sexta-feira, 7 de julho de 2017

Redes e Poder no Sistema Internacional: A Guerra de Guerrilha - um antigo, mas não ultrapassado conceito de guerra


A seção "Redes e Poder no Sistema Internacional" é produzida pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Redes e Poder no Sistema Internacional (RPSI), que desenvolve no ano de 2017 o projeto "Redes da guerra e a guerra em rede" no UNICURITIBA, sob a orientação do professor Gustavo Glodes Blum. A seção busca compreender o debate a respeito do tema, trazendo análises e descrições de casos que permitam compreender melhor a relação na atualidade entre guerra, discurso, controle, violência institucionalizada ou não e poder. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.


A Guerra de Guerrilha – um antigo, mas não ultrapassado conceito de guerra

Tiago Viesba *
Segundo o dicionário Aurélio, uma das definições de “guerrilha” é comportar-se de modo conflituoso. Apesar de simplista, esta pista de definição invoca um elemento básico desse modus operandi, um comportamento que utiliza do conflito para alcançar um claro e estruturado objetivo político, que pode ser tanto a alteração do regime político vigente, quanto à resistência e futura expulsão de um invasor estrangeiro.

Para se compreender a funcionalidade desse exemplo de guerra, é possível buscar na história sua origem e suas diferentes características desenvolvidas de acordo com realidade de cada povo. Muito utilizada e popularmente conhecida no século XX, acredita-se que a Guerrilha tenha surgido em seu aspecto atual no início do século XIX por ocasião da invasão promovida por Napoleão Bonaparte na Península Ibérica, como parte de seu planejamento de expansão do Império que estabelecia na França. A Guerra Peninsular, que Portugal e Espanha tentaram travar contra o imperador francês para defender seus territórios entre 1808 e 1812, teria presenciado técnicas já conhecidas na Antiguidade Clássica, mas que, só então passavam a ser designada enquanto guerrilhas. É possível citar muitos casos ao longo da história em que técnicas semelhantes de combate foram utilizadas, no entanto, o termo só chegou a ser cunhado mesmo naquele início do século XIX. 

A guerrilha caracteriza se por um conflito de longa duração, no qual as ações devem ser constantes. Mao Tse-Tung (1936), um dos principais pensadores de tipos alternativos de combate, afirma que, se “o inimigo avança, retiramos. O inimigo acampa, provocamos. O inimigo cansa, atacamos. O inimigo recua, perseguimos”. Ainda segundo Mao, a guerra de guerrilha pode ser concebida como parte de um continuum, onde os guerrilheiros se aproveitam das condições locais para obter vantagem sobre as forças invasoras, mantendo assim, um clima de constante e sucessiva inquietação.

Durante a metade do século XX a guerrilha foi utilizada principalmente na Europa dentro do contexto das duas Grandes Guerras, porém, no período posterior à Segunda Guerra Mundial, as guerrilhas se propagaram principalmente pela África, Ásia, América Central e América do Sul. Nas décadas de 1950, 1960 e 1970, ocorram principalmente através de movimentos de libertação nacional contra nações colonizadoras ou movimentos revolucionários contra governos ditatoriais. 

Um dos principais autores dessa época foi Ernesto “Che” Guevara, que teorizou a respeito da guerrilha revolucionária, definindo-a como a vanguarda do povo em luta (GUEVARA, 1982). Os sinais de enfraquecimento dos impérios coloniais, somados ao apoio retórico da então URSS às lutas nacionalistas, estimularam as lideranças africanas e asiáticas a buscarem o caminho da independência. Muitos países do denominado “Terceiro Mundo” recorriam a tática de guerrilha para enfrentar as tropas colonialistas. Dentre os exemplos mais marcantes desse período temos a Revolução Chinesa de 1949 e a Cubana de 1959, a Guerra do Vietnã de 1960 e Invasão Soviética ao Afeganistão em 1979. Devido ao alto custo e o prolongamento excessivo deste último conflito, gerou-se um resultado malogrado para aquela superpotência da Guerra Fria. A intervenção soviética no Afeganistão costuma ser comparada em resultados ao que foi, para os EUA, a Guerra do Vietnã.

Dessa forma, entende-se que as táticas de guerrilha são baseadas em inteligência, emboscada, sabotagem, com o objetivo de minar as autoridades através de baixas, em um conflito de pequena intensidade e longa duração. Estas táticas podem ser bem-sucedidas tanto contra regimes nacionais, como contra forças invasoras externas, como demonstrado durantes os conflitos já citados. Uma guerrilha prolongada e ativa pode aumentar o custo de se manter uma ocupação militar ou uma presença colonial, acima do planejado pela nação estrangeira. Contra um regime local, os guerrilheiros podem tornar a ocupação impossível com ataques e ações de sabotagem, e mesmo podem lançar mão de uma combinação com forças estrangeiras para derrotar seus inimigos no campo de batalha convencional local.

Utilizando-se de pequenos grupos e ataques surpresas, os guerrilheiros buscam abater o moral do inimigo, infligindo baixas e derrotas humilhantes, e mantendo sempre uma forte pressão psicológica contra a tropa adversária. As ações guerrilheiras devem ser planejadas para infligir as maiores perdas ao inimigo, com o mínimo de perda material e em número de vidas por parte dos guerrilheiros. 

A intenção dos ataques é também política, com o objetivo de desmoralizar as populações que são seu alvo e/ou seus governos, ou incitar uma reação popular para forçar um maior apoio a favor da guerrilha. Um cuidadoso planejamento antecipado é necessário para as operações, e detalhes como a capacidade de reação inimiga, armas a disposição e rotas de aproximação e fuga, não podem ser desprezados. Ainda que aconteça de forças guerrilheiras serem forçadas a travarem uma batalha indesejada por causa de uma varredura do inimigo, a maioria do tempo é gasto em treinamento, infiltração, propaganda cívica e doutrinação, além de construção de fortificações, ou armazenamento de suprimentos, além da coleta de informações.

As relações com as populações civis são influenciadas pelo fato de a guerrilha operar entre uma população hostil ou amigável. A população amigável é favorável aos guerrilheiros, proporcionando abrigo, suprimentos, financiamento, inteligência e recrutas. A base "do povo" é, portanto, a chave da sobrevivência do movimento de guerrilha. Porém, as forças guerrilheiras podem estar travando uma guerra de libertação, e isso pode ou não resultar em um apoio suficiente por parte dos civis afetados. Outros fatores, incluindo ódios étnicos e religiosos, podem fazer uma simples reivindicação de libertação nacional insustentável. Independente da exata persuasão ou coerção utilizada pela guerrilha, as relações com as populações civis são um dos fatores mais importante no seu sucesso ou fracasso.

Além disso, os guerrilheiros não são reconhecidos como combatentes lícitos pela Convenção de Genebra, por não usarem um uniforme militar (usam roupas civis na maioria das vezes e se misturam com a população local), ou os seus distintivos e emblemas de uniforme não podendo ser reconhecidos como tal por seus oponentes. Ou seja, a guerrilha envolve um grupo de indivíduos armados, que operam à semelhança de uma unidade militar, atacam preferencialmente forças militares inimigas, conquistam e mantêm territórios – mesmo que temporariamente – e, ao mesmo tempo, exercem algum tipo de soberania ou controle sobre uma área geograficamente definida e sobre sua população, nos denominados santuários (refúgios estratégicos). 

Ainda assim, a guerrilha ainda é muito confundida com grupos terroristas, que na verdade podem utilizar se de atos guerrilheiros, mas que, de fato, são um outro tipo de combate armado. Em contraste com os guerrilheiros, os terroristas não operam em terreno aberto como unidades armadas, não tentam conquistar ou manter territórios (com exceção dos que atuam regionalmente), evitam deliberadamente o engajamento em combates com forças militares inimigas e raramente exercitam qualquer tipo de controle ou soberania sobre territórios e populações. Um ponto importante é que os movimentos puramente guerrilheiros têm uma maior preocupação com a legitimidade de sua causa e atos, por conta da necessidade vital do apoio popular e internacional a sua causa, o que não ocorre com os grupos terroristas.

Portanto, conclui-se que, diante das crescentes tensões étnicas, religiosas, políticas e até ambientais, espalhadas pelo globo, que geram opressão e injustiça, se tem um terreno fértil para continuação ou surgimento de grupos insurgentes, que na luta do fraco contra o forte se utilizarão da guerra de guerrilha para alcançar seus objetivos. As condições ambientais, tais como a crescente urbanização e o acesso fácil à informação e a atenção da mídia também complicam a cena contemporânea. Atualmente, as insurgências modernas e outros tipos de guerra de guerrilha podem fazer parte de um processo integrado, completo, com doutrina, organização, competências especializadas e capacidade de propaganda sofisticados, atuando principalmente na área urbana, onde os guerrilheiros podem misturar se com as populações civis e não civis (a chamada guerrilha urbana). 


Referência utilizada


GUEVARA, Che. Sierra Maestra: da guerrilha ao poder. São Paulo: Edições Populares, 1982. (2ª. ed.).


* Tiago Viesba é acadêmico do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba, e membro dos Grupos de Pesquisa "Redes e Poder no Sistema Internacional" e "Conflitos no Oriente Médio, África e Ásia Central".

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