sábado, 15 de julho de 2017

Redes e Poder no Sistema Internacional: A guerra dos e nos conceitos


A seção "Redes e Poder no Sistema Internacional" é produzida pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Redes e Poder no Sistema Internacional (RPSI), que desenvolve no ano de 2017 o projeto "Redes da guerra e a guerra em rede" no UNICURITIBA, sob a orientação do professor Gustavo Glodes Blum. A seção busca compreender o debate a respeito do tema, trazendo análises e descrições de casos que permitam compreender melhor a relação na atualidade entre guerra, discurso, controle, violência institucionalizada ou não e poder. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.


A guerra dos e nos conceitos


Marina Lola Lombardi *

No estudo dos diversos conflitos internacionais, o início da pesquisa se dá pelo incessável processo de conceituação. Termos como “guerra”, “armamento” ou ainda “genocídio” são destrinchados e debatidos, talvez resultando em perguntas ainda mais diversas que apenas a sua definição e muitas vezes, por que não, incômodas. Neste aspecto, a própria academia pode-se tornar um campo de batalha. Como?

Tomemos como exemplo o termo “genocídio”. O genocídio foi conceituado pela primeira vez pelo judeu Raphael Lemkin em 1944, que trouxe o termo ao relatar o genocídio de seu povo durante o Terceiro Reich de Hitler, após sua fuga da Polônia para os Estados Unidos, um período de suma importância para os povos e a história e uma tentativa de se criar uma unidade de pensamento sobre aquele fato que jamais deve ser repetido. 

Mas, por que o mesmo nível de produção acadêmica e conceituação, bem como disseminação do conteúdo, não ocorreu no genocídio de outros povos, como os armênios, o caso de Ruanda ou os povos originários da América Latina?

Ao mesmo tempo em que o termo genocídio descreveu o ataque deliberado aos povos judeus durante a Segunda Guerra e culminou na Convenção sobre o Genocídio de 1948, o documento resultante ignorou a proteção de minorias subjugadas pela sua classe social e gênero, minorias estas que já não são tradicionalmente representados no sistema político internacional. É o caso das vítimas de feminicídio. O “feminicídio” ainda é um termo que esbarra na conceituação e não tem um entendimento acadêmico mútuo. No Brasil, o feminicídio passou a ser reconhecido como uma tipificação de crime hediondo apenas em 2015, o mesmo Estado mantém-se entre os sete mais violentos para mulheres desde o início do século (ONU Mulheres, 2016). 

É necessária uma reflexão profunda também quanto ao poder hegemônico existente dentro da própria produção acadêmica com relação a estes termos. 

Quando se trata de guerras, faz-se importante entender o domínio literário de estudiosos de certos pontos do mapa-múndi contra a submissão da academia de polos “emergentes”. É o caso explícito da criação francesa do termo “América Latina” por parte de Michel Chevalier, no século XIX, na tentativa de se construir o panlatinismo liderado pela França de Napoleão III na região. Ainda que tal termo tenha sido enriquecido de significado através dos próprios latino-americanos, pode-se perceber o ideal hegemônico por trás do termo adotado na academia para descrever milhares de povos numa extensa e variada área geográfica. 

A autora irlandesa-americana Samanta Power descreve em seu livro ‘Genocídio: a retórica americana em questão’ as intervenções seletivas lideradas pelos Estados Unidos, com o apoio de outras potências e de braços das Nações Unidas, em outros genocídios após o judeu relatado por Lemkin. Ela cita, como exemplos de aplicação deste conceito, os casos do Vietnã, do Camboja, do Iraque, dos Balcãs, de Ruanda e o ainda atual caso de Darfur. Todos estes são Estados ou regiões que presenciaram desde genocídio até a limpeza étnica de seus povos (outro caso de conceito ainda debatido), porém, cada um repercutido de acordo com o filtro selecionado pelas potências hegemônicas. 

O perigo da uberconceituação encontra-se justamente naquilo já previsto por Gaston Bachelard ao estudar a epistemologia e a divisão de conhecimentos científicos: nos perdemos em meio a conceitos rígidos demais. Assim, a hegemonia acadêmica nos mantém pensantes que contribuem para uma perspectiva já traçada, evitando que casos novos sejam encarados em sua especificidade ou, pior, hierarquizando fatos em detrimento do encaixe ou não nos preceitos conceituais utilizados. 

REFERÊNCIAS:

LEMKIN, R. Axis Rule in Occupied Europe, 1944.

POWER, S. Genocídio: a retórica americana em questão. São Paulo: Cia das Letras, 2004

* Marina Lola Lombardi é Internacionalista e Turismóloga, egressa do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Mestra em Gestão do Desenvolvimento pela Università degli Studi di Torino e pelo Centro de Formação da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
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quarta-feira, 12 de julho de 2017

Por Onde Anda: Gabriela F. Moulin Coelho, Trainee em finanças na empresa Neodent


A seção "Por onde anda" entrevista egressos do Curso de Relações Internacionais do UNICURITIBA sobre experiências acadêmicas, profissionais e de vida concretizadas após o término do curso e é coordenada pela Prof. Michele Hastreiter e pela Prof. Angela Moreira






Nome Completo: Gabriela F. Moulin Coelho
Ano de ingresso no curso de Relações Internacionais: 2012       
Ano de conclusão do curso de Relações Internacionais: 2016
Ocupação atual: Trainee em finanças na empresa Neodent.

Blog Internacionalize-se: Conte-nos um pouco de sua trajetória profissional após a formatura no curso de Relações Internacionais.
Gabriela Coelho: Comecei a procurar oportunidades alguns meses antes de me formar: atualizando e me cadastrando em sites como Linkedin, Vagas.com, Na Prática (um “braço” da Fundação Estudar) e aberta a vagas em diferentes áreas de atuação. Uma das empresas que me deram retorno foi a Neodent, que havia aberto seu primeiro programa de trainee e em cuja vaga me apliquei através do Vagas.com.

Blog Internacionalize-se: Qual a lembrança mais marcante do período de faculdade?
Gabriela Coelho: O ambiente afiliativo. Conheci muita gente, fiz vários amigos e desenvolvi relações muito importantes para o meu crescimento pessoal. Na faculdade você tem que cumprir com certas obrigações e expectativas, mas muito menos se comparado ao ambiente profissional de uma maneira geral: isso te dá liberdade e possibilidade para (se) descobrir muito.

Blog Internacionalize-se: Quais as aptidões e conhecimentos desenvolvidos no curso de Relações Internacionais que mais o ajudam na sua profissão atual.
Gabriela Coelho: A visão ampla e generalista, a capacidade de considerar e buscar conciliar vários atores e influências sobre um sistema, buscar entender o que está por trás das coisas “prontas e acabadas”.

Blog Internacionalize-se: Qual foi a experiência mais desafiadora que já teve profissionalmente?
Gabriela Coelho: Conseguir a vaga de trainee foi uma experiência extremamente estimulante e desafiadora por si só, mas me inserir na área de finanças, entender os processos e o “Mindset” do funcionamento da área como um todo é um aprendizado diário. Além disso, graças ao programa, passei 3 meses na matriz do grupo, onde desenvolvi 2 projetos também na área de finanças. Estar sozinha em outro país a trabalho pela primeira vez também foi uma experiência muito rica.

Blog Internacionalize-se: Qual conselho deixaria para os nossos alunos?
Gabriela Coelho: Muita coisa não faz sentido às vezes, mas isso não quer dizer que você não está no caminho certo.

Blog Internacionalize-se: Como é o dia a dia do trabalho na Neodent? Que atividades desempenha?
Gabriela Coelho: Hoje eu faço job rotation pelas áreas de finanças: controladoria, contabilidade, tesouraria e T.I., então tenho alguns projetos periódicos, por isso as atividades variam bastante, mas de maneira geral sempre associadas ao departamento financeiro como um todo.

Blog Internacionalize-se: Como avalia o movimento de fusões e aquisições internacionais como uma oportunidade para os profissionais de RI?   Entende que deverá haver um aumento de oportunidades para os profissionais de RI no futuro?
Gabriela Coelho: Fusões podem exigir adaptações drásticas de cultura na(s) empresa(s). Quando se fala de multinacionais, as proporções são ainda maiores. Isso exige capacidade de perceber e entender o impacto de diversas variáveis, muitas vezes culturais (no sentido corporativo e antropológico), algo que praticamos muito no curso. Além dessa capacidade de pensamento sistêmico, o desenvolvimento da comunicação e articulação é extremamente valioso. Acho que essas são características comuns a muitos alunos de RI, e com isso temos ganhado cada vez mais espaço e reconhecimento.

Blog Internacionalize-se: Que dicas ou conselhos dariam para os alunos de RI que desejam seguir carreira no mundo corporativo?
Gabriela Coelho: Eu tinha muito medo de que o fato de ter feito estágios de duração relativamente curta e em áreas diferentes fosse encarado como falta de comprometimento ou foco. Hoje percebo que graças a cada experiência sou capaz de me inserir e me sentir confortável em diversos contextos, me comunicar com as pessoas com backgrounds bem diferentes do meu e entender suas expectativas e perspectivas. Então minha primeira dica é: aproveite as oportunidades que fazem sentido para você, mesmo que você ainda não saiba como elas serão úteis no futuro. A segunda dica é: trabalhe sua autoconfiança. Somos ensinados a sempre buscar o feedback de outra pessoa: o professor, o colega do grupo, o orientador. E essas orientações são importantes também, mas em muitos momentos você vai ser a sua única segurança, então é bom saber que pode contar consigo mesmo.


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sexta-feira, 7 de julho de 2017

Redes e Poder no Sistema Internacional: A Guerra de Guerrilha - um antigo, mas não ultrapassado conceito de guerra


A seção "Redes e Poder no Sistema Internacional" é produzida pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Redes e Poder no Sistema Internacional (RPSI), que desenvolve no ano de 2017 o projeto "Redes da guerra e a guerra em rede" no UNICURITIBA, sob a orientação do professor Gustavo Glodes Blum. A seção busca compreender o debate a respeito do tema, trazendo análises e descrições de casos que permitam compreender melhor a relação na atualidade entre guerra, discurso, controle, violência institucionalizada ou não e poder. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.


A Guerra de Guerrilha – um antigo, mas não ultrapassado conceito de guerra

Tiago Viesba *
Segundo o dicionário Aurélio, uma das definições de “guerrilha” é comportar-se de modo conflituoso. Apesar de simplista, esta pista de definição invoca um elemento básico desse modus operandi, um comportamento que utiliza do conflito para alcançar um claro e estruturado objetivo político, que pode ser tanto a alteração do regime político vigente, quanto à resistência e futura expulsão de um invasor estrangeiro.

Para se compreender a funcionalidade desse exemplo de guerra, é possível buscar na história sua origem e suas diferentes características desenvolvidas de acordo com realidade de cada povo. Muito utilizada e popularmente conhecida no século XX, acredita-se que a Guerrilha tenha surgido em seu aspecto atual no início do século XIX por ocasião da invasão promovida por Napoleão Bonaparte na Península Ibérica, como parte de seu planejamento de expansão do Império que estabelecia na França. A Guerra Peninsular, que Portugal e Espanha tentaram travar contra o imperador francês para defender seus territórios entre 1808 e 1812, teria presenciado técnicas já conhecidas na Antiguidade Clássica, mas que, só então passavam a ser designada enquanto guerrilhas. É possível citar muitos casos ao longo da história em que técnicas semelhantes de combate foram utilizadas, no entanto, o termo só chegou a ser cunhado mesmo naquele início do século XIX. 

A guerrilha caracteriza se por um conflito de longa duração, no qual as ações devem ser constantes. Mao Tse-Tung (1936), um dos principais pensadores de tipos alternativos de combate, afirma que, se “o inimigo avança, retiramos. O inimigo acampa, provocamos. O inimigo cansa, atacamos. O inimigo recua, perseguimos”. Ainda segundo Mao, a guerra de guerrilha pode ser concebida como parte de um continuum, onde os guerrilheiros se aproveitam das condições locais para obter vantagem sobre as forças invasoras, mantendo assim, um clima de constante e sucessiva inquietação.

Durante a metade do século XX a guerrilha foi utilizada principalmente na Europa dentro do contexto das duas Grandes Guerras, porém, no período posterior à Segunda Guerra Mundial, as guerrilhas se propagaram principalmente pela África, Ásia, América Central e América do Sul. Nas décadas de 1950, 1960 e 1970, ocorram principalmente através de movimentos de libertação nacional contra nações colonizadoras ou movimentos revolucionários contra governos ditatoriais. 

Um dos principais autores dessa época foi Ernesto “Che” Guevara, que teorizou a respeito da guerrilha revolucionária, definindo-a como a vanguarda do povo em luta (GUEVARA, 1982). Os sinais de enfraquecimento dos impérios coloniais, somados ao apoio retórico da então URSS às lutas nacionalistas, estimularam as lideranças africanas e asiáticas a buscarem o caminho da independência. Muitos países do denominado “Terceiro Mundo” recorriam a tática de guerrilha para enfrentar as tropas colonialistas. Dentre os exemplos mais marcantes desse período temos a Revolução Chinesa de 1949 e a Cubana de 1959, a Guerra do Vietnã de 1960 e Invasão Soviética ao Afeganistão em 1979. Devido ao alto custo e o prolongamento excessivo deste último conflito, gerou-se um resultado malogrado para aquela superpotência da Guerra Fria. A intervenção soviética no Afeganistão costuma ser comparada em resultados ao que foi, para os EUA, a Guerra do Vietnã.

Dessa forma, entende-se que as táticas de guerrilha são baseadas em inteligência, emboscada, sabotagem, com o objetivo de minar as autoridades através de baixas, em um conflito de pequena intensidade e longa duração. Estas táticas podem ser bem-sucedidas tanto contra regimes nacionais, como contra forças invasoras externas, como demonstrado durantes os conflitos já citados. Uma guerrilha prolongada e ativa pode aumentar o custo de se manter uma ocupação militar ou uma presença colonial, acima do planejado pela nação estrangeira. Contra um regime local, os guerrilheiros podem tornar a ocupação impossível com ataques e ações de sabotagem, e mesmo podem lançar mão de uma combinação com forças estrangeiras para derrotar seus inimigos no campo de batalha convencional local.

Utilizando-se de pequenos grupos e ataques surpresas, os guerrilheiros buscam abater o moral do inimigo, infligindo baixas e derrotas humilhantes, e mantendo sempre uma forte pressão psicológica contra a tropa adversária. As ações guerrilheiras devem ser planejadas para infligir as maiores perdas ao inimigo, com o mínimo de perda material e em número de vidas por parte dos guerrilheiros. 

A intenção dos ataques é também política, com o objetivo de desmoralizar as populações que são seu alvo e/ou seus governos, ou incitar uma reação popular para forçar um maior apoio a favor da guerrilha. Um cuidadoso planejamento antecipado é necessário para as operações, e detalhes como a capacidade de reação inimiga, armas a disposição e rotas de aproximação e fuga, não podem ser desprezados. Ainda que aconteça de forças guerrilheiras serem forçadas a travarem uma batalha indesejada por causa de uma varredura do inimigo, a maioria do tempo é gasto em treinamento, infiltração, propaganda cívica e doutrinação, além de construção de fortificações, ou armazenamento de suprimentos, além da coleta de informações.

As relações com as populações civis são influenciadas pelo fato de a guerrilha operar entre uma população hostil ou amigável. A população amigável é favorável aos guerrilheiros, proporcionando abrigo, suprimentos, financiamento, inteligência e recrutas. A base "do povo" é, portanto, a chave da sobrevivência do movimento de guerrilha. Porém, as forças guerrilheiras podem estar travando uma guerra de libertação, e isso pode ou não resultar em um apoio suficiente por parte dos civis afetados. Outros fatores, incluindo ódios étnicos e religiosos, podem fazer uma simples reivindicação de libertação nacional insustentável. Independente da exata persuasão ou coerção utilizada pela guerrilha, as relações com as populações civis são um dos fatores mais importante no seu sucesso ou fracasso.

Além disso, os guerrilheiros não são reconhecidos como combatentes lícitos pela Convenção de Genebra, por não usarem um uniforme militar (usam roupas civis na maioria das vezes e se misturam com a população local), ou os seus distintivos e emblemas de uniforme não podendo ser reconhecidos como tal por seus oponentes. Ou seja, a guerrilha envolve um grupo de indivíduos armados, que operam à semelhança de uma unidade militar, atacam preferencialmente forças militares inimigas, conquistam e mantêm territórios – mesmo que temporariamente – e, ao mesmo tempo, exercem algum tipo de soberania ou controle sobre uma área geograficamente definida e sobre sua população, nos denominados santuários (refúgios estratégicos). 

Ainda assim, a guerrilha ainda é muito confundida com grupos terroristas, que na verdade podem utilizar se de atos guerrilheiros, mas que, de fato, são um outro tipo de combate armado. Em contraste com os guerrilheiros, os terroristas não operam em terreno aberto como unidades armadas, não tentam conquistar ou manter territórios (com exceção dos que atuam regionalmente), evitam deliberadamente o engajamento em combates com forças militares inimigas e raramente exercitam qualquer tipo de controle ou soberania sobre territórios e populações. Um ponto importante é que os movimentos puramente guerrilheiros têm uma maior preocupação com a legitimidade de sua causa e atos, por conta da necessidade vital do apoio popular e internacional a sua causa, o que não ocorre com os grupos terroristas.

Portanto, conclui-se que, diante das crescentes tensões étnicas, religiosas, políticas e até ambientais, espalhadas pelo globo, que geram opressão e injustiça, se tem um terreno fértil para continuação ou surgimento de grupos insurgentes, que na luta do fraco contra o forte se utilizarão da guerra de guerrilha para alcançar seus objetivos. As condições ambientais, tais como a crescente urbanização e o acesso fácil à informação e a atenção da mídia também complicam a cena contemporânea. Atualmente, as insurgências modernas e outros tipos de guerra de guerrilha podem fazer parte de um processo integrado, completo, com doutrina, organização, competências especializadas e capacidade de propaganda sofisticados, atuando principalmente na área urbana, onde os guerrilheiros podem misturar se com as populações civis e não civis (a chamada guerrilha urbana). 


Referência utilizada


GUEVARA, Che. Sierra Maestra: da guerrilha ao poder. São Paulo: Edições Populares, 1982. (2ª. ed.).


* Tiago Viesba é acadêmico do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba, e membro dos Grupos de Pesquisa "Redes e Poder no Sistema Internacional" e "Conflitos no Oriente Médio, África e Ásia Central".
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quinta-feira, 29 de junho de 2017

Por Onde Anda: Felipe Salomão, coordenador de Relações Institucionais do Grupo Boticário


A seção "Por onde anda" entrevista egressos do Curso de Relações Internacionais do UNICURITIBA sobre experiências acadêmicas, profissionais e de vida concretizadas após o término do curso e é coordenada pela Prof. Michele Hastreiter e pela Prof. Angela Moreira.


Nome Completo: Felipe Salomão
Ano de ingresso no curso de Relações Internacionais: 2006
Ano de conclusão do curso de Relações Internacionais: 2010
Ocupação atual: Coordenador de Relações Institucionais do Grupo Boticário

Blog Internacionalize-se: Conte-nos um pouco de sua trajetória profissional após a formatura no curso de Relações Internacionais.

Felipe Salomão:
Fui o primeiro aluno do curso a realizar o intercâmbio na Universidade Técnica de Lisboa. Assim que esse período terminou, voltei determinado a ingressar no mercado de trabalho. Assim, prestei alguns processos de seleção para programas de estágio e trainee e, na época, o que mais me chamou a atenção foi o da Câmara Americana de Comércio (Amcham).
Na Câmara, tive contato com o que hoje é minha realidade profissional. Pude aprender e trabalhar na carreira de relações governamentais. A experiência foi fantástica pois pude aplicar todos os conceitos da diplomacia corporativa nos primeiros meses de exercício da profissão. Lá, cuidei do departamento de relações institucionais e exerci meu primeiro projeto de integração comercial, desenvolvido junto à Itaipu Binacional. Outro projeto muito bacana também foi o desenvolvimento do primeiro guia de atração de investimentos para o Estado do Paraná. Depois de 4 anos e meio, fui convidado a abrir o departamento de relações institucionais no Grupo Boticário, função que exerço até hoje.


Blog Internacionalize: Qual foi a experiência mais desafiadora que já teve profissionalmente?

Felipe Salomão:
Foram vários, difícil é escolher o maior deles. Acho que os de maior aprendizado sem dúvida foram os adquiridos na Amcham, quando éramos colocados na mesa de CFO’s, CEO’s, Governadores e Ministros no “auge” dos nossos 21 anos. Mostrar que a juventude e a maturidade tem total condição de caminharem juntos era um desafio muito legal. 



Blog Internacionalize-se: Como é o dia a dia do trabalho no Grupo Boticário? Que atividades desempenha?
Felipe Salomão: Sou responsável pela diplomacia corporativa da companhia, ou seja, elaboro estratégias de relacionamento com o governo federal, estadual e municipal que auxiliem nos objetivos da empresa. Meu dia a dia tem eventos, reuniões com tomadores de decisão, orientação estratégica dos discursos dos executivos do Grupo. Procuro desenvolver contatos estratégicos que colaborem para a melhor percepção da nossa marca no Brasil fortalecendo imagem e reputação.




Blog Internacionalize-se: Como avalia a inserção internacional da empresa – que é brasileira – nos últimos tempos? Percebeu algum aumento?

Felipe Salomão:
Sem dúvida. O Grupo Boticário é uma empresa que nasceu na rua Saldanha Marinho em Curitiba, como uma farmácia de manipulação pequena, mas que rapidamente ganhou o Brasil e o mundo como uma das principais marcas de perfumaria. Hoje, são 4.000 lojas no Brasil, além da presença em outros 12 países. Estes números nos colocam como uma das maiores redes de franquias do mundo.


Blog Internacionalize-se: Dentro deste contexto, acredita que deverá haver um aumento de oportunidades para os profissionais de RI em empresas nacionais no futuro?

Felipe Salomão:
Com certeza. A inserção comercial do varejo obrigatoriamente passa por uma criteriosa análise de perfil de consumo, perfil sócio econômico, ambiente regulatório e diversas outras questões. É uma análise tão multifacetada que os profissionais de RI de adaptam de forma mais rápida e respondem às necessidades para tomada de decisão de uma maneira muito mais objetiva.
 



Blog Internacionalize-se: Qual a lembrança mais marcante do período de faculdade?

Felipe Salomão:
A riqueza de pensamentos com toda a certeza. Debates calorosos sobre o papel do Brasil nos Brics, nas discussões ambientais, nos debates sobre refugiados, todos sempre, temperados com muita opinião e fundamento.


Blog Internacionalize-se: Quais as aptidões e conhecimentos desenvolvidos no curso de Relações Internacionais que mais o ajudam na sua profissão atual?

Felipe Salomão:
Hoje, utilizo quase todas as ciências aplicadas do nosso curso. Mas sem dúvida, o relativismo cultural (comportamentos, opiniões, visões de mundo) me facilita muito para obter meus resultados. A teoria dos jogos para o ambiente de negociação também me vem à tona todos os dias.


Blog Internacionalize-se:  Que dicas ou conselhos dariam para os alunos de RI que desejam seguir carreira no mundo corporativo?

Felipe Salomão:
Não tenham medo de se arriscar. Nunca vamos nos sentir 100% preparados. O fato é que a faculdade nos dá sim bagagem e repertório para desempenhar muitas funções no mundo corporativo. E principalmente, evitem rotular seu conhecimento especificamente ao departamento internacional das empresas.  A cadeira do internacionalista nunca estará vaga para você. O maior desafio é ser visto até você conseguir sentar nela. Depois disso, sua competência, postura e conteúdo acadêmico vão dar conta do recado rapidamente. Por isso, vá atrás! Não espere a oferta chegar e, principalmente, tire suas próprias conclusões sobre o mercado. Não caia nas verdades dos seus veteranos que não souberam buscar um desafio que lhe coubesse. As oportunidades muitas vezes estão batendo à nossa porta e deixamos de abraça-las por falta de ousadia.



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terça-feira, 27 de junho de 2017

Teoria das Relações Internacionais em destaque: "O Soft Power chinês no Leste Asiático"

Artigo apresentado na disciplina de Teoria das Relações Internacionais, orientado pela Profa Dra Janiffer Zarpelon, do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba.

Por: * Laura Neves da Silva




O crescente poder econômico, político e militar da China é o desenvolvimento mais geopolíticamente significativo deste século. No entanto, ao passo que a magnitude deste poder é amplamente compreendida no âmbito internacional, uma percepção generalizada da dinâmica desse crescimento exige uma avaliação mais sistemática da profundidade do poder da China. Especificamente, as implicações estratégicas, econômicas e políticas dos esforços de Soft Power da China exigem um olhar mais cauteloso. Pretende-se portanto, por meio deste trabalho, ressaltar a adoção desta política estratégica por parte do governo chinês, e suas respectivas consequências, mantendo um foco no Leste Asiatico, área de principal atuação do país.
Na medida que se é discutido as dimensões do Soft Power, e a possibilidade de se seguir caminhos que essencialmente procuram priorizar a ação mediante a persuasão, assim evitando o uso da força como meio de se atingir um objetivo, faz-se necessário a utilização da Teoria da Interdependência como forma de respaldo para as questões futuramente discutidas, á medida que, a mesma aborda o comportamento dos atores internacionais (Estados e Organizações) no cenário internacional. Analisa-se o comportamento desses atores devido a sua abrangência e influência nas Relações Internacionais a partir dos anos 1970, através dos trabalhos desenvolvidos pelos autores Robert Keohane e Joseph Nye.
A interdependência aborda a cooperação recíproca, ou seja, dependência mútua e contempla a interferência de forças externas que influenciam atores em diversos países. A teoria não afirma que a arena internacional seja um ambiente de cooperação apenas, mas que no jogo para obter os resultados propostos é necessário manipular os fatores de interdependência.
Desta forma, é possível elucidar o conceito de Soft Power desenvolvido por Nye, e o modo como o mesmo envolve a habilidade de um ator para definir estratégias e atrair apoio com base em seus valores, cultura, políticas e instituições. Não obstante, e como já observado pelo autor Joshua Kurlantzick, devido a relevância econômica incontestável da China, exige-se uma ampliação desta definição para que inclua qualquer método fora do domínio militar e de segurança, ou seja, incluindo não apenas a cultura popular e a diplomacia pública, como também métodos mais coercitivos nas áreas da economia e da diplomacia  tais como participação em organizações multilaterais e a realização de investimentos estrangeiros.
Tendo isso em mente, a prática do Soft Power vem se tornando uma opção atrativa para uma potência em ascensão como a China, buscando ser utilizada para demonstrar o comprometimento da nação em ter uma ‘’ascensão pacífica’’, procurando dar ênfase a sua potencialidade e contribuição no âmbito internacional, como também sendo utilizada para reprimir os medos externos relacionadas a potenciais ambições revisionistas. Nos últimos anos, o governo chinês vem tentando usar uma série crescente de ferramentas de política externa além do Hard Power em suas interações no Leste Asiático. Essas abordagens não militares incluem assistência estrangeira ao desenvolvimento, atividades comerciais, comércio e intercâmbios culturais, diplomáticos e econômicos, que se enquadram na ampla noção de soft power.
Um dos maiores exemplos dessa recém tendência do governo chinês em seguir essas políticas é o relatório político divulgado em 2002 no 16º Congresso do PCC, o qual afirma que "no mundo de hoje, a cultura se entrelaça com a economia e a política, demonstrando uma posição e um papel mais proeminentes na competição pelo poder nacional abrangente.’’ Posteriormente, em janeiro de 2006, o presidente chinês, Hu Jintao, disse ao Grupo Central de Liderança dos Negócios Estrangeiros que o aumento da reputação e do status internacional da China "terá que ser demonstrado em hard power, como economia, ciência e tecnologia e defesa, bem como em soft power, como a cultura ". Pequim se baseou essencialmente em duas estratégias importantes de diplomacia pública: promoção cultural e envolvimento na mídia.
Conquanto, resta saber se a estratégia de soft power de Pequim, mantendo enfoque na promoção cultural e mídia de massa, é efetiva. Internamente, as elites da política chinesa demonstram-se pouco otimistas sobre o estado atual do soft power chines. Embora reconheçam publicamente o grande potencial no uso desta política, o sentimento que prevalece é de grande carência do Soft Power chinês em comparação com o dos Estados Unidos e de outras potências regionais. Perpetua-se também um sentimento de frustração: apesar do rápido desenvolvimento econômico da RPC e status como a segunda maior economia no mundo, seu soft power ainda encontra-se em um estado muito atrasado em contraposição ao seu hard power.
Tendo, portanto,  discutido como as elites da política chinesa avaliam o Soft Power, é importante também avaliar as reações regionais quanto as atitudes ‘’não-ofensivas’’ tomadas pelo Estado chinês. O quão eficaz é a busca da China pelo status através de abordagens de soft power e quais são as percepções das outras regiões?
Possivelmente, a melhor maneira para se responder as questões abordadas acima seja através dos estudos de Gregory G. Holyk, acerca do poder Chinês e sua influência no leste asiático.  Holyk divide o Soft Power em cinco componentes (economia, cultura, política, diplomacia e capital humano) e mede cada componente por meio de pesquisas realizadas no Japão, Coréia do Sul, China, Indonésia, Vietnã e nos Estados Unidos. Ele chega á conclusão, através de sua análise metodológica, de que o Soft Power Chinês aparenta estar crescendo, contudo ainda é considerado relativamente fraco.
De acordo com Holyk, o crescimento do Soft Power chinês está correlacionado com a força crescente de hard power do país. A influência militar e econômica chinesa no leste asiático cresceu a um ritmo surpreendentemente rápido desde a década de 1980, mas, ao mesmo tempo, a influência do soft power chinês também cresceu, assim evidenciada na tentativa de Pequim em aplicar uma ofensiva diplomática com o objetivo de aumentar sua influência na região e mudar sua imagem. Como parte desta estratégia, a China começou a se retratar como uma nação buscando vínculos positivos e progressivos com outros países, aumentando seus laços diplomáticos no Leste Asiático, especialmente com a Coréia do Sul, Japão, Vietnã, Indonésia, Tailândia e Filipinas. Proscreveu a diplomacia e as abordagens políticas não ameaçadoras, o aumento do comércio regional, tornou-se um membro ativo em organizações regionais, como a ASEAN e a Cúpula do Leste Asiático, e aumentou fortemente sua ajuda externa incondicional, que tem um apelo especial aos cidadãos dos países em desenvolvimento. Conquanto, deve-se notar que, apesar das ações realizadas, este cenário pode ser alterado a qualquer momento devido a mudanças políticas na China e nos Estados Unidos.
O estudo de Holyk parece ser corroborado por levantamentos recentes da opinião pública internacional. Os resultados de estudos de atitudes sobre o Soft Power da China na Austrália, Japão e Coréia do Sul indicam um declínio na afinidade com a China, apesar da expansão dos negócios, comércio e vínculos econômicos com esses países. Da mesma forma, em 2008, o Chicago Council on Global Affairs liderou um estudo pioneiro sobre as atitudes regionais, comparando os efeitos do soft power da China, Japão, Coréia do Sul e Estados Unidos na Ásia. Este inquérito internacional considera que a China está na posição mais baixa. Curiosamente, a afinidade regional com a China registou um declínio constante desde 2004. Jung-Nam Lee, um especialista regional, observa o seguinte: o soft power da China na região permanece em um nível baixo em comparação com o seu hard power. De fato, o nível de soft power da China na região não é apenas inferior aos dos Estados Unidos e do Japão, como também ao da Coréia do Sul. Por conseguinte, a significante influência da China na região é vista pelas nações vizinhas como desconfortável e até intimidante.
Ao analisar e avaliar a eficácia da promoção de soft power da China nos últimos anos, é válido questionar se, no futuro, a China se parecerá mais com o Leste Asiático, ou o mesmo se parecerá mais com a China. Os dados já elucidados revelam, sem sombra de dúvidas, graves deficiências nas tentativas da China de melhorar sua imagem. Por um lado, os países mais ricos e mais desenvolvidos da Ásia Oriental, particularmente o Japão e a Coréia do Sul, têm visões e percepções negativas sobre a China; enquanto por outro, os países em desenvolvimento da região, com algumas exceções notáveis, têm preocupações, mas mantêm uma visão menos pessimista da China.
Como o soft power chinês é fortemente centrado no estado, qualquer tentativa da China de projetar sua imagem no exterior, inevitavelmente, chama a atenção para o seu sistema político, o seu senso de excepcionalismo e o comportamento altamente imprevisível de sua política externa. Esta é talvez a maior limitação do apelo da China na região.
Enquanto as liberdades políticas e civis estiverem severamente restritas na China, o país não será aceito como um poderoso poder regional e global. As limitações à liberdade de expressão, imprensa e religião continuam profundamente problemáticas em muitos países da região. Dado que essas normas são cada vez mais aceitas como direitos universais, não apenas como valores dos EUA ou ocidentais, será cada vez mais difícil para o governo chinês impedir que seu comportamento doméstico afete a credibilidade e o status quo do país.

Referências:
HUANG, Chin-Hao. China’s Soft Power in East Asia. Seattle e Washington, DC: Janeiro, 2013. Disponível em: http://chinhaohuang.weebly.com/uploads/5/4/6/7/54678237/huang_final_china_soft_power_and_status.pdf
WHITNEY, B. Christopher.;. Soft Power in Asia: Results of a 2008 Multinational Survey of Public Opinion. Chicago, Illinois: 2009. 48 p. Disponível em: https://www.brookings.edu/wp-content/uploads/2012/04/0617_east_asia_report.pdf
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*Laura Neves da Silva: estudante do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba. 
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