terça-feira, 7 de abril de 2020

Em pauta: Coronavírus e Refugiados - o que acontece com quem não pode ficar em casa?

Imagem: Campo de refugiados na Grécia em quarentena, após caso de Coronavírus. Fonte - https://oglobo.globo.com/mundo/grecia-poe-segundo-campo-de-refugiados-em-quarentena-apos-novo-caso-de-coronavirus-24352760


Por Alécia Alves*

O novo coronavírus já atingiu mais de 1 milhão de pessoas no mundo, ocasionando em torno de 60 mil mortes e mais de 220 mil pessoas recuperadas desde o início da pandemia. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) trata-se de uma “Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional – o mais alto nível de alerta da Organização” (dados atualizados em 3 de abril). A tendência, segundo especialistas, é que muitas pessoas ainda sejam infectadas antes que o caso se estabilize.

O surto alertou as Organizações Internacionais e levou os Estados a tomarem medidas rigorosas de prevenção, como exigir que a população evite aglomerações, permaneça em suas casas, que não faça contato com outras pessoas e tomem outras medidas como lavar as mãos, não compartilhar objetos e higienizá-los sempre que possível e, em caso de sintomas, procurar um atendimento médico o mais rápido possível. No entanto, existe uma parcela da sociedade que está impossibilitada de seguir as recomendações para evitar o contágio dessa doença: os refugiados.

Como permanecer em casa e evitar aglomerações quando o perigo está em casa e é preciso fugir? Ou, como ficar em casa quando a realidade num campo de refugiados é de pessoas que sequer tem uma casa e que vivem amontoadas umas com as outras em barracas ou ao ar livre?

Embora o coronavírus tenha parado boa parte das atividades econômicas do mundo todo, as causas que levam ao deslocamento forçado de pessoas persistem: perseguições por razões étnicas, religiosas, políticas ou de pertencimento a um determinado grupo social - ou ainda, graves e generalizadas violações de direitos humanos - não deixaram de existir simplesmente porque há uma pandemia em curso. No entanto, obrigados a abandonarem seus países por motivos alheios a sua vontade, os refugiados agora encontram fronteiras ainda mais rígidas e fechadas devido a medidas de alguns governos para evitar a entrada e a saída de pessoas em seus territórios em decorrência da crise do coronavírus.

Aqueles que obtêm sucesso em fugir de situações de conflito, perseguições, problemas econômicos ou ambientais são barrados nas divisas e obrigados a viver em situações desumanas em centros de refugiados, onde aguardam a regulamentação do seu status para que possam de fato migrar com todas as condições dignas de que tem direito. Esse processo, contudo, pode demorar muito mais do que o necessário devido a alta demanda e aos obstáculos e burocracias impostas pelos próprios governos muitas vezes pouco dispostos a acolher esses imigrantes. Durante esse período, aguardam aglomerados mulheres, crianças e idosos em situação de calamidade pública.

Assim, as recomendações de controle da pandemia passam ao largo: tomar banho, lavar as mãos regularmente e evitar aglomerações é praticamente impossível nos cenários de superpopulação e de falta de condições básicas de higiene em que muitos refugiados se encontram. Outros fatores como o debilitado acesso a uma alimentação de qualidade e a carência de serviços médicos básicos também os tornam ainda mais suscetíveis de serem vitimados pela pandemia.

Estima-se que “mais de 70 milhões de pessoas estão em situação de deslocamento forçado no mundo, das quais pouco menos da metade vive em campos de refugiados ou abrigos, em geral superlotados e onde o acesso à rede de esgoto e à água tratada é precário”, segundo O Globo.  

A Grécia, por exemplo, passa por uma das maiores crises humanitárias internacionais e conta com cinco campos de refugiados em suas Ilhas. Dois deles já foram colocados em quarentena, em razão de casos confirmados do coronavirus. De acordo com a BBC Brasil, há em torno de 42 mil pessoas nas ilhas gregas com capacidade para 6 mil imigrantes, dos quais mais de 14 mil são crianças. Um dos casos mais críticos é o de Moria, em Lesbos, o maior campo de refugiados da Europa, que abriga aproximadamente 20 mil refugiados num espaço projetado para 3 mil pessoas. A ilha com cerca 80 mil habitantes, conta com apenas o hospital de Mitilene, que não seria capaz de suportar um possível surto de coronavírus e entraria em absoluto colapso.

Estes refugiados correm ainda o risco de perderem uma das poucas assistências que recebem, que são das ONG Internacionais. Para evitar a entrada do vírus, seria necessário fechar a entrada para os voluntários que vem do continente para as ilhas. Nesse sentido, a tendência é que haja um isolamento total e vidas sejam largadas a própria sorte.

Num cenário em que o mundo está voltado a proteger-se contra o coronavírus nos grandes centros urbanos e pouco tem conhecimento sobre essas situações que acontecem em países em desenvolvimento e em áreas remotas do mundo, os imigrantes que já sofrem preconceito em um contexto normal, em tempos de crise são apontados como inimigos número um e dificilmente serão alvos de proteção e acolhimento no continente Europeu.

Vários outros exemplos como esses poderiam ser citados. Outro caso preocupante se encontra em Bangladesh: a minoria mulçumana rohingyas, perseguida em Mianmar - cerca de 855 mil pessoas - vivem em 34 campos do país com densidade de aproximadamente 40 mil pessoas por metro quadrado.

Os cinco países que mais recebem refugiados são Turquia, Paquistão, Uganda, Sudão e Alemanha, sendo que a maioria vem da Síria, Afeganistão, Sudão do Sul e Mianmar. Tanto os países receptores quanto os emissores de refugiados pouco recebem ajuda do restante da comunidade internacional.

É indiscutível que a crise humanitária na qual os refugiados se encontram é uma bomba relógio cuja responsabilidade permanece sendo jogada de um lado para o outro e sendo protelada até as últimas consequências. Diante da “pandemia de dimensões apocalípticas”  que ora enfrentamos, o relógio da bomba acelera.

Enquanto os países jogam uns para os outros  a responsabilidade de tomar medidas enérgicas para evitar uma grande tragédia, a única certeza que se tem é que toda vida merece ser respeitada e protegida em sua dignidade. Não é porque estamos todos preocupados com nossa própria sobrevivência que devemos esquecer daqueles que já lutaram muito para sobreviver. Que lembremos, também, dos refugiados nesta pandemia.


REFERÊNCIAS



ORGANIZAÇÃO PAN AMERICNA DE SAÚDE; ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDES. Folha informativa – COVID-19. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6101:covid19&Itemid=875. Acesso: 2 de abril de 2020.



O GLOBO MUNDO. Superlotados, campos de refugiados são um dos espaços mais vulneráveis à Covid-19. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/superlotados-campos-de-refugiados-sao-um-dos-espacos-mais-vulneraveis-covid-19-1-24328645. Acesso em: 3 de abril de 2020.


BBBC NEWS BRASIL. 3 crises internacionais 'ocultadas' pelo coronavírus. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51890194. Acesso em: 03 de abril de 2020.




*Alécia Alves é aluna do 7º período de Relações Internacionais. Este é o seu primeiro texto como membro oficial da equipe do Blog Internacionalize-se.
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domingo, 5 de abril de 2020

Redação Internacional: O Brasil nas manchetes internacionais (de 29/03 a 05/04)




De Fernando Yazbek*

No Brasil e no mundo o assunto que ainda pauta todo e qualquer veículo de imprensa não poderia ser outro que não a pandemia do novo coronavírus. Entre as notícias desesperadoras de novos casos confirmados, da falta de equipamentos de proteção individual para os médicos e enfermeiros e a preocupação com a superlotação do sistema de saúde, ainda se vêem relatos de solidariedade. São vizinhos que se voluntariam para ir ao mercado pelo morador mais idoso do prédio, campanhas de distribuição de alimento para quem mais precisa e hotéis que diminuem o valor das diárias para facilitar o isolamento social daqueles que estão na linha de frente no combate à doença. Ainda que estes exemplos repercutam com certo espaço considerável na mídia nacional e regional - junto das recomendações para se levar uma quarentena mais segura e tranquila - as principais manchetes dos jornais estrangeiros tratam da questão no Brasil com um enfoque muito mais político.




          O inglês The Guardian, por exemplo, repercutiu (ainda no domingo 29/03) a reportagem do jornal Estado de São Paulo que tratou dos embates entre o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e o ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM). Bolsonaro tem, reiteradas vezes, diminuído os impactos sanitários do coronavírus e se preocupado nos efeitos negativos que a quarentena vai impôr à economia brasileira. O ministro, por outro lado, continua recomendando o isolamento social como melhor ferramenta para se enfrentar a epidemia, a despeito de seu chefe. Estas diferenças foram os motivos, como aponta o jornal, que fizeram o presidente ameaçar demitir Mandetta da esplanada ministerial. The Guardian destaca ainda que a postura negacionista de Bolsonaro promoveu uma “rebelião política” de quase todos os governadores dos 27 estados brasileiros. Em editorial do dia 31, o jornal categoriza o presidente como “um único homem que pode causar danos enormes” e, por isso, põe os brasileiros em risco.


          Na capital estadunidense, o The Washignton Post estampou imagem do cemitério Vila Formosa na zona leste paulistana, maior da América Latina, com um grande número de covas recém abertas. Com a preocupação pelo exponencial  aumento do número de mortes do covid-19, o impresso cutucou Jair Bolsonaro na legenda da foto: o presidente chamara a doença de “fantasia”. A matéria também trata de como serão os impactos da pandemia em países com “grande pobreza”.


          Percebe-se uma mídia norte-americana muito mais focada recentemente, em termos de América Latina, na questão venezuelana. Os EUA propuseram, no dia 31 de março, o que o governo Donald Trump chama de “marco democrático para a Venezuela”. O acordo prevê a implementação de um governo de transição em que não participariam nem o presidente constitucional Nicolás Maduro, nem o auto-proclamado presidente Juan Guaidó, reconhecido por Washington e Brasília. Esta “mudança democrática”  pautada pelo secretário americano Mike Pompeo contra o chavismo é defendida pelo The Wall Street Journal, que aponta o Brasil como importante aliado norte-americano na região.



          O mundo lusófono também tem noticiado críticas ao governo Bolsonaro. O português Diário de Notícias destacou a união da oposição no Brasil num pedido de renúncia endereçado ao presidente. Assinaram a carta tanto líderes de partidos de esquerda, como Fernando Haddad do PT, Ciro Gomes do PDT, Guilherme Boulos do PSOL, quanto políticos do PSD, partido de centro-direita, como frisa o Diário


          Na mesma língua e assunto, o Jornal de Angola também aponta desafetos políticos da administração federal brasileira, mas desta vez no campo internacional. O africano relata a insatisfação do presidente argentino Alberto Fernández com as posições tomadas por Bolsonaro no combate ao coronavírus. "Lamento muito que a seriedade do problema não seja entendida”, disse o portenho ao anunciar que criticou a postura do Brasil para o presidente mexicano Andrés López Obrador.


          Na vizinha Argentina, o Diario Clarín repercute o aumento da popularidade do ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta em face do desprestígio crescente do presidente Jair Bolsonaro. Com apenas 5% reprovando a gerência ministerial, Mandetta alcançou uma popularidade de 76% dos brasileiros na última semana. O jornal analisa que a aprovação do ministro cria “um novo problema para Bolsonaro”, que enfrenta “oposição” da suprema corte e do congresso brasileiros.



          O presidente do Brasil se desgasta na política doméstica enquanto cria mais problemas na comunicação. Seu principal meio de comunicação durante as eleições e o mandato, a rede social Twitter apagou duas postagens de Bolsonaro no domingo 29. Em posicionamento oficial por meio de nota, o site anunciou que expandiu as regras para eventualmente excluir postagens que atentassem contra as recomendações médicas que levariam pessoas a maior risco de transmitir o covid-19. Twitter deletou publicações que violam as regras da rede de Jair Bolsonaro, de dois de seus filhos e do pastor neopentecostal Silas Malafaia, que também é contra o isolamento social e quer realizar cultos evangélicos durante a pandemia. 
        Nesta onda de desinformação, o presidente do Brasil divulgou notícia falsa na quarta-feira (primeiro de abril, ironicamente) sobre suposto desabastecimento na capital de Minas Gerais. A mídia francesa manchetou o pedido de desculpas de Bolsonaro e relembrou o histórico de fakenews do presidente, como no Le Parisien:


          Enquanto o Brasil escala no número - ainda subnotificado - de contagiados e de mortos, o governo federal parece estar mais preocupado com as casas decimais do PIB. Espalhando desinformação, o executivo não só pode ser responsabilizado pela mortandade no curto prazo quanto pela deteriorização da imagem brasileira no exterior. A revista The Atlantic diz que o “movimento de negação do coronavírus agora tem um líder”, se referindo a Bolsonaro, enquanto a BBC o coloca como outsider do bom-senso até dos líderes mundiais mais controversos. The Economist sustenta que “Brasil brinca enquanto epidemia avança” e The New York Times que “fervor pela austeridade no Brasil ameaça luta contra o coronavírus”.



          Estamos na contra-mão do mundo, e não no bom sentido de frear a doença e cuidar de quem precisa ficar em casa. Uma empresa falida se recupera, um emprego perdido se realoca, mas um corpo enterrado não se exuma com vida.



Referências:




*Fernando Yazbek é aluno do segundo período de Relações Internacionais do UNICURITIBA e também cursa Ciência Política na Universidade Federal do Paraná. Além de integrar a equipe de 2020 do Blog Internacionalize-se, também é responsável pelo Blog Democratiba - que discute os meandros políticos que interferem na vida esportiva do Coritiba Foot Ball Club, seu time do coração. 









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terça-feira, 31 de março de 2020

Em pauta: Olimpíadas de Tóquio 2020+1 - a primeira da era moderna a ser adiada

Por Fernando Yazbek*



De quatro em quatro anos o mundo pára para assistir a essa tradição que é antecessora ao cristianismo e mais antiga até que os países que nela competem. Os Jogos Olímpicos, como expressão atlética do mais alto nível, chamam a atenção do público geral em proporções astronômicas: foram 2,5 bilhões de espectadores  da cerimônia de abertura do evento no Rio de Janeiro, em 2016. Mas é pela sua magnitude antiquíssima e universal que as olimpíadas captam mais ainda os olhares de historiadores e internacionalistas. Crê-se que por volta de 776 a.C. na Grécia Antiga se realizaram os primeiros jogos no santuário de Zeus, em Olímpia, como um festival esportivo e religioso. O evento era marcado pelas competições esportivas de luta e corrida, pelo caráter mitológico de homenagem aos deuses do Monte Olimpo e, principalmente, pela trégua universal entre as cidades-estado constantemente em guerra. Apesar do armistício e da fraternidade dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, apenas cidadãos gregos podiam participar. Já na era cristã do ano de 393, os jogos foram suprimidos pelo imperador romano Teodósio I, que proibiu o paganismo da competição. 

          O marco moderno das olimpíadas foi a criação do Comitê Olímpico Internacional (COI) em 1894, que organizou a primeira edição da nova era dois anos depois em Atenas, Grécia. Os gregos tinham acabado de conquistar, em 1830, a independência do domínio turco e os jogos de 1896 foram uma maneira de resgatar a cultura clássica do país. Nesta primeira olimpíada moderna competiram 14 países. No Rio, em 2016, eram 206 delegações. As mudanças da geopolítica nesse século e quarto moldaram os jogos, impulsionados pelas tecnologias da revolução industrial e os esportes de massa, cancelados pelas guerras mundiais e boicotados pelos polos na Guerra Fria. Já se viu de tudo desde então: competições que eram mais políticas que esportivas, maratonista sendo atropelado em 2004, bola entrando no gol direto do escanteio em 1924, atleta negro faturando quatro medalhas de ouro na frente de Hitler em plena Berlim de 1936, o primeiro atentado terrorista considerado global em 1972 e o primeiro ouro olímpico para um pais da África em 1960 depois da descolonização. Nunca houve na modernidade, no entanto, um adiamento.

          O coronavírus, que ataca a China desde o final de 2019 e o ocidente desde o começo de 2020, contabiliza, até o momento, mais de meio milhão de infectados pelo mundo em todos os continentes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou a considerar a doença uma pandemia de dimensões apocalípticas. Baseado nas recomendações de segurança da OMS e no crescente número de vitimados pelo covid-19, o COI decidiu - no dia 24 de março - pelo adiamento de um ano dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. Para entender as repercussões dessa decisão sem precedentes, entrevistamos dois jornalistas esportivos, um historiador e uma ex-atleta que falaram de cronograma, dos impactos históricos e esportivos, da punição por doping imposta à Rússia e de xenofobia nas olimpíadas.

          Daniel Emmendoerfer Castro é jornalista e trabalha na Folha de São Paulo desde 2015. Ele era o repórter designado para a cobertura do evento neste ano, pelo veículo.  Quando perguntado sobre como o COI atuou no processo de adiamento, o repórter olímpico ponderou que a decisão tomada com quatro meses de antecedência foi razoável, mas que o comitê falhou em não se posicionar ao lado dos atletas desde a eclosão da pandemia. Para ele, houve uma demora para admitir que poderia haver sim o adiamento, uma vez que queriam entregar a definição de uma nova data dos jogos (definida quase uma semana depois da postergação) junto à noticia da suspensão. Castro ressalta que se abre um precedente inédito com uma olimpíada realizada em ano ímpar, já que mesmo nos cancelamentos com as guerras se respeitou o quadriênio: “saindo do livro de regras, quebra-se um tabu”.

          De fato, houve muita demora na decisão do COI e, se não fosse pela pressão do governo japonês, “talvez demorasse mais”. Foi isto o que nos disse o jornalista Ayrton Batista Junior, da rádio CBN (Central Brasileira de Notícias) e do site globoesporte.com. Ele discorda de Daniel Castro de que se abre um precedente importante na história dos jogos olímpicos por se tratar, no contexto da pandemia do coronavírus, de um fato "absolutamente extraordinário". “Tusca Jr”, como é conhecido o filho de Ayrton Batista - três vezes presidente do Sindicato dos Jornalistas do Paraná e duas vezes secretário de estado de imprensa -, nos lembra do tenista paranaense Thiago Wild que contraiu o covid-19 no pré-olímpico. Sem o adiamento, Wild perderia todas as chances - ainda que remotas como frisou Batista - de participar dos jogos em Tóquio se fossem em 2020.

          Daniel e Ayrton concordam que um ano faz muita diferença na perfomance esportiva de um atleta de alto desempenho. Mas, por cada competidor reagir à sua própria maneira, não há como cravar que algum país se beneficiaria do adiamento no quadro de medalhas. O repórter da Folha frisa que atletas experientes têm a vantagem de conhecer melhor o próprio corpo, na mesma medida que esportistas mais jovens terão mais tempo para se desenvolver. Ele conclui, no entanto, que nunca saberemos os medalhistas de 2020 que, certamente, não serão os mesmos de 2021. Já o produtor da CBN Esportes nos alerta para a situação delicada das ginásticas com o adiamento. "Ter 19 anos é muito diferente de ter 20. O auge [do ginasta] é precoce e dura muito pouco”. Diferente é a situação do futebol masculino, em que só se permitem jogadores de até 23 anos. Resolve-se, facilmente, afrouxando o limite de idade para 24, afirmou Ayrton Batista Junior.

          Outro assunto que fez os colegas jornalistas discordarem foi a suspensão imposta pela Agência Mundial Antidoping (WADA, na sigla em inglês) à Rússia, proibida de ser representada em Tóquio 2020 e nos jogos de inverno de Pequim em 2022, além da Copa do Mundo do Catar nesse mesmo ano. “[O adiamento dos Jogos] não altera nada. Mesmo que a punição fosse apenas para os Jogos de 2020, deveria ser mantida porque o COI pretende continuar com o ano 2020 na marca do evento”, disse a “enciclopédia ambulante”, apelido carinhoso de Batista Jr. Para Daniel Castro, na antemão, a suspensão de Tóquio faz como que haja tempo hábil para haver julgamento da apelação russa na Corte Arbitral do Esporte, instância máxima do direito esportivo. Havia temores, para Castro, de que não houvesse julgamento. O adiamento dos jogos acabou, portanto, dando chances para que ocorresse a apuração. Havendo decisão - favorável ou contrária - quanto à Rússia, continua o repórter, acaba-se com a insegurança jurídica que paira sobre as federações, que tratam os russos cada qual de sua maneira. Ele finaliza reiterando que o cabo-de-guerra entre a Rússia, que se sente historicamente injustiçada, e os Estados Unidos, que lideram o lobby para punições severas a Moscou, só cria incertezas para todos do o universo esportivo.

          Batista Jr e Castro afinaram as respostas quando o assunto foi xenofobia. O  surto do novo coronavírus, motivo do adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio2020 no Japão, teve seu epicentro na vizinha China. Apesar de não haver fronteira terrestre entre os países, o preconceito não respeita território. Muitos casos de xenofobia contra asiáticos foram registrados na Europa, Estados Unidos e América Latina desde a explosão da pandemia. Até mesmo Donald Trump, presidente da maior potência militar do mundo, se referiu ao covid-19 como “vírus chinês”. Gesto foi repetido no Brasil pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL), presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados e filho do Presidente da República, que deflagrou uma crise diplomática com o maior parceiro comercial brasileiro. Mesmo que a ignorância confunda um vírus com um ser humano, Ayrton Batista Junior recorda que “a comunidade esportiva sempre deu exemplos de solidariedade” e que os boicotes dos EUA aos jogos de Moscou em 1980 e da URSS à olimpíada de Los Angeles em 1984 foram promovidas por estados e governos, não pelo corpo esportivo. Daniel vê na xenofobia um grande mal do esporte globalizado, mas acredita que o mundo esportivo tem pautado causas sociais com maior atenção, haja visto a crescente onda de racismo que se observa em jogos de futebol por todo o continente europeu. Ele também acredita que o COI deve ficar vigilante quanto à intolerância, embora o próprio comitê internacional seja historicamente distanciado de tópicos como este. Por sua abrangência global, o COI proíbe manifestações políticas durante competições dos Jogos Olímpicos. Castro ainda sublinha preocupação na relação hostil que o Japão nutre de longa data com as próximas China e Coréia do Sul.

          O Blog Internacionalize-se também ouviu a ex-atleta, e também jornalista, Juliana Veiga. Ela cobriu os Jogos Olímpicos de Londres em 2012 e do Rio de Janeiro em 2016 na bancada do telejornal esportivo SportCenter, no horário nobre da emissora ESPN Brasil. Veiga, que é pentacampeã brasileira de snowboard, conhece bem os dois lados do jornalismo esportivo e por isto viu com bons olhos o adiamento já que “cuidar das vidas é prioridade, tanto de atletas quanto de jornalistas”. Disse que a demora na tomada de decisão era esperada, por haver infinitos fatores logísticos, esportivos e comerciais a serem costurados com a suspensão. A pioneira do surfe na neve no Brasil explicou que, mesmo que a quarentena, o distanciamento e o isolamento social - para frear o avanço do vírus - afetem os treinos, os atletas tem maior facilidade para ajustar a rotina e se recuperarem de lesão. Para ela, as Olimpíadas de Tóquio não trarão  grande prejuízo esportivo dos competidores, mas sim emocional da sociedade como um todo.

          Para finalizar, o Blog ouviu o historiador Andrew Patrick Traumann, doutor em História, Cultura e Poder pela Universidade Federal do Paraná. O adiamento dos jogos que seriam em 2020, diz ele, entra pra história com igual importância dos cancelamentos de 1916 em Berlim, 1940 em Tóquio (coincidentemente) e 1944 em Londres. O professor de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba coloca as olimpíadas adiadas de Tóquio como mais relevantes historicamente que os boicotes de EUA e URSS na Guerra Fria, uma vez que os jogos aconteceram mesmo sem a presença deles. Traumann ainda vê a atual suspensão em prateleira mais alta de notabilidade em comparação com os atentados do grupo palestino Setembro Negro, que mataram 11 israelenses na vila olímpica de Munique em 1972. Os assassinatos não são tão lembrados pelo público em geral e fica restrito aos estudos das R. I. sobre o Oriente Médio, defende o professor, enquanto o cancelamento dos Jogos Olímpicos por conta da pandemia do coronavírus transcende essa bolha. O historiador parece discordar do repórter Daniel Castro quando diz que o adiamento é, inclusive, pior para a Rússia, porque retarda o cumprimento da punição.

            Jogos Olímpicos e política internacional sempre estiveram umbilicalmente ligados. Esta relação passou, além dos já citados atentados terroristas, boicotes na Guerra Fria e dos cancelamentos nas Grandes Guerras,  pelo desmembramento da URSS em 1991, quando Letônia, Estônia e Lituânia desfilaram em Barcelona (1992) com o hino do comitê olímpico. Em 2000, o mesmo COI, que abrigou os ex-soviéticos desgarrados, baniu o Afeganistão dos jogos de Sydnei em represália ao regime Talibã. As para-olimpíadas - modalidade de competição para deficientes físicos e amputados - teve sua criação no período que sucedeu a Segunda Guerra Mundial, porque havia uma enormidade de feridos pelo conflito. Exemplos da combinação político-esportiva dão uma lista extensa demais para se enumerar. O coronavírus soma a este panorama e, possivelmente, levaremos gerações para entender totalmente o impacto da pandemia nos Jogos Olímpicos e nas relações internacionais. 




*Fernando Yazbek é aluno do segundo período de Relações Internacionais do UNICURITIBA e também cursa Ciência Política na Universidade Federal do Paraná. Além de integrar a equipe de 2020 do Blog Internacionalize-se, também é responsável pelo Blog Democratiba - que discute os meandros políticos que interferem na vida esportiva do Coritiba Foot Ball Club, seu time do coração. 


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domingo, 29 de março de 2020

Redação Internacional: Como o jornalismo internacional tem visto as ações do Brasil no combate ao coronavírus?




Fernando Yazbek*



Desde que a primeira morte por coronavírus foi registrada no Brasil, no dia 17 de março de 2020 em São Paulo, não se fala em outra coisa. A grande mídia tradicional, ora acusada do oligopólio dos meios de comunicação, viu o Covid-19 monopolizar o que é notícia no país. Há em curso uma cobertura jornalística monotemática nunca antes vista, nem em época de Copa do Mundo, Olimpíadas e eleições. A novela das nove diminuiu de tamanho e o telejornal ganhou mais minutagem. Os classificados e as palavras-cruzadas saíram dos jornais impressos para abrir espaço para mais páginas de saúde, circulação de pessoas, serviços essenciais na quarentena e - infelizmente - obituário. Até os cadernos específicos de economia e política só repercutem os impactos do vírus nessas pautas. 


A cada hora somos inundados com informações de um novo caso num estado, da mais recente morte numa cidade do interior e da última entrevista coletiva das autoridades. Sabemos como a imprensa brasileira vem noticiando a pandemia. Mas como as redações dos outros países enxergam o Brasil neste momento? O que é  manchete nos principais jornais do mundo sobre nós? Analisa-se, abaixo, como as redações de fora repercutiram o Brasil desde o primeiro caso do novo coronavírus reportado no país até o pronunciamento em cadeia nacional do Presidente da República Jair Messias Bolsonaro, na terça-feira 24 de março. 


O americano The New York Times deu, ainda em 26 de fevereiro, que “Brasileiro que visitou Itália é o primeiro paciente do coronavírus na América Latina”. A matéria, mesmo que em alerta, ressalta o grande sistema público de saúde brasileiro. O que mais foi notícia nos Estados Unidos em relação ao Brasil no início da proliferação do vírus pelas Américas foi o contato do secretário de comunicação do governo Bolsonaro, Fábio Wajngarten, infectado pelo coronavírus, ter tido contato direto com o presidente Donald Trump no estado americano da Flórida. Incidente foi visto como constrangedor. Ainda no Times, artigo de opinião critica duramente não só o governo, mas em especial a postura do presidente Jair Messias Bolsonaro, acusando-no de omissão no que seria a “pior crise sanitária do Brasil moderno”. O texto também aponta as falas anti-democráticas e distantes da realidade do chefe da nação.





Muda o país, mas o entendimento sobre Bolsonaro na crise do coronavírus é o mesmo. O alemão Deutsche Welle manchetou que o presidente brasileiro “contraria consenso científico sobre a covid-19”, enquanto o espanhol El País profetizou que “amanhã pode ser tarde demais para deter Bolsonaro”. Latinos e germânicos veem o ex-capitão se aproveitando de uma epidemia para “minar instituições democráticas” com seu “estilo de aprendiz de ditador”




No melhor estilo argentino, o vizinho La Nacion misturou futebol e política para notificar o coronavírus no Brasil. O periódico se valeu de uma postagem no Instagram do lateral-direito da seleção canarinha, Daniel Alves, em que o multicampeão crítica, muito respeitosamente, a postura do presidente. La Nacion enfatiza que Bolsonaro tem “baixado o tom” reiteradas vezes durante esta calamidade.





Em Portugal, o jornal Público repercutiu o isolamento político de Bolsonaro. Ex-aliados de campanha e de ideologia, governadores tomam medidas que vão em rota de colisão com o que manda o governo federal. É o caso de João Dória (PSDB) em São Paulo e Wilson Witzel (PSC) no Rio de Janeiro. Os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre (que está com o vírus) respectivamente, também têm se distanciado do presidente, assim como o partidário Ronaldo Caiado (DEM), governador de Goiás, que anunciou rompimento com o Palácio do Planalto. Para o jornal, as atitudes insensatas de Bolsonaro e a disputa politica pela sucessão presidencial em 2022 o afastaram de seus antigos cabos eleitorais.









No dia 19 de março, o Le Monde deu destaque aos protestos que sofreu o presidente pelas janelas das cozinhas Brasil à fora. O panelaço repercutiu principalmente na mídia francesa pela crise diplomática aberta por Bolsonaro com o presidente Emmanuel Macron na metade de 2019, por conta das queimadas na selva amazônica. A briga entre os chefes de estado envolveu também, à época, os filhos de Bolsonaro e - grosseiramente - a primeira dama parisiense.








O cubano Granma foi o único periódico, nacional e internacional, que deu mais atenção ao ex-presidente Lula que a Bolsonaro. O que é razoavelmente esperado, uma vez que se trata do panfleto oficial do partido comunista da ilha. O texto trata especificamente do que hoje pode ser tratado como o maior símbolo de soft power castrista: a medicina. O povo brasileiro será sempre grato - diz o petista na matéria -pela vinda dos médicos cubanos ao Brasil no programa Mais Médicos. Lula fala da emoção em ver cubanos desembargando na Itália no dia 23 de março, país com maior número de mortos na pandemia, e diz se tratar de um gesto “verdadeiramente grande” de solidariedade revolucionária.






O governo brasileiro há tempos não tem uma boa imagem no exterior. Desde a crise das queimadas na Amazônia, passando pelas constantes ameaças à democracia brasileira e à soberania de países como Venezuela e Cuba, a mídia internacional volta os olhos ao Brasil com certa preocupação. A pandemia do Covid-19 não parece ser a exceção para confirmar a regra de que Bolsonaro será criticado pelos veículos midiáticos estrangeiros. E, pelas atitudes desencontradas do presidente, o coronavírus não deixará de ser notícia tão cedo no Brasil.









Referências:









*Fernando Yazbek é aluno do segundo período de Relações Internacionais do UNICURITIBA e também cursa Ciência Política na Universidade Federal do Paraná. Além de integrar a equipe de 2020 do Blog Internacionalize-se, também é responsável pelo Blog Democratiba - que discute os meandros políticos que interferem na vida esportiva do Coritiba Foot Ball Club, seu time do coração. 

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