século XVIII ao XIX: 1.O nacionalismo como instrumento de legitimação das lutas de independência colonial na América; 2.Nacionalismo Oficial da Europa e a consolidação dos Impérios europeus; 3.O imperialismo, lógica de dividir para conquistar as sociedades africanas e asiáticas que passam a ser subordinadas; e 4.As lutas de independência neocoloniais do século XX. A nação está ligada pela língua, religião, passado histórico comum, símbolos nacionais e cultura. Não existe nação entre dois indivíduos apenas. Devo me imaginar como parte de um grupo muito maior e mesmo que nunca encontre todos, tenho a convicção que eles se sentem tão nacionais quanto eu. 

Outro conceito relevante para esse debate é o de tradições (inventadas) estudado por Eric Hobsbawm. Estas se traduzem como invenções sociais que dão a ideia de continuidade e ligação com o passado. São instrumentos de consolidação/subordinação dos seres humanos á lógica do E.N. Dão a impressão que sempre foi assim, oferecendo legitimidade às bases dessas comunidades imaginadas formando uma simbologia numa materialidade. Elas podem tanto manter relações positivas, quanto negativas. Transmitindo a ideia de se sentir parte integrante de um grupo e dentro dessa nação, compartilhando determinados símbolos, celebrações e cerimônias. Ou o contrário, construindo a ideia do outro - aquele que não faz parte deste grupo por não entender nossas tradições. 

Desta forma, a construção do E.N. veio num entrecho posterior ao surgimento das nações. Sendo que, o Estado é diferente da nação, que é diferente do E.N. O primeiro é constituído por uma tríade - Território, População e Governo. Estes elementos balizam as tentativas de exercício do poder, ou seja, numa lógica de inversão, eles criam uma dependência de quem quer exercer o poder em relação ao Estado (devem ser trabalhados). Já a nação, passa a ser adotadas como instrumento de legitimidade de existência do Estado, uma vez que para a lei ser igual para todos, todos precisam ser iguais para a lei. Assim, utiliza-se da ideia de nação para justificar o Estado, este tem um vínculo jurídico com sua nação e a ela responde como “protetor”. 

Por consequência deste movimento, num conjunto de nacionais aparecem a figura do nacional e o (não) nacional. Cada indivíduo deveria ser pertencente a uma nação apenas, ou seja, o estrangeiro, nesta lógica, caracteriza-se como o pertencente a uma determinada nação diferente da minha. No meu território, ele é o não nacional, não pertencente. Uma vez que os Estados têm direito (soberania) de exercer uma política de repressão ao de fora, com a orientação de proteger/priorizar os seus nacionais. Aqui podemos ver a lógica do outro, individualização de um coletivo. 

Portanto, essas estruturações jurídicas vieram no entrecho de permitir a estruturação de um regime segregacionista como o Apartheid. A África do Sul foi uma colônia europeia no contexto do Imperialismo e teve influências holandesas e britânicas principalmente. Como fruto do cientificismo da época, atrelado ao surgimento das ideias do “fardo do homem branco”, criou-se o discurso que legitimou a dominação desses povos “menos civilizados”. Como consequências diretas desse período, tivemos a instrumentalização, na África do Sul, do regime do apartheid (que significa separação). Este era baseado em uma segregação racial entre brancos e não brancos. 

Tal regime era baseado na construção de leis segregacionistas dos mais diversos exemplos e também, com a estipulação de fronteiras, os bantustões (países dentro da África do Sul, onde os negros viverem isolados), como Lesoto e a Suazilândia. A lógica era muito parecida, ao se negar a nacionalidade sul africana – no período, entendida como fatores como a língua, a raça e as tradições de uma cultura europeia que remetiam a época da colonização -, então meu Estado pode adotar medidas de repressão e segregação baseadas neste tom racial. O estrangeiro é o outro. Podia-se assim, a partir desta estrutura jurídica institucionalizada, justificar a exclusão e legalizar o preconceito racial – fruto de um passado histórico colonial e que passou a ser incorporado como componente da nacionalidade sul africana. 


*Tiago Viesba é acadêmico do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA) e pesquisador do Grupo de Pesquisa "RPSI - Redes e Poder no Sistema Internacional".


Referências 

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. 1° Edição, 5° Reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 


ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. 1° Edição, 8° Reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. 


BOBBIO, N. et al. (Org.). Dicionário de política. Brasília: Editora UnB, 2007. 2v. 


HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (org.). A invenção das tradições. 6° Edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. 


VISENTINI, Paulo G. Fagundes; PEREIRA, Analúcia Danilevicz. África do Sul – História, Estado e Sociedade. Brasília: FUNAG/CESUL, 2010.
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