terça-feira, 28 de abril de 2020

Redação Internacional: O Brasil nas machetes do mundo na semana de 19/04 a 26/04 de 2020



                                       



O Brasil,  mesmo sendo um dos países que menos testa no mundo, chegou nesta semana à casa dos 50 mil infectados pelo covid-19. Só de mortes confirmadas já são mais de 4 mil. Bateu-se recorde de fatalidades por coronavírus num só dia, passando de 400 óbitos. A doença, que chegou da Europa e da Ásia pelos aeroportos das grandes cidades, afetou primeiramente os ricos e os hospitais particulares. O vírus agora passou a se interiorizar pelo país e pelas periferias, causando mais danos em proporção aos pobres, com menos acesso ao saneamento, aos hospitais, e sem as condições para o isolamento social necessário. As consequências da pandemia para quem vive na precariedade foi o assunto da mídia inglesa sobre o Brasil, apesar da crise política interna que substituiu o coronavírus nas manchetes e discussões.


 Daily Mail destacou a fala do prefeito manauara, Arthur Virgílio Neto (PSDB), de que a situação no Amazonas, de “calamidade absoluta”,  não está sendo levada a sério pelo presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores. Em Manaus, há registros diários de dezenas de mortes de jovens de 20 a 30 anos. Para o tabloide, situação no norte do país põe em risco comunidades indígenas “extremamente vulneráveis” e faz do Brasil um possível próximo maior foco mundial da covid-19. A reportagem traz uma seleção de fotografias impactantes que relevam o drama dos velórios esvaziados, das valas comuns e dos hospitais saturados. 

Também na Inglaterra e com a mesma riqueza de detalhes que o concorrente, The Guardianfez uma reportagem extensa sobre a “favelização” do vírus no Rio de Janeiro. Diante do impasse sobre a flexibilização da quarentena entre o governador Wilson Witzel (PSC) e o presidente Jair Bolsonaro, os residentes das comunidades ficam “confusos e expostos”. Com a economia parada, os que já têm poucos recursos ficam ainda mais desamparados, ainda mais em condições de moradia precárias, com várias pessoas sob o mesmo teto. O jornal classifica a favela da Rocinha como uma das "comunidades mais vulneráveis [ao coronavírus] em toda a América Latina”. 
 Ainda no The Guardian nesta semana, foi retratado o dilema de quem precisa sair de casa para alimentar e prover a família convivendo com o medo de trazer, junto ao sustento incerto, a doença para dentro de casa. As três reportagens inglesas são bastante densas, repletas de entrevistas com moradores locais, com boas análises da conjuntura política brasileira e ilustrada por fotografias que mais parecem capa de diário de guerra. 
No entanto, como não poderia deixar de ser diferente, o maior acontecimento politico brasileiro dos últimos tempos tomou do coronavírus as manchetes estrangeiras: na sexta-feira (24), o ex-juiz da operação Lava-Jato, Sérgio Moro, pediu demissão do cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública, apontando interferência do Palácio do Planalto em investigações da Polícia Federal. Com a especial atenção que deu ao Brasil esta semana, o The Guardian tratou a saída de Moro como um “revés" ao executivo “de extrema-direita” brasileiro. Tratando da dubiedade da figura de Moro, herói para uns e odiado por outros na sociedade polarizada, o jornal consegue fazer um especificado relato das correlações de forças politicas que culminaram na interferência na Polícia Federal e, consequentemente, na demissão do ex-juiz. Por fim, depois de perpassar pela prisão do ex-presidente Lula e do “gabinete do ódio” de Carlos Bolsonaro, a matéria mostra os panelaços em resposta àa saída de Moro.
                       OThe New York Timesdeu que Moro é “um dos políticos mais populares do país” e que em seu discurso de despedida “repreendeu extraordinariamente” o governo. Replicando a reposta de Bolsonaro, que chamou Moro de “vaidoso, interessado e desonesto”, o Times anuncia o aprofundamento do isolamento do presidente junto à população e a ex-aliados, sendo Moro o oitavo ministro a cair em 15 meses de administração e o segundo em duas semanas.



 Se a imprensa britânica explorou muito bem o espalhamento da covid-19 pelo Brasil, a mídia argentina deu especial destaque à personalidade de Sergio Moro. Com um perfil minucioso do paranaense, Clarín mostrou como o magistrado “decidido, preparado e bem resolvido” se “deslumbrou” pela operação anti-corrupção italiana “Mãos Limpas”. Sua popularidade, segundo o jornal, construída em métodos heterodoxosda aplicação da lei e na “parcialidade política” chegou ao auge quando ordenou a prisão do ex-presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva. Mesmo gozando da fama, a matéria lembra que Sergio Moro disse, em 2016, que jamais entraria para a política. Para o jornal argentino, o agora ex-ministro “falhou com seus próprios dizeres” e está “cansado”. 



A mídia catari lembra que a crise política concomitante a sanitária no Brasil ganha novos rumos com a saída de Moro da esplanada ministerial. Al Jazeera, principal emissora árabe, salientou que, além de Bolsonaro sofrer seu “maior baque tradução minha)” desde que assumiu a presidência, o litígio do poder pode se instaurar nos meios jurídicos. Lembrando do procurador geral Augusto Aras, que ameaça investigar Sergio Moro pelas declarações que deu contra o presidente, a reportagem fala de “graves acusações” dos dois lados que podem levar a “sérios riscos políticos e legais”. A matéria ainda fala da sucessão de perdas de aliados que sofre Bolsonaro, desde governadores, a congressistas e ministros, em especial Paulo Guedes, da economia, que “não tem respondido aos pedidos de comentários”. 
            Por fim, o português Público parece concordar com o árabe Al Jazeera na análise que faz das demissões e omissões dos antes tidos como “super-ministros” Moro, na pasta de justiça e segurança, e Guedes, na fazenda. O jornal sublinha que o plano econômico para enfrentar a crise apresentado pelo governo nesta semana foi capitaneado pelo ministro General Braga Netto, e não por Paulo Guedes, dono da pauta. Público alerta a guinada governamental para as alas militares e ideológicas - do “guru” Olavo de Carvalho -, escanteando os antigos lastros de sustentação de Bolsonaro junto ao eleitorado comum e ao mercado financeiro que eram, na campanha, o liberalismo de Guedes e a “moralidade” de Moro.


            No meio da pandemia, falar de acontecimentos políticos pode parecer um alívio para quem só ouvia contar o número de mortos. Noutros tempos, haveria multidões nas ruas, entrevistas “quebra-queixo” lotadas e empurra-empurra no congresso nacional. Mesmo ofuscado dos holofotes por Moro, o coronavírus não cessou. Enquanto as medidas de auxílio de renda se mostram débeis, há quem precise furar a quarentena para comer. Não bastasse o colapso sanitário, o imbroglio entre o presidente e seus super-ministros mergulham o Brasil em novas super-crises. 


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