terça-feira, 10 de novembro de 2020

Volta ao mundo em 7 dias - Notícias 01/11 a 07/11

 



  • ESTADOS UNIDOS

    A notícia mais comentada da semana com certeza foi a eleição americana a vitória de Joe Biden. Desde o dia 4 as tensões estavam aumentando com relação à eleição norte-americana, isso porque apesar das projeções de vitória da chapa Biden/Harris, a vitória ainda não era tão palpável. Logo no começo das apurações, Donald Trump tinha conquistados vantagem entre os principais estados americanos e ameaçava uma vitória tímida. Assim, os resultados pareciam incertos: se de um lado as projeções apontavam a vitória à Biden, o início das contagens tinham Trump como vencedor. Afinal, depois de três dias de tensões, a vitória foi dada à Joe Biden e Kamala Harris, que venceram mesmo sem a apuração total dos votos e representam uma mudança não só na política doméstica estadunidense, mas que deve impactar profundamente o sistema internacional.

    Além disso, os Estados Unidos assistiram a eleição da primeira senadora estadual transgênero da história do país, marco importante para os direitos LGBTQ+ no país e no mundo. A democrata Sarah McBride foi eleita para a Câmara Alta do Legislativo bicameral de Delaware, na Costa Leste.

  • AMÉRICA CENTRAL

    Nessa semana, os países da América Central foram protagonistas de uma série de desastres naturais, causados pela tempestade Eta. Na Guatemala, a tempestade afetou diretamente cerca de 75 mil pessoas, deixando 100 mortos e 150 casas soterradas em razão de deslizamentos. A mesma tempestade causou inúmeros alagamentos e forçou pessoas a saírem de suas casas na Nicarágua e em Honduras, onde pelo menos 559 pessoas tiveram que se mudar para abrigos ou ir para casas de parentes para escapar de inundações.

  • PERU

    Na segunda-feira dia 02 de novembro o congresso peruano aprovou contra o presidente Martín Vizcarra, um novo processo de impeachment. O processo seria o segundo em menos de dois meses é reflexo dos escândalos de corrupção no qual o atual presidente se envolveu. Segundo o G1, Vizcarra é agora acusado é de receber subornos de 2,3 milhões de soles (cerca de R$ 4 milhões) por obras em Moquegua, região na qual Vizcarra foi governador entre 2011 e 2014. 

  • NOVA ZELÂNDIA

    No início desta semana que passou, a Nova Zelândia novamente fez história ao indicar Nanaia Mahuta como ministra das Relações Exteriores do país. A indicação, anunciada pela presidente Jacinda Ardern na segunda-feira (2), fez de Mahuta a primeira mulher indígena a assumir o cargo. Além da importância para a população indígena, a indicação certamente contribuiu para a diversidade do corpo parlamentar neozelandês, que é hoje considerado um dos mais diversos do mundo, com grande representação feminina, além da presença de outros quatro ministros maoris que compõem o governo de Ardern. No dia 02 de novembro a cidade de Viena na Áustria foi vítima de um atentado terrorista que deixou quatro pessoas mortas e 23 feridos. O ataque foi realizado por um jovem de 20 anos associado ao grupo jihadista Estado Islâmico, que mais tarde que afirmou ter comandado o ataque. Após o ataque, as autoridades austríacas ordenaram o fechamento de dois lugares de adoração islâmicos frequentados pelo terrorista: uma mesquita e uma associação islâmica. 

  • BOLÍVIA

    Depois de ser declarado como vencedor em 18 de outubro, o presidente e sucessor de Evo Morales, Luis Arce sofreu uma tentativa de atentado. Segundo o Movimento ao Socialismo (MAS), a sede do partido de Arce em La Paz foi alvo de um atentado terrorista com dinamites no dia 05 deste mês de novembro. O atentado não deixou feridos, mas demonstra o descontentamento de alguns setores da sociedade boliviana - que pede por uma auditoria das eleições - apesar da vitória em grande vantagem de Arce e do reconhecimento de seu governo tanto dentro como fora do país. 

  • ETIÓPIA

    Na Etiópia, o governo se mobilizou para a guerra na região norte de Tigray na quinta-feira (5). A mobilização vai contra as expectativas internacionais, que esperavam que as tensões entre o governo de Abiy Ahmed e a Frente de Libertação Popular de Tigray (TPLF) (poderosa facção étnica que liderou a coalizão governista por décadas) não se transformasse em um conflito. Segundo fontes humanitárias, bombardeios e tiros foram ouvidos na área desde as primeiras horas da quinta-feira, e cerca de 20 soldados foram tratados em uma clínica perto da fronteira com a região de Amhara. Apesar de ter ganhado o Prêmio Nobel da Paz em 2019 pelo fim do conflito com a Eritréia, Abiy tem se mostrado incapaz de lidar com os conflitos internos da Etiópia, e ao contrário do esperado, o que vemos é uma aproximação de uma guerra civil pelo controle do país. 

Referências:

Austria closes Vienna mosque after deadly attack. DW. 06 nov. 2020. Disponível em: <https://www.dw.com/en/austria-closes-vienna-mosque-after-deadly-attack/a-55523158>.


BARRAGAN, Almudena. Sarah McBride é eleita a primeira senadora estadual transgênero nos EUA. El País. 04 nov. 2020. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/internacional/2020-11-04/sarah-mcbride-a-primeira-senadora-estadual-transgenero-nos-eua.html>.


BEAUREGARD, Luís Pablo. CAMHAJI, Elias. Trump larga em vantagem nos Estados-chave que decidirão disputa com Biden. El País. 04 nov. 2020. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/internacional/2020-11-04/trump-larga-em-vantagem-nos-estados-chave-que-decidirao-disputa-com-biden.html>.


BRAUN, Julia. Presidente eleito da Bolívia sofreu tentativa de atentado, diz partido . Veja. 06 nov. 2020. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/mundo/presidente-eleito-da-bolivia-sofreu-tentativa-de-atentado-diz-partido/>.


Congresso do Peru abre novo processo de impeachment contra Martín Vizcarra. G1. 02 nov. 2020. Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/11/02/congresso-do-peru-abre-novo-processo-de-impeachment-contra-martin-vizcarra.ghtml>.


JONES, Dustin. New Zealand Appoints First Indigenous Female Foreign Minister. NPR. 02 nov. 2020. Disponível em: <https://www.npr.org/2020/11/02/930555629/new-zealand-appoints-first-indigenous-female-foreign-minister>.


MENCHU, Sofia. Tempestade Eta soterra 150 casas na Guatemala e deixa cerca de 100 mortos. G1. 06 nov. 2020. Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/11/06/tempestade-eta-soterra-150-casas-na-guatemala-e-deixa-cerca-de-100-mortos.ghtml>.


Mudança de era. El País. 08 nov. 2020. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/internacional/2020-11-08/mudanca-de-era.html>.


PARAVICINI, Giulia. ENDESHAW,  Dawit. Ethiopia mobilises for war in northern region. Reuters. 05 nov. 2020. Disponível em: <https://www.reuters.com/article/us-ethiopia-conflict/ethiopia-mobilises-for-war-in-northern-region-idUSKBN27L1L8>.


Storm Eta lashes Nicaragua with rains, deadly mudslides. Al Jazeera. 04 nov. 2020. Disponível em: <https://www.aljazeera.com/news/2020/11/4/storm-eta-lashes-nicaragua-with-rains-deadly-mudslides>.


Vienna shooting: What we know about 'Islamist terror' attack. BBC. 04 nov. 2020. Disponível em: <https://www.bbc.com/news/world-europe-54798508>.

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quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Sistema Eleitoral dos EUA: para entender de vez!

 


Por Pedro Henrique Oliveira*

  Durante as apurações dos votos para decidir qual será o próximo presidente norte-americano, notei movimentação nas redes sociais sobre o quão complexo o sistema eleitoral dos Estados Unidos da América pode parecer. Com isso, segue abaixo um guia básico do processo com o qual os norte-americanos escolhem seu presidente e a função do tão falado colégio eleitoral.

 

 

  Diferente da maioria dos países, onde o voto popular escolhe diretamente o presidente, as eleições americanas possuem, entre o voto popular e o novo eleito, o colégio eleitoral. A explicação começa no Congresso, que é formado por duas partes: a Câmara dos Representantes, onde cada estado pode eleger uma quantidade de representantes equivalente à sua população, e o Senado, onde cada estado elege dois senadores. 


  O colégio eleitoral é baseado em como as pessoas são representadas no Congresso. Por exemplo, o Estado da Califórnia, com 39 milhões de habitantes, possui 53 cadeiras na Câmara dos Representantes e combinando com os dois senadores, a Califórnia tem 55 votos eleitorais. O Alaska, por sua vez, possui apenas uma cadeira na Câmara dos Representantes, dando-lhe apenas 3 votos eleitorais. Dessa maneira, quando um americano vota, está, na verdade, escolhendo em quem seu estado votará. Para vencer, um candidato à presidência precisa conquistar a maioria dos votos eleitorais: 270 de 538.    É este sistema que explica a perca de Hillary Clinton nas eleições de 2016, a candidata venceu em votos populares, mas não venceu em estados chaves para garantir a maioria dos votos do Colégio Eleitoral. 

 

  O colégio eleitoral é formado por membros republicanos ou democratas. Em um estado, se o candidato à presidência ganhar em votos populares, ele recebe todos os votos do colégio independente da formação partidária. Por exemplo, este ano, Joe Biden venceu na Califórnia em votos populares, desta maneira, todos os delegados entregam seus votos ao candidato democrata, mesmo se houver republicanos na formação. Mas Biden, com certeza, não estava preocupado com os resultados na Califórnia, estado com histórico que mostra favoritismo por candidatos democratas. E nem Donald Trump pensou em intensificar sua campanha no Estado de Wyoming, considerado um “Red State”, que costuma eleger candidatos republicanos. Os estados determinantes e onde as campanhas realmente tomam força são os “Swing States”.


  Swing State, ou estado pendular, é o termo utilizado para o estado em que nenhum candidato, republicano e democrata, pode garantir sua vitória, ou seja, não possui a maioria das intenções de voto. Um estado pendular geralmente não tem um padrão de vitórias nas eleições passadas que beneficia regularmente mais o partido republicano ou o democrata, o histórico mostra uma instabilidade na escolha de partido. Em 2016, por exemplo, Hillary Clinton não fez um único evento de campanha na Califórnia, e Donald Trump visitou o Texas somente uma vez, mas ambos os candidatos fizeram mais de 30 eventos de campanha na Flórida, que foi um “Swing State”, ou seja, estado decisivo no resultado da eleição do presidente. Este ano, os estados de concentração de campanhas são Arizona, Iowa, Ohio, North Carolina, Georgia, Florida e Pennsylvania.


  Com o decorrer dos anos, muitos contestaram e fizeram esforços para mudar o sistema eleitoral e banir o Colégio Eleitoral dos Estados Unidos, mas defensores afirmam que esse sistema entrega resultados mais precisos e se encontra enraizado na constituição. 

  

*Pedro Henrique Oliveira é aluno do 4 período do curso de Relações Internacionais do UniCuritiba. 


REFERÊNCIAS:

United States Presidential Election of 2016. Britannica. 2016. https://www.britannica.com/topic/United-States-presidential-election-of-2016


US election 2020: What is the electoral college?. BBC. 2020.

https://www.bbc.com/news/amp/world-us-canada-53558176

Constitution of the United States. United States Senate. https://www.senate.gov/civics/constitution_item/constitution.htm

 

2020    Election. Vox. 2020. https://www.vox.com/2020-presidential-election


WHY does the United States use the electoral college. Kare 11. https://www.kare11.com/amp/article/news/nation-world/how-many-electoral-votes-does-each-state-have-for-2020-presidential-election/507-7b3d52f4-ea66-4bbd-bfcf-3eb29f17586c


13 battleground states to watch in the 2020 election. CBS News2020.https://www.cbsnews.com/amp/news/swing-states-2020-presidential-election/


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terça-feira, 3 de novembro de 2020

Redação Internacional: o Brasil nas manchetes do mundo da semana de 24/10 a 31/10

 


Apesar da tendência de queda no número de casos e de mortes pela pandemia do novo coronavírus, o Brasil vai fechando o mês de outubro beirando os 160 mil óbitos pela doença. Passado o ápice da curva epidêmica – oxalá – as notícias sobre o Brasil na mídia internacional se diversificaram para além da crise sanitária, mas não deixaram de ser, em muitos casos, negativas.



O The Guardian foi enfático ao manchetar a melada contratação do ex-atacante da seleção brasileira Robinho pelo Santos Futebol Clube, time onde o jogador começou a carreira e pelo qual teve três passagens. Condenado por estupro na Itália em 2017, Robinho poder voltar a jogar normalmente num clube que faz campanhas publicitárias em favor dos direitos das mulheres é uma “falta de vergonha”, avaliou o jornal. Guardian lembra da também controversa estadia do brasileiro em Manchester, onde atuou pelo City em 2010, e em Milão, quando jogando pelo Milan em 2013 teria estuprado uma garota de origem albanesa. Trazendo as transcrições das conversas interceptadas pela justiça italiana de Robinho com amigos, a mídia inglesa trouxe palavras como “nojento” para se referir ao comportamento do atleta. 

Associando-se ao “perseguido pela mídia” Jair Bolsonaro, Robinho quis “reparar o dano a sua imagem”, o que não teve bons resultados: o contrato foi suspenso antes mesmo de ele pisar na Vila Belmiro. Se isto pode ser tomado como uma vitória do ativismo feminista que “reacendeu a discussão” sobre estupro no Brasil, frisa o The Guardian, ressalva-se que a decisão foi muito mais influenciada “pelo apelo comercial dos patrocinadores” do que pela obviedade de não se contratar um estuprador condenado. 



A escatologia brasileira persistiu em aparecer na imprensa britânica. O Senador Chico Rodrigues (DEM-RR) foi tratado pelo The Guardian como “aliado de Bolsonaro” após o vexame do parlamentar. Investigado por supostos desvios de verba pública destinada à saúde em meio à pandemia, a Polícia Federal encontrou dinheiro “entre as nádegas” do ex-governador de Roraima numa operação de busca e apreensão na casa do político bolsonarista. A reportagem londrina é bem-humorada e faz vários trocadilhos com a possível origem do dinheiro “sujo” e perpassa por casos de corrupção do governo, apesar das “bravatas” do presidente que insiste que seu governo é ilibado. 



A mídia francesa repercutiu o caso do comissário de bordo da empresa aérea Air France que foi esfaqueado no Rio de Janeiro no bairro de Ipanema. O francês que estava de férias no Brasil foi internado e passou por diversas cirurgias, informou o Consulado Geral da França no Rio juntamente da Secretaria de Saúde da prefeitura em 25 de outubro. A hipótese com a qual trabalha a polícia é de que o criminoso e a vítima se conheceram através de um aplicativo de namoro, mas a motivação da agressão ainda é desconhecida, finalizou o Le Figaro. O francês se encontra em quadro estável de saúde.


Ainda no âmbito da violência, o espanhol El País fez uma extensa reportagem sobre o aumento na compra de armas de fogo no Brasil. Mesclado de depoimentos de armamentistas e de dados sobre segurança pública, a matéria grifa que os assassinatos aumentaram durante a pandemia, mesmo com as restrições que a Suprema Corte impôs a operações policiais em favelas. A promessa de campanha de Bolsonaro de facilitar o acesso às armas de fogo tem se mostrado cada vez mais realizada, mas o “problema crônico” da “delinquência” não se resolveu pela “clara expansão” da indústria bélica brasileira, afirma a matéria.



Na Península Ibérica, Bolsonaro voltou a ser tema na imprensa. O Diário de Notícias, de Portugal, noticiou a prolongada polarização na discussão política brasileira, desta vez levada ao extremo no caso da vacinação contra a covid-19. Desenhando o cenário eleitoral em 2022, o Diário sublinhou a disputa entre o governador de SP, João Dória, com a face mais negacionista do governo federal. Devido ao convênio paulista com a Sinovac, o jornal alerta a apreensão por parte de Bolsonaro de uma provável capitalização política de Dória com o sucesso da imunização em seu estado. A reportagem perpassa pelos desencontros entre o Ministério da Saúde do “desautorizado” ministro Pazuello e o Palácio do Planalto, que deve ser enquadrado pela maioria do STF pelo fim da politização de uma vazia polêmica acerca da obrigatoriedade da possível vacina. 



O nova-iorquino The Wall Street Journal foi na mesma linha do Diário de Notícias. O jornal expressa a preocupação de setores das áreas de saúde nas “duras dificuldades” que o país terá para imunizar seus cidadãos mais vulneráveis, ainda mais diante de uma “amarga batalha política” entre o presidente e o “poderoso” governador de São Paulo, avaliou o WSJ. 



Na capital estadunidense, o The Washington Post falou sobre a crescente onda de ceticismo no Brasil acerca da pandemia e classificou a crise sanitária como uma “guerra de dois fronts”, se referindo ao vírus e a desinformação. Entrevistando especialistas brasileiros, o jornal alerta para as “dúvidas e falsidades médicas” que vem se proliferando no país. Os testes clínicos da vacina chinesa sendo feitos no Brasil podem ser, no entanto, “uma abertura para se alinhar com as evidências científicas”. O esforço dos voluntários da vacina e das forças médicas tem o desafio de conter os 33% dos brasileiros que afirmam ter pouca ou nenhuma confiança nos cientistas. Bolsonaro, para o Post, “enfraqueceu” o apoio a vacina. 



A já familiar associação política dos presidentes brasileiro e estadunidense foi mais uma vez tema do principal jornal norte-americano. O The New York Times explicou “como Trump e Bolsonaro quebraram as defesas da América Latina contra a covid-19”, continente que agora responde globalmente por um terço nos números mórbidos da pandemia.  Numa série de comparações de atitudes tresloucadas dos mandatários, a matéria lembra que os dois recusaram ajuda de médicos cubanos, desacreditaram dos principais órgãos de saúde, “empurraram” a hidroxicloroquina como salvação milagrosa e privilegiaram uma suposta preocupação econômica sobre o sanitarismo. Não é a primeira vez que a mídia americana trata Bolsonaro como um aspirante a “Trump dos trópicos” na série de reportagens “atrás da curva”, em que o jornal examina os “passos em falso, mal-entendidos e sinais de alertas perdidos” que levaram o contágio do coronavírus aos estágios catastróficos nos quais se encontra o Brasil. A leitura é bastante densa na medida em que traça a cronologia dos acontecimentos políticos do país em meio à crise de saúde e a ilustra com fotografias apocalípticas, embora muito bonitas do ponto de vista do fotojornalismo. 


As eleições municipais brasileiras foram tema de análise do jornal argentino Clarín, que observa candidatos de direita moderada como favoritos nas principais cidades. Políticos ligados ao presidente Bolsonaro tendem a se enfraquecer, aponta o portenho, em São Paulo com Celso Russomano e no Rio de Janeiro com o atual prefeito Marcelo Crivella. Nota-se que se trata de dois estados onde atuam politicamente o presidente e seus filhos deputado, senador e vereador. Da mesma forma, frisa Clarín, candidatos petistas vinculados ao ex-presidente Lula tampouco decolaram nas campanhas: “rumo a outro desastre eleitoral” como em 2016. A tendência é a eleição de prefeitos desconectados tanto do bolsonarismo quanto do petismo, mas mantendo a guinada direitista das últimas eleições. Exemplos são Alexandre Kalil em Belo Horizonte e Bruno Reis em Salvador, ambos direitistas ponderados brigados com a família presidencial. A exceção está justamente na capital brasileira mais próxima a Buenos Aires, onde a comunista Manuela D’Ávila desponta como favorita.


“Se com Trump o Brasil já se vê marginalizado, sem ele a situação deve se complicar bastante”. Foi assim que o La Nacion especulou a situação brasileira na política internacional com uma possível eleição do democrata Joe Biden nos Estados Unidos. A mudança na Casa Branca pode afetar a cooperação militar entre os dois países, além de impactar Brasília – bem mais do que Washington – econômica e politicamente. Sem Trump, a Bolsonaro restaria apenas a afinidade com Israel, Hungria e Polônia, distante da União Europeia e dos EUA por questões ambientais e da China por brigas ideológicas. Nacion menciona que uma eventual vitória de Biden não seria um descalabro nas relações bilaterais com o Brasil, mas sim uma importante perda na plataforma política do bolsonarismo. A matéria perpassa pela subserviência do presidente brasileiro aos interesses norte-americanos no continente sul-americano e menciona um certo “pé-frio” de Bolsonaro nas eleições da Argentina – quando apoiou abertamente o derrotado Mauricio Macri –, da Bolívia e na Venezuela. 


Há tempos a brasileira Igreja Universal do Reino de Deus vem enfrentando problemas na Angola. Depois dos africanos expulsarem bispos, pastores e missionários brasileiros dos cultos, a Procuradoria Geral da República Angolana fechou três templos na província de Cuando Cubango em obediência a um processo-crime contra a instituição religiosa. Enfrentando acusações de racismo, associação criminosa, fraude fiscal e expatriação ilícita de capital, as igrejas foram lacradas e quem frequentá-las a partir do encerramento pode ser preso por desobediência. Pastores angolanos comemoraram a decisão que pune as “práticas incorretas da liderança brasileira da igreja”.


A Deutsche Welle fez uma compilação das aparições brasileiras nos mais diversos canais de mídia alemã no mês. A “guerra cultural” do presidente Bolsonaro foi explicada no Deutschlandfunk, que falou da “incapacidade” da atriz Regina Duarte na Secretaria de Cultura e na Cinemateca Nacional. Na economia, a Focus tratou do real brasileiro como a “moeda mais fraca do mundo”. Dos países industrializados ou mesmo emergentes, nenhum teve tamanha perda de valor cambial quanto o Brasil de Paulo Guedes. O Die Tageszeitung foi, talvez, o mais enérgico deles quando diz que a culpa das grandes devastações na Floresta Amazônica é também do presidente brasileiro, que “sistematicamente enfraquece as organizações de proteção ambiental, afrouxa diretrizes e difama sem cerimônia povos indígenas”. Mais leve, o Berliner Zeitung comemorou os 80 anos de Pelé, o “jogador símbolo do Brasil”. O jornal berlinense destaca a homenagem do zagueiro alemão Franz Beckenbauer que chamou o aniversariante camisa 10 de “maior jogador de futebol de todos os tempos”. 

Nem mesmo o aniversário do maior atleta do século XX fez com que o Brasil passasse ileso nos cadernos esportivos e policiais mundo a fora, tamanha a repercussão negativa do caso Robinho. E apesar de um aparente arrefecimento nas tristes estatísticas de infecção e de mortes pela covid-19, outubro de 2020 se despede como o mês da marca em que 160 mil brasileiros morreram por uma mesma causa.


Referências:

BRÉSIL: um touriste français poignardé à Rio. Le Figaro, 25 out. 2020. Disponível em << https://www.lefigaro.fr/flash-actu/bresil-un-touriste-francais-poignarde-a-rio-20201025>> 

DAVIS, Eduardo. Se vota em tres semanas. Clarín, 26 out. 2020. Disponível em << https://www.clarin.com/mundo/elecciones-municipales-hacen-cuesta-arriba-jair-bolsonaro-rio-janeiro-san-pablo_0_47agfjThm.html>>

FIGUEIREDO, Janaína. Si Biden llega al poder, Bolsonaro mantendría el rumbo aislacionista. La Nacion, Rio de Janeiro, 25 out. 2020. Disponível em <https://www.lanacion.com.ar/el-mundo/si-biden-llega-al-poder-bolsonaro-mantendria-nid2489453>

GORTÁZAR, Naiara G. Bolsonaro impulsa uma fiebre de compra de armas de fuego en Brasil. El País. 27 out. 2020. Disponível em << https://elpais.com/internacional/2020-10-26/bolsonaro-impulsa-una-fiebre-de-compra-de-armas-de-fuego-en-brasil.html>>

MCCOY, Terrence. Brazilians volunteer for vaccine trials growing skepticism. The Washington Post. 11 out. 2020. Disponível em << https://www.washingtonpost.com/world/the_americas/brazil-vaccine-trial-volunteers/2020/10/11/e5d1384a-0713-11eb-859b-f9c27abe638d_story.html>>

O Brasil na imprensa alemã. DW. 28 out. 2020. Disponível em <https://www.dw.com/pt-br/o-brasil-na-imprensa-alemã-28-10/a-55422376>

PGR encerra templos da Igreja Universal. Jornal de Angola, 24 out. 2020. Disponível em << https://www.jornaldeangola.ao/ao/noticias/detalhes.php?id=461784>>

PEARSON, Samantha & MAGALHÃES, Luciana. Covid-19 vaccina race sparks political flight in Brazil. The Wall Street Journal, 22 out. 2020. Disponível em << https://www.wsj.com/articles/covid-19-vaccine-race-sparks-political-fight-in-brazil-11603364415>>

PHILLIPS, Tom. “Lack of shame”: Robinho scandal highlights Brazil’s rape crisis. The Guardian. 22 out. 2020. Disponível em <https://www.theguardian.com/world/2020/oct/22/brazil-rape-robinho-santos>

________. Police find  cash hidden between Bolsonaro ally’s buttocks. The Guardian. 15 out. 2020. Disponível em << https://www.theguardian.com/world/2020/oct/15/brazil-police-cash-jair-bolsonaro-ally-buttocks-chico-rodrigues>>

SUPREMO pode obrigar Bolsonaro a tomar vacina contra a covid-19. Diário de Notícias, 27 out. 2020. Disponível em << https://www.dn.pt/mundo/surpremo-contraria-bolsonaro-e-diz-que-vacina-pode-ser-obrigatoria-12967247.html>>












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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Escócia: uma análise do parlamento e dos partidos políticos

Por Amanda Caroline Gonçalves Anzolin e Gabriela Madi Medeiros Barcellos*

    A Escócia é um país insular localizado na Europa, com aproximadamente 5,3 milhões de habitantes, destes sendo 4,4 milhões de nativos escoceses. Segundo o último censo, 62% da população se identifica como escocês, em contrapartida a apenas 8% como britânico, e esse dado demográfico é importante de ser destacado para análise que se segue nesse texto.

    Segundo a tradição escocesa, a fundação do Reino aconteceu no ano de 843, após o líder da tribo celta barrar a invasão do Império Romano no norte da ilha, na altura onde hoje se encontra a Muralha de Adriano, importante símbolo da resistência dos escoceses. As disputas com a Inglaterra remontam ao século XIII, quando Eduardo I tentou coroar na Escócia alguém que defendesse seus interesses. A resistência então foi liderada por William Wallace, famoso guerreiro retratado no filme Coração Valente.

    No início do século XIV, uma nova tentativa de golpe na Escócia com apoio de outro monarca inglês, Eduardo III, resultando em uma nova guerra de independência que terminou com a Casa Stuart chegando ao poder nos anos 1370.

    O cenário então se manteria relativamente estável até a morte de Maria I da Inglaterra em 1553, que não deixou herdeiros, e abriu as portas para a disputa do trono inglês entre católicos – que apoiavam que a rainha escocesa Maria Stuart, prima de Maria I, assumisse o trono – e protestantes – que apoiavam Elizabeth, meia irmã de Maria I, filha de Henrique VIII com sua segunda esposa, Ana Bolena, assumisse. Elizabeth então foi coroada e os conflitos que se seguiram culminaram na morte de Maria Stuart por traição.

    Como Elizabeth também morreu sem deixar herdeiros, o trono inglês passou então para o único possível na linha de sucessão, Jaime Stuart, filho de Maria Stuart, que foi então coroado, em 1603, Jaime VI da Escócia e Jaime I da Inglaterra, mas ambos os reinos permaneceram separados até 1707, quando por questões fronteiriças e comerciais, foi estabelecido o Tratado da União, que abolia ambas as coroas e criava então o Reino da Grã-Bretanha.

    A unificação não foi bem aceita. Desde antes do tratado ser estabelecido, se iniciaram levantes contra o poderio inglês na época. A Revolução Gloriosa de 1688 tirou do poder o católico Jaime II (Stuart), em benefício de Guilherme de Orange, protestante. Começaram então os Levantes Jacobitas, que buscavam restaurar Jaime II, e se findaram apenas em 1746 após a Batalha de Culloden, onde os jacobitas foram massacrados pelos ingleses e a tentativa de levar ao trono o filho de Jaime, Carlos Stuart, também falhou. Desde então, a Escócia e a Inglaterra permanecem unidas como Reino da Grã-Bretanha, e apenas em 1998 o parlamento escocês foi reaberto.

    Apesar de constitucionalmente o Reino Unido ser um Estado unitário desde 1998 com o Scotland Act, o país passou a ter um governo próprio, apesar de limitado. O Parlamento Escocês funciona por conta própria até certo ponto, mas está sujeito à soberania de Westminster, cabendo ao parlamento o poder legislativo. O parlamento é composto por 129 membros, e o Primeiro-Ministro é nomeado pela Rainha – dentre os 129 membros eleitos. Alguns outros membros são nomeados pela Rainha como forma de representar os interesses soberanos do Reino. O quadro político do parlamento é composto por 6 partidos, sendo um de direita, um de centro-direita, um de centro, dois de centro-esquerda e um de esquerda, os quais analisaremos detalhadamente a seguir. 

    Na direita, temos o UK Independence Party Scotland, liderado por David Coburn, um partido populista, voltado ao liberalismo econômico, eurocético, antimigração e contra a independência da Escócia do Reino Unido; na centro-direita temos o Scottish Conservative Party, liderado por Ruth Davidson, também eurocético, contra a independência escocesa e voltado ao liberalismo econômico, entretanto, diferente do UKIP, se trata de um liberalismo conservador, de grande influência Thatcherista. No centro, temos o Scottish Social Democrats, liderado por Willie Rennie, focado na social democracia e social liberalismo, e defende tanto a permanência da Escócia com o Reino Unido, quanto do Reino Unido na União Europeia.

    Na centro-esquerda temos dois partidos: um trabalhista e um nacionalista. O Scottish Labour Party, é liderado por Kezia Dugdale, e se define como uma terceira via, e como os sociais democratas, focados na social democracia e liberalismo social. Também é unionista em ambos os sentidos. Já o nacionalista, Pàrtaidh Nàiseanta na h-Alba, liderado por Nicola Sturgeon, tem um viés nacionalista escocês, pelo separatismo do Reino Unido, permanecendo na União Europeia, também focado na social democracia; e por último, o partido de esquerda, Scottish Green Party, liderado por Patrick Harvie, também independentista escocês e apoiador da União Europeia, mas de viés ecossocialista e populista de esquerda.

    Das 129 cadeiras do Parlamento Escocês, 31 são ocupadas pelo partido de centro-direita, 5 de centro, 78 pela esquerda, sendo 63 delas pelo partido nacionalista, e, por fim, 6 da esquerda ecossocialista. Essa composição demonstra claramente o espírito separatista dos escoceses. A permanência na União Europeia também é uma clara preferência dos escoceses, mostrando que a principal questão é ter uma total autonomia de governo, e fortalecimento da identidade nacional escocesa, sem renunciar à cooperação com os países europeus.

    Os escoceses também podem participar das eleições no Reino Unido, mas como forma de protesto, tradicionalmente se abstém dessa participação, o que por um lado, pode prejudicar a representatividade escocesa dentro do parlamento britânico. O mesmo acontece com os irlandeses.

    Em setembro de 2014 mais uma tentativa de separação foi feita. Um plebiscito foi convocado para responder se a Escócia deveria ser um país independente, e o resultado deveria ser considerado pela maioria simples. O voto não é obrigatório no Reino Unido, mas ainda assim, o plebiscito levou 4,3 milhões de pessoas à votação, demonstrando imensa participação popular. O pleito contou com a participação de 97% dos escoceses aptos à votação.

    Durante a campanha a favor e contra a independência escocesa, alguns aspectos importantes foram levantados: uma vez independentes, a Escócia precisaria de uma moeda nova – ou continuar utilizando a libra esterlina contra a vontade dos ingleses e sem o benefício do mercado único; o fluxo comercial entre os países do Reino Unido seriam agora exportações o que encareceria as transações, enfim, de modo geral os custos econômicos por traz da separação seriam maiores do que a Escócia poderia arcar. Além disso, o Reino Unido expressou que iriam se opor à entrada da Escócia na União Europeia como um país independente – e aqui vale lembrar que os partidos nacionalistas separatistas escoceses são todos a favor da União Europeia – e fora da UE, a Escócia estaria completamente isolada de seus vizinhos.

    Também é importante lembrar que uma possível independência escocesa abriria precedentes para outras separações – como a Catalunha, o País Basco e a própria Irlanda do Norte – de modo que os outros países da Europa, de modo geral, acabam optando por não se envolver muito nas questões separatistas, tentando manter uma postura mediadora e pragmática tanto quanto possível. Em contrapartida, o então primeiro ministro britânico David Cameron era conciliador, propondo uma maior representatividade no parlamento para os escoceses, e aumento da parcela de royalties de petróleo do Mar do Norte (cujas reservas ficam 85% em território escocês). Tendo em vista todos esses aspectos, apesar de manter o espírito separatista, os escoceses decidiram que ainda não era o momento para isso. Até a aprovação do Brexit em 2016.

    Analisando os dados da votação do Brexit no mapa acima, temos os seguintes números: 53,2% dos ingleses, junto com 51,7% dos galeses votaram a favor da saída do Reino Unido da União Europeia; contra 62% dos escoceses e 55,7% dos irlandeses rejeitando o Brexit.

    Com a vitória esmagadora contra o Brexit na Escócia, a chama separatista se acendeu mais uma vez, principalmente considerando que, como parte do Reino Unido, a Escócia também pagaria a conta do processo de saída – custo altíssimo que não escolheram, e dos quais os britânicos parecem começar a se arrepender – portanto os motivos econômicos levados em consideração no plebiscito de 2014 não seriam mais válidos. E agora, sem o Reino Unido para barrar, os escoceses poderiam “retornar aos braços da Europa como um país independente”, segundo declaração da Primeira Ministra escocesa, Nicola Sturgeon, feita em fevereiro de 2020.

    Nesses termos, o primeiro ministro Boris Johnson, do Reino Unido, tem feito o possível para barrar a realização de um novo referendo, fazendo inclusive com que um referendo sem a autorização de Londres seja cogitado. Sturgeon inclusive pretendia realizar um referendo ainda neste ano, mas provavelmente a pandemia do novo Coronavírus impediu qualquer avanço político nesse sentido.

    Por ora, os ânimos continuarão calmos até que o ritmo do mundo volte ao normal, e só então veremos se os escoceses conseguirão enfim a independência pela qual lutam tanto desde o século XVIII.

*Amanda e Gabriela sâo estudantes do 6º período de Relações Internacionais e produziram o presente texto para a matéria de Política Internacional Contemporânea, da Prof.ª Ângela Moreira.

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