segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Redação Internacional: o Brasil nas manchetes do mundo na semana de 16/08 a 23/08

                                               

Por Fernando Yazbek

             O ano de 2020 parece não dar trégua no empilhamento de tragédias. Enquanto o número de mortes pela pandemia do novo coronavírus se aproxima dos120 mil brasileiros, nem a fauna do país está a salvo. O sul do Brasil, que enfrentou duras secas nos últimos meses, registrou temperaturas negativas, chuva congelada e neve nesta semana. Até Porto Velho, capital de Rondônia, teve mínima de 7ºC no coração do norte brasileiro. Apesar da frente fria, o pantanal mato-grossense encara a maior queimada das últimas duas décadas. O jornal inglês The Guardian dá conta de que cerca de 12% da vegetação da floresta foi afetada pelo fogo que ameaça destruir “o maior refúgio de araras azuis ameaçadas de extinção no mundo”. A reportagem traz entrevistas com especialistas locais que garantem que o incêndio generalizado foi provocado pelo avanço da agropecuária. Carlos Rittl, ambientalista ouvido pelo Guardian, acredita que a “hostilidade” do presidente Jair Bolsonaro com as questões ambientais contribui para que “pessoas taquem fogo sem medo de serem punidas”. O Ibama, órgão ambiental, foi enfraquecido na atual gestão federal, relembra a mídia londrina. 


         A mídia catari também destacou as queimadas na salva brasileira, mas desta vez na Amazônia. Al Jazeera, maior agência de notícias da língua árabe, soltou um vídeo sobre a situação dos milhares de focos de incêndio que acometem a floresta. O audiovisual traz depoimento de Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, que prometeu esforços para conter uma tragédia ambiental ainda pior do que a do ano passado. A produção relembra que o presidente Jair Bolsonaro acusou o ator e ativista Leonardo di Caprio de ter ateado fogo na floresta e que, recentemente, o vice-presidente Hamilton Mourão convidou o artista para conhecer a Amazônia de perto em uma caminhada.  

           O desmatamento na Amazônia faz com que Berlim esteja cético quanto a ratificação do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, noticiou a Deutsche Welle. O periódico afirma que a chanceler alemã, Angela Merkel, está com “sérias dúvidas” sobre a aproximação dos blocos e que vê as queimadas na região norte do Brasil com “grande preocupação”. Fontes garantem que, depois de reunião com sueca Greta Thunberg e outros ativistas, Merkel firmou compromisso de não assinar o texto presente do acordo. DW recapitula que o tratado de livre-comércio entre os blocos da Europa e da América do Sul, assinado em julho de 2019, está enfrentando resistência cada vez maior dos europeus devido à política ambiental desastrosa do governo Bolsonaro. Além disto, “os ataques ao Estado de direito, aos direitos humanos e à democracia sob o governo brasileiro atual também são argumentos na Europa contra o acordo”, salientou o jornal. 


         Em Portugal, a polêmica administração bolsonarista nas áreas ambientais novamente repercutiu. Desta vez, o tema era a lei de proteção aos povos indígenas, que sofreu uma série de vetos do presidente Bolsonaro que dificultavam o acesso a água, a remédios e a hospitalização para índios. O Público elenca discursos de senadores de diversos partidos e estados criticando os vetos do executivo: “inacreditável”, “crueldade sem limite” e “desumano”, sublinha a imprensa portuguesa. O Congresso conseguiu derrubar os vetos do Palácio do Planalto, um alívio para os mais de 146 povos indígenas afetados pela covid-19. Citando a plataforma de monitoramento da situação indígena durante a pandemia, o Público faz uma cronologia do espalhamento do vírus entre os povos tradicionais sob a “omissão do Estado brasileiro”. Houve mais de 25 mil casos de infecção pelo Sars-Cov2 e perto de 700 mortes de indígenas brasileiros.

          Com os vetos derrubados no Brasil, a família Bolsonaro quis legislar na Argentina. O portenho Clarín noticiou os tuítes do deputado federal pelo Republicanos de SP, Eduardo Bolsonaro, em que o filho do presidente fala de uma “venezuelização” da Argentina. O jornal lembra que o deputado é presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara e um “braço latino americano” de Steve Bannon, “guru da extrema-direita” que foi preso esta semana por fraude nos Estados Unidos. 

            A mídia argentina lamenta que a publicação de Eduardo Bolsonaro tenha acontecido justamente no “melhor momento das relações diplomática entre os dois países nos últimos 9 meses”. Daniel Scioli, embaixador da Casa Rosada, havia se encontrado com Jair Bolsonaro dias antes. Clarín ainda frisou que, durante a pandemia, Brasília deixou de ser a principal parceira econômico de Buenos Aires, que duas décadas depois se voltou a Pequim.

             O New York Times volta a tratar da pandemia no Brasil. Para o jornal estadunidense, a “resposta caótica” ao novo coronavírus do governo brasileiro fez do país uma “oportunidade única” para pesquisadores da vacina. Assim, o Brasil “surge como um potencial e vital ator global para se acabar com a pandemia”, uma vez que as três mais promissoras vacinas do mundo contam com voluntários e cientistas brasileiros. O jornal retoma as falas do presidente que menosprezaram a doença e “sabotaram” as medidas de isolamento e uso de máscara. Pela “desorganizada coordenação brasileira”, países vizinhos ao Brasil militarizaram suas fronteiras e representantes da classe médica pediram a Corte Internacional de Justiça o indiciamento de Bolsonaro por crimes contra a humanidade.

            Times também discorre sobre o sistema público e universal de saúde brasileiro, “um dos melhores programas entre os países em desenvolvimento”. Apesar de ter contido surtos de febre amarela e malária, o SUS tem tido recentes e progressivos desinvestimentos. Além de sobreviver com menores orçamentos, o sistema ainda tem de lutar contra campanhas de desinformação e movimentos anti-vacina, amplamente propagados em mídias sociais. Pela primeira vez em 25 anos, afirma o jornal, o Brasil não bateu as metas de vacinação em 2019. 


         O filme de terror vivido pela menina de dez anos, estuprada desde os seis pelo tio, foi notícia no Le Monde. A criança que engravidou em decorrência da violência sexual conseguiu, na justiça pernambucana, o direito ao aborto legal que fora recusado no Espírito Santo, estado da menina. “À medida que os casos de violência sexual contra crianças se repetem, religiosos conservadores, evangélicos e católicos brasileiros, cada vez mais, se escondem por trás dos ‘valores’ defendidos pelo atual governo”, estampou o jornal francês. Isto porque a criança teve a identidade e o hospital onde realizaria o aborto revelados por militantes de direita nas redes sociais. Deste vazamento, uma pequena multidão se aglomerou em frente ao ambulatório para protestar contra a interrupção da gravidez forçada. 

A ministra Damares Alves chegou a enviar assessores que tentaram convencer a família da menina para que ela mantivesse a gravidez. O Le Monde destaca que, por se tratar de uma menor de 14 anos, cumpriam-se todos os requisitos para a legalidade do aborto num país que é uma democracia laica “apesar” de Jair Bolsonaro e seus apoiadores.


 

Já o espanhol El País tratou de antirracismo, feminismo e transparência para falar sobre a cultura no Brasil. A direção artística do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro foi remodelada para entrar e consonância com estres 3 princípios. Dentre uma centena de candidatos do concurso público para o cargo, Keyna Eleison e Pablo Lafuente vão dirigir o MAM. Ela, carioca negra, e ele, espanhol, aspiram juntos a uma reconfiguração do museu, que pretende reabrir na metade de setembro. 

            Lafuente disse ao jornal que, num país desigual, não se pode anunciar que o museu está aberto e esperar que as pessoas venham: são precisos programas específicos para cada grupo. 



Do guru ideológico preso por fraude a históricos parceiros comerciais receosos, o artigo 4º da Constituição Federal de 1988 vai virando cada vez mais um documento de museu que, ao que tudo indica, se transforma num grande necrotério de cinzas e caixões infantis. 

 

Referências:

ANDREONI, Manuela. LONDOÑO, Ernesto. Coronavirus Crisis Has Made Brazil an Ideal Vaccine Laboratory. The New York Times. Rio de Janeiro, 16 ago. 2020. Disponível em <https://www.nytimes.com/2020/08/15/world/americas/brazil-coronavirus-vaccine.html>

COVID-19: Congresso do Brasil anula vetos de Bolsonaro à lei de proteção indígena. Público. 20 ago. 2020. Disponível em <https://www.publico.pt/2020/08/20/mundo/noticia/covid19-congresso-brasil-anula-vetos-bolsonaro-lei-protecao-indigena-1928696>

EL hijo de Jair Bolsonaro cuestionó el decreto de Alberto Fernández sobre la telefonia celular, Internet y la TV paga. Clarín. Buenos Aires, 22 ago. 2020. Disponível em <https://www.clarin.com/mundo/hijo-jair-bolsonaro-cuestiono-decreto-alberto-fernandez-telefonia-celular-internet-tv-paga-venezuelanizacion-argentina-continua-_0_SzGfphY97.html>

GORTÁZAR, Naiara G. MAM Rio diversifica direção artística para mudar “cultura branca” dos museus no Brasil. El País. 20 ago. 2020. Disponível em <https://brasil.elpais.com/cultura/2020-08-20/mam-rio-diversifica-direcao-artistica-para-mudar-a-cultura-branca-dos-museus-no-brasil.html>

MERKEL diz ter sérias dúvidas sobre acordo UE-Mercosul. Deutsche Welle. 21 ago. 2020. Disponível em <https://www.dw.com/pt-br/not%C3%ADcias/s-7111>

PHILLIPS, Tom. Fears for endagered macaw as fire devastes Brazilian wetland. The Guardian. Brasília, 19 ago. 2020. Disponível em <https://www.theguardian.com/world/2020/aug/19/hyacinth-macaw-brazil-fire-pantanal-endangered-birds>

VIGNA, Anne. Brésil: le gouvernement de Jair Bolsonaro, um relais politique pour les anti-avortement. Le Monde. 21 ago. 2020. Disponível em <https://www.lemonde.fr/international/article/2020/08/22/au-bresil-un-relais-politique-pour-les-anti-avortement_6049646_3210.html>

YANAKIEW, Monica. Amazon fire: Raging blazes raise fears of a repeat of 2019. Al Jazeera. Rio de Janeiro, 21 ago. 2020. Disponível em <https://www.aljazeera.com/news/2020/08/amazon-fire-raging-blazes-raise-fears-repeat-2019-200821112341112.html>


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sexta-feira, 10 de julho de 2020

Estamos de férias. Voltaremos em agosto!


Estamos de férias. Voltaremos em agosto!

Se cuidem, usem máscaras, fiquem em casa e até já!
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quarta-feira, 8 de julho de 2020

Acontece no UniCuritiba: Simulação da Corte Internacional de Justiça


Por Giseli Menegatt e Marina Nascimento*


       A história nos mostra que os conflitos entre os Estados não são um fenômeno novo, na realidade eles acontecem desde os primórdios da humanidade. Apesar de esses litígios entre Estados existirem a muito tempo, as soluções adotadas para os mesmos mudaram muito, e isso se deve ao desenvolvimento do direito internacional contemporâneo, que fez com que se passasse a utilizar meios pacíficos para a solução de conflitos, e assim o próprio recurso da guerra deixou de ser utilizado, visto que esse mecanismo traz muitos prejuízos e não resolve os problemas de forma satisfatória. Dessa forma, em busca de soluções que sejam de fato efetivas, uma série de meios judiciais surgem no âmbito internacional, com destaque para a Corte Internacional de Justiça, com sede localizada em Haia na Holanda, essa corte é um anexo da carta da ONU, o que faz com que todos os países membros das Nações Unidas possam recorrer ao principal órgão judiciário dessa organização.
A professora Michele Hastreiter propôs aos seus alunos de Direito Internacional Público uma atividade prática para que observassem melhor o funcionamento deste tribunal. Por isso, ela trouxe um caso formulado pela Jessup em 2017, a maior competição de tribunais do mundo. Este concurso consiste em uma simulação de uma disputa fictícia entre países perante o Tribunal Internacional de Justiça, onde as equipes preparam alegações orais e escritas argumentando as posições do requerente e do requerido baseados em um documento chamado Compromisso, o qual traz todas as informações necessárias para a construção de argumentos.
O caso em questão tratava sobre dois países vizinhos, chamados Clãs de Atan e Reino de Rahad, os quais compartilhavam várias semelhanças entre si, pois seus territórios são localizados em terras áridas e os dois Estados foram formados pelo mesmo povo: os Atan. Contudo, devido a várias secas que ocorreram na região, uma série de acontecimentos foram desencadeados gerando conflitos sobre aquíferos transfronteiriços, obrigações para com o patrimônio mundial em perigo, repatriamento de bens culturais e custo das crises de refugiados. Por isso, decidiram submeter estas questões à Corte Internacional de Justiça, para que decidisse especificamente em cada assunto quais seriam as consequências jurídicas, visto os direitos e obrigações de ambos.
    Além disso, a professora sugeriu que utilizássemos como base para a nossa pesquisa um memorial que foi destaque na competição da Jessup, nele fora citados diversos documentos internacionais da ONU, jurisprudências, doutrinas e Direitos Humanos. Dessa forma, nós do terceiro período, tivemos que pesquisar e aprofundar nossos conhecimentos por meio desse memorial, o que nos propiciou a oportunidade de vivenciar  a nossa profissão de uma forma completamente diferente. Concomitantemente a isso, também tivemos a oportunidade de desenvolver nossas habilidades de trabalho em equipe e de oratória, que sem sombra de dúvidas, são competências fundamentais para a formação de um bom internacionalista.
O cenário atual da pandemia do COVID-19 impõe diversos desafios para todos. Dessa forma, realizar uma simulação de Julgamento da CIJ  de maneira virtual, muito provavelmente, parecia algo bem distante de nossa realidade há alguns meses atrás, no entanto, a experiência que tivemos durante as aulas de Direito Internacional Público provou que podemos sim reinventar as experiências práticas dentro do curso mesmo à distância. 



*Giseli e Marina são alunas do terceiro período do curso de Relações Internacionais no UniCuritiba.
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segunda-feira, 6 de julho de 2020

Entrevista com Gerd Wenzel: as relações entre Brasil e Alemanha


           “A imagem do Brasil na Alemanha nunca esteve tão desgastada como agora”, confessou o jornalista alemão, Gerd Wenzel, ao Blog Internacionalize-se. Nascido em Berlim em plena Segunda Guerra Mundial, em 1943, Wenzel chegou ao Brasil em 1955 junto de sua mãe viúva. No derradeiro ano do regime nazista, Adolf Hitler ordenou o alistamento ao exército de idosos e de adolescentes. À época com 50 anos, o pai de Gerd, Herbert Wenzel, fora obrigado a ir à trincheira contra as tropas soviéticas que invadiam a capital alemã. Abandonando o fronte, Herbert se escondeu no porão da casa até o final da guerra. 
            Já maior de idade, Gerd decidiu estudar para se tornar pastor na Primeira Igreja Presbiteriana do Brasil. Em meio à Ditadura Militar, o Pastor Wenzel foi preso três vezes por implementar o método de alfabetização de Paulo Freire. Liberado da subversão pelo Departamento de Ordem e Política Social, largou a teologia e foi trabalhar para multinacionais alemãs em solo brasileiro. 
               Gerd Wenzel é o pioneiro do futebol alemão no Brasil. Era jornalista esportivo na TV Cultura de São Paulo quando pela primeira vez a Bundesliga foi transmitida aos brasileiros, em 1991. É comentarista dos canais ESPN desde 2002 e tem uma coluna semanal na Deutsche Welle, emissora internacional da Alemanha. Wenzel é unanimidade no mundo futebolístico como o maior especialista do fußball e tem larga experiência com o autoritarismo.

             Gentilmente, o berlinense se dispôs a comentar, para o Blog, questões caras às relações entre Brasil e Alemanha, pandemia do novo coronavírus e, obviamente, futebol. O jornalista falou sobre as repetidas referências ao nazismo do governo Bolsonaro, os atritos diplomáticos teuto-brasileiros e a imagem de Brasília na imprensa europeia. Confira, a seguir, a entrevista na íntegra. 
 
(Blog Internacionalize-se) O governo Bolsonaro é recheado de referências ao nazismo alemão. Desde declarações explícitas como o discurso do ex-secretário especial de Cultura, Roberto Alvim, parafraseando Joseph Goebbels, em estética claramente nazista até frases homólogas aos dos portões do campo de Auschwitz em vídeo da Secretaria de Comunicação do executivo. O chanceler Ernesto Araújo comparou as medidas de isolamento social no combate ao coronavírus com o holocausto do Terceiro Reich e o ministro da Educação, Abraham Weintraub, assimilou operações da Polícia Federal com a Noite dos Cristais. Por que, na opinião do senhor, há esta exaustiva correlação com a Alemanha Nazista nas narrativas do governo brasileiro?
(G. Wenzel) “Uma frase atribuída a Leonel Brizola cai como uma luva como resposta: ‘Se tem rabo de jacaré, boca de jacaré, pé de jacaré, olho de jacaré, corpo de jacaré e cabeça de jacaré, como é que não é jacaré?’. Há esta exaustiva correlação com a Alemanha Nazista porque membros desse governo se identificam com o ideário nazista, especialmente no que se refere à Cultura, à Educação e, agora, também na área da Saúde Pública. Podemos testemunhar diariamente a tentativa contínua de destruição da democracia pelo governo através do desrespeito à Constituição, ameaças ditatoriais, cerceamento de liberdade de imprensa, ataque às minorias políticas e sociais e contínua retroalimentação da existência de inimigos imaginários.”

(Blog Internacionalize-se) A Embaixada Alemã no Brasil já reiteradas vezes condenou a banalização do nazismo e o classificou como um movimento de extrema-direita, contrariando o bolsonarismo. Este tema é suficiente para haver um desgaste nas relações entre Berlim e Brasília?
(G. Wenzel) “As relações bilaterais entre Brasil e Alemanha a nível político estão de quarentena. Em Berlim, acompanha-se à distância e com cautela o desenvolvimento dos acontecimentos políticos no Brasil. A diplomacia alemã se pauta por relações civilizadas entre as nações e espera que, mais cedo ou mais tarde, o Brasil se alinhe novamente entre os países que valorizam a Democracia e lutam pela implementação dos seus valores, restabelecendo dessa forma um diálogo frutífero para ambos.”

(Blog Internacionalize-se) Acompanhando a mídia internacional, percebe-se que a Deutsche Welle, assim como o inglês The Guardian, tem se posicionado contundentemente crítica às políticas sanitárias do governo brasileiro, tido como autoritário e ineficiente. Como está a imagem brasileira na Alemanha? 
(G. Wenzel) “A imagem brasileira nunca esteve tão desgastada na Alemanha como agora. Praticamente todo dia algum órgão de imprensa local – e não apenas a Deutsche Welle – publica artigos sobre o Brasil, seja sobre a incompetente gestão, em todos os níveis governamentais, da crise provocada pela covid-19, sobre as manifestações esdrúxulas dos membros do governo ou do próprio presidente da República.”

(Blog Internacionalize-se) A Bundesliga retomou as atividades na metade de maio, com estádios vazios e uma porção de adaptações em meio à pandemia. O senhor, maior conhecedor do futebol alemão no Brasil, se mostrou à época preocupado com o retorno das partidas, em que pese a estabilidade alemã na contenção do espalhamento do vírus. O Brasil ruma à liderança no triste ranking de contágio e de mortes flexibilizando a quarentena. Mesmo assim, presidentes de Flamengo e Vasco reafirmam desejo de voltar com os campeonatos. Com quais expectativas o senhor enxerga a retomada do futebol no país?
(G. Wenzel) “É de uma irresponsabilidade atroz. Na Alemanha, as medidas de isolamento social e distanciamento físico foram implementados rigorosamente já em meados de março e estão trazendo seus resultados agora. Basta analisar as estatísticas. No Brasil, as medidas de isolamento e distanciamento, além de não terem sido implementadas corretamente, foram sabotadas pelo próprio governo federal causando desorientação social do cidadão comum que, consequentemente, não se sentiu compelido a seguir as recomendações das Secretarias Estaduais ou Municipais da Saúde que recomendavam o isolamento. O resultado dessa balbúrdia é que a crise da covid-19 ainda não chegou ao seu ápice e se prolongará por mais alguns meses. Nesse cenário, ao contrário do que acontece na Alemanha, onde a epidemia está sob controle, considero inviável a retomada do futebol sob qualquer circunstância.”

            Aos 77 anos, Wenzel parece reviver os sintomas que viu acabar na infância e reflorescer na juventude. O Brasil vai se desfazendo de sua imagem alegre e pacífica nos olhos do mundo e a substituindo por uma truculência sem propósito. É alarmante que alguém que viveu o declínio nazista, a ocupação soviética, a divisão alemã e a prisão nos anos de chumbo enxerque no abacaxi brasileiro traços de jacaré. 


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quarta-feira, 1 de julho de 2020

Redação Internacional: o Brasil nas manchetes do mundo na semana de 21/06 a 28/06

                                          

Por Fernando Yazbek

        O novo marco legal do saneamento básico, aprovado no Senado com larga maioria, movimentou a semana política brasileira. Na Saúde, as expectativas de que os números da pandemia do novo coronavírus estariam chegando a um platô não se confirmaram e o país continua ascendendo em casos e mortes. Apesar do descontrole sanitário, as quarentenas estão cada vez mais afrouxadas em São Paulo, ao contrário de Porto Alegre e Florianópolis. Segundo país mais afetado pela covid-19, o Brasil segue sem testagem em grande escala e há mais de 40 dias sem um ministro da Saúde titular. Na pasta educacional, um novo chefe tomou posse no lugar do expatriado Abraham Weintraub. Carlos Alberto Decotelli será o terceiro a comandar a Educação do governo Bolsonaro, que nomeia seu primeiro ministro negro. Enquanto o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos) foi blindado por decisão do Tribunal de Justiça do Rio sobre as investigações dos esquemas das “rachadinhas”, o governo do pai, Jair Bolsonaro (sem partido), parece cada vez mais acuado. 

       Foi isto o que mostrou o jornal The Guardian. Para a mídia inglesa, a “jovem democracia brasileira está sob seu maior teste de estresse” agora na gestão Bolsonaro, que produz “retórica antidemocrática” ameaçando em especial a suprema corte. Os atos autoritários bolsonaristas tiveram reação de coalizão pró-democracia com inspiração no Diretas Já, “histórico movimento que ajudou a derrubar a ditadura militar no Brasil”, lembra o Guardian. O manifesto pelo estado democrático de direito abarca figuras antagônicas da esquerda à direita, como Flávio Dino e Luciano Huck, liderados e publicados pelo “principal jornal” do país, a Folha de S. Paulo. A mídia paulista disse, segundo a inglesa, que “ataques sistemáticos de bolsonaristas põem a democracia em risco”. A matéria faz um extenso apanhado de acenos do presidente “populista de extrema-direita” ao autoritarismo e aos militares. A “camisa amarela de futebol” e os emblemas nacionais se tornaram símbolos “inconfundíveis” deste levante antidemocrático, finaliza o The Guardian

        “O pior ministro da história do Brasil” também foi tema do mesmo jornal. Demitido do ministério da Educação, Abraham Weintraub “caiu para cima” e foi indicado a ocupar um cargo de diretoria no Banco Mundial, representando o Brasil. O The Guardian apurou que o banco tem enfrentado “crescente pressão” para barrar a nomeação do “mais notório aliado de Bolsonaro” para um emprego que paga mais de 17 mil dólares por mês. O jornal afirma que, muito possivelmente, o ex-ministro entrou nos Estados Unidos valido de passaporte diplomático para “driblar” a quarentena imposta a brasileiros que chegam aos EUA em meio à pandemia. Relembrando as declarações antidemocráticas – contra o STF – e racistas – contra o povo chinês – de Weintraub, o artigo traz declarações do jurista Thiago Amparo, que o classificou como “medíocre” e como “o completo oposto do multilateralismo e do respeito diplomático que o banco exige”. Ventila-se, segundo a reportagem, que Guenther Schoenleitner, do conselho de ética do Banco Mundial, teria dito a colegas que “não toleraria notórios racistas” no quadro da instituição, mas que não poderia interferir na decisão brasileira – em referência a Weintraub. 

         O Le Monde soltou um vídeo no qual lamenta a situação sanitária no Brasil, “aclamado no passado pela vanguarda no gerenciamento de crises de saúde”. O audiovisual compara a pandemia da covid-19 com surto de HIV dos anos 80, quando “o governo reagiu rapidamente” na distribuição gratuita de tratamento – mas hoje “copia drogas fabricadas no exterior”. Em 2015, assolado pelo vírus da Zika, o governo brasileiro de Dilma Rousseff “demostrou firme apoio aos cientistas”, afirma a mídia francesa numa triste comparação com Bolsonaro, que “sempre se posicionou contra a contenção” do contágio. 

       Ainda em Paris, a cientista política Mélanie Albert escreve ao Le Monde uma profunda e fundamentada análise do bolsonarismo. Antes de entrar nas semelhanças e diferenças de Bolsonaro com regimes populistas ou liberais, a professora argumenta que o modo “escandaloso e anticientífico” do governo é “desenhado” justamente para “neutralizar oposição”. Albert retoma a campanha presidencial de 2018 como exemplo para demonstrar a lógica retórica bolsonarista de “nós contra eles”, sendo “eles todos comunistas” e “nós Deus e Brasil”. Ela ressalva que os militares e evangélicos brasileiros “não constituem blocos homogêneos e monolíticos”, mas que até então vêm sendo os pilares de sustentação do presidente, em especial pela mobilização característica destes grupos. 


        Quem parece concordar com a cientista política francesa é a ex-presidenta Dilma Rousseff (PT). Em cerca de uma hora de entrevista virtual ao espanhol El País, Dilma não titubeou em qualificar o atual executivo federal de “neofascista e miliciano”. Ela se preocupa, em especial, com os apoios irrestritos a Bolsonaro vindos da elite financeira e dos corpos de polícia. Para a primeira presidenta mulher do país, as forças armadas têm servido como partido político no jogo de poder brasiliense. Rousseff, que integrou a luta armada contra a ditadura militar (1964-1985), não crê que Jair Bolsonaro e o exército dariam um golpe de estado “clássico” como nos anos 60 e 70. A petista opina que a estratégia do governo é “radicalizar e radicalizar” e, dependendo da reação, recuar – mas nunca completamente. Assim, conclui, mitiga-se a democracia sem que haja, necessariamente, um coup d’etat. Na longa conversa, Dilma comenta a briga entre o ex-ministro Sergio Moro e o presidente, as ações do Partido dos Trabalhadores na oposição, as eleições municipais e nacionais por virem e o confinamento com seus netos de 9 e 4 anos em Porto Alegre. 

     
        Talvez a notícia mais fora do comum sobre o Brasil no exterior veio, nesta semana, da Angola. A Comissão Instaladora da Igreja Universal do Reino de Deus Reformada em Angola, liderados pelo bispo Valente Bizerra, decidiu romper com a representação brasileira da Igreja Universal do Reino de Deus no país africano. De acordo com os angolanos, membros da IURD protagonizam “atos de discriminação racial, castração, abortos forçados às esposas dos pastores angolanos e usurpação das competências da assembleia geral de pastores”. Porta-voz da revolta, Agostinho Martins disse que as igrejas localizadas nos principais centros urbanos são controladas por pastores brasileiros, que vivem em condomínios fechados enquanto os pastores angolanos são colocados em bairros miseráveis. Os protestantes acusam o representante do bispo Edir Macedo na Angola, bispo Honorilton Gonçalves, de compactuar com crimes de racismo, evasão de divisas e uma série de irregularidades fiscais. Reuniões prévias entre representantes brasileiros e angolanos não satisfizeram os anseios por reformas dos africanos que, então, tomaram 30 templos controlados pelos sul-americanos em seis províncias no país lusófono. O Jornal de Angola traz declarações de pastores e fiéis angolanos que se diziam marginalizados pela igreja brasileira para a qual serviam há quase 30 anos. 

     Na capital norte-americana, The Washington Post repercutiu as manifestações antirracistas que tomaram o Brasil após a morte do menino Miguel, filho de empregada doméstica que caiu de um prédio de luxo no Recife. O correspondente do Post no Rio de Janeiro, Terrence McCoy, exemplifica esta tragédia como um sintoma da pandemia do coronavírus no país. Enquanto “homens de negócio” podem e ficam em casa em isolamento, Mirtes Souza – mãe de Miguel – teve de sair trabalhar como cozinheira, faxineira e lavadeira para uma “família rica” e perdeu o filho. Este abismo social mostra a maior letalidade da covid-19 entre os mais pobres, aqueles que não têm as condições de trabalhar remotamente e se expõem ao vírus com mais frequência. 


        O argentino La Nacion manchetou um “doutorado inexistente” do novo ministro da Educação do Brasil, Carlos Albero Decotelli. O jornal diz que Bolsonaro apresentou seu subordinado como alguém com “extenso prestígio acadêmico” de doutorado na Universidad de Rosário, na Argentina. O Nacion reproduziu o pronunciamento do reitor Franco Bartolacci em que diz que Decotelli “não obteve, em Rosário, o título de doutor mencionado” pelo governo brasileiro. A matéria menciona as contradições no currículo do novo ministro, que ainda se diz pós doutor na Alemanha.
            Decotelli “refuta alegações de dolo”, noticiou o jornal alemão Deutsche Welle. Ele se mostrou disposto a “revisar seu trabalho para providenciar as devidas correções”. DW apurou que o campo “título” foi substituído por “créditos concluídos” e, onde se lia “orientador”, agora se lê “sem defesa de tese”. 
Ao contrário do que consta no currículo Lattes, Carlos Alberto Decotelli não fez pós-doutorado entre 2015 e 2017 na Universidade de Wuppertal. Em nota, o campus alemão afirmou que o brasileiro “não adquiriu nenhum título na Universidade”. É a terceira credencial acadêmica posta em dúvida do futuro ministro. 


         Perto dos 60 mil mortos pela covid-19, o Brasil segue sem ministro titular na Saúde e com um provável ministro da Educação que fraudou o CNPq, órgão do próprio Ministério da Ciência e Tecnologia. A imagem do país no exterior é, semana a semana, mais deteriorada por políticas inócuas e paranóicas. Anthony Pereira é um brasilianista e diretor de pesquisas da King’s College of London, um dos maiores centros acadêmicos da Europa. Em entrevista para o Estado de S. Paulo, Pereira concorda que Bolsonaro mudou as impressões sobre o Brasil de maneira “amplamente negativa” na comunidade internacional. 


    Do Banco Mundial ao protestantismo na Angola, da ciência política francesa ao brasilianismo inglês e das universidades argentinas aos campus alemães, os brasileiros estão cada vez menos quistos no estrangeiro. 

Referências:
ALBERT, Mélanie. Brésil : « Pendant la crise sanitaire, Jair Bolsonaro poursuit sa lutte face aux contre-pouvoirs ». . Le Monde, Paris, 26 jun. 2020. Disponível em <https://www.lemonde.fr/idees/article/2020/06/26/bresil-pendant-la-crise-sanitaire-bolsonaro-poursuit-sa-lutte-face-aux-contre-pouvoirs_6044235_3232.html>
BERALDO, Paulo. ‘Reputação do Brasil mudou para pior’, diz brasilianista. Estado de São Paulo, São Paulo, 28 jun. 2020. Disponível em <https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,reputacao-do-brasil-mudou-para-pior-diz-brasilianista,70003347046>
ATTIA, Myriam. Le Brésil a longtemps été efficace dans sa lutte contre les épidémies... jusqu’au nouveau coronavirus. Le Monde, Paris, 26 jun. 2020. 
EL ministro de Educación de Bolsonaro com um doctorado fantasma em la Universidad de Rosario. La Nacion, Brasília, 26 jun. 2020. Disponível em <https://www.lanacion.com.ar/el-mundo/el-ministro-educacion-bolsonaro-doctorado-fantasma-universidad-nid2386679>
McCOY, Terrence. In Brazil, the death of a poor black child in the care of rich white woman brings a racial reckoning. The Washington Post, Rio de Janeiro, 28 jun. 2020.
PHILLIPS, Tom. Top Brazil newspaper in pro-democracy drive as unease grows about Bolsonaro. The Guardian, Rio de Janeiro, 28 jun. 2020. Disponível em <https://www.theguardian.com/world/2020/jun/28/top-brazil-newspaper-in-pro-democracy-drive-to-counter-bolsonaro>
PHILLIPS, Tom. Call to block key Bolsonaro ally from World Bank job. The Guardian, Rio de Janeiro, 25 jun. 2020. Disponível em << https://www.theguardian.com/world/2020/jun/25/call-to-block-key-bolsonaro-ally-from-world-bank-job>>
SIBI, André. Pastores angolanos tomam templos da Igreja Universal. Jornal de Angola, Luanda, 23 jun. 2020. Disponível em << http://jornaldeangola.sapo.ao/sociedade/pastores-angolanos-tomam-templos-da-igreja-universal>>

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segunda-feira, 29 de junho de 2020

Entrevista com Luiz Carlos Martins: deputado estadual e presidente da Comissão do Mercosul e Assuntos Internacionais da Assembleia Legislativa do Estado do Paraná



Por Fernando Yazbek

               Luiz Carlos Martins foi primeiramente eleito deputado estadual em 1990, dois anos depois de se eleger vereador por Curitiba com quase 14 mil votos. Foi reeleito para a Assembleia por mais três vezes até 2006, quando angariou a confiança de 54 mil eleitores paranaenses. Teve um pequeno hiato nas eleições de 2010, ano em que ficou como suplente, mas foi novamente alçado parlamentar nos pleitos de 2014 e 2018. 
            Antes de se consolidar como um deputado no oitavo mandato, Martins, hoje aos 71 anos, passou a infância e juventude pelos interiores de São Paulo e Paraná. Paulista de Bilac, o radialista teve seu primeiro contato com os microfones ainda aos 17 anos em Birigui, no noroeste do estado.  Em 1977, trouxe sua voz a Curitiba, cidade que ouve desde então os famosos bordões da “grande voz” da Rádio Banda B.
            Na vida político-partidária, Luiz Carlos Martins ajudou a fundar o Partido Social Democrático (PSD) no Paraná, em 2013. Cinco anos depois, Martins foi para o Progressistas (PP) a convite do ex-ministro da Saúde Ricardo Barros e de sua mulher, a então vice-governadora Cida Borghetti – que concorreria ao Palácio do Iguaçu contra o atual governador, do PSD, Ratinho Júnior. Cabe ao radialista a presidência da Comissão do Mercosul e Assuntos Internacionais da Assembleia Legislativa desde a saída da deputada Maria Victoria (PP), filha de Ricardo Barros e Cida Borghetti. 
            Por telefone, o deputado estadual conversou com o Blog Internacionalize-se antes de uma das sessões plenárias remotas da Assembleia. Comentou, na sua voz inconfundível, os impactos da pandemia do novo coronavírus na atividade parlamentar, os acordos entre Mercosul e União Europeia, as relações da China com a América do Sul, a suspensão da Venezuela e a política externa do governo federal brasileiro.  
            Lamentando que desde a suspensão das atividades presenciais do parlamento paranaense não houve mais reuniões da Comissão do Mercosul, o presidente ressalvou que as últimas conversas da comitiva foram bastante produtivas. Em especial, o deputado sublinhou os esforços conjuntos entre Brasil e Paraguai na binacional de Itaipu, cujo “novo ritmo” tem sido favorável a integração da região fronteiriça. As ações conjuntas na hidrelétrica são novidade, segundo Martins, e vêm num contexto de acelerada ligação entre os dois países. Uma nova ponte está sendo construída sobre o rio Paraná entre Foz do Iguaçu e Presidente Franco, no país vizinho, e será “bastante benéfica” tanto para a infraestrutura e escoamento e, principalmente, para a fiscalização. 
            No Marco das Três Fronteiras, Luiz Carlos Martins comentou as declarações do presidente argentino Alberto Fernández, em que o portenho afirmou que iria rever todos os acordos comerciais do Mercosul assinados com a Europa. Em meio à pandemia, a Argentina abandonou negociações do bloco para priorizar sua própria economia interna. Apesar disto, o deputado minimizou o distanciamento da Casa Rosada: “Fernández sabe que a Argentina depende do Brasil e que o Brasil depende da Argentina. Serão sempre parceiros apesar de rusgas eventuais”. Para Martins, as relações entre Brasília e Buenos Aires são tão fortes e necessárias que independem, inclusive, do Mercosul.
            Provocado pelo dado de que a China se tornou, no mês de abril, o maior parceiro comercial da Argentina – posto historicamente brasileiro – o radialista demostrou preocupação. Para ele, o governo chinês tem de alimentar 1,3 bilhão de pessoas e, no contexto da pandemia, a economia foi duramente afetada, notoriamente nos fluxos de importação e exportação. Em comparação com abril de 2019, a Argentina exportou 50% a mais para Pequim, em especial soja e carne bovina, o que corrobora a percepção de Martins sobre a busca chinesa para segurança alimentar num contexto econômico “bagunçado” pelo novo coronavírus. 
            O deputado lastimou as controvérsias nas quais “vozes do Palácio do Planalto” acusaram a China de inventar o Sars-Cov2 em laboratório e de se beneficiar geopoliticamente do espalhamento da covid-19. Quando se referiu genérica e implicitamente ao ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, Martins foi diretamente questionado sobre o tuíte racista de Weintraub que zombava a pronúncia dos chineses que falam português, comparando-os ao personagem Cebolinha da Turma da Mônica – de Maurício de Souza. Martins, então, não poupou palavras para criticar o ex-ministro: “fez muito mal para o Brasil”. Apesar de assegurar o direito de expressão de Weintraub, o deputado afirma que o bolsonarista, por satisfação meramente pessoal, pôs o país em risco e desconsiderou a política internacional. 
            Outra questão polêmica e sensível ao Brasil e ao Mercosul é a situação da Venezuela, suspensa do bloco desde 2016. A crise em Caracas afeta direta e especialmente o Estado do Paraná, mesmo que a mais de quatro mil quilômetros de distância. Curitiba é a quarta cidade brasileira que mais recebe imigrantes e refugiados venezuelanos e, para o deputado estadual, isto se deve a “grife” que a capital carrega internacionalmente. Os curitibanos, para ele, menosprezam o tamanho da fama que a cidade tem mundo a fora. Por isto, o radialista afirmou que sempre faz questão de pôr o nome de Curitiba destacado em todos os panfletos e anúncios publicitários da rede Banda B. 
            Luiz Carlos Martins se disse “espantado” com os recentes acenos da Casa Branca de Donald Trump ao presidente venezuelano Nicolás Maduro. “Antes, Maduro era o diabo e agora, de repente, virou um santo”, comentou presidente da Comissão do Mercosul sobre a possível reaproximação dos dois países. Trump vem construindo uma ponte de diálogo com o governo bolivariano e se distanciando do autoproclamado presidente Juan Guaidó, anteriormente apoiado e reconhecido por Washington. Martins, então, criticamente questiona qual vai ser a posição do Brasil em meio a este imbróglio: “e agora que apostamos todas as nossas fichas no Guaidó, junto com os EUA?”, comparando a situação de alinhamento brasileiro aos norte-americanos como no caso da cloroquina, hoje já desaconselhada nos Estados Unidos para o tratamento da covid-19. 
            Elencando os esforços, o experiente deputado lamenta as limitações institucionais da Comissão que preside: “queria que fôssemos muito mais atuantes, mas não temos como. Eu posso mandar dois deputados pra ouvir o governo paraguaio em Assunção, mas aí vão dizer que a Comissão foi feita só pra viajar”. A cúpula para assuntos internacionais tem uma fragmentação partidária bastante notável. Além do presidente do Progressistas, compõem as reuniões o vice-presidente pedetista Goura e os deputados Arilson Maroldi do PT, Galo do Podemos, Luiz Fernando Guerra do PSL, Mauro Moraes do PSD e Soldado Fruet do Pros. “Uma maravilha. Ali não tem confusão ideológica, todo mundo contribui”, avalia o presidente sobre a diversidade de sua comissão. Martins, inclusive, rasga elogios ao deputado Goura, de partidarismo completamente diferente: “ele ajuda muito e ainda vai percorrer todo o Mercosul de bicicleta”, disse em tom de brincadeira com o colega, famoso cicloativista do PDT. Neste sentido, a Comissão do Mercosul e Assuntos Internacionais se diferencia de outras comissões predominantemente ocupada por bancadas temáticas.  Na de Segurança Pública, por exemplo, figuram apenas deputados militares ou delegados, presididos pelo deputado Coronel Lee (PSL) e pelo vice Delegado Recalcatti (PSD). Luiz Carlos Martins comemora que sua comissão seja pluralizada, ainda mais por tratar de temas de abrangência internacional: “toda unanimidade é burra. É preciso divergência para progredir”. 
            Antes de desligar o telefone e encerrar a entrevista, o deputado se preparava para uma sessão virtual da Assembleia. Muito bem-humorado, contou causos de parlamentar que esqueceu o microfone aberto e falou o que não devia. “Quando vai começar a sessão fica todo mundo contando história. Cada um em casa, pela internet, acaba que todo mundo ri junto”. Apesar das dificuldades que a pandemia impõe a atividade legislativa, o deputado Luiz Carlos Martins parece otimista que, na retomada do parlamento e no reaquecimento das relações internacionais, a Comissão do Mercosul terá muito o que discutir no mundo pós-pandemia. 
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quarta-feira, 24 de junho de 2020

14 anos depois de estatizar água e saneamento, Argentina intervém na Vicentín, 4º maior exportadora de soja do país


    
    Na segunda-feira (08/06), o presidente argentino Alberto Fernández anunciou por decreto a intervenção federal na companhia agropecuária Vicentín, empresa de quase cem anos que negocia perto dos três bilhões de dólares anualmente. A quarta maior exportadora no mercado de oleaginosas e cereais do país, porém, tem dívida total estimada em US$ 1,3 bilhão, a maior parte dela – US$ 255 milhões – devida ao estatal Banco de la Nación Argentina. Em dezembro de 2019, Vicentín já havia declarado suspensão de pagamentos e convocou seus quase 3 mil credores para renegociações. Para além do imbróglio econômico e financeiro, a agroexportadora se vê imersa em investigações judiciais sobre operações de crédito. 
A principal justificativa de Fernández para a interferência estatal é o do resgate do emprego dos mais de dois mil funcionários da empresa em falência e dos quase três mil produtores desamparados. A ideia da Casa Rosada é de que a Vicentín se torne uma empresa mista, com 49% de capital privado e 51% de iniciativa estatal, evitando que a marca seja comprada por investimentos estrangeiros. Por mais que a intervenção desagrade o mercado financeiro mundial, como se trata de uma empresa argentina, não cabem processos em tribunais internacionais contra a decisão do executivo. A gerência agroindustrial da Vicentín passará para um braço da petroleira Yacimientos Petrolíferos Argentinos (YPF), reestatizada em 2012 pela então presidente Cristina Kirchner - hoje vice de Alberto Fernández. Algo parecido se passou nas empresas Agua y Saneamientos Argentinos (AySA) e Aerolíneas Argentinas nos recentes governos kirchneristas, de Néstor e Cristina.
Fundada em 1949 pela decisão do governo de fundir quatro empresas de aviação, a Aerolíneas se consolidou como maior companhia aérea argentina e a principal estatal do ramo nas Américas. Como empresa nacional, teve atuação fundamental na Guerra das Malvinas (1982) quando importou clandestinamente armas da África e do Oriente Médio para munir o Exército Argentino contra o Reino Unido no arquipélago austral. Foi privatizada na década de 90 pelo então presidente Carlos Menem, cujo chanceler Guido Di Tella pretendia manter “relações carnais” com os Estados Unidos. Dividida entre as companhias Ibéria e American Airlines, a Aerolíneas perdeu boa parte de seus voos internacionais e decaiu em qualidade. Abarrotada de dívidas que chegavam perto do bilhão de dólar, foi novamente reestatizada pela Casa Rosada de Cristina em 2008. Retomando os empregos e as rotas, a companhia bateu o recorde em 2017 de transportar quase 15 milhões de passageiros e, no ano seguinte, foi premiada como a melhor empresa aérea da América Latina pela Trevelers Choice Awards.
Anteriormente, Néstor Kirchner tratara de reverter a onda privatizadora dos anos 90. Em 2006, o peronista anunciou o término de contrato com a companhia Águas Argentinas – capitalizada por grupos franceses e espanhóis desde Menem – por descumprimento de acordos e déficit de qualidade. Surgiu então a AySA, empresa pública encargada do fornecimento de água potável e saneamento em Buenos Aires. Segundo pesquisa do jornal La Nación, de 1999, a cada dia cerca de mil portenhos viraram pobres entre 1998 e 1999. Enquanto isso, a concentração de renda argentina era de 53%, bem acima da média latino-americana. Na década de 90, com a privatização de água, luz, telefone, etc, as tarifas dos serviços custavam de 15 a 30 por cento mais caras em comparação internacional.
Ouvido pelo Blog Internacionalize-se, o sociólogo Bernardo Maresca observa que a ação do governo Fernández na Vicentín acompanha políticas contempladas na Alemanha e na França, que estatizam várias empresas que estimam estratégicas, e se afasta – apesar das críticas ideologizadas – do caso venezuelano. Maresca, que é Secretário Geral da Associação Argentina de Sociologia, lembra que a Vicentín participa de 9% da produção agrária exportada da Argentina e, caso não houvesse a intervenção, seria adquirida a preços vis por empresas estrangeiras seguramente associadas às dívidas e fraudes que anteriormente quebraram a empresa. 
Vicentín fora uma das maiores doadoras da campanha do ex-presidente Maurício Macri, derrotado por Alberto e Cristina nas eleições de 2019. Perguntado se há algo de revanchismo político na intervenção econômica, o presidente do Conselho de Profissionais de Sociologia na Argentina assegura que de nenhuma maneira deve se considerar a hipótese de vingança. Maresca ainda lembra há investigações sobre endividamentos milionários no mercado agrário concentrado ao final nas eleições, quando já se sabia que Macri não seria reeleito.
A tutela do governo argentino na economia não se dá somente por apropriação de grandes empresas. Em meio à pandemia do novo coronavírus, o Ministério do Desenvolvimento Social presta assistência direta a 11 milhões de famílias com subsídios e alimentos. Assim, as medidas de isolamento social vêm mostrando eficácia na Argentina. Com isto, a intervenção na Vicentín não afetará em nada a popularidade de Alberto Fernández, ressalta Bernardo Maresca, que duvida que haverá greves em favor de uma cúpula empresarial. Para o sociólogo, o presidente goza de apreço popular por ter tomado as medidas sanitárias adequadas frente a pandemia independentemente de critérios políticos. Relembrando a larga tradição de saúde e educação públicas na Argentina, o professor comenta os acordos sanitários de Fernández com Horacio Larreta, governador da cidade de Buenos Aires que é adversário político partidário do executivo federal. Maresca afirma que o absoluto contrário se passa no Brasil: Bolsonaro está mais próximo de critérios ditatoriais e apolíticos que de práticas democráticas.  
Os presidentes de Brasil e Argentina têm tomado decisões diametralmente distintas tanto no campo sanitário quanto no econômico. Provocado a comentar as frustradas intenções do governo brasileiro de vender a Embraer para a norte-americana Boeing, o egresso da Universidade de Buenos Aires metaforizou uma raposa tomando conta do galinheiro: “teria tudo para dar errado”. Maresca defende que a política deveria ser a governança da coisa pública, e não uma facilitadora da apropriação privada da riqueza comunitária. 
Mesmo com as políticas liberais do Ministro da Economia, Paulo Guedes, o Brasil chegou a ser preterido para entrada na OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) pelos Estados Unidos, que deu preferência à Argentina, antes da posse de Alberto Fernández. Na América do Sul, Chile e Colômbia já fazem parte da organização conhecida como “clube dos países ricos”.  
A economia brasileira, mesmo com a quarentena afrouxada e com a maior parte do comércio funcionando, dá sinais de que irá sofrer recessões subsequentes e inéditas. A previsão do Banco Mundial é de que o PIB do país caia 8,0% em 2020. A Argentina, que adotou medidas muito mais drásticas no enfrentamento a covid-19 que o Brasil, prevê um recuo menor na economia, de 6,5%. Outro ineditismo foi a China passar o Brasil como maior parceiro comercial da Argentina. Buenos Aires exportou a Pequim, em abril, US$ 509 milhões. Grande parte deste montante advém da soja, produto carro-chefe da Vicentín. No mesmo período, as exportações argentinas para o Brasil caíram quase 60%. 
Enquanto o Brasil enterra diariamente mais do que o que país vizinho contabilizou de mortes totais na pandemia do novo coronavírus, o governo argentino – já distante ideológica e diplomaticamente do brasileiro – vai deixando claro que independe do histórico principal parceiro econômico e do financismo internacional para se reerguer. Bolsonaro manifestou vontade de vender a Embraer para outra empresa caso o negócio com a Boeing não se concretize. Alberto Fernández, por sua vez, garante que a intervenção na agroexportadora em concordata Vicentín é em vias de garantir a soberania alimentar argentina. 
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terça-feira, 23 de junho de 2020

Me indica um livro: Lua de Mel em Kobane, de Patrícia Campos Mello


Por Bruna Wosch*

Muitos já devem ter ouvido falar sobre o conflito na Síria, mas poucos sabem o seu contexto e os seus efeitos. Para tanto, a jornalista Patrícia Campos de Mello produziu uma obra bastante esclarecedora sobre a situação: Lua de Mel em Kobane. 
O título já nos remete a uma história romântica em meio ao conflito, entretanto não deve ser visto como um enredo simples com um final de felizes para sempre, como é de praxe dos romances. Trata-se de um ponto de partida utilizado pela autora para abordar o tema da guerra na Síria apresentando um lado pouco abordado pela mídia, a do povo curdo.
A obra explora diversas conjunturas: política, histórica e cultural, que orientam a compreensão dos acontecimentos na Síria com foco direcionado para a situação do povo curdo na região de Rojava.
Os protagonistas são um casal de curdos-sírios refugiados que se conhecem pela internet. Ele, Baran Iso, militante pela resistência da cultura curda, vivia na Turquia por medo da ditadura de Bashar al-Assad. Ela, Raushan, estudante de Direito em Alepo que passou a viver como refugiada na Rússia pouco antes dos conflitos políticos estourarem na Síria. 
Recém casados, eles retornam a Síria para junto de familiares estabelecer sua morada. Porém, diante do caos passam a divulgar ao mundo a situação dos curdos na região de Kobane, na busca por apoio e ajuda internacional.
Em breve resumo, a guerra na Síria teve início em 2011, quando uma onda de protestos recaiu sobre o país reivindicando a democracia, o pluripartidarismo, empregos e melhores condições de vida. Motivados pela Primavera Árabe, os movimentos populares se intensificaram em março de 2011, quando jovens foram presos e torturados por pichar um muro com conteúdo de ideias revolucionárias. A repressão violenta do Estado para com os manifestantes contribuiu para a revolta ganhar um aspecto mais agressivo.
Nesse contexto surgem diversos grupos, cada qual com sua ideologia, os principais envolvidos são: as forças armadas do Governo Sírio, leais ao ditador Bashar al-Assad, com o apoio russo e do partido libanês Hezbollah; os rebeldes composto de diversos grupos, que não se encontram unificados possuem apenas um objetivo em comum: a retirada do presidente do poder, sendo o grupo Exército Livre da Síria o maior composto por civis e militares; a Frente al-Nusra organização jihadista salafista que buscam estabelecer um estado islâmico no país, são contrários a força do governo sírio; os Curdos que reivindicam uma constituição do Curdistão, e a liberdade para a manifestação de sua cultura; as elites locais que possuem objetivos mais localizados; e o Estado Islâmico, que busca expandir o califado. Essa diversidade de interesses tornam a guerra civil da Síria um conflito complexo e longe de ter um final. Interpretações mais críticas sobre o conflito o definem como uma nova Guerra Fria, tendo em vista as influências e interesses divergentes das colisões internacionais, Rússia e EUA.  
Já a luta do povo Curdo se dá pela resistência de sua cultura. Após o final da Primeira Guerra Mundial a região do Curdistão fora dividido entre os países: Turquia, Irã, Reino Unido(Iraque) e a França(Síria), conforme o Tratado de Lausanne em 1923. Ocorre que, em países como a Síria, que adota o critério ius sanguinis para definir seus nacionais, não reconhece o povo curdo como pessoas de direitos no país. E portanto são reprimidos pelo Governo Sírio. 
Quando a atuação dos rebeldes se tronou mais violenta, o Governo Sírio precisou reestruturar estrategicamente as forças armadas o que culminou no abandono expressivo da força militar na região de Rojava. Situação essa aproveitada pelos extremistas do Estado Islâmico que buscam a expansão do califado.
A resistência do povo curdo pode contar com a ajuda do YPG(Unidade de proteção popular) ligada ao PYD(Partido da União Democrática) que controla no momento a região de Rojava. Este último filiado ao PKK(Partido dos Trabalhadores Curdos da Turquia). Unidos em prol da cultura curda buscam evitar situações como a limpeza étnica dos curdos no Iraque pelo Saddam Hussein, membro do Partido Baath. 
O grande desafio para os curdos no combate contra o Estado Islâmico era que este possui grande capacidade de operação e recursos. Num comparativo, uma briga entre Davi e Golias. O grupo é autossuficiente conseguindo financiamento com atividades variadas dentre elas: exploração de petróleo no território Sírio e iraquiano, sequestros, crowdfunding(levantamento de recursos através de redes sociais), contrabando de antiguidades, impostos, Jizya (taxa cobrada de Cristãos para que não sejam mortos por não serem mulçumanos), tráfico humano(venda de mulheres) etc. Por fim, a intervenção de forças armadas dos EUA na região de Rojava contribuiu significativamente para que o EI retrocedesse. 
A autora explica que o gatilho que a inspirou a escrever o livro fora a repercussão da chocante imagem de Aylan Kurdi, menino sírio-curdo de três anos encontrado afogado no Mar Mediterrâneo. A família de Kurdi tinha fugido da cidade de Kobane que estava sitiado pelo Estado Islâmico, com o objetivo de chegar no Canadá onde tinham parentes. Assim como muitos refugiados sírios a imigração ilegal tornou-se uma alternativa para fugir da guerra e conseguir uma condição melhor de vida. Muitos não têm ideia do perigo ou tendo se arriscam na travessia do Mar Mediterrâneo com a ajuda dos atravessadores. Os coyotes, como são conhecidos, abordam refugiados com a promessa de travessia para a Europa. Boa parte dessas viagens são realizadas durante a noite em botes infláveis superlotados, o risco de afundar é altíssimo e não há colete salva-vidas para todos. O problema da imigração ilegal já era visto por muitos países europeus, mas a situação fora agravada pelo conflito na Síria.
O livro é excelente, possui uma abordagem diferente evitando uma leitura monótona sobre o conflito. Após a explicação de cada contexto a autora acrescenta os relatos por ela capturados em sua viagem a Rojava. São situações variadas vividas pelos habitantes da região e quando encaixados as informações expostas no livro reforçam o discurso do texto, aproximando o leitor de uma situação vivida. Tal estratégia busca afastar a impressão superficial de uma informação que foge a nossa realidade e busca uma maior sensibilidade do leitor pela situação exposta.
Espero que o conteúdo do livro possa expandir seus conhecimentos sobre a Guerra na Síria assim como para mim mostrou uma outra realidade.

Referências:

*Bruna Wosch é egressa do Curso de Direito do Unicuritiba, Advogada(OAB/PR 100.727) e membro do Grupos de Pesquisa "Direito Migratório, em Curitiba, no Brasil e no Mundo".
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