sexta-feira, 25 de maio de 2018

Redes e Poder no Sistema Internacional: A geopolítica dos Recursos Naturais e a Crise do Catar - uma questão de prioridades dos governos


A seção "Redes e Poder no Sistema Internacional" é produzida pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Redes e Poder no Sistema Internacional (RPSI), que desenvolve no ano de 2018 o projeto "Redes da guerra e a guerra em rede" no UNICURITIBA, sob a orientação do professor Gustavo Glodes Blum. A seção busca compreender o debate a respeito do tema, trazendo análises e descrições de casos que permitam compreender melhor a relação na atualidade entre guerra, discurso, controle, violência institucionalizada ou não e poder. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.

A Geopolítica dos Recursos Naturais e a Crise do Catar - uma questão de prioridades dos governos

Tiago Viesba Pini Inácio *

O embargo ao Catar, que já tem se alastrado por quase um ano dentro do Sistema Internacional, serve de exemplo para demonstrar como as questões dos recursos naturais, segundo uma visão da geopolítica, elucidam que eventuais crises socioambientais são importantes fatores que podem acarretar em desestabilizações políticas. Além disso, ao entendermos as disputas por esses recursos, podemos perceber as formas pelas quais as competições entre os poderes num dado território se distribuem e atuarão frente à posse e o uso destes. 

Há cerca de um ano, com a visita de Donald Trump à Arábia Saudita, desenvolveu-se um acordo entre os Estados Unidos da América (EUA) e o rei saudita de US$ 110 bilhões em compras e vendas de armamentos. Aproveitando essa visita, Trump incentiva os países do Conselho de Cooperação do Golfo - um bloco econômico formado por Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Catar, Omã e Kuwait – que atuem no sentido de controlar grupos terroristas e pressionar o Irã.

Contudo, o Catar foi o único país do bloco que demonstrou uma postura mais ponderada, pois este têm relações comerciais com o Irã, o qual tem sido seu parceiro no comércio de petróleo, gás e alimentos.

Desta forma, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Iêmen e Egito romperam relações econômicas e diplomáticas com Catar no dia 5 de junho de 2017. Os países ainda fecharam suas fronteiras terrestres e proibiram aviões catarianos de sobrevoar seus espaços aéreos. Num avanço da crise diplomática, cidadãos do país foram expulsos da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes e do Bahrein, e os residentes desses países não podem ir ao Qatar. 

Os países justificaram o embargo dizendo que Doha apoia grupos terroristas e distribui notícias falsas, também fizeram uma lista de exigências para suspender o bloqueio - entre elas, o fechamento da Al Jazeera, vista por estes países como uma emissora que divulga conteúdo favorável a grupos terroristas.

Uma vez que o Catar é uma península, possui somente uma única fronteira terrestre e esta divisão se dá com a própria Arábia Saudita. Por tal ligação e devido às próprias condições de produção agrícola do país, o Catar depende das importações por terra e mar para as necessidades básicas de sua população de 2,7 milhões, e cerca de 40% de seus alimentos que abastecem a nação chegavam através da fronteira terrestre com a Arábia Saudita. Sendo assim, devido a essas competições políticas internacionais, no médio prazo, seria esperado que o país entrasse em um verdadeiro colapso socioambiental e cedesse às exigências dos países que praticam o embargo.

Entretanto, segunda a visão da geopolítica dos recursos naturais, para avaliarmos o potencial de conflitos associados ao stress ambiental - a relação de dependência de uma sociedade com recursos naturais como água potável, alimentos ou terra fértil -, torna-se necessário analisar o contexto socioeconômico e político em questão. As mudanças do potencial de perturbação desse stress ambiental exercem profundas influências em relação à adaptação dos sistemas políticos, sociais e econômicos e sua estabilidade.

Assim, espera-se que os Estados respondam cada vez mais a essa realidade complexa que, paralelamente, tende a fugir do plano estatal, já que os principais grupos afetados diretamente por essas disputas não são o Estado - e sim, empresas, grupos de pressões, indivíduos. Por consequência, a resolução desses conflitos tenderá, em primeiro lugar, para um aumento de cooperação e não o uso de forças militares ou da violência, com uma orientação para a resolução de problemas como a segurança alimentar, saúde humana, saúde dos ecossistemas e também, a coesão e estabilização política, econômica e social da sociedade (LOURENÇO e MACHADO, 2013). 

Um elemento importante para o Catar em seus esforços para obter apoio internacional é a mudança de posição tomada por Trump, o qual apoiou inicialmente as reações contra o Catar. Contudo, com conflitos urgentes se acumulando em todo o Oriente Médio, Trump passou a demonstra-se ansioso para resolver a disputa regional muçulmana sunita ao considerar a perspectiva iminente de lançar um ataque militar punitivo na Síria devido a um suposto ataque de armas químicas. O Catar é sede da Base Aérea de Al-Udeid, que abriga cerca de 10.000 soldados americanos e é a sede no exterior do Comando Central dos Estados Unidos que lançaria qualquer greve contra a Síria.

Por outro lado, outras áreas da economia do Catar afloraram, como o FMI notou em uma revisão da economia do Catar em março: novas rotas comerciais foram rapidamente estabelecidas e estabilizadas - com Omã, Turquia e Irã, entre outros - e o sistema bancário também se ajustou, em parte devido ao aumento dos depósitos do governo. Em 7 de maio, o Ministério da Fazenda informou que estima-se que o Qatar passe de um déficit de 1,6% em seu PIB em 2017 para um superávit de 2,8% em 2018. Isso se baseia nos dados do Economic Outlook Brief, divulgado pelo Ministério das Finanças em 14 de maio deste ano.

As empresas locais de laticínios estão trabalhando com o intuito de aumentar sua produção para cobrir as necessidades do mercado local, acrescentando que 92% da demanda local por leite será atendida por essas empresas até o final do primeiro semestre deste ano.

O governo catarense colocou como pauta principal do agenda do Estado a autossuficiência do país, principalmente nas questões socioambientais, assim colocando o tema da segurança alimentar no centro das atenções. Também, o governo da Grécia já se colocou em favor do país, se comprometendo a compartilhar sua experiência agro-tecnológica em apoio aos planos de autossuficiência do Qatar. 

Levando-se em consideração o que fora exposto, bem como a sucessão dos acontecimentos dentro desse período de nove meses, podemos perceber que esses fatores sim demonstram como a ação dos Estado levou como prioridade as consequências de crises socioambientais para a população e como essa questão não gerou um aumento da violência e sim, a ampliação das relações internacionais do Catar.

* Tiago Viesba Pini Inácio é acadêmico do curso de Relações Internacionais do UNICURITIBA, Monitor da disciplina de Teoria das Relações Internacionais II e pesquisador do Grupo de Pesquisa "RPSI - Redes e Poder no Sistema Internacional".


Referências

Bloqueio do Catar: o Irã envia cinco planos de alimentos. BBC News, 11 de Junho de 2017. Mundo, Oriente Médio. Disponível em: http://www.bbc.com/news/world-middle-east-40237721> Acesso em: 23 de Maio de 2018. 

Crise do Catar: o que você precisa saber. BBC News, 19 de Julho de 2017. Mundo, Oriente Médio. Disponível em: http://www.bbc.com/news/world-middle-east-40173757> Acesso em: 23 de Maio de 2018.

HARRIS, Gardiner; LANDLER, Mark. Ofensiva de charme do Qatar parece ter sido paga, dizem oficiais dos EUA. The New York Times, 09 de Abril de 2018. Política. Disponível em:  https://www.nytimes.com/2018/04/09/us/politics/qatar-trump-embargo-charm-offensive.html>. Acesso em: 23 de Maio de 2018. 

DUDLEY, Dominic. Como o Catar está vencendo a guerra diplomática em sua disputa com a Arábia Saudita e os EAU. Forbes, 31 de Janeiro de 2018. Assuntos Estrangeiros. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/dominicdudley/2018/01/31/qatar-winning-war-saudi-uae/#6ad17afe3743> Acesso em: 23 de Maio de 2018.

DUDLEY, Dominic. Como o Qatar se prepara para marcar um ano sob o embargo saudita, parece o vencedor da disputa. Forbes, 17 de Maio de 2018. Assuntos Estrangeiros. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/dominicdudley/2018/05/17/as-qatar-prepares-to-mark-a-year-under-the-saudi-embargo-it-looks-like-the-winner-in-the-dispute/#38bcedc77720>. Acesso em: 23 de Maio de 2018. 

Embargo é para preservar Qatar, diz embaixador saudita no Brasil. Gazeta do Povo, 07 de Julho de 2017. Mundo, Oriente Médio. Disponível em:http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/embargo-e-para-preservar-qatar-diz-embaixador-saudita-no-brasil-9ku4xudpwg8ahpfopxhbnwrtu> Acesso em: 23 de Maio de 2018. 

Crise do Golfo - Qatar: Todas as últimas atualizações: hoje é o 352º dia do bloqueio. Al Jazeera, 23 de Maio de 2018. News, GCC. Disponível em: <https://www.aljazeera.com/news/2017/06/qatar-diplomatic-crisis-latest-updates-170605105550769.html> Acesso em: 23 de Maio de 2018.

LOURENÇO, Nelson; MACHADO, Carlos R. Mudança Global e Geopolítica dos Recursos Naturais. Mulemba - Revista Angolana de Ciências Sociais, v. 3, n. 5, p. 81 - 103, 2013.
Leia Mais ››

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Por Onde Anda: Vinicyus de Mattos Carneiro é Senior Finance & Project Specialist na Renault Australia




A seção "Por onde anda" entrevista egressos do Curso de Relações Internacionais do UNICURITIBA sobre experiências acadêmicas, profissionais e de vida concretizadas após o término do curso e é coordenada pela Prof. Michele Hastreiter e pela Prof. Angela Moreira


Nome Completo: Vinicyus de Mattos Carneiro
Ano de ingresso no curso de Relações Internacionais: 01/2005
Ano de conclusão do curso de Relações Internacionais: 06/2009
Ocupação atual: Senior Finance & Project Specialist na Renault Australia



Blog Internacionalize-se: Conte-nos um pouco de sua trajetória profissional durante o curso de Relações Internacionais e após a formatura.

Vinicyus: Quando eu era criança eu tinha um sonho de conhecer o mundo (culpa da Copa de 1994). Para atingir esse sonho, a carreira diplomática me pareceu ser a melhor opção. Foi por isso que decidi fazer o curso de Relações Internacionais.
No quarto período da faculdade acabei sendo selecionado para uma vaga de estagio na Renault do Brasil e foi como minha carreira profissional se iniciou. Passei dois anos trabalhando na Renault como estagiário na área de Vendas Externas sendo responsável principalmente pela relação comercial entre a Renault do Brasil e os países fora do Mercosul. No meio desses dos dois anos fui fazer um Work Experience na California/EUA. Essas passagens na Renault, me fizeram valorizar os conhecimentos de RI e me preparar para o mercado de trabalho, pois pude reunir conhecimento teórico e prático.
Em 2009, com o fim do meu contrato de estagio e recém formado, decidi me inscrever em programas de Trainee e acabei sendo aprovado no primeiro que foi concluído naquele período. Entrei com mais outros 22 recém formados no programa de Trainee do Sistema FIEP e sendo selecionado para trabalhar na área de Fomento e Desenvolvimento. Dentro dessa área também estava nascendo a nova versão do CIFAL – Centro Internacional de Formação de Atores Locais para América Latina, programa ligado a Agencia das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa, e meu gerente havia sido designado como o Diretor Executivo. Como era uma atividade ligada a Relações Internacionais, diplomacia e as Nações Unidas, decidi me oferecer para ser o primeiro funcionário na construção do centro. Passei quase 4 anos trabalhando no CIFAL e tive oportunidades incríveis de viajar o mundo, conhecer gente importante e realizar projetos de desenvolvimento local. Porém esse mundo diplomático e político não era exatamente como eu imaginava e decidi que era hora de voltar para iniciativa privada.
Em 2013, acabei tendo uma passagem de 9 meses pela Votorantim Cimentos onde trabalhei na área Comercial, responsável pelas estratégias de venda direta. Eis que em 2014 a Renault voltou a minha vida e fui re-contratado, agora na área Financeira como Controller de Investimentos. Foi nessa volta a Renault que percebi qual era meu lugar como profissional. Fiquei por dois anos na Renault trabalhando na área de investimentos quando surgiu uma oportunidade pessoal de me mudar para Austrália.

Após quatro meses morando em Sydney, a Renault Austrália me convidou para assumir um cargo em Melbourne. Desde Janeiro de 2018 estou trabalhando na Renault Austrália como Especialista em Projetos e a 15 dias assumi uma nova função como Financeiro Senior e Especialista em Projetos. Tem sido bastante desafiador trabalhar com finanças e projetos fora do Brasil, pois existe a preocupação com o idioma e sobre minha real capacidade de ser competitivo como profissional fora do país.



Blog Internacionalize-se: Quais as aptidões e conhecimentos desenvolvidos no curso de Relações Internacionais que mais o ajudam na sua profissão atual.

Vinicyus: Nas multinacionais as pessoas tendem a executar as mesmas atividades por um tempo, e isso muitas vezes limita a capacidade do profissional de entender a correlação entre as atividades. Por conta do curso de relações internacionais, eu sempre fiquei curioso pra saber como as coisas se relacionam e isso acabou despertando meu interesse de explorar assuntos que não eram da minha área de trabalho. Isso me ajudava muito no momento de entrar em discussões. Com o tempo, as pessoas passam a valorizar suas opiniões, pois elas não se limitam a sua área de atuação. Durante o curso eu senti uma carência grande em ter um conhecido mais teórico/prático e por isso decidi fazer Pós Graduação em Administração de Empresas. Na pós pude ver como o conhecimento em RI era um diferencial, pois os demais sofriam para entender como as coisas se conectavam, enquanto para mim era bastante claro. Com o tempo acabei me encantando por Gestão de Projetos e acabei me aprimorando nesse tema, o que veio ao encontro dos conhecimentos adquiridos em Relações Internacionais. Em gestão de projetos existe uma etapa negligenciada e que o aluno de Relações Internacionais tem facilidade de desenvolver, que é a Analise de Ambiente. Muitos projetos falham porque o ambiente e ignorado ou as pessoas não sabem como analisa-lo, o que para alunos de RI e mais fácil de entender. Atualmente sinto que consigo meter a mão na massa sabendo aonde as coisas irão me levar, utilizando analise de ambiente, planejamento, execução e analise de resultados.


Blog Internacionalize-se: Trabalhar em uma grande empresa multinacional sempre foi seu objetivo ao ingressar no curso de Relações Internacionais? Conte-nos um pouco sobre esta decisão.

Vinicyus: Como contei na minha experiência profissional, meu primeiro objetivo na carreira era seguir a carreira diplomática. Acabei vivenciando isso durante minha passagem nas Nações Unidas, porém a teoria não é igual a pratica e a vida diplomática me decepcionou. Apesar de ter desenvolvido muitos trabalhos que me orgulharam, percebi que não era o que eu procurava como profissional. Saindo da vida diplomática, vi que seria profissionalmente realizado quando eu pudesse ser trabalhar fora do Brasil e ser competitivo contra pessoas de outras nacionalidades.
Esses tipos de oportunidades são mais comuns em grandes multinacionais. Além disso, a forma organizada e estruturada como as multinacionais trabalham sempre me atraiu. Existe um processo claro de como as coisas devem ser e isso me animou desde quando eu fiz o meu primeiro estágio. Grandes multinacionais também te dão oportunidade de interagir com pessoas do mundo inteiro e geram um ambiente atrativo para buscar oportunidades em outros países. E claro que para esse tipo de oportunidade e necessário que você mostre serviço e demonstre interesse. A Renault sempre foi uma empresa que me ofereceu esse tipo de oportunidade.
Então, bastava eu mostrar para a empresa que era interessante contar comigo em outro pais e foi o que busquei fazer durante meus últimos anos no Brasil.


Blog Internacionalize-se: Como foi a decisão de se mudar para a Austrália?

Vinicyus: Essa decisão começa no momento em que conheci minha esposa, ela sobretudo é a razão principal pela qual estou na Austrália e devo a ela muito do que aconteceu comigo ate agora.
Quando a conheci em 2010, ela estava vindo para Austrália fazer um Mestrado em Arquitetura. Por conta disso ficamos muito próximos do país e eu tive a oportunidade de visita-lo duas vezes. Nessas minhas vindas, eu adorei como as coisas aqui são organizadas e como tudo tem uma lógica. O australiano não se difere muito do brasileiro em termos de convívio em sociedade e estilo de vida, e isso me deixava com um pulga atrás da orelha. Como um pais como um povo tão semelhante ao Brasil pode ser tão organizado? Essa dúvida fazia meu desejo de viver aqui aumentar cada vez mais. Porem imigrar nem sempre e uma decisão fácil e os passos são sempre complicados.
Entre os passos mais complicados, vistos e autorizações de trabalho são os mais comuns, esse é o problema mais comum com qualquer estrangeiro. Sem visto a sua vida no exterior fica muito dificil. O plano meu e de minha esposa sempre foi morar fora e a gente estudou opções e viu quais eram os passos e requisitos necessários. Somente em planejamento e execução passamos mais de 3 anos para chegar aqui numa situação um pouco mais confortável, porém ainda longe do ideal.
Minha esposa mesmo estando no Brasil sempre manteve bons contatos na Austrália e acabou em 2017 surgindo uma oportunidade para ela vir. Após avaliarmos a situação, decidimos que era momento de nos mudarmos para Austrália e buscar oportunidades para desenvolver nossa vida pessoal e profissional. Porém para vir para a Austrália, eu precisei me desligar da Renault do Brasil.


Blog Internacionalize-se: Como foi o processo de recrutamento da Renault na Austrália? O que considera ter sido decisivo para ter sido selecionado?

Vinicyus: Como comentei, eu não vim para a Austrália transferido pela Renault. Foi uma decisão pessoal que não tinha relação com a empresa. Porém, antes de me mudar eu entrei em contato com a Renault daqui e me ofereci para quando houvesse alguma oportunidade. E foi exatamente esse meu contato que fez diferença nesse processo. Numa multinacional invariavelmente as pessoas se conhecem, mesmo morando em diversos países. A minha sorte foi que haviam pessoas que se conheciam nesse processo e meu currículo chegou nas mãos corretas. Então, basicamente quando a oportunidade na Renault Austrália surgiu, as pessoas aqui já me conheciam como profissional. Preliminarmente, eu mantive contato com a Renault Austrália, passei por algumas entrevistas para que me conhecessem melhor, mas na época não havia uma oportunidade ainda. Quando a oportunidade surgiu, o processo foi bastante rápido. Entre o primeiro contato comigo e a aprovação passaram-se 3 dias.



Blog Internacionalize-se: Como é o dia a dia na Renault?

Vinicyus: Aqui a rotina e similar a qualquer subsidiaria de uma grande multinacional. Para mim a grande diferença é o tamanho, pois a Renault Austrália é relativamente pequena, sobretudo comparada com a estrutura do Brasil. Todos os dias, tenho minha agenda de atividades e reuniões, mantenho a minha rotina de relatórios e e-mails e sempre que sobra um tempo tento interagir com as pessoas aqui. Facilita o fato de que apesar de ser o único brasileiro, eu não sou o único estrangeiro. Então acabo compartilhando dos mesmos problemas que outros estrangeiros têm aqui.
A proximidade com os países do Pacifico faz com que eu converse bastante com a China e Coreia do Sul, mas essencialmente e o mesmo tipo de relação que eu tinha com os países da região da América quando estava no Brasil.



Blog Internacionalize-se: Quais são as atividades que você realiza ou já realizou na empresa?

Vinicyus: Na Renault, de forma geral, eu vivi quase tudo da vida privada.
· Cuidei da analise econômica e financeira de projetos para definir se eram relevantes ou não. Trabalhei também na execução deles e busquei que saíssem da maneira mais próxima da planejada.
· Fui parte e liderei projetos em diversas áreas.
· Interagi com pessoas de diversas áreas e diferentes nacionalidades.
· Desenvolvi relatórios e atividades que ajudaram a empresa a atingir objetivos.
· Capacitei pessoas e adquiri conhecimento das pessoas que admiro.

Blog Internacionalize-se: Você daria alguma dica ou conselho para nossos estudantes?

Vinicyus:
Tenho algumas dicas que gostaria de compartilhar com os estudantes.

1. Nunca pare de estudar e aprender coisas novas.
2. Expanda sua forma de pensar, não crie barreiras para seu desenvolvimento.
3. A faculdade e muito importante, mas ela não é a única forma de adqurir conhecimento. Existe uma grande diferença entre teoria e prática, e a segunda você não adquire na faculdade.
4. Você não é só o que você aprendeu em sala de aula, mas também as experiências que você viveu. Tente viver muitas experiências e quanto mais diferentes elas forem, melhor.
5. Seja leal com as pessoas, mas não tente agradar a todos.
6. Não tente adivinhar as coisas, tudo acontece por determinadas razões. Quem acha demais não tem o mesmo credito de quem tem certeza.
7. Seja organizado, planeje seus passos. É muito empolgante ver o sucesso de algo planejado e reduz sua ansiedade.
8. Morar fora do Brasil é um sonho para muitas pessoas, mas não é fácil. Existem diversas formas, mas você precisa escolher direito quais problemas estará disposto a enfrentar e que estilo de vida você quer ter.
9. Oportunidades não surgem do nada, você precisa cria-las. Quem espera não sai do lugar.
10. Cada um e responsável pelas próprias escolhas.
11. Escute conselhos (como essa minha lista), mas tome suas próprias decisões. Todos que te aconselham tem alguma ideia de como as coisas devem ser ou tem algum interesse na sua decisão, mas isso não necessariamente é o melhor para você.

Leia Mais ››

segunda-feira, 21 de maio de 2018

As contribuições de Hans Morgenthau para a análise do “BREXIT” e das relações entre Estados Unidos e Coréia do Norte.

Artigo apresentado na disciplina de Teoria das Relações Internacionais I, do curso de Relações Internacionais do UNICURITIBA, ministrado pela Profa Dra Janiffer Zarpelon. 


* Mariana Camargo

Após concluída a leitura dos capítulos 8 e 11 (“A essência do poder nacional” e “O equilíbrio de poder”, respectivamente) da obra de Hans Morgenthau, “A Política entre as nações”, é possível estabelecer relações entre os conteúdos lidos com saída do Reino Unido da União Europeia e com a atual relação entre Estados Unidos e Coreia do Norte.
No capítulo 8, Morgenthau fala sobre a definição de poder nacional; as raízes do nacionalismo moderno; a retração do nacionalismo: aparente e real; e sobre a insegurança pessoal e a desintegração social.
Para ele, dentro de uma sociedade, apenas um grupo pequeno de indivíduos exercita o poder de fato, sendo esse sobre um grande número de pessoas. Por conta disso, essa grande massa da população que não exercita o poder se comporta mais como objeto de poder do que como seu agente. Como isso acontece no âmbito nacional, essa grande massa busca satisfação plena de poder no âmbito internacional, compensando assim, a frustração do âmbito nacional.
As raízes do nacionalismo moderno ocorreram no período das Guerras Napoleônicas (1799 - 1815), onde houve a identificação das grandes massas com o poder nacional e suas políticas. Porém, o nacionalismo retraiu, aparente e realmente, na época da Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945) e da Guerra Fria (1947 – 1991), respectivamente. Com a Segunda Guerra Mundial, as grandes massas deixam de se identificar com o poder nacional e suas políticas, buscando essa identificação no âmbito internacional. Porém, não foi uma retração de fato, do nacionalismo, pois era algo momentâneo. Essa retração se consolidou apenas no período da Guerra Fria, sob a forma de um movimento voltado para a unificação da Europa Ocidental, mas também o declínio político, militar e econômico da mesma.
Além disso, Morgenthau considera que quanto menor a estabilidade social de determinado Estado, maior é a intensidade emocional de sua população. Por exemplo, no século XX; a Primeira Guerra Mundial (1913 – 1917), a Inflação da Primeira metade da década de XX e, finalmente, a Crise de 29, trouxeram a emancipação da tradição e a racionalização da vida, trazendo à sociedade internacional essa desproporcionalidade entre estabilidade social e intensidade emocional.
Já no capítulo 11, o autor fala sobre o equilíbrio de poder; características e papeis da balança de poder; sociedade internacional; padrão de oposição direta; e padrão de competição.
Ele entende que a balança de poder serve para oferecer estabilidade aos Estados que compõem o Sistema Internacional e para preservar a harmonia do mesmo, evitando hegemonias e deixando cada Estado possuir seus interesses, mas não ao ponto de quebrar o equilíbrio. Além disso, ele caracteriza a sociedade internacional por sua multiplicidade e pelo antagonismo de seus elementos (Estados), que mesmo possuindo interesses diferentes, coexistem no mesmo sistema.
Quando aborda o padrão de oposição direta, o autor traz a seguinte situação hipotética: existem 3 Estados: o Estado A, o Estado B e o Estado C. O Estado A tenta agir de maneira imperialista em relação ao Estado B que, por sua vez, passa a defender um status quo ou desenvolve uma política imperialista própria para se proteger da ameaça do Estado A. Além disso, o Estado A também tenta agir de maneira imperialista em relação ao Estado C, mas esse, diferente do Estado B, acaba ou aceitando ou resistindo ao imperialismo do Estado A. Fica claro que o objetivo do Estado A é dominar o Estado C, enquanto que o objetivo do Estado B é se opor ao Estado A através da defesa de um status quo ou agindo de maneira imperialista, pois revela também ter interesse em dominar o Estado C. Porém, esse conflito entre os Estados A e B não se materializa.
Nesse padrão, o equilíbrio de poder se aplica em relação ao desejo de cada Estado em ver suas políticas se sobressaírem as políticas de Estados rivais, mas falha ao não se aplicar na estabilidade das relações, que sofrem mudanças contínuas, não assegurando, também, a liberdade de uma nação contra o domínio por uma outra.
            Quando o autor aborda o padrão da competição, ele ainda usa a trama do padrão de oposição direta, citada acima. A diferença é que, no caso do padrão da competição, a independência de C é uma mera função das relações de poder existentes entre os Estados A e B. Quando essa função tende para o lado do Estado A, a independência de C está em risco. Quando a função tende para o lado do Estado B, a independência de C está a salvo. E, caso o Estado A desista, a independência de C se concretiza para sempre.
Além disso, Morgenthau comenta que os pequenos Estados devem suas independências a um dos três fatores citados a seguir, além de que suas respectivas neutralidades se mantêm como resultado de um ou da combinação desses fatores:
a)    Equilíbrio de poder;
b)    À preponderância de um poder protetor;
c)    À sua falta de atrativos para aspirações imperialistas.
Juntando a análise de ambos os capítulos e pensando, primeiramente, na temática do nacionalismo e sua relação com a saída do Reino Unido da União Europeia, teria sido essa saída uma expansão ou uma retração do nacionalismo? Levando em conta a lógica da globalização e a consequente diminuição das fronteiras pelo Mundo, essa atitude de reclusa/fechamento do Reino Unido perante a integração da União Europeia pode ser considerada como uma atitude de expansão interna do nacionalismo, pelo meu ponto de vista, já que a votação da população -apesar de controvérsias- que levou ao ocorrido expõe o foco, primeiramente, nos interesses e benefícios internos do Estado, deixando para segundo plano a lógica da globalização e sua integração.  Porém, o Reino Unido deixa de ter benefícios que a integração regional trás, como por exemplo os acordos econômicos, que movimentam positivamente a economia do Estado e o torna até mais atrativo para realização de novos acordos. Esse comportamento reflete o retrocesso na questão da globalização e sua livre circulação de pessoas, que passou a ser visto (por essa população) como algo negativo, sendo que na verdade é algo completamente positivo, já que movimenta a economia do Estado e permite até que o mesmo esteja em constante transformação, assim como o cenário internacional.
E por último, pensando no papel do equilíbrio de poder no padrão de oposição direta, um exemplo atual que se encaixa é a relação dos EUA com a Coréia do Norte. Nesse caso, o equilíbrio de poder se aplica no ponto em que permite que cada um dos dois Estados tenha suas próprias visões e ambições políticas, mas deixa de se aplicar na questão da estabilidade dessa relação, que se prova instável. Um exemplo claro dessa alta instabilidade aconteceu no dia 29 de novembro de 2017, quando a Coreia do Norte lançou uma declaração afirmando que “todo o território continental” dos Estados Unidos estaria ao alcance de seu novo míssil balístico Hwasong-15. A notícia repercutiu de forma gigantesca e fez até com que os Estados Unidos chegassem a afirmar que os norte-coreanos estavam “implorando por guerra”. Ou seja, as mudanças já são constantes, mas quando se tornam bruscas dessa maneira, uma guerra pode eclodir simplesmente baseada na ideia de um Estado de que o outro quer uma coisa que ele nem mesmo chegou a declarar, faltando uma comunicação direta e efetiva entre os mesmos.

Referências bibliográficas:
BBC BRASIL. “O que se sabe sobre o Hwasong-15, o ‘mais poderoso’ míssil lançado pela Coreia do Norte”. http://www.bbc.com/portuguese/internacional-42165928. Brasil, 2017.
MORGENTHAU, Hans. “A política entre as nações”. Estados Unidos, 1985.
NOGUEIRA BATISTA JR., Paulo. “Nação, nacionalismo e globalização”. Entrevista com Paulo Nogueira Batista Jr. Por Portal de Revistas da USP https://www.revistas.usp.br/eav/article/download/10334/12011. Brasil, 2008.
TEIXEIRA FERNANDES, José Pedro. “O nacionalismo contra a globalização”. https://www.publico.pt/2017/02/24/mundo/opiniao/o-nacionalismo-contra-a-globalizacao-1763181 . Brasil, 2017.


* Mariana Camargo: estudante do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba.
Leia Mais ››