terça-feira, 16 de junho de 2020

Me indica um filme: "Sérgio"




   Lançado no início de 2020, “Sérgio” retrata os últimos momentos e feitos mais importantes da vida e carreira do diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Melo. 
Dirigido por Greg Baker, o filme mostra os últimos dias de vida do diplomata em sua missão representando a ONU em Bagdá e, também, apresenta a missão que levou à Indonésia a reconhecer a independência do Timor-Leste.

      A trama gira em torno de seus atos diplomáticos e sua morte que foi ocasionada por um atentado terrorista à sede da ONU na capital do Iraque, Bagdá. 

     Mesmo misturando ficção com realidade, o filme teve representações fiéis à realidade, principalmente em relação à questão Indonésia x Timor Leste. Após anos de sua independência, representantes da Indonésia não aceitavam a realidade do novo país. Então, em uma missão considerada “impossível”, o diplomata fez com que o presidente da Indonésia, Abdurrahman Wahid, fosse até a capital do Timor Leste e pedisse desculpas por anos de ocupação (que gerou a morte de mais de 100.000 pessoas) e reconheceu a realidade independente do país.

    Ao mesmo tempo em que o filme retrata cenas da vida profissional de Sérgio, há também a inserção de um romance, que realmente aconteceu, com a economista, funcionária da ONU, Carolina Larriera. 

     O filme consegue mostrar a trajetória de um homem que fez história ao redor do mundo, considerado um dos agentes mais importantes da ONU. E representar, com fidelidade, atos que mudaram o rumo da politico e social de vários países.
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segunda-feira, 15 de junho de 2020

Redação Internacional: o Brasil nas manchetes do mundo na semana de 08/06 a 14/06

                                               

Por Fernando Yazbek

 Em meio à polêmica dos novos métodos adotados pelo Ministério da Saúde na divulgação dos números de morte pelo novo coronavírus, o Brasil vai alcançando a triste marca dos 45 mil vitimados pela pandemia. A ininterrupta ascensão do contágio no país é rotineiramente noticiada no mundo inteiro. Nesta semana, a mídia inglesa reportou que, agora, o Brasil ultrapassou o Reino Unido em número de mortes e se tornou a segunda nação com mais óbitos pela covid-19. 

               A reportagem do The Guardian levanta a hipótese de que muito provavelmente o Brasil já havia ultrapassado os britânicos, considerando a subnotificação do país sul-americano. O jornal lembra que a estatística na contagem de mortos foi publicada por uma “coalisão independente” de veículos de imprensa na quinta-feira (12), uma vez que o ministro interino da Saúde, o General Pazuello, foi “acusado de tentar esconder os reais números” das fatalidades. The Guardian, que tem se notabilizado pelas críticas a Bolsonaro, lembrou as falas em que o presidente brasileiro menosprezava a pandemia, chamando-a de “gripezinha”, e “alegações falsas” em que o ex-capitão “admirador de Donald Trump” dizia que o vírus estaria desaparecendo. O veículo inglês ainda lamentou que o “populista de extrema-direita” continue a “subestimar o distanciamento social” indo a lojas e a comícios públicos enquanto mais de mil compatriotas morrem diariamente.
            O deputado Eduardo Bolsonaro, filho “zero três” do presidente, é apontado na matéria como “braço-direito” do ex-estrategista-chefe da Casa Branca, Steve Bannon. The Guardian relembra que o congressista alertou que o Brasil rumava para uma “ruptura” e finaliza a reportagem apontando o crescente autoritarismo do governo brasileiro. 


            A BBC News Brasil - braço da rede britânica - entrevistou, em Washington, o presidente da consultoria política internacional Eurasia. Ian Bremmer é um cientista político que administra escritórios de análise de risco para investidores nos Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Cingapura e Brasil. O consultor avalia que a atenção mundial negativa que o Brasil hoje recebe é “responsabilidade pessoal” de Bolsonaro, a quem Bremmer classifica como “pior líder democraticamente eleito a lidar com a crise do coronavírus”. Ainda assim, o analista crê que, por se tratar de um “grande mercado emergente” e da “maior economia da América do Sul”, não deve haver represálias ou sanções comerciais ao Brasil.            
            Comentando as perspectivas para as eleições presidenciais norte-americanas, Bremmer afirma que Washington adora ter Bolsonaro como aliado no contexto internacional, mas duvida de um acordo de livre comércio entre os dois países: “Trump é fundamentalmente unilateralista”. O presidente da Eurasia diz ainda que o norte-americano médio “não presta muita atenção” nas questões referentes ao Brasil e que, portanto, o alinhamento automático do governo Bolsonaro com os EUA tem pouca relevância até para a mais alta classe política estadunidense. 


                 Na quarta-feira (10), o The New York Times deu que há probabilidade de haver um golpe militar em favor da manutenção de Jair Bolsonaro no poder. Detalhando as investigações judiciais contra os filhos e aliados políticos e empresariais do presidente, Times relembra as ameaças a ordem democrática de Eduardo Bolsonaro, assim como fez o Guardian. Para a reportagem, Bolsonaro surgiu como uma esperança em meio à derrocada econômica e política depois das decepções com governos de esquerda, mas que sempre flertou com o passado ditatorial do País. Sofrendo investigações nos âmbitos das eleições, de disseminação de fakenews e de ligações com milícias, Bolsonaro poderia até ser responsabilizado más por condutas no combate a pandemia. Cercado, “as incitações a intervenção militar” surgem como mantenedoras das tensões em pró do presidente.

          No mesmo raciocínio do jornal nova-iorquino, o Clarín mancheta um novo episódio na novela da “crise nos poderes” brasileiros. A frase disparada por Bolsonaro, em que insinuava desobediência contra ordens judiciais, fez soar novo alerta no sensor de institucionalidade no país. O comunicado presidencial, em resposta a medida cautelar do Ministro Luis Fux do Supremo Tribunal Federal, foi chamado de “inédito” pela mídia de Buenos Aires. O juiz da Suprema Corte determinara que as Forças Armadas “não são um poder moderador”, criticando a postura de Jair Bolsonaro em instiga-las contra o Congresso Nacional e o STF.
            Clarín aponta o chefe do executivo federal cada vez mais lotando militares em todas as instâncias da administração pública, em maior número do que na própria ditadura militar de 1964. São 11 apenas no Ministério da Saúde e mais 9 fardados em verde-oliva como ministros em outras pastas. Perdendo popularidade pelo descontrole da pandemia, Bolsonaro convocou sua militância para invadir e filmar leitos de hospitais que, segundo ele, estariam vazios e não superlotados como defenderiam a mídia e seus opositores – finaliza o jornal argentino. 

         Otimista, o El País traz um extenso material opinativo do economista Eduardo Levy e do cientista político Andrés Malamud. Com foto do presidente Jair Bolsonaro se debatendo com uma máscara sanitária, o texto compara “regimes doentes” com o Sars-Cov-2, vírus da pandemia que já matou mais de 40 mil brasileiros. Para os acadêmicos, assim como o corpo humano produz anticorpos para expulsar seres estranhos, a democracia tem sido infectada por “vencedores que não aceitam seus limites” e tentará se livrar deles num contra-ataque. El País fala de Bolsonaro apenas uma vez e o Brasil aparece citado nominalmente só por três linhas. É evidente, no entanto, que todo o desenrolar da publicação se baseia num populismo antidemocrático “infeccioso” no Brasil.


       No maior jornal do mundo árabe, a praia carioca de Copacabana apareceu como o “mais novo campo de batalha nas crescentes tensões” que assolam a política e a sociedade brasileiras. As areias de um dos mais famosos litorais do mundo foram tomadas por covas e lápides simbólicas em homenagem aos mortos pela covid-19. O protesto em forma de intervenção artística seguia pacífico, até o momento em que um apoiador de Bolsonaro, “negacionista” da pandemia, destruísse as cruzes estacadas na beira-mar, destacou a catari Al Jazeera. O filho do homem que desrespeitou a manifestação foi condenado por insider trading, operação ilegal no mercado financeiro na qual o especulador é munido de informações privilegiadas.


           Por fim, o jornal Le Figaro parece ter sido o único em que o Brasil não apareceu em tom de crítica ou de lamento. Os franceses celebram a volta dos jogadores brasileiros Thiago Silva, Marquinhos e Neymar à reintegração no Paris Saint-Germain, clube bilionário da capital. Na França, os treinamentos devem regressar no dia 22 de junho. O PSG é famoso por escalar craques da amarelinha, de Raí a Ronaldinho Gaúcho, e não abriria mão do atual camisa 10, apesar da situação epidêmica no Brasil. Neymar antecipou seu regresso a Paris, como aponta o Figaro, com medo de que o governo europeu anunciasse medidas de quarentena mais rígidas a quem chegasse de países onde pandemia não esteja controlada. No jeitinho brasileiro, o atacante driblou a burocracia sanitária. 
            A crise de saúde que assola o mundo se mostrou especialmente cruel no Brasil, onde dela se afluíram tantas turbulências políticas. O povo que se vê ora impedido de trabalhar, ora em exposição obscena ao contágio, tem de lidar não só com as incertezas salubres, mas agora também com ameaças de tirania. Jogado à própria sorte, resta ao brasileiro torcer. E tudo isto sem futebol...



Referências:
BOLSONARO é pessoalmente responsável pela atenção negativa que Brasil recebe, diz presidente de consultoria internacional. BBC, Washington, 9 jun. 2020. Disponível em <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52976774>
BRAZIL overtakes UK with worlds second-highest Covid-19 death toll. The Guardian, Rio de Janeiro, 12 jun. 2020. Disponível em << https://www.theguardian.com/world/2020/jun/12/brazil-coronavirus-death-toll-second-highest >> 
COVID-19 in Brazil: Copacabana beach filled with symbolic graves. Al Jazeera, Rio de Janeiro, 12 jun. 2020. Disponível em <https://www.aljazeera.com/news/2020/06/coronavirus-brazil-copacabanas-beach-filled-symbolic-graves-200612144624061.html>
CRISIS de poderes: Jair Bolsonaro desafia a la Corte y afirma que “los militares no cumplián ordenes absurdas”. Clarín, Buenos Aires, 13 jun. 2020. 
DE retour à Paris ce samedi, Neymar evite une éventuelle quarantaine. Le Figaro, Paris, 13 jun. 2020. Disponível em <https://sport24.lefigaro.fr/football/ligue-1/actualites/neymar-evite-la-quarantaine-et-revient-a-paris-1004517>
THREAT of military action rattles Brazil as virus deaths surge. The New York Times, Nova Iorque, 11 jun. 2020. 
YEYATI, Eduardo Levy & MALAMUD, Andrés. “¿Y si la pandemia mejora la democracia?”. El País, Madri, 13 jun. 2020. Disponível em <https://elpais.com/opinion/2020-06-13/y-si-la-pandemia-mejora-la-democracia.html

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sexta-feira, 12 de junho de 2020

A luta contra a Mutilação Genital Feminina no Sudão e no mundo



       No dia 1 de maio foi noticiado em diversos jornais e canais de informação a respeito da proibição da mutilação genital no Sudão, onde as autoridades, após anos, estabeleceram a proibição de tal prática que anualmente viola o corpo de tantas mulheres.  Mas afinal, o que é esse ato e porque ainda é aceito pela população de muitos países, mesmo conhecendo suas possíveis consequências? 
       A mutilação Genital Feminina, conhecida como MGF, é o corte ou remoção da genitália feminina externa, corta-se os lábios e o clitóris das mulheres. Tal procedimento pode ser feito de maneiras diferentes, porém todos tem em comum a forma severa e falta de higiene, muitas vezes utilizando o mesmo instrumento em diversas mulheres. Essa brutalidade e falta de cuidados durante o procedimento coloca as mulheres em um estado de vulnerabilidade, deixando-as sucetíveis a desenvolver infecções, problemas urinários, de menstruação irregular, e até complicações na hora do parto - tanto para a mãe quanto para a criança. 
       A origem desta prática vem de fatores sócio-culturais, pois é considerado como um rito de passagem para aceitação na sociedade. Mulheres que foram cortadas são taxadas como puras, enquanto as que não passaram pelo rito são consideradas impuras e não dignas de respeito, e até de se casarem. Além da religião, o casamento continua sendo um dos principais motivos para mulheres dessas comunidades aceitarem o procedimento, visto que utilizam a MGF como forma de castidade e manterem-se puras para seus futuros maridos. 
      Estima-se que 200 milhões de mulheres sofrem anualmente com a mutilação genital pelo mundo. Apesar de o maior número de casos se concentrar na África e Oriente Médio, existem casos na América Latina e em comunidades imigrantes pelo resto do mundo.  
         A Organização das Nações Unidas, junto com  a União Africana e outros instrumentos jurídicos internacionais definiram essa prática como prejudicial e uma violação aos direitos humanos. A Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres, requisitou a proibição e condenação da prática, estabelecendo leis e punições. Vem acontecendo uma luta diária para a eliminação desse ato, sendo perceptível  o esforço da comunidade internacional, assim como da própria população, que em atos de coragem questionam e protestam contra a MGF.  
       A criminalização da mutilação genital no Sudão foi um ato histórico para essa luta, pelo fim dessa prática, e seus ativistas, mostrando sua importância e como é significativo para milhares de mulheres. No país, aproximadamente nove em cada dez meninas eram vítimas do procedimento - que a partir de 30 de abril de 2020 passou a ser proibido com pena de 3 anos para o profissional que o praticar - e sofrem com suas consequências no decorrer de suas vidas. Contudo, agentes e organizações afirmam que a proibição, por hora, não será o suficiente para acabar com a prática. É preciso alterar a cultura local, estabelecer medidas de vigilância, auxílio à população e campanhas para divulgar todas as informações sobre esta prática, principalmente de suas consequências. A conscientização nesse momento é fundamental para que a prática não persista nas comunidades. 


Fontes: 

A difícil luta contra a mutilação genital feminina. 
Deutsche Welle.  06 fev. 2020. Disponível em:

Sudão proíbe mutilação genital feminina.
Revista Pazes. 02 maio 2020. Disponível em: 

ONG Safe Hands For Girls 

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quarta-feira, 10 de junho de 2020

Acontece no UNICURITIBA: Laboratório de Relações Internacionais lança cartilha para imigrantes e refugiados





O Laboratório de Relações Internacionais lançou, na última terça feira, dia 9, a cartilha "Direitos dos Imigrantes e Refugiados em tempos de COVID-19". 

O documento contém informações sobre acesso aos serviços públicos e assistenciais durante a pandemia e foi elaborado e traduzido para o Inglês, Espanhol, Francês e Árabe pelos acadêmicos integrantes do projeto, sob a supervisão da Professora Michele Hastreiter - que o coordena.

Contribuíram para a criação da cartilha os seguintes estudantes: 

Brenda Kauane das Neves Ferreira 
Giseli Turmina Menegatt
 Isabel Letícia Iurk Canestraro 
Manuela Paola Batista Barbosa 
Maria Eduarda Bortoni 
Marina Nascimento 
Mariane Silverio 
Pedro Henrique Boguszewski
Yara Mohammed Hamandosh


Clique aqui para baixar a cartilha “Direitos dos Imigrantes e Refugiados em Tempos de COVID-19”

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segunda-feira, 8 de junho de 2020

Redação Internacional: o Brasil nas manchetes do mundo na semana de 01/06 a 08/06

                                               

Por Fernando Yazbek

         A semana em que o Brasil registrou subsequentes recordes no número de mortes diárias pela covid-19 foi marcada por manifestações domésticas e estrangeiras. O assassinato de George Floyd, homem negro asfixiado por um policial branco em Mineápolis, teve repercussão internacional e parece ter sido o estopim de inúmeros protestos antirracistas ao redor do mundo. No Brasil, manifestantes contrários e favoráveis ao governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) saíram às ruas contrariando as recomendações das autoridades sanitárias para se evitar aglomerações num momento de pandemia. No Recife, atos contra o racismo e o governo se uniram em luto pelo menino Miguel, que morreu ao cair do nono andar por negligência da patroa branca de sua mãe negra. 
            Luciana da Cruz Brito, historiadora especializada na escravidão brasileira, deu entrevista à rede britânica BBC News na qual argumentou que a morte de Miguel, negro filho de empregada doméstica, revela muito sobre o racismo no Brasil. Para Brito, a “supremacia branca” brasileira se manifesta por este tipo de desassistência para com as pessoas negras, e não pelo segregacionismo explícito de outros países. Perguntada pela BBC sobre as diferentes dimensões dos protestos nos casos americano de Floyd e brasileiro de Miguel, a pesquisadora relata a normalização da violência e da marginalização do povo negro pela mídia sensacionalista: no Brasil não temos uma imprensa que nos apoie, que esteja realmente comprometida com a luta antirracista. Isso já vemos com mais frequência nos Estados Unidos”.
       Ainda na mídia inglesa, o The Guardian continua com seu tom crítico ao governo Bolsonaro. Noticiando a mudança na divulgação oficial de estatísticas sobre número de novos casos e de mortes pelo coronavírus, o jornal ressaltou que a “limpeza dos dados” foi acusada de “censura” e de um ato de “autoritarismo”. A matéria sublinha que a ordem para se atrasar e se alterar a publicidade dos números veio diretamente do presidente do Brasil, lembrado pelos ingleses como “um dos piores focos” da pandemia no mundo, ultrapassando a Itália no número de mortes e o Reino Unido e a Rússia em número de casos. 

          The Guardian tem se mostrado um dos jornais mais críticos ao governo brasileiro no mundo. Entrevistando o médico Drauzio Varella, o site manchetou que “Brasil está condenado a uma tragédia histórica” devido à resposta de Bolsonaro no combate à pandemia. Drauzio, classificado como “a mais respeitada voz médica do país”, confessou ao Guardian que a situação brasileira simplesmente não poderia estar pior. Os sinais confusos do presidente Bolsonaro e suas insistentes aparições públicas em aglomerações sem sequer usar máscara lhe conferem “responsabilidade particular”, afirmou o oncologista. Varella relembra que o enfrentamento ao coronavírus não é um debate ideológico, mas sim científico, e critica a falta de um ministro da saúde: “nenhum país no mundo demitiu dois ministros na pandemia”. A entrevista ao jornal britânico termina com um alerta do médico de que as piores consequências do descaso com a covid-19 cairão sobre os pobres, que vivem em condições precárias e não tem escolha senão sair para trabalhar no transporte público. 

             Nos Estados Unidos, onde ocorrem os maiores protestos raciais desde a década de 1960, o The Washington Post também estranhou os “limites impostos” por Bolsonaro na liberação de dados sobre a covid-19. Decisão vem em momento em que a taxa de mortalidade só aumenta, recorda a mídia americana. A matéria detalhou a briga travada entre o governo e a Rede Globo e mencionou o plantão jornalístico que a TV pôs no ar ao vivo, assim que o número de mortos do dia fora divulgado pelo Ministério da Saúde. Jair Bolsonaro quis atrasar a publicação dos números oficiais para não ter a imagem de seu governo desgastado no Jornal Nacional, “mais popular telejornal noturno”, advertiu o Post. 
            A notícia curiosa sobre o Brasil que circulou na mídia da capital estadunidense foi sobre o futebol. Há meses sem uma partida oficial, o centroavante Fred se transferiu do rebaixado Cruzeiro ao Fluminense. O jogador, como lembra a reportagem, foi o camisa nove no fiasco da seleção brasileira da Copa do Mundo de 2014. O atacante de 36 anos teve uma primeira passagem marcante pelo clube carioca: de 2009 a 2016 salvou o clube de um rebaixamento quase inevitável e levou dois campeonatos brasileiros à sala de troféus do Estádio das Laranjeiras. 
            O retorno de Fred ao Fluminense já era esperado desde que o Cruzeiro, seu ex-time, caiu para a Série B do brasileirão. O que não era previsto é que o jogador fizesse a mudança – de Belo Horizonte ao Rio de Janeiro – de bicicleta. Fred pedalou 600 quilômetros entre as capitais estaduais por quatro dias em um caráter solidário. O objetivo da ação era arrecadar, com patrocinadores e doações, 4 mil reais para ajudar famílias carentes. A meta foi alcançada e ultrapassada ainda nos primeiros quilômetros da pedalada, que vai distribuir cestas básicas e complementar o salário de funcionários menos remunerados do Fluminense.  
            O artilheiro ainda vai leiloar a bicicleta que usou no trajeto e pretende doar o valor arrecadado – estimado em 30 mil reais. 

            Do mesmo modo que o britânico The Guardian, o espanhol El País tem escalado nas críticas ao governo brasileiro. “Já chegou a hora da condenação internacional” foi a enfática manchete do jornal se referindo as atitudes de Jair Bolsonaro. A situação no país é classificada como “explosiva” com uma democracia que se encontra “na borda do abismo”. “Ninguém poderá se dizer surpreso” caso as tensões no Brasil levarem a uma ruptura institucional, prevê o espanhol, uma vez que estão claros o isolamento e a radicalização do presidente. “Mais que fragilizado”, Bolsonaro caminha – “sem nada que o impeça” – rumo à instauração de um “regime autoritário”. Esta conjuntura é observada pelo El País graças aos apoios “majoritário” das forças armadas e de uma “base política fanática”. 

          João Dória (PSDB), governador de São Paulo, conversou com a mídia espanhola e se colocou como ferrenho opositor de Bolsonaro. O tucano, que passou de “aliado a antagonista” do bolsonarismo, comentou as políticas paulistas no enfrentamento ao coronavírus, a alta taxa de ocupação das UTIs do estado, a pouca quantidade de testes realizados e os planos para reabertura gradual do comércio com a flexibilização da quarentena. Dória se diz decepcionado com Bolsonaro que “nunca obedeceu a ciência e vai contra seu próprio povo” quando trata da cloroquina. O governador lembrou ao El País que o estado de São Paulo é o mais importante economicamente e que “sob nenhuma circunstância” permitiria movimentos golpistas. Quando perguntado sobre as manifestações contra a violência policial nos EUA, o ex-prefeito disse que a polícia militar paulista “não é violenta, mas sim eficiente” e que, por ser a maior do país, comete mais erros.

        Na Argentina, naturalmente, a fala do Papa Francisco repercutiu na imprensa nacional. O pontífice portenho tem se mostrado preocupado com a situação da pandemia da covid-19 na América Latina, seu continente natal. Manifestando suas condolências aos familiares dos vitimados pela doença, Francisco lamentou especialmente pelo Brasil, lembrou o La Nacion. O jornal menciona que o Papa fez “claras alusões” ao Brasil e se mostrou “evidentemente preocupado” com o país.

           Figura tão oposta ao Papa, o presidente norte-americano Donald Trump também citou o Brasil nesta semana. O republicano, anteriormente negacionista da pandemia assim como Bolsonaro, citou o país sul-americano como um “mau-exemplo” de país para conter o coronavírus. Para Trump, se os EUA tivessem tomado as mesmas medidas sanitárias que Brasília, seriam “2 milhões de norte-americanos mortos”, noticiou a rede alemã Deutsche Welle.

           A fala de Donald Trump é concomitante com a ideia do presidente de criar uma espécie de “G10 ou G11” para discutir o futuro das relações dos países com a China. Sem incluir o Brasil na lista, as intenções de Trump representam um “retrocesso constrangedor” e um “rebaixamento para uma segunda divisão na ordem internacional” para o Brasil, defendeu Assis Moreira, de Genebra, ao Valor Econômico. As decisões da Casa Branca “vão na contramão” da relação “quase carnal” entre Bolsonaro e Trump. 

        Criticado nas imprensas da Inglaterra, dos Estados Unidos, da Espanha e da Argentina, o governo brasileiro foi alvo de juízo do chanceler palestino, Riyad al Maliki. O diplomata afirmou que as recentes mudanças radicais nas atitudes do Itamaraty fazem com que o Brasil “perca sua reputação internacional”. O alinhamento automático da política externa brasileira sob Ernesto Araújo com os interesses norte-americanos e sionistas geram uma “perda de respeito e de admiração por tantos países”, disse o palestino ao colunista Jamil Chade, do UOL.


          Do Oriente Médio a Mineápolis, sob críticas da comunidade judaica e de autoridades palestinas, a imagem internacional do Brasil vai se desmanchando a cada morte e por toda ação desencontrada do governo. Enquanto protestos pelo direito à cor da própria pele tomam avenidas pelo mundo, o brasileiro vai perdendo até o direito de virar estatística.



Referências:
BRASIL é rebaixado ao ficar de fora do G10 ou G11 previsto por Trump. Valor Econômico, Genebra, 01 jun. 2020. Disponível em << https://valor.globo.com/mundo/noticia/2020/06/01/brasil-e-rebaixado-ao-ficar-de-fora-do-g10-ou-g11-previsto-por-trump.ghtml>>
BRAZIL condemned to historic tragedy by Bolonaro’s virus response – top doctor. The Guardian, Rio de Janeiro, 5 jun. 2020. Disponível em << https://www.theguardian.com/world/2020/jun/05/brazil-coronavirus-covid-19-virus-doctor>>
BRAZIL stops releasing Covid-19 death toll and wipes data from official site. The Guardian, Rio de Janeiro, 7 jun. 2020. Disponível em << https://www.theguardian.com/world/2020/jun/07/brazil-stops-releasing-covid-19-death-toll-and-wipes-data-from-official-site>>
CASO Miguel: morte de menino ‘joga álcool nas feridas’ de filhos de empregadas domésticas. BBC News Brasil, São Paulo, 5 jun. 2020. Disponível em << https://www.bbc.com/portuguese/salasocial-52938903>>
CHADE, Jamil. Brasil está perdendo respeito internacional, diz chanceler palestino. UOL, 1 jun. 2020. Disponível em << https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/06/01/brasil-esta-perdendo-respeito-internacional-diz-chanceler-palestino.htm>>

CORONAVIRUS. El Papa Francisco manifestó su preocupación por la América Latina. La Nacion, Roma, 07 jun. 2020. Disponível em << https://www.lanacion.com.ar/el-mundo/coronavirus-papa-manifesto-su-preocupacion-america-latina-nid2375224>>
HA llegado la hora de la condena internacional. El País, Madri, 03 jun. 2020. Disponível em <<https://elpais.com/opinion/2020-06-03/ha-llegado-la-hora-de-la-condena-internacional.html>>
JOÃO Dória: “São Paulo será um bastión de resistencia para preservar la democracia en Brasil”. El País, São Paulo, 02 jun. 2020. Disponível em << https://elpais.com/internacional/2020-06-02/joao-doria-sao-paulo-sera-un-bastion-de-resistencia-para-preservar-la-democracia-en-brasil.html >>
TRUMP cita Brasil como exemplo negativo de combate à covid-19. Deutsche Welle, 05 jun. 2020. Disponível em << https://www.dw.com/pt-br/trump-cita-brasil-como-exemplo-negativo-de-combate-à-covid-19/a-53701961>> 

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sábado, 6 de junho de 2020

"É para o meu TCC": MARCAS DO IMPÉRIO - AS RELAÇÕES ENTRE JAPÃO E O LESTE ASIÁTICO NO PÓS-GUERRA





Rafael Kouhei Sumiya*



É  de conhecimento geral de que após a abertura dos portos para o mundo e a Restauração Meiji em 1868, o Japão teve uma transformação substancial, modificando a sua essência rural e feudal para um Estado industrializado e extremamente belicoso. Este evento significa que o poder retorna para o imperador novamente, já que anteriormente se encontrava com o xogunato de Tokugawa. Mas acima disso, é a adaptação japonesa frente as tendências mundiais capitalistas, liderada pelas elites capitalizadas, intelectuais e tecnocratas. É então a partir desse momento, que a ocidentalização não apenas da economia, mas do Japão como um todo começa, visto que alguns dos líderes da época enxergavam que era uma forma de resistir as forças ocidentais e ter um protagonismo no cenário internacional. Sim, “alguns”, já que não existia uma centralidade nessa questão, pois os anos que se seguiram após 1868, foram surgindo diversos polos de poder dentro do Japão, com várias facções conflitantes.

Uma das formas de unificação desses grupos foi a noção da identidade japonesa, a ideia do “Grande Império japonês”. A glorificação do passado foi utilizada demasiadamente, além da perspectiva dos japoneses como um povo singular, usando a homogeneidade da língua, o passado compartilhado, o isolamento que o país passou, e etc., como justificativas para ter um orgulho nacional. Nesse momento, já havia começado o processo para que esse nacionalismo se tornasse um ufanismo sem controle. Tendo em vista como exemplo, a expulsão dos ainus (grupo étnico indígena habitante do Japão e Rússia) para o extremo norte do país, nas terras ainda não exploradas, já que os mesmos não eram considerados japoneses. Além da glorificação do passado e a língua comum, a religião xintoísta foi utilizada também para reforçar a identidade nacional, pois os japoneses teriam conexão com a linhagem imperial, ou seja, ligação com a deusa do sol Amaterasu. Esse argumento foi usado pelos nipônicos para se diferenciarem dos outros povos, consequentemente, colaborou para intensificar a crescente xenofobia no país.

Focando na pauta do desenvolvimento industrial, os líderes do arquipélago sabiam que suas terras não teriam matérias primas o suficiente para oferecerem. A partir disso, foi se articulando as ideias para a expansão territorial japonês, a começar pela Coreia, que era cobiçada pela China e Rússia também. Dentro desse desenrolar, ocorreu a Guerra Sino-Japonesa dentro do território coreano, que se estendeu até as terras chinesas, em Manchúria, com a vitória dos nipônicos. É desse conflito que o Japão mostra o seu potencial bélico para o mundo ocidental, da onde surgiu a expressão “perigo amarelo”. Logo após esse evento, Japão entrou em outra relação bélica, agora contra a Rússia, na Batalha de Tsushima em 1905, na qual o país do sol nascente saiu vitorioso novamente.

Já nesse período, o Império japonês havia deixado muitas cicatrizes nos países dominados, principalmente na Coreia e Taiwan, o que posteriormente só iria piorar. Foram enviados inúmeros japoneses para essas terras dominadas, para disseminar a ideia dos nipônicos como os vencedores, a adoração para o imperador, e a noção desses povos


como súditos dos japoneses. O número de coreanos e taiwaneses que estavam sob trabalho forçado no Japão excede 5,5 milhões até o final da Segunda Guerra Mundial. E há várias denúncias sobre diversas práticas sexuais abomináveis pelos soldados japoneses com a população dominada, além de “médicos” que realizaram experimentos com coreanos, como os nazistas haviam feito com prisioneiros de campos de concentração. A expansão do Japão pela Ásia definitivamente o colocou numa posição de destaque no cenário internacional, mas também, evidenciou as suas práticas desumanas e condenáveis.

O trabalho que estou desenvolvendo para a minha monografia tem o intuito de evidenciar essas marcas profundas deixadas nesses países que estiveram sob o domínio do Império japonês, e como o Japão seguiu após a derrota na Segunda Guerra, com suas práticas políticas e diplomáticas. O arquipélago saiu destruído, não somente pelas duas bombas atômicas, mas também em termos militares, devido a Declaração de Potsdam, assinados por Harry Truman, Winston Churchill e Chiang Kai Chek. Vários oficias japoneses foram condenados por crimes de guerra pelos diversos atos desumanos praticados no Leste Asiático, e muitos civis japoneses sequer tinham conhecimento dessas crueldades da guerra, e que veio a público algumas décadas depois, após denúncias de diversas vítimas. Além disso, toda a estrutura política e hierárquica do Estado japonês foi remodelado, chegando ao ponto do imperador perder sua condição divina, e sendo criada uma nova Constituição em 1946. A partir desse momento, iria surgir um novo Japão das cinzas do Império, tanto na sua projeção econômica quanto cultural. Mas as marcas deixadas pela guerra são profundas, e implicam nas práticas diplomáticas japonesas até os dias de hoje.



Referências Bibliográficas:

YAMASHIRO, José. Pequena história do Japão. Editora Herder, 2ª edição, 1964.

SAKURAI, Célia. Os Japoneses. Editora Contexto, 1ª edição, 2007.

WATANABE, Paulo Daniel. Segurança e política externa do Japão no pós-Segunda Guerra Mundial. Editora Alameda, 1ª edição, 2015

HOBSBAWN, Eric. Era dos extremos - O breve século XX 1914 - 1991. Editora Companhia das Letras, 2ª edição, 1997.

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郭 洋春, 戦後世界経済と東アジア            (A economia mundial no pós-guerra e o Leste

Asiático). 立教経済学研 (Iniciação Científica de Economia da Universidade de Rikkyou).


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黒田 東彦 (アジア開発銀行総裁 2005 2 1 2013 3 18 , Presidente



do Banco Asiático de Desenvolvimento 2005 a 2013), 東アジアの安定的成長と日本



の役割   (O crescimento estável do Leste Asiático e o papel do Japão). 一橋大学



(Universidade de Hitotsubashi).

*Rafael é aluno do Curso de Relações Internacionais do UNICURITIBA. A presente pesquisa é parte de seu trabalho de conclusão de curso, orientado pelo Professor Andrew Traumman.
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