Figura 1:
Dorothy Mae Stang (Fonte: Sisters of Notre Dame de Namur) [1]
Por Igor Vieira Pinto
Dorothy Mae Stang, freira
norte-americana que mais tarde naturalizou-se brasileira, era chamada de Irmã
Dorothy por conta do ofício, mas o apelido carinhoso de “Anjo da Amazônia” é
inegavelmente o mais marcante. Seja por sua bondade destinada a todos,
principalmente aos necessitados, ou pela luz de esperança que trouxe ao Brasil
de forma geral em sua luta contra a desigualdade social e desmatamento, Dorothy
foi e continua sendo personagem a ser destacada quando é discutida a impunidade
frequente que dribla a justiça brasileira e a destruição das florestas
brasileiras por interesses gananciosos.
Desde muito nova, aproximadamente
partir dos 36 anos, iniciou sua atividade missionária no Brasil, com
reivindicações em favor de trabalhadores rurais que tiram da terra seu próprio
sustento e moradia, para que as propriedades públicas não fossem apossadas por
grandes agricultores que usufruíam ilegalmente do espaço – por intermédio de
“grilagem”, termo utilizado para descrever a falsificação de documentos de
posse de terras - para o estabelecimento de serrarias, gerando grande impacto
negativo na estabilidade da preservação ambiental. A Irmã Dorothy carregou essa
“bandeira” ao passar dos anos, com predominância na cidade de Anapu, no estado
do Pará, ganhando cada vez mais apoio de muitos e desgosto destes grandes
empresários e seus funcionários... Fato este que culminou em seu assassinato em
12 de fevereiro de 2005, aos 73 anos de idade, com 6 tiros por arma de fogo,
sendo cinco ao redor do corpo e um na cabeça – o tiro fatal.
O projeto central que
formaliza as atividades de Dorothy, é chamado de PDS (Projeto de
Desenvolvimento Sustentável), criado anos atrás por iniciativa do governo
federal, mas que apenas “saiu do papel” pela ação de Dorothy, tendo o
reconhecimento do Estado em 2003 e sendo acrescido da palavra Esperança, para fazer
alusão a primeira implementação do projeto. A ideia central, seria destinar 20%
de dada parte das terras públicas para que agricultores familiares-
principalmente os sem-terra- produzissem suficientemente para seu próprio
mantimento e os 80% restantes para a preservação da biodiversidade que ali
existisse, estabelecendo assim, nas próprias palavras de Dorothy, uma “harmonia
com o que já existe na natureza”[2]. Como muitos projetos com
caráter social no país, as colaborações governamentais eram precárias, sejam em
fundos, como até mesmo em ordem administrativa, uma vez que o Incra (Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária), autarquia federal, mostrava-se
incapaz de intermediar os conflitos que ocorriam.
Pela extensão geográfica da
área florestal de Anapu, esta era dividida em lotes, sendo alguns de
propriedade privada e outros propriedades do Estado. O lote 55, era considerado
o coração do assentamento do PDS Esperança e foi protagonista do impasse de
Dorothy com o latifundiário Regivaldo Pereira Galvão, mais conhecido como
"Taradão", que se denominava dono do lote, e com o fazendeiro Vitalmiro
Bastos de Moura, chamado de "Bida", que seria o comprador e,
portanto, novo dono desta terra. Como principais suspeitos, foram acusados de
encomendar a morte de Irmã Dorothy a pistoleiros conhecidos, sendo ela vista
como uma barreira frente a seus delitos. O STF determinou recentemente a prisão
de Regivaldo, após longas incertezas de seu destino, e Vitalmiro cumpre, desde
2015, prisão em regime domiciliar. O atirador, Rayfran das Neves Sales, foi
condenado e cumpre pena de 27 anos. Já os dois outros cúmplices, cumprem regime
domiciliar e liberdade provisória.
Dorothy Stang não representa
apenas a força feminina, mas também a força de vontade de uma cidadã que busca
mudanças em prol da sociedade em geral, chegando a derrubar seu sangue como
ferramenta de suas reinvindicações. Soma-se a isso a situação atual da floresta
amazônica que é devastada muitas vezes por queimadas que visam o
desenvolvimento ilegal do agronegócio, mas que, principalmente, mostram o poder
de ação destes agricultores criminosos. Quando defende-se a natureza,
defende-se a nação em que ela está inserida e o mundo. Que a morte/sacrifício
da Irmã Dorothy não seja em vão. As pessoas, em especial os brasileiros,
precisam “acordar” para a situação inaceitável de desmatamento e, dentre outras
coisas, devem cobrar o Estado.
Este texto foi amplamente
inspirado e referenciado pelo filme “Mataram Irmã Dorothy” (2008), um filme de Daniel
Junge, que retrata com maestria e muitos detalhes a luta de Dorothy Stang. Esta
é sem dúvida uma grande opção de filme, fica, também, aqui indicado.
Bibliografia
1. Sisters of Notre Dame de Namur – About Sister
Dorothy Stang - https://www.sndohio.org/sister-dorothy/
2. “Mataram Irmã Dorothy”
(2008), um filme de Daniel Junge.
- Estadão – Blogs - Fausto
Macedo – Repórter – “Polícia prende 'Taradão', mandante do assassinato de
Dorothy Stang” - https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/policia-prende-taradao-o-mandante-da-morte-de-dorothy-stang/
- G1 – Rede Liberal (Pará) – “Mandante
do assassinato de Dorothy Stang divide cela com seis presos em Altamira” - https://g1.globo.com/pa/para/noticia/mandante-do-assassinato-de-dorothy-stang-divide-cela-com-seis-presos-em-altamira.ghtml
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