quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

21 de Fevereiro - Dia Internacional da Língua Materna - UNESCO



Em 1999 a UNESCO oficializou o dia 21 de Fevereiro como sendo o dia Internacional da Língua Materna. Esta data foi utilizada para marcar um trágico evento ocorrido em 1952.

Após a queda do domínio Inglês sobre a Ásia, em 1947 dois novos países foram formados, a Índia e o Paquistão. O Paquistão ainda se dividiu em Paquistão Ocidental e Paquistão Oriental, pois se encontrava em terras descontínuas tendo o território indiano como seu divisor.

Em Março de 1948 o Governador Geral do Paquistão declarou que a língua URDU seria a única língua oficial do país em despeito a maioria da população que vivia no Paquistão Oriental e falava a língua BENGALI. Imediatamente houve protestos contra a determinação do Governador pedindo para que houvesse duas línguas oficiais no país, o Urdu e o Bengali.

Em 21 de Fevereiro de 1952 um grupo de estudantes promoveu um protesto pelas ruas de Dhaka, levando milhares de pessoas às ruas exigindo que o Bengali fosse também declarado língua oficial do país. A polícia foi acionada para conter o protesto e entrando em confronto com os participantes deixou inúmeros feridos e alguns estudantes mortos. Aqueles que pereceram neste dia são considerados os Mártires da Linguagem. Somente quatro anos mais tarde, após outros inúmeros protestos, em 1956 o governo Paquistanês acabou por declarar a língua Urdu e Bengali como línguas oficiais do país. Dentre este e outros motivos, em 1971 o Paquistão Ocidental se tornou independente e é atualmente conhecido como Bangladesh.

A República Popular de Bangladesh cultua o dia 21 de Fevereiro como uma das datas mais importantes em seu calendário, o Dias dos Mártires da Linguagem - Sahid Dibash - que é um feriado nacional. Um monumento a estes mártires - Shaheed Minar Memorial - foi erguido próximo a Universidade de Dhaka e desde então todos os anos o local é coberto com flores vermelhas e amarelas que simbolizam a luta pela manutenção da língua mãe no país. 

Segundo a UNESCO, aproximadamente sete mil línguas são faladas atualmente ao redor do mundo, mas perto da metade delas irão desaparecer em mais algumas gerações. Destas sete mil línguas, apenas algumas centenas são oficialmente utilizadas em sistemas educacionais e menos de cem encontram-se no mundo digital.

Quando uma língua morre, um complexo emaranhado cultural é perdido, além de tradições, memórias, maneiras únicas de pensar e se expressar. Preservar a língua mãe é uma maneira de manter viva a história e as tradições culturais de uma nação, garantindo às futuras gerações o recebimento de toda essa herança.

- BANGLA -


In 1999, UNESCO officially declared the 21st of February as the International Mother Language Day. This date was used to mark a tragic event that occurred in 1952.

After the end of the British dominion over Asia, in 1947 two new countries were formed, India and Pakistan. Pakistan was still divided into West Pakistan and East Pakistan, because it was in uncontiguous lands having the Indian Territory as its divisor.

In March of 1948 the Governor-General of Pakistan declared that the URDU language would be the only official language of the country in spite of the majority of the population living in East Pakistan and speaking the BANGLA language. Immediately there were protests against the Governor's determination that there should be two official languages ​​in the country, Urdu and Bangla.

On February 21st, 1952 a group of students organized a protest in the streets of Dhaka, taking thousands of people to the streets demanding that Bangla must also be declared the official language of the country. Police were enforced to contain the protest and entering into confrontation with the participants left countless injured and some students dead. Those who perished on this day are considered the Martyrs of Language. Only four years later, after numerous other protests, in 1956 the Pakistani government eventually declared the language Urdu and Bangla as official languages ​​of the country. Among other reasons, in 1971, West Pakistan became independent and is now known as Bangladesh.

The People's Republic of Bangladesh celebrates February the 21st as one of the most important dates in its calendar, the National Martyr's Day - Sahid Dibash - which is a national holiday. A monument to these Martyrs - Shaheed Minar Memorial - was built near to the University of Dhaka and since then every year the place is covered with red and yellow flowers symbolizing the struggle for the maintenance of the mother tongue in the country.

 According to UNESCO, approximately seven thousand languages ​​are spoken around the world today, but close to half of them will disappear in a few more generations. Of these seven thousand languages, only a few hundred are officially used in educational systems and less than a hundred are in the digital world.

When a language dies, not only a complex cultural entanglement is lost, but also people traditions, memories, unique ways of thinking and expressing. Preserving the mother tongue is a way of keeping alive the history and cultural traditions of a determinate nation, guaranteeing future generations to receive this entire heritage.






                                                                                  Profº Marcelo Grendel Guimarães
                                                                                            Consul de Bangladesh - em processo
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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Opinião: Nacionalista e Neoliberal - O Discurso do Estado da União de Trump


O "Discurso do Estado da União" de Donald J. Trump, proferido ontem, dia 30 de janeiro, fala mais sobre o Governo estadunidense que sobre seu Presidente, e deixa tudo muito claro: trata-se de uma plataforma política pautada num misto de políticas nacionalistas e neoliberais.

Por Gustavo Glodes Blum *

Nos últimos dias, alguns círculos denunciavam a falta de relevância de ouvir o Discurso do Estado da União de Donald J. Trump, proferido ontem (30) em uma reunião conjunta do Congresso estadunidense. Segundo essa linha de pensamento, não é necessário ouvir um presidente que tanto fala no Twitter aquilo que bem pensa num discurso que, nas últimas décadas, tem servido aos Chefes de Estado dos EUA para "falarem à nação". Através de seus tuítes, Trump já indicaria tudo o que pensa, sendo desnecessário "saber o quê o Presidente pensa" sobre seu país, sua situação doméstica e mundial, e suas propostas de ação.

O Disrcuso do Estado da União

Ainda assim, o discurso de ontem foi um momento muito importante para tentar dar sentido a essa que tem sido uma das mais polêmicas da história dos EUA. Isso em razão daquilo que o Discurso do Estado da União representa para o país: iniciado pelo governo de George Washington, primeiro presidente estadunidense, foi feito de forma escrita entre 1801 e 1913. Naquele ano, Woodrow Wilson (um ilustre conhecido da área das Relações Internacionais) iniciou a tradição de ler pessoalmente o discurso, numa prática que têm continuado desde então.

O Discurso, porém, é muito mais que apenas uma tradição. O pronunciamento do presidente estadunidense junto ao Congresso, reunindo a Câmara dos Deputados e  o Senado daquele país, tem dois principais objetivos. Ao mesmo tempo em que mira no público, que atualmente assiste não apenas pela TV, mas também pela internet ao redor do mundo, foca na reunião destes dois relevantíssimos órgãos de funcionamento do governo norteamericano. 




Enquanto busca apresentar a sua versão a respeito de fatos que ocorreram durante o período anterior, o Chefe de Estado tenta convencer a população e o Congresso de sua visão a respeito do país e do mundo. Assim, busca construir uma lógica que justifique as propostas que quer colocar em jogo e que pretende fazer valer no período legislativo que se inicia. Embora possa ser observado o avanço de "ordens executivas", emitidas diretamente pelo Poder Executivo em uma situação similar àquela das Medidas Provisórias Brasileiras, o Presidente dos Estados Unidos ainda depende fortemente do Congresso para poder emitir legislação que coloque em funcionamento suas propostas governamentais.

Assim, o Estado da União representa não apenas um discurso oficial do Presidente, mas a apresentação, de certa forma, daquilo que virá num futuro próximo, e um anúncio das batalhas legislativas que se colocam na esfera política dos Estados Unidos da América para o ano.

Nenhuma novidade no front, mas fazendo toda a diferença

O discurso do Estado da União de Donald J. Trump não apresentou, realmente, nenhuma diferença com relação às já conhecidas opiniões do "líder do mundo livre" que atualmente senta na cadeira principal do Salão Oval. Ainda assim, o discurso fez toda a diferença com relação àquilo com que estamos nos acostumando a observar na política americana.

No último ano, fomos literalmente bombardeados com polêmica após polêmica do governo de Donald Trump - que só não são superados pelas polêmicas de sua contraparte tupiniquim, Michel Miguel Temer. Semana após semana, a "presidência mais longa da história dos Estados Unidos", como definiu o comediante/apresentador/comentador político Stephen Colbert, tem se envolvido nos mais diversos escândalos de várias naturezas.

Ainda assim, me parece que ainda que não seja uma estratégia consistente por parte da Casa Branca, este tipo de atitude política continua sendo interessante para diversos setores da política americana. Assim como no "capitalismo de desastre" do governo de George W. Bush (descrito por Naomi Klein em seu "A doutrina do choque"), o "governo da polêmica" de Donald Trump serve muito bem a uma parte muito relevante do Partido Republicano estadunidense. 

Enquanto todas as atenções se voltam aos tuítes de Trump ou suas declarações que mobilizam toda a mídia internacional, os Republicanos - que controlam atualmente a Câmara dos Deputados, o Senado e a Suprema Corte americana - virtualmente governam os Estados Unidos de maneira unilateral. Apenas recentemente os Democratas, partido opositor, conseguiram algum tipo de vantagem política, ao bloquear o acesso a recursos do governo federal, suspendendo seu funcionamento. Porém, essa vitória ainda parece pequena diante de um ano de "tratoragem" de legislação anti-Obama, liderada pelo Presidente da Câmara, Paul Ryan.


Essa é a grande diferença do discurso de ontem. Ao invés de declarações esparsas e lutas virtuais com dissidentes, o discurso de ontem se apresentou enquanto uma plataforma de governo consistente. Enquanto em alguns aspectos (como na Política Externa) repetiu-se o que já se sabia, outras questões apresentadas por Trump indicam a forma como seu governo encarará, propositiva ou executivamente, questões relevantes como a economia, a política, a questão da imigração e a área policial-militar do seu país.

Nacionalista e neoliberal: Trump adepto da Reagonomics?

O discurso de ontem foi um típico showdown republicano, no qual o Presidente, enquanto legítimo representante de seu partido, apresentou um tom altamente nacionalista e neoliberal. 

Embora apenas ao fim do discurso tenha sido possível os gritos típicos dos apoiadores de Trump ("USA! USA!", vindos sobretudo de seus filhos, nas galerias do Salão), o discurso como um todo adotou um tom nacionalista muito representativo. Este discurso, inclusive, se pautou em alguns "direitos de resposta" que o Presidente considerou que tinha em relação a questões polêmicas relevantes na vida política americana dos últimos anos.

Estas respostas envolveram, por exemplo, um ataque direto ao jogador de futebol americano Colin Kaepernick. Ainda no início do discurso, após citar as inúmeras tragédias naturais ou humanas do último ano nos EUA (envolvendo furacões e tiroteios em massa), Trump afirmou que "americanos de verdade", que ele pretende representar, "levantam-se orgulhosos para ouvir seu hino nacional". 

Ele busca, assim, atacar diretamente Kaepernick, que a partir de 2016 começou a utilizar o momento do hino nacional para um protesto silencioso contra a desigualdade racial do país. É sintomático, também, que o único negro convidado para o discurso do Presidente enquanto representante da comunidade para o discurso seja um empregado de uma família branca, num dos vários jogos simbólicos durante o discurso.

Esses jogos foram, de certa forma, uma tentativa de demonstração de força de Trump com relação à oposição Democrata no Senado e na Câmara. Ao adotar esse discurso nacionalista, e aliando ele a um discurso muito próximo daquele do Partido Republicano, Trump busca capitalizar tanto no momento do discurso como no futuro. Ele poderá, por exemplo, acusar a falta de apoio simbólico dos Democratas ao não se levantarem em aplauso quando ditava algumas questões relevantes para o governo. Ao mesmo tempo, ao aliar a ideia de nacionalismo com a adoção de uma política mais dura com relação ao crime, às drogas e à imigração, Trump também poderá indicar que os Democratas "não são americanos verdadeiros", "traidores da pátria", como já tem acusado a mídia americana.

Tratou-se, também, de um discurso altamente alinhado com alguns pressupostos conservadores da direita americana, ainda que Democrata. Ao lembrar que o lema dos EUA era "Em Deus acreditamos" ("In God we trust"), indicou o seu alinhamento a setores religiosos muito fortalecidos nos últimos anos de crise econômica no país. 

Ao apontar que o aspecto relevante dos EUA é a Cristandade (tanto ao indicar que essa crença é mais relevante que aquela no governo, ou ao apresentar um desertor nortecoreano que "após conhecer cristãos resolveu que queria ser realmente livre"), assim como ao relembrar seu reconhecimento de Jerusalém como capital do Estado de Israel, pressão sobretudo de setores evangélicos norteamericanos, Trump indicou que a relação entre cristandade e nacionalidade dos EUA é uma condição importante para considerar-se um "verdadeiro americano". Ataca assim, então, comunidades imigrantes não-cristãs (sobretudo muçulmanas), ao mesmo tempo em que protegeu a "liberdade religiosa" no sentido da permissão às organizações religiosas de agirem como acharem melhor, e não da aceitação de diversas religiões no mesmo espaço público.

Por outro lado, é visível a forma como o Trump se aproxima cada vez mais de uma "linha dura" do Partido Republicano, caracterizada sobretudo por sua visão neoliberal do mundo. Assim, o atual presidente lembra algumas das ações de dois presidentes republicanos recentes, Ronald Reagan e George W. Bush, que aplicaram em várias situações ações de exceção ou processos de desregulamentação do mercado "pela segurança do povo americano".

Trump indicou, por exemplo, que "num país em que cada pessoa é um trabalhador", a educação deveria ser direcionada á formação profissional, técnica, e as reformas estruturais (como aquelas da prisão e da imigração) devem ter como foco criar "pessoas que aproveitem as oportunidades" e "demonstrem bom caráter", estando "qualificadas" para estarem nos EUA (no caso dos imigrantes) ou serem "reintroduzidas na sociedade" (como no caso dos detentos).

Numa nova "Guerra às Drogas", declarada dessa vez contra os chamados "opióides" - substâncias que agem no sistema nervoso das pessoas e que agem de maneira parecida ao ópio, como relaxantes musculares e ansiolíticos. Essa guerra, porém, ligou também ao "sistema imigratório quebrado" e que "tem várias lacunas jurídicas" e permite "a entrada de gangues e traficantes" por meio das fronteiras. Trump conseguiu, assim, demonstrar sua visão sobre a imigração: é visível que o Presidente - e seu governo - enxergam na imigração a fonte da criminalidade em "comunidades vulneráveis" de imigrantes. Trouxe, inclusive, pais que perderam suas filhas para gangues formadas por imigrantes - para justificar, também o seu famoso muro que diz que construirá na fronteira com o México.

Instrumentalização do governo para alcance de objetivos: Política Externa e as instituições americanas

Também foi relevante a apresentação de alguns aspectos da Política Externa de Donald Trump em sua presidência. Assim como em outros aspectos, não houve muita novidade, embora a colocação dessas questões em conjunto tenha conseguido dar uma ideia de "plataforma" às suas práticas internacionais. Além de garantir que não fechará a base naval de Guantánamo em Cuba, usada para a detenção extrajudicial de "terroristas", Trump anunciou que a caça a terroristas se organizará também contra regimes que apoiam o terrorismo, listando os já listados "inimigos da liberdade" segundo sucessivos governos americanos: Irã, Cuba, Venezuela e a Coreia do Norte.

Porém, talvez um dos aspectos "novos", por assim se dizer, do discurso de Trump foi o seu pedido ao Congresso que reveja os programas do governo americano de ajuda internacional. Segundo o presidente, esse tipo de ajuda "não pode ir para inimigos dos EUA", tendo que necessariamente "atender aos interesses americanas e ir apenas para os amigos da América". 

Alinhando-se à já citada "linha dura" do Partido Republicano, provavelmente veremos, no futuro próximo, outras ações como aquelas que já ocorreram. A retirada do país da Unesco e a pressão para que países se alinhem à política dos EUA na Organização das Nações Unidas (ONU) simplesmente pelo fato de que eles são os maiores financiadores da organização devem ser seguidas por outras ações da mesma natureza.

Essa instrumentalização, porém, parece não estar relacionada apenas com a política externa. Em um determinado momento, o presidente indicou que um de seus objetivos era "tomar conta do judiciário", também, indicando o maior número de Ministro da Suprema Corte e, mais estrategicamente, juízes de segunda instância ("circuit judges") alinhados com as propostas do governo Republicano. Instrumentalizar, portanto, todo o governo, montando um plano de "governo de longo prazo".

E é a consolidação política, judiciária e econômica desse governo de longo prazo que podemos esperar das próximas ações do governo Trump, instrumental em incluir essa lógica dentro do governo estadunidense e abrir as portas para um possível novo governo republicano com Trump ou, possivelmente, Pence à frente nas eleições de 2020.

* Gustavo Glodes Blum é Professor de Geografia Política e Política Internacional Contemporânea do curso de Relações Internacionais do UNICURITIBA, e líder do grupo de pesquisa "Redes e Poder no Sistema Internacional".
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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Experiência Internacional: A aluna Maria Giulia Gaede Senesi relata sua experiência em programa de formação da ONU


A aluna Maria Giulia Gaede Senesi participou do programa de Formação Complementar na Missão Permanente do Brasil junto à Organização das Nações Unidas e Outros Organismos Internacionais em Genebra (Delbrasgen) no período de 18 de abril a 14 de julho de 2017. 

Confira mais detalhes sobre a experiência em sua entrevista para o Blog Internacionalize-se. 




Blog Internacionalize-se: Conte-nos um pouco mais a respeito da Delegação Permanente do Brasil para as Nações Unidas em Genebra (DELBRASGEN).

Maria Giulia: Delegação Permanente do Brasil para as Nações Unidas em Genebra é composta por vários diplomatas, conselheiros, ministros, oficiais de chancelaria, contratados locais e dois embaixadores que atuam em temas cruciais da conjuntura internacional. A rotina de trabalho é cheia, já que durante todo o ano, diversos eventos sobre variados temas que competem à missão ocorrem em Genebra e o impacto e decisões concernentes a esses eventos  devem ser reportadas para o Brasil, bem como todo o processo de preparação anterior necessário para que as tomadas de decisões estejam em consonância com o interesse nacional. Toda a equipe então, tem um caráter dinâmico, de boa estruturação de  suas funções e de verdadeira sinergia com a equipe que atua em Brasília sobre os temas correlatos.

Blog Internacionalize-se: Como foi participar das atividades da DELBRASGEN? Em que tipo de atividades você se engajou em seu período junto à Delegação? 
 
Maria Giulia: A minha participação no programa de formação complementar foi uma experiência incrível e extremamente marcante positivamente nos aspectos profissionais e pessoais. Poder ter acesso e livre entrada a diversas agências da ONU, conviver com a atuação dessas na prática e cotidianamente, conhecer novas áreas de atuação, me integrar do funcionamento de tomadas de decisão em negociações,  conhecer profundamente a atuação  do Brasil em um posto multilateral, dentre tantas outras atividades e conhecimentos depreendidos, foi algo verdadeiramente fantástico. As nossas atuações variavam de acordo com a agenda do momento, que por vezes exigia atividades nos próprios organismos internacionais, e por outras, atividades de preparação e pesquisa dentro da missão.  De modo mais específico, algumas dessas  atividades eram: auxílio à delegação brasileira lotada na DELBRASGEN em suas atividades internas e junto aos organismos internacionais ali sediados;Apoio à delegação brasileira em reuniões de interesse da missão; Pesquisa aplicada e acompanhamento de temas de interesse da DELBRASGEN; Preparação de material de apoio para reuniões internas com delegados brasileiros ou convidados, de outras delegações, organismos internacionais ou organizações não-governamentais;Manejo de documentação e operação de bases de dados de instrumentos internacionais relacionados aos temas afetos à DELBRASGEN,auxílio em relatórios oficiais, entre outras.
  

Blog Internacionalize-se: Quais foram os principais temas abordados durante a sua estadia?
 
Maria Giulia: Os principais temas abordados foram diplomacia pública, direito internacional, direitos humanos, assuntos humanitários,temas sociais como saúde  e trabalho, meio ambiente, desenvolvimento sustentável, e  paz e segurança internacional com enfoque no desarmamento.


Blog Internacionalize-se: Quais foram as Instituições Internacionais do Sistema ONU com as quais você teve contato?
 

Maria Giulia: Além da própria sede da ONU, chamada de “Palais des Nations” que abrigava uma série de eventos de grande porte e impacto, como a Assembleia Mundial de Saúde, Conselho de Direitos Humanos, Conferência Internacional do Trabalho e Conferências do Desarmamento,  tive contato com outras instituições como a  OIT (Organização Internacional do Trabalho), OMS (Organização Mundial da Saúde), UNAIDS, (programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids), UNODA (Escritório das Nações Unidas para Assuntos de Desarmament), a OIM (Organização Internacional para as Migrações), OMM (Organizaçāo Metereológica Mundial), ECOSOC (Conselho Econômico e Social)  e UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento).

 
Blog Internacionalize-se: Como você percebe essas atividades? Como percebe a representatividade da DELBRASGEN?

Maria Giulia: As atividades de todas as áreas de atuação da missāo sāo de altíssimo valor para o Brasil. Por serem realizadas em âmbito multilateral, assuntos de importante impacto global são discutidos, analisados e negociados e que tem impacto em todos os cidadãos brasileiros. Desse modo, um posto multilateral exerce importância de destaque e responsabilidade dentro do Itamaraty. Tive a oportunidade de ver a diplomacia atuante do Brasil, que atua em várias frentes da conjuntura global, com uma delegação muito bem estruturada, diligente e preocupada em como o Brasil pode impactar o Sistema Internacional e como negociar para que o Sistema melhor favoreça os seus cidadãos. 



Blog Internacionalize-se: Durante sua estadia, quais foram os conhecimentos de Relações Internacionais que mais pode aplicar? Como lhe auxiliaram a desempenhar suas atividades?
 

Maria Giulia:A grade curricular de Relações Internacionais como um todo, possui uma interconexão com o mundo e capacita seus estudantes a ver além de acontecimentos e temas de interesse global. Como os temas que trabalhei na DELBRASGEN foram variados, diversos conhecimentos práticos foram utilizados. Poderia listar aqui o Direito Internacional, Teoria das RI, Política Internacional e outros.Entretanto, de modo geral, acredito que as análises críticas de forma ponderada e multicultural  e as institucionais e históricas que adquirimos durante o curso foram de grande valia, tanto para tarefas mais simples como preparação de materiais internos, quanto para análise e relatos de negociação de eventos importantes que o Brasil havia participado.Colaborando então, para a compreensão da complexidade dos temas abordados dentro de um cenário multilateral, e facilitando na execução de tarefas, bem como na assimilação de todos os conteúdos vistos.


Blog Internacionalize-se: O que acha da formação em Relações Internacionais para esse tipo de atividade?

Maria Giulia: Acredito que a formação em Relações Internacionais está extremamente atrelada tanto a atividade diplomática, quanto com a atuação em Organizações Internacionais, que foram as duas das atividades que mais tive contato durante o Programa. A grade ampla do curso, permite que o internacionalista desenvolva capacidades analíticas e críticas extremamente importantes, principalmente quando se trata de posicionar e entender  o Brasil no cenário internacional. Desse modo, acredito o profissional formado nesse curso estará altamente apto a compreender a missão e objetivos que norteiam uma Organização Internacional, seja lá qual seja sua área específica de atuação, ou então representar diplomaticamente um país e negociar importantes temas com outras nações. Na minha avaliação, esse profissional tem toda a  base para ser alguém que busca o entendimento mútuo entre partes de um cenário plural, enxergando todas as suas complexidades e cria pontes, mesmo em assuntos ou temas que parecem inconciliáveis.


 
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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Opinião: Por que as pessoas estão protestando no Irã?


Por que as pessoas estão protestando no Irã?

Por Andrew Traumann*



Manifestantes da Diáspora Iraniana protestam contra o regime em Londres. Observe a utilização de bandeiras do Antigo Regime, que se tornou símbolo dos oposicionistas.




Nos últimos dias de 2017, o mundo foi pego de surpresa por uma onda de manifestações políticas no Irã. Imediatamente, o presidente norte-americano Donald Trump demonstrou seu apoio ás manifestações e afirmou que “o grande povo iraniano se levantou e está faminto por comida e liberdade”. Curiosa declaração de respeito para alguém que sequer permite a entrada de iranianos em seu país e que há poucos meses chamou o Irã de “uma nação de terroristas”. A embaixadora norte-americana na ONU Nikki Haley propôs uma reunião de emergência para discutir como a ONU poderia apoiar os manifestantes.

Mas afinal, quem são esses manifestantes, quais os interesses envolvidos neste jogo e o que originou a maior onda de protestos no país desde 2009?

As razões primárias dos protestos se originaram em Mashhad (segunda maior cidade iraniana) e depois se espalharam para Teerã e outras grandes cidades são econômicas: o acordo intitulado P5+1 de 2015 (que envolveu os 5 países membros do Conselho de Segurança, mais a Alemanha), propunha que as sanções contra o Irã, que já duram quase 40 anos, seriam suspensas em troca de um drástico recuo no programa nuclear do país. Criou-se então uma enorme expectativa entre a população de que, com o fim do embargo o Irã finalmente sairia do sufoco econômico, receberia maciços investimentos estrangeiros, empregos seriam gerados e que sua qualidade de vida daria um salto qualitativo. Não foi o que aconteceu. 

Na verdade, quase três anos depois, muitas das sanções seguem em vigor. Pra piorar, o presidente Donald Trump logo no início de seu mandato, aprovou dois novos pacotes de sanções e, em outubro não certificou o Acordo, empurrando, sem consultar os demais países signatários, a decisão final sobre a sobrevivência do mesmo para o Congresso Norte-Americano. Assim, o  povo iraniano se sente duplamente enganado: pelo seu governo que prometeu que o Acordo valia a pena e pelo P5+1 que,em sua visão,não tem honrado o mesmo. A iniciativa privada local não se sente encorajada a investir em projetos de longo prazo num país marcado por sanções econômicas.    Segundo dados oficiais, o desemprego no país é de cerca de treze por cento, mas há analistas que afirmam que esse índice na verdade pode ser bem maior.

Claro que nem todos os problemas do país tem origem nas sanções.  O Irã é um país com sérios problemas estruturais que se arrastaram por todo o século XX e que ainda não foram solucionados a contento. Burocracia excessiva, corrupção, dependência do petróleo, altos impostos, aumentos nos preços dos alimentos e até do combustível. No mês passado quando foi votado o orçamento do país, o presidente reeleito Hassan Rohani justificou o aumento do preço da gasolina com a necessidade da manutenção de instituições religiosas pelo Estado. Essa declaração foi um dos estopins da revolta, especialmente no clima de frustração de expectativas que vive o país.   Há também uma enorme dependência dos investimentos da Guarda Revolucionária, instituição criada em 1979 para proteger o Irã de um golpe que reconduzisse o Xá Reza Pahlevi ao poder,que teve uma atuação fundamental na Guerra Irã-Iraque e que hoje representa uma elite não apenas militar,mas principalmente econômica do país,responsáveis pela maior parte dos investimentos,com um fortíssimo lobby no Parlamento e respondendo somente ao Líder Supremo, o Aiatolá Ali Khamenei.


Porém, o que começou como um protesto pela alta dos preços de produtos básicos passou a ser instrumentalizado tanto pela oposição interna ao regime (entre eles muitos saudosos do regime monárquico) quanto por elementos externos. Assim, as manifestações legítimas do povo iraniano têm sido sequestradas por grupos políticos com agendas próprias. Vários opositores do regime no exterior têm usado as redes sociais para estimular as manifestações e transformar um protesto pontual (como os ocorridos em 1999 e 2009) num questionamento do regime como um todo. Como sempre acontece quando há protestos no Irã, analistas internacionais e a mídia, especialmente anglo-americana, prevê a implosão do regime, algo muito improvável,dado tanto ao substancial apoio que o regime possui entre o grosso da população (que também tem saído ás ruas), quanto pelo controle total que o governo possui  dos meios de comunicação,da economia e das Forças Armadas,amplamente fiéis  ao regime.

 Após as malfadadas invasões de Iraque e Líbia devemos ficar sempre muito atentos a quais são os interesses ocultos por detrás de cada discurso em nome da “democracia, liberdade e direitos humanos”. 

*Andrew Traumann é Professor de História das Relações Internacionais no UNICURITIBA.
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sábado, 16 de dezembro de 2017

16 de Dezembro - Dia da Vitória


Nesta data é comemorado o dia da Vitória em Bangladesh - esse pequeno país asiático, pouco conhecido pelos brasileiros, venceu a guerra contra o Paquistão em 1971 após um grande conflito que envolveu também a Índia. Bangladesh tornou-se independente após nove meses de guerra e mais de três milhões de mortos.

Bangladesh era conhecida como Paquistão Oriental e desde sua origem em 1947 possuía conflitos com o Paquistão Ocidental devido às suas diferenças de etnias, religião, língua e economia.

Hoje a República Popular de Bangladesh apesar de ser um dos países mais populosos do mundo, vem mudando sua história de dificuldades, despontando nas duas últimas décadas com forte crescimento econômico e programas para redução da pobreza.

O país vem fortalecendo a participação de mulheres no mercado de trabalho, na política e também na diplomacia.

16th of December - The Victory Day

On this date is celebrated the Victory Day of Bangladesh - this small Asian country, little known to the Brazilians, gained its liberation from Pakistan in 1971 after a great conflict that has also involved its allied India, resulting in nine months of war and more than 3 million people dead.

Previously Bangladesh was known as East Pakistan and since its origin in 1947, had conflicts with West Pakistan due to its differences of ethnicity, religion, language and economy.

Today the People's Republic of Bangladesh, despite being one of the most populous countries in the world, has been changing its history of difficulties, emerging in the last two decades with strong economic growth and programs to reduce poverty. 

The country has also strengthened the participation of women in the labor market, in politics and also in diplomacy.



                                                                                                           Profº Marcelo Grendel Guimarães
                                                                                                           Consul Designado de Bangladesh





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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Opinião: GKS 2017 - Impressões sobre a Coreia do Sul depois de um mês de estudos e vivência no país


O aluno do sétimo período de Relações Internacionais do UNICURITIBA, Gabriel Thomas Dotta, participou de um programa estudantil oferecido pelo  governo sul-coreano. Hoje, ele relata a experiência no Blog Internacionalize-se. 

GKS 2017: Impressões sobre a Coreia do Sul depois de um mês de estudos e vivência no país
Gabriel Thomas Dotta[1]

            Em junho do corrente ano, fui acariciado com uma das melhores notícias que já recebi: havia sido aceito no Global Korea Scholarship for Undergraduate Students from Africa and Latin America. O GKS é um programa do governo sul-coreano que tem por objetivo auxiliar na promoção do desenvolvimento dos países-parceiros da Coreia por meio da educação. Para tanto, o governo seleciona estudantes de graduação do mundo em desenvolvimento e os leva à Coreia, onde passam um período estudando questões consideradas afeitas ao desenvolvimento de seus países de origem.
            Em 2017, foram selecionados oitenta estudantes, quarenta da África e quarenta da América Latina. Para nossa região, os campos prioritários foram as ciências materiais e a ciência política e estudos internacionais, sendo dedicadas vinte vagas para cada. Assim, para o eixo em que participei, foram selecionados vinte graduandos de áreas relacionadas à ciência política de todos os países latinoamericanos, tendo em conta o rendimento acadêmico, a elaboração de projeto de pesquisa e o perfil dos estudantes.
            O governo coreano arcou com todos os custos relevantes ao programa: passagens aéreas de ida e volta, alimentação, hospedagem e outros. Na ciência política, dos vinte estudantes selecionados dez foram brasileiros, os outros sendo da Nicarágua, República Dominicana, Honduras, Argentina, Peru, México e Colômbia. A composição de nossa turma foi surpreendente, uma vez que a seleção não tinha cotas nacionais, apenas de avaliação comum. Por isso, foi interessante ver o grande peso da América Central.
            Passamos cinco semanas na Coreia, tendo aula de segunda à sexta das 9:00h às 18:00h. Os conteúdos abordados tratavam de administração pública, cooperação internacional e logística, com foco na experiência coreana. Além das aulas, tivemos que desenvolver pesquisas, que ao final do programa foram apresentadas e avaliadas em uma feira científica. Ao menos uma vez por semana era realizada também alguma visita técnica: a órgãos públicos, organizações internacionais sediadas no país, empresas nacionais de peso, como a Samsung, e também a sítios históricos.
            Residimos e estudamos na Universidade Nacional de Incheon, localizada em Songdo, em Incheon, cidade portuária vizinha da capital Seul. Songdo é um território que até recentemente era mar, tendo sido transformado em terra sobre a qual se edificou uma cena urbana. É chamada de “cidade do futuro”, planejada desde o zero há menos de uma década, repleta de tecnologias. Ali estão sediadas organizações como o escritório regional do Banco Mundial e a UNESCAP, comissão sub-regional com funções iguais às de nossa CEPAL; e também as principais indústrias do país, que ali são sujeitas a um regime tarifário diferenciado, visando promover a ocupação do território.
 Durante a estadia, tive a sorte de estabelecer fortes amizades com coreanos, como os que residiam no dormitório da faculdade. Com isso tive a oportunidade de vivenciar vários aspectos da sociedade e me engajar em temas não abordados dentro da sala de aula. Enquanto internacionalista, as questões que mais me chamaram a atenção foram a Coreia do Norte e os Estados Unidos dentro do imaginário social sul-coreano.
Fui com a ideia de que os sul-coreanos viviam em um estado permanente de insegurança por conta da Coreia do Norte, e que por isso nutriam sentimentos negativos contra o país. Na verdade, a despeito da ressonância mediática no Ocidente, nenhum dos coreanos com quem conversei acreditava na possibilidade de um ataque ou guerra, acreditando se tratarem de ameaças retóricas, sem qualquer influência em seu cotidiano.
Ademais, os sul-coreanos tendem a partir de uma distinção muito clara entre povo e governo norte-coreano, que permite uma visão de irmandade. Um discurso que ouvia com frequência era o de que “a Coreia é uma há cinco mil anos; foi dividida há pouco mais de cinquenta e em razão de disputas políticas entre estrangeiros”. A reunificação das Coreias é considerada uma realidade inevitável para a maioria das pessoas; ao ponto de eu ter ouvido, uma vez, que é até bom que o Norte desenvolva armamentos nucleares, já que assim, quando reunificada, a Coreia nasceria como potência nuclear.
Com relação aos Estados Unidos, fui com o estereótipo de que os sul-coreanos teriam uma visão quase natural em favor do país. A verdade é que é bastante comum uma visão bastante crítica, sobretudo em se tratando das relações com o Norte, em que o papel estadunidense é muitas vezes visto como contrário aos interesses do Sul. Quando estive lá, a discussão da vez era o THAAD, sistema antimíssil em instalação pelos EUA na fronteira. Era frequente a leitura de que o THAAD não visava proteger à Coreia, mas sim ao Ocidente, e de que sua instalação mais promoveria que dissiparia tensões.
Embora a segurança não seja tópico comum, ela reflete em uma das questões sociais do país: o serviço militar, ponto de reclamação constante dos jovens. Na Coreia, todos os homens devem passar pelo serviço militar, sem exceções. O serviço obrigatório dura dois anos e, mesmo após seu término, os homens são constantemente convocados para treinamentos. Naturalmente, essa obrigatoriedade tem efeitos sobre a sociedade coreana como um todo, sobretudo na construção de seus estritos papéis de gênero.
 Algumas outras questões sociais me chamaram a atenção, como o sistema educacional. O adolescente coreano tem a rotina comum de iniciar seus estudos assim que acorda e finalizá-los apenas antes de ir dormir. A educação pré-universitária é pública e de alta qualidade, mas por ser omnipresente é considerada insuficiente para muitas famílias, que sonham que seus filhos ingressem nas melhores instituições do país.
Por isso, os estudantes frequentam os hagwon, escolas privadas especializadas em uma disciplina. A rotina comum é ir à escola pública, depois ir a uma escola de matemática, uma de inglês e uma de coreano; e então ir para casa estudar. O vestibular é unificado, como nosso ENEM, e é um grande evento: no dia, aeronaves não podem circular em espaços aéreos que possam perturbar os estudantes durante a prova. Todo esse sistema é considerado bastante abusivo, existindo forte mobilização em seu contrário.
Além de intensa, a educação pré-universitária é bastante mecânica. Uma história que me surpreendeu foi a de um amigo que contou que, nas provas de literatura, um modelo comum de questão é o em que há um enxerto de um livro com lacunas em que os alunos devem preencher a exata palavra utilizada pelo autor: os estudantes precisavam decorar capítulos inteiros dos livros. Felizmente, a atual geração reconhece a inadequação pedagógica desse sistema, ao qual os jovens comumente atribuem a culpa por seu mau desempenho nas universidades, onde o sistema de avaliação tem carga reflexiva.
A obsessão pela educação no país cria também um desequilíbrio: uma massa de mão-de-obra hiper-qualificada para qual não há trabalho, sendo a emigração a saída mais comum. Os empregos de baixa especialização são ocupados por estrangeiros e, principalmente, idosos: a terceira idade coreana é a faixa mais pobre da população, não tendo acompanhado o boom do país, que ocorre a partir da década de 1980.
Outra questão social notável diz respeito ao álcool, elemento central na cultura coreana, de forma que é rotina comum beber todas as noites, mesmo durante a semana e dentro da faculdade. A mais comum é o soju, destilado de arroz ou batata doce. A “prática de beber” é marcada por uma ritualística que induz a sua autoreprodução: se alguém mais velho, e isso inclui idades muito próximas (a idade tem um papel inestimável nas relações sociais coreanas), lhe oferece uma bebida, é desrespeitoso rejeitar. No trabalho, se espera de um bom empregado, homem ou mulher, que saia beber com seu patrão sempre que convidado. Naturalmente, o alcoolismo é um problema muito comum.
Falando em cultura, não há como deixar de mencionar a cultura “em sentido estrito”. A Coreia possui uma indústria cultural muito robusta e o entretenimento ocupa uma parcela considerável da economia. K-pop, k-drama, k-movie, k-beauty: a cultural comercial consumida pela maior parte da população é a produzida dentro do país. Isso reflete diretamente no padrão estético coreano, bastante particular tanto em relação ao ocidental quanto ao japonês e chinês, sociedades próximas.
Me surpreendeu também o fato de que, diferente do que esperava, não é tão comum encontrar estrangeiros na Coreia. Por isso, existe toda espécie de reação ao se deparar com um estrangeiro, às vezes bastante negativas. Na maior parte das vezes, porém, é apenas curiosidade. Uma vez, no metrô, uma senhora sentou ao meu lado e começou a passar a mão na minha perna, fazendo perguntas muito espantada. Pelo que pude entender com meu coreano meia-boca, estava inquieta com o calor que eu devia estar passando por ter pelos na perna, fato incomum entre os homens coreanos.
Finalmente, preciso comentar a comida. São várias as questões que tornam a gastronomia coreana particular: pratos muito apimentados, frios (uma refeição comum é o nengmyeon, macarrão em água com gelo e melancia ou pasta de pimenta), e, em casos extremos, vivos (como o sannakji, polvo). O maior estranhamento, porém, foi a inexistência de separação em comidas de café-da-manhã, almoço e janta. Um “café-da-manhã” comum no refeitório da faculdade era o combo de uma cumbuca de arroz, uma de sopa, uma de saladas e um prato com alguma proteína apimentada. O almoço de um dia era o “café” do dia seguinte, a janta do dia anterior e assim por diante.
O programa de que participei contribuiu muito para a minha formação pessoal e acadêmica. Cada país tem uma cultura própria que se imprime em um universo e sistema de pensamento absolutamente particulares. Ainda assim, por uma série de fatores, o Ocidente partilha de determinadas premissas que tornam as diversas culturas algo assimiláveis entre si. A vivência em um país como a Coreia, por sua vez, mostra contornos da realidade que raramente encontraríamos nos países com que estamos acostumados.  
Estudar em uma turma de internacionalistas de diferentes fundos latinoamericanos foi igualmente inestimável. Nos tornamos muito próximos quase que naturalmente, em razão de semelhanças que nos tornavam estranhos na sociedade coreana. Ao mesmo tempo em que muitas vezes nossos pensamentos eram similares, evidenciando o histórico comum de nossa região, em outras eram irreconciliáveis. Uma aula que muito me marcou foi sobre democracia, quando discutíamos nossas percepções; tema sobre o qual nossos colegas da América Central têm histórias (e presentes) muito diferentes da nossa.
Academicamente, além de impulsionar a desconstrução de paradigmas tomados como dados pelas ciências ocidentais, o programa me apresentou a uma série de temáticas e abordagens que, acredito, já são visíveis em meus esforços de pesquisa.
Para finalizar, há duas dicas que dou a qualquer aluno que tenha se interessado pela experiência. A primeira é que acompanhe as embaixadas dos países no Facebook. Foi ali que tomei ciência do processo seletivo para o programa. E a Coreia não é caso raro: muitos países possuem programas de bolsas desse tipo. A segunda é que se empenhe nas avaliações da faculdade. Sabemos que o método de avaliação na graduação é um tanto injusto, padrão que não é exclusivo da instituição ou mesmo do país. Infelizmente, porém, o GPA, média de todas as notas da faculdade, é o primeiro, talvez o mais importante, critério de seleção para bolsas desse tipo na maior parte dos países.



[1] Graduando do sétimo período de Relações Internacionais no UNICURITIBA
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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Redes e Poder no Sistema Internacional: Guerra e Estado-nação nos Estados Unidos da América


A seção "Redes e Poder no Sistema Internacional" é produzida pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Redes e Poder no Sistema Internacional (RPSI), que desenvolve no ano de 2017 o projeto "Redes da guerra e a guerra em rede" no UNICURITIBA, sob a orientação do professor Gustavo Glodes Blum. A seção busca compreender o debate a respeito do tema, trazendo análises e descrições de casos que permitam compreender melhor a relação na atualidade entre guerra, discurso, controle, violência institucionalizada ou não e poder. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.

Guerra e Estado-nação nos Estados Unidos da América

Lucas Andrade Quental
Luiz Guilherme G. Schinzel

Por meio das pesquisas desenvolvidas no âmbito do subgrupo “Guerras Tradicionais” – cujas características majoritárias englobam forças violentas organizadas e promovidas pelas unidades políticas entre si, ou seja, o uso da violência para maximização teleológica de seus objetivos –, pôde-se perceber que é de suma relevância considerar e compreender as forças profundas que movem e sustentam os conflitos entre atores capazes de atacar e se defender, como os Estados. 

Em um primeiro momento é preciso levar em consideração a noção conceitual de Estado-nação, portanto é relevante para a pesquisa a participação dos nacionais nas decisões políticas de seus representantes, principalmente quando se trata de conflitos entre Estados-nações. Portanto, as pesquisas buscam abarcar em sua análise o representante máximo da nação utilizado como objeto de pesquisa, por traduzir as intenções e vontades oficiais dos nacionais. Com tais elementos em mente, buscou-se analisar os discursos oficiais de tais representantes, e como estes influenciam nas reverberações políticas da guerra, tanto no Sistema Internacional, quanto no âmbito doméstico.

Através do estudo de caso sobre a relação entre a estabilidade socioeconômica dos EUA e o índice de aprovação do Presidente, com o nível de belicosidade na retórica dos discursos presidenciais durante o período da Guerra do Iraque, e os momentos próximos ao início e ao fim deste conflito, torna-se visível as intenções das partes. Assim, através dos discursos presidenciais estadunidenses, nota-se que, supostamente, há uma intenção falaciosa de resguardar a segurança mundial. Mas, também, há, hipoteticamente, uma intenção econômica e prestigiosa sob tal véu discursado. 

Pode-se afirmar que há a utilização de armamentos discursivos, que é o objeto da pesquisa, e armamentos materiais. Diversos foram os métodos utilizados durante o conflito. Entretanto, podemos salientar o uso do discurso para assolar a integridade do reconhecimento da soberania do outro Estado – além de garantir à parte detentora de maior grau de sofisticação e poder de discurso, um respaldo do Sistema Internacional e aproxima-o da legalização no Direito Internacional Público no âmbito do Sistema Internacional –, e os métodos de destruição física, que englobam armamentos militares e paramilitares. 

A guerra sempre foi algo presente em toda a história da humanidade. Grandes conflitos ocorreram desde que o ser humano passou a pisar sobre esta terra. Organizaram-se politicamente e líderes guiaram seus povos para os mais diferentes conflitos de nossa história. Mesmo após duas guerras mundiais, a guerra insiste em não se tornar coisa do passado. Recentemente temos sido testemunha dos discursos do presidente Donald Trump que em muitos momentos desafiam as normas internacionais e contrariam o bom senso que se espera de um presidente. Portanto, a figura controversa de Donald Trump é o objeto de estudo ideal para compreendermos se ou até que ponto os nacionais são cúmplices nas guerras ao longo da história. 

Portanto, será necessário analisar não apenas a personalidade de Donald Trump, mas o quanto ele corresponde aos sentimentos e vontade de seus nacionais. O resultado poderá apresentar uma luz a respeito de outros fenômenos políticos ao longo da história e entender melhor o fenômeno da guerra.
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