quinta-feira, 19 de outubro de 2017

As contribuições teóricas de Kenneth Waltz sobre o Neo-realismo.

Resenha crítica apresentada na disciplina de Teoria das Relaçoes Internacionais I, do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba, ministrado pela Profa Dra Janiffer Zarpelon. 


* Por: Barbara Moraes

Kenneth Waltz (1924 – 2013) revolucionou as teorias sobre Relações Internacionais em 1979 com a obra “Theory of International Politics”, que, com a ascensão do behaviorismo, muda o paradigma reducionista de autores como Morgenthau ao apresentar uma teoria sistêmica sobre a política internacional, a que se chamou de Realismo Estrutural ou Neorrealismo.
O autor traz um modelo hipotético-dedutivo inspirado na teoria microeconômica, visando abranger as causas ao nível internacional e não apenas a nível individual ou nacional, o que não acontecia até então. Assim sendo, Waltz afirma que para construir uma teoria de Relações Internacionais é necessário enxergar esta como um domínio específico, estudando suas regularidades para desenvolver uma forma de explicar as mesmas.
Em sua obra, o teórico constantemente explicita seu desenvolvimento epistemológico, que se torna demasiado importante ao definir o conceito de estrutura. Waltz enxerga a estrutura como um conjunto de condições constrangedoras, que atuam como um selecionador e que se concentra na disposição e na organização das unidades.
Salienta entretanto a facilidade com que os teóricos permitem que atributos e interações influenciem a teoria que estão desenvolvendo. Dessa forma, Waltz afirma que a estrutura deve ser definida independentemente de questões como ideologias, líderes políticos, instituições econômicas e sociais, tradições, objetivos, desejos, formas de governo, legitimidade de um governo assim como as relações que ele estabelece, sejam elas militares, políticas, culturais e assim por diante.
A estrutura é portanto uma abstração e expressão da disposição de unidades justapostas, combinadas de diferentes formas e produzindo resultantes distintas. Estas são apenas indiretamente influenciadas pela estrutura, que afeta os comportamentos das agências dentro do sistema de duas formas: pela competição e socialização. A primeira reside na premissa básica de direcionar as políticas de governo para obter as maiores vantagens possíveis, enquanto a segunda marginaliza ou sanciona aqueles que não seguirem os padrões de comportamento aceitáveis, que gradativamente foram instaurados no sistema internacional e que seguem o seu princípio ordenador.
Princípio ordenador, diferenciação da unidades do sistema e distribuição das amplitudes de suas capacidades são os três eixos que sustentam e caracterizam a estrutura. Partindo de uma análise interna, nacional, de um sistema centralizado e hierárquico com relações de superioridade e subordinação até o sistema internacional, constantemente chamado de “política na ausência de governo” e caracterizado pelo autor como um meio anárquico, aonde as unidades visam essencialmente assegurar a sua sobrevivência no meio.
A preocupação com a manutenção de sua existência dos Estados deriva do caráter de insegurança vigente. O princípio ordenador é o da auto-ajuda, ou seja, baseada nos interesses próprios de cada Estado, que variam desde ficar em paz até dominar o mundo.
A diferenciação das unidades pode ser sintetizada na ideia de que a política internacional consiste em unidades diferenciadas desempenhando funções específicas parecidas. Em primeiro lugar, é necessário deixar a ressalva de que os Estados não são os únicos atores da estrutura, mas são os mais importantes. Atores não-estatais, atividades transnacionais, a incapacidade dos Estados de controlar o seu ambiente de ação são variáveis que influenciam, mas que não são consideradas, pois, como afirma Waltz, toda teoria parte de uma assunção, e neste caso é de que apenas os Estados são unidades. Tais unidades estabelecem relações de coordenação – impostas pela anarquia – que implicam em sua semelhança. Tal semelhança é decorrente nas tarefas que os governos enfrentam e quais os fins que aspiram, mas diferem nas capacidades que desempenham essas tarefas.
Estabelecido que as diferenças entre as unidades são de capacidade e não de função, a distribuição de tais capacidades é o terceiro e último ponto de caracterização das estruturas. Embora as capacidades sejam atributos das unidades, a distribuição delas não o é. Sua importância diz respeito á um relevante tema abrangido pelos realistas: o poder.
Apesar de não ser o foco do autor, o poder aparece indiretamente em suas assertivas quando explica por que vivemos em uma situação de anarquia e não de hierarquia. No primeiro sistema, as unidades semelhantes cooperam, são funcionalmente similares e tendem a se manter assim, mas a cooperação é limitada pelo fato de que um Estado sempre se preocupa com a divisão dos ganhos de forma a favorecer a si e com o aumento de sua dependência em relação a outros países. Este último fator é um forte empecilho, pois em um sistema hierárquico, as unidades diferentes interagem, são diferenciadas e tendem a aumentar a extensão de sua especialização, pois não precisam temer o aumento da interdependência uma vez que o domínio está formalmente organizado.
Em outras palavras, o bem estar mundial seria cada vez maior se a divisão do trabalho fosse mais desenvolvida, pois a especialização faz com que os Estados interajam mais, criando conexões de caráter de cooperação mútua, fazendo com que seus esforços e gastos voltados para a sua segurança e tentativa de assegurar sua sobrevivência fossem voltados para uma finalidade comum. O problema é que os Estados são colocados em uma situação cada vez maior de estreita interpendência e sabe-se que tais atores procuram controlar ou diminuir aquilo de que dependem ao máximo, pois dependência pode resultar em diminuição de autonomia ou em inferioridade econômica, tornando o Estado vulnerável.
Mas então como resolver a tensão, a dicotomia entre perseguir os próprios interesses e agir pelo bem do sistema? Em primeiro lugar, os Estados atuam no sistema devido a um forte sentido de risco e aniquilação, fazendo-os pensar que fins devem ser alcançados. Para que uma ação efetiva de fato ocorra, devem existir meios e condições que permitam as nações e outras organizações a seguir políticas de estratégias apropriadas. O problema não reside na estupidez ou na má vontade, mas de uma desordem que está estabelecida pelo princípio ordenador de auto-ajuda.
Dessa forma, para mudar a estrutura, é necessário substituir o princípio vigente por outro, que resultaria na mudança de sistema, ou, ainda, em casos de variação na distribuição da capacidade das unidades, que mudariam o interior do sistema. Entretanto, é um sistema engessado pelo apego dos Estados á sua soberania e á balança de poder, que só mudam o sistema de fato que ascende uma nova potência ou uma grande se esvai, alterando a distribuição de poder para bipolar ou multipolar.
No capítulo do seu livro referente ás ordens anárquicas e as balanças de poder, Waltz compara como funciona o domínio nacional, comparando-o com o internacional. O primeiro é um sistema variadamente descrito como hierárquico, vertical, centralizado, heterogêneo, dirigido e idealizado, com o domínio da autoridade, da administração e da lei, as relações são de certa forma estabelecidas e a força de um governo é exercida em nome do direito e da justiça e quando uma força é ameaçada contra um governo, todo o sistema político é ameaçado. Internacionalmente, a força de um Estado é empregue para sua própria vantagem e proteção, suas relações de autoridade resultam das relações de força e o uso desta não ameaça o sistema como um todo, apenas alguns de seus membros. É um domínio do poder, da luta, da acomodação. É anárquico, horizontal, descentralizado, homogêneo, não dirigido e mutuamente adaptável, segundo o autor.
Com um sistema internacional com tais características, anarquia é a mais adequada definição. Para sobreviver, alcançar seus objetivos e manter a sua segurança os Estados devem confiar nos meios que possuem e nos acordos que fazem com outros governos. O princípio que rege esse sistema é o mesmo que o une e que o divide, assim como o uso da guerra e da força. Esta como sendo a primeira, constante e ultima ratio, a instabilidade do sistema sempre estaria baseada em uma linha tênue, mas, a força e principalmente a guerra acabam possuindo um caráter de contenção, uma vez a possibilidade constante de que a primeira será usada limita as manipulações, modera as exigências e serve como um incentivo para a resolução de disputas, pois trazem a razoabilidade e a reiteração de que muitas vezes os ganhos não valem os riscos.
Em síntese, a anarquia é o sistema vigente, este é formado pela estrutura, uma ideia abstrata que seleciona aqueles que seguem seu paradigma, constrangendo os demais através de recompensas e penalizações até as unidades se adaptarem a ela. Os Estados cooperam mesmo que de forma limitada pois tendem sempre a delinear suas políticas de acordo com suas necessidades, interesses e fins, normalmente egoístas – mas não desenvolve essa ideia da mesma forma que os realistas. A estrutura é definida por três eixos: princípio, funcionalidade e distribuição de capacidades, aonde apenas primeira e a última possuem capacidade de alterar o sistema, mas o autor enfatiza que deve ser de forma agressiva ao dizer que “remédios para efeitos estruturais fortes são mudanças estruturais fortes”.
Logo, a hierarquia é “descartada” por seu caráter utópico. Altos custos, dificuldade de um líder, de homogeneizar o mundo, que inevitavelmente se dividiria em seitas e resultaria em uma guerra civil mundial e assim por diante. Não é interesse dos Estados desenvolver os critérios para tal sistema uma vez que devem priorizar um interesse comum sobre o seu. Devem estabelecer relações de interpendência com uma alta divisão do trabalho em um sistema competitivo e desconfiado, em uma relação de amor e ódio com a balança de poder.
A teoria da balança de poder retrata apenas os resultados produzidos pelas ações descoordenadas dos Estados, em uma estrutura guiada pela auto-ajuda, pelos interesses próprios, aonde quem não faz parte é excluído, sancionado ou dominado sem nenhum
agente fiscalizador superior, que auxilie o mais fraco ou interfira nos instrumentos usados, que incluem até agências para constranger outras unidades.

Comentário
Pós autores idealistas como Angell e realistas como Carr e Morgenthau, Kenneth Waltz muda a perspectiva das Relações Internacionais. Pode-se dizer que essa grande mudança se baseia no desenvolvimento epistemológico do autor, uma vez que aponta diversos erros de autores passados, desde aqueles que tentaram definir a balança de poder até a base da construção da teoria – se eram reducionistas ou não.
O fato de Waltz abranger questões internacionais e abrangentes, diminuindo a relevância de uma análise em grau nacional, inova completamente a forma de enxergar as RI. Tenta- se se abstrair de todos os atributos e interações para de fato atingir uma teoria pura, estrutural e geral, que fosse capaz de representar e explicar o sistema de forma objetiva.
O autor não estabelece quais são os princípios que regem o sistema internacional ou potencializa o poder como fim e instrumento nas relações políticas, mas de fato fraciona o sistema em três partes – ele em si, estrutura e unidades – para então compreender o seu funcionamento e de que forma uma organização anárquica com uma estrutura baseada em interesses próprios direciona as ações dos Estados e dos líderes, e não vice-versa.
Mesmo com certos vazios conceituais, Waltz é um autor genial. Ele enxerga o sistema político internacional da forma que é e como deveria ser de uma forma muito pragmática. Ele visa abster de sua teoria todas as influências uma vez utilizadas por teóricos: Norman Angell com um foco econômico e Morgenthau na ideia de poder.
Quando se tenta criar uma teoria a partir ou focando em uma única assunção ou considerando uma única variável, têm-se ótimas teorias mas com um baixo grau de generalidade, uma vez que todo o raciocínio é construído a partir daquela premissa, pois por exemplo, nem todos os Estados são movidos apenas pela economia ou apenas pelo poder, é uma soma de fatores internos que ainda é muito influenciado por questões externas, como os constrangimentos feitos pelo sistema internacional, um fator ainda não ou pouco mencionado nas teorias anteriores.
Devido ao fato de ser uma ciência recente, as Relações Internacionais e suas teorias explicativas ainda estão em construção, mas, com certas ressalvas, o realismo estrutural foi revolucionário ao tratar o sistema internacional como um sistema em si, e não como produto ou soma de ações e objetivos internos, nacionais. É algo muito relevante pois nos permite pensar não apenas como o sistema funciona de fato, quais seus problemas, por que não consegue evoluir, quais são suas características, finalidades... Abrindo espaço para novas explicações, mais analíticas na estrutura e não nas unidades.


WALTZ, Kenneth N. Teoria das Relações Internacionais. Lisboa: Editora Gradiva, 2002.

* Barbara Moraes: estudante do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba. 
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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Resenha crítica do Filme "The Siege of Jadotville" sobre a Missão de Paz da ONU no Congo em 1961.

Resenha apresentada na disciplina de Instituições Internacionais, ministrada pela Profa Dra Janiffer Zarpelon, do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba. As opiniões dos autores não retratam o posicionamento da instituição. 



* Por: Bruna Galani e Fernanda Tapada

Jadotville, ou em inglês “ The Siege of Jadotville ” conta a história dos ataques sofridos pelas forças de Operações de Paz das Nações Unidas em 1961, em meio à Guerra Fria, no território do Congo, que enfrentava uma guerra civil e grandes empresários europeus mantinham e defendiam as minas de Urânio na região que havia sido privatizada pelo Presidente Lumumba.
As consequências da Guerra Fria (1947–1991) se estenderam para além dos territórios dos Estados Unidos e da então URSS; se espalharam por outras partes do mundo como forma de disputa de poder e interesses. Um desses lugares foi a África, e em especial o Congo, por conta da riqueza mineral, palco do conflito retratado no filme.
Em 1961, o Congo elegeu seu novo primeiro-ministro, que adotou uma postura protecionista em relação aos bens naturais e de exploração do seu território. Isso levou ao assassinato do governante e iniciou uma guerra civil no Congo.
Logo no início do filme, Tshombe que assume o poder da província do Congo, indica não saber o porquê da presença das Nações Unidas em seu território, já que não foram solicitadas ou aprovadas por parte do Congo. Esse primeiro momento da recepção dos soldados Irlandeses ao Congo explicita o fato de as tropas não serem bem-vindas na região que explorava a extração de Urânio das minas e enfrentava uma guerra interna no país.
A Operação Mothor, que seria para a retomada da rádio da cidade de Katanga, então dominada por rebeldes de Tshombe, resultou na morte de civis desarmados que se encontravam no local durante a ocupação das tropas das Nações Unidas que já se encontrava no local antes da chegada dos irlandeses. Este episódio foi a premissa que Tshombe precisava para justificar um ataque às tropas irlandesas posicionadas desprotegidas na clareira. General O’Brien optou por ocultar a informação do fracasso da missão da rádio de Katanga e em uma de suas falas menciona o fato da perda de credibilidade das missões de paz da ONU, a situação faria parecer que se tratava apenas de mais outra nação em guerra e não de uma tentativa de apaziguamento, como era o objetivo.
Assim, a Irlanda – neutra em relação aos interesses que estavam em disputa no respectivo país – enviou uma tropa de 150 soldados irlandeses (como parte da Força de Paz da ONU), direcionada a Jadotville e liderada pelo Comandante Patrick Quinlan (Jamie Dornan).
Colocados em uma situação crítica, a tropa ficou presa no meio das jogadas políticas de Conor Cruise O'Brien – um diplomata interpretado por Mark Strong – e os ataques do exército mercenário francês, contratado por Moïse Tshombe (Danny Sapani) – primeiro ministro da província de Katanga após o golpe de Estado no Congo.
A sequência de fatos relacionados aos acontecimentos no Congo geram uma tensão global quando os Estados Unidos passam a questionar o secretário geral das Nações Unidas por não haver enviado as tropas antes do início da guerra civil, quando ainda havia paz para se manter no local dos conflitos, quando o então presidente Lumumba solicitou os reforços para ajudar a manter uma situação mais próximo de amena o possível.
Os soldados irlandeses lutaram bravamente por 6 dias e só se renderam quando a munição se esgotou, sendo feitos de reféns e liberados um tempo depois. Mesmo resistindo o máximo que conseguiram, eles voltaram para casa como os “patetas de Jadotville”; “os covardes que se renderam ao inimigo”, uma vez que a ONU omitiu a verdadeira história, por ser o mais conveniente para a Organização.
Foi apenas em 2005 que os veteranos da batalha foram admitidos como heróis de guerra na Irlanda; foram condecorados com medalhas e receberam um monumento na cidade de Athlone como homenagem.
No âmbito das Relações internacionais, o filme faz questionar como eram as Missões de Paz da ONU; observa-se que a Organização Internacional não escapou dos interesses políticos da Guerra Fria.
A Organização das Nações Unidas foi criada com o objetivo de assegurar e promover a paz mundial e as Missões de Paz são a face mais visível da atuação da ONU para esse fim. Por conta dos problemas que ocorreram durante a Guerra Fria, como a ineficácia da operação no Congo, que é retratada no filme, e as alegações de que as Missões de Paz eram utilizadas para uma “imposição” da paz e da democracia, hoje tem-se a Segunda Geração das Missões de Paz.
Na Primeira Geração havia apenas o Peacemaking (busca pela restauração da paz por meios pacíficos, utilizando-se normalmente ações diplomáticas neste contexto) e o Peacekeeping (manutenção da paz). Na Segunda Geração foi adicionado o Peacebuilding, que envolve uma série de medidas voltadas para a redução do risco de retomada do conflito a partir do fortalecimento das capacidades nacionais; construção de mecanismos e estruturas; um processo complexo e de longo prazo.
 Além do Peacebuilding, surge oficialmente em 2001 o princípio da Responsabilidade de Proteger (R2P). Ele conecta a soberania estatal à capacidade de manutenção dos direitos humanos em seu território; caso o Estado não o conseguisse manter, uma intervenção militar se tornaria legítima e tal intervenção deveria seguir os princípios da Carta da ONU. Ou seja, não seria mais necessário o consentimento de todas as partes envolvida como era antes.
Ao longo do filme é possível observar algumas premissas inerentes às Operações de Paz das Nações Unidas, como o não uso da força contra civis, que quando ocorrido O’Brien tenta esconder na certeza da descredibilização da organização frente à sociedade internacional, e também pela equipe de Quinlan, que estando sob ataque utilizou-se da força para auto-proteção, bem como a autonomia exercida pelo comandante da tropa ao negociar com o mercenário no campo de batalha, alegando que tinha autoridade suficiente para aceitar “cessar fogo” e rendição.
O ato de ocultação dos fatos cometido por O’Brien trata-se de uma violação dos padrões de execução das operações de paz, visto que toda e qualquer ação deve ser reportada quão imediatamente possível.

A operação no Congo fracassou, mas deu impulso para uma melhora na concepção das Missões de Paz. “The Siege of Jadotville” não é só para quem gosta de filmes de guerra, vai além da ação desenfreada: conta a verdadeira história dos irlandeses que foram chamados de covardes aos olhos do mundo e fornece um bom exemplo para se observar a evolução das missões de paz da ONU.

REFERÊNCIAS

* Por: Bruna Galani e Fernanda Tapada: estudantes do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba.
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terça-feira, 10 de outubro de 2017

Opinião - Catalunha: Puigdemont irrita a todos, e mostra que sua decisão é a mais acertada


O Presidente do governo autônomo da Catalunha, Carles Puigdemont, declarou nesta terça-feira, dia 10/10, a independência unilateral da Catalunha. Poucos momentos depois, suspendeu os efeitos da declaração. Para o professor de Geografia Política e Política Internacional do curso de Relações Internacionais do UNICURITIBA, Gustavo Blum, essa foi a decisão mais acertada para a questão catalã.

Puigdemont irrita a todos, e mostra que sua decisão é a mais acertada


Gustavo Glodes Blum *

Não há dúvida alguma. A declaração de independência da Catalunha, aguardada por décadas, foi, no mínimo, anticlimática. No fim da tarde desta terça-feira, dia 10 de Outubro, o Presidente do Governo autônomo da Catalunha (a Generalitat) não levou nem dez minutos para dar um banho de água fria em todos aqueles que esperavam, à maneira das independências do século XX, alguém brandindo uma declaração de independência e, com o peito insuflado, gritando: "Viva a República Catalã!".

O exato contrário ocorreu. Ainda que os deputados da coligação independentista tenham posteriormente se reunido para assinar a "Declaração ao povo da Catalunha e a todos os povos do mundo" - na qual indicam a constituição da República Catalã -, o estrago já estava feito. A reação eufórica nas ruas de Barcelona, Girona e outras cidades da região tinha sido substituída por uma incredulidade enorme diante do ocorrido. Tenso, Puigdemont fez o que poucos conseguem: irritou a todos. E é por isso que sua decisão foi a mais acertada.

Ao declarar a independência, assume um certo mandato que recebeu de uma parte dos catalães para tentar estabelecer uma Catalunha independente - ou, no mínimo, mais forte - diante de Madrid. Era inevitável que isso ocorresse, uma vez que a perda do momento político poderia ter impedido durante algum tempo todo e qualquer movimento independentista de crescer. Não declarar a independência agora teria sido um suicídio político não apenas ao Presidente da Generalitat, mas também de todo o movimento político em torno da independência que se fortaleceu desde a revogação, no ano de 2010, do Estatudo da Catalunha, por parte da Justiça espanhola. Mais que isso, seria convocar ao ato direto, à violência ou até mesmo ao conflito armado uma região que, nos últimos meses, já tem sido o palco de confronto direto entre forças do governo espanhol e de movimentos secessionistas de vários matizes políticos.


Reações após as declarações de Puigdemont: à direita, quando declara a independência, e à esquerda, logo após, quando indica a suspensão dos efeitos da declaração.

Porém, suspender os efeitos da independência também é um gesto político altamente relevante. Ao fazê-lo, o governo catalão consegue transparecer um gesto de boa vontade. A Catalunha surge como um país que já exerce uma diplomacia calculada. E é necessário aos catalães se mostrarem "respeitosos às leis, ao Estado de direito e ao processo democrático", como afirmou Puigdemont em sua declaração. 

Atrás de sua frase, em que afirmou que "não somos delinquentes, não somos loucos, não somos golpistas, não somos alucinados", o presidente não só tenta colocar o processo de independência dentro de uma lógica democrática, mas assinala a responsabilidade de realizar uma boa gestão do processo. Principalmente após um dia em que ao menos 6 grandes empresas mudaram de domicílio, saindo da Catalunha em direção à Espanha, é necessário, sobretudo no nível econômico, que o governo catalão mostre que será capaz de governar bem o país. Não o fazendo, arrisca gerar uma depressão econômica que ameaça, como um todo, a própria União Europeia.

Com esta ação, o governo catalão - que atrasou a declaração de independência justamente para ajustar os últimos detalhes destes termos indicados por Puigdemont - conseguiu irritar a todos. 

Os nacionalistas - sobretudo os mais velhos, que viveram a ditadura franquista, e os mais jovens, que sonhavam com uma Catalunha republicana e europeia - acharam que o governo "perdeu uma oportunidade histórica", nas palavras de Anna Gabriel i Sabaté, porta-voz do CUP, partido de esquerda independentista. Por sua vez, os unionistas - que encontram no Governo conservador de Mariano Rajoy e no jornal El País seus maiores interlocutores - acreditam que a Generalitat está enrolando, e querendo apenas trabalhar com o tempo, gerando ainda mais caos e instabilidade na região. Inclusive alguns líderes europeus e mundiais se irritaram com a situação, como foi o caso de Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, que pediu a Puigdemont que "não tomasse uma decisão que frustre o diálogo". O presidente da França, Emmanuel Macron, e o Chanceler do México, Luis Videgaray, foram enfáticos ao afirmar que seus países não reconhecerão uma Catalunha independente.

Por qual razão, portanto, essa é a decisão mais acertada? Ora, com uma declaração realizada, a Generalitat asserta seu posicionamento. Agora, já não há mais volta: o ato unilateral está como fato legislado, a Declaração assinada, e o momento político agora não permite uma volta atrás. Desta forma, o governo catalão joga de volta a Madrid a responsabilidade de resolver da melhor maneira a questão. 

E, como pudemos recentemente perceber, o governo de Rajoy não está preparado para atuar de maneira diplomática diante desta situação. Houve quem, de dentro do governo espanhol, falasse num destino a Puigdemont parecido com Lluís Companys, líder catalão independentista que, em 1940, foi fuzilado pelas forças do ditador Francisco Franco. A contar com o uso da violência que fez o governo espanhol no referendo de duas semanas atrás, utilizando a força policial para acabar com sessões eleitorais e, segundo a Generalitat, ferindo mais de 800 pessoas, Rajoy não está para brincadeira.

Ao mesmo tempo, o próprio processo independentista levará, necessariamente, a uma renovação do debate a respeito do federalismo na Espanha. Saindo ou não a Catalunha do Estado Espanhol, indubitavelmente volta ao cerne do debate político ibérico a questão das representações democráticas, da participação política e da capacidade de autodeterminação. E, se isso se refere sobretudo às regiões autonômicas, como a Catalunha, o País Basco, a Galícia, Valência e outras, também causará um debate necessário a respeito da participação popular. Colocar a questão da República é questionar, também, qual o papel de uma monarquia na atualidade, o que pode se tornar perigoso para o Rei Felipe VI, que se colocou contundentemente ao lado do governo de Rajoy em seu pronunciamento após o referendo.

Enquanto isso, suspendendo temporariamente os efeitos da declaração, Puigdemont aponta para a dificuldade que é tornar uma região independente, e que esse processo não será fácil e instantâneo. Haverá, ainda, muito debate e muitas considerações a respeito de todos os processos internos e externos à Catalunha. Afinal, criar um país do nada não é tarefa fácil. Semelhantemente ao processo escocês, temporariamente resfriado, a principal pergunta a ser feita é: e agora?

Evitando tornar a declaração efetiva neste momento, a Generalitat ganha tempo para pensar detalhes burocráticos e logísticas de toda a empreitada independentista. Pois, se foram levados até agora pelo momento político, serão cobrados mais adiante a respeito do sucesso deste mesmo processo. 

O que nos resta? De forma anticlimática, justamente por inspiração da declaração catalã, pode-se afirmar que só nos resta esperar. Pois não apenas a resiliência dos dois lados será, agora, testada: também os próprios princípios das Relações Internacionais de autodeterminação dos povos e de não-intervenção nos assuntos internos serão foco de disputa política. Enquanto não resolvemos grandes limbos jurídico-políticos como aqueles do Kosovo, da Ossétia do Sul e da Abecásia, a Catalunha pode servir para compreendermos como, na atualidade, funcionam realmente as Relações Internacionais.


* Gustavo Glodes Blum é Internacionalista, Mestre em Geografia pela Universidade Federal do Paraná e Bacharel em Relações Internacionais pelo Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA). Atualmente, é Líder do Grupo de Pesquisa "Redes e Poder no Sistema Internacional", e professor das disciplinas de Geografia Política e Política Internacional Contemporânea no curso de Relações Internacionais do UNICURITIBA.
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