quinta-feira, 1 de março de 2012

Conflito civil e seus condicionantes: um exame comparativo entre as experiências Somali e Queniana.


Por Gisele Passaura

         Dois vizinhos cujas realidades não poderiam ser mais distintas: de um lado a Somália, país considerado por muitos anos o mais falido do mundo e que há décadas encontra-se imerso em um interminável conflito civil; na direção oposta, o Quênia um dos poucos exemplos de estabilidade da região do nordeste africano. Como compreender, entretanto, que Estados tão próximos possam ter trilhado caminhos tão diversos?
        Para explicar o advento de conflitos civis na África, não dificilmente são citadas a herança colonial, as tensões entre diferentes etnias, as disputas por território assim como o choque entre o tradicional e o moderno.
A colonização pode ser posicionada como um agravante, uma vez que ao moldar os Estados africanos, falhou em considerar as especificidades étnicas de cada localidade e, em muitos casos, após a partilha uniu sob um mesmo teto, tribos historicamente rivais e as fez compartilhar e até mesmo disputar recursos. Essa assertiva, entretanto, fracassa em explicar a realidade queniana, já que em ambas as situações (Somália e Quênia) a colonização foi europeia, e mais especificamente a Britânica (se considerada a parcela norte da Somália). Nesse afunilamento, todavia, não se verificou no caso queniano, um amplo choque (que induzisse à guerra civil) entre as dezenas de origens étnicas. Já na Somália, uma única linhagem caminhou para disputas generalizadas.
As rixas territoriais assim como disputas por recursos, tampouco, podem ser consideradas como causas diretas do conflito civil, pois os dois Estados possuem territórios com parcos recursos. Muito embora essas querelas sempre tenham sido realidades no Quênia, nunca se espalharam a nível nacional, causando a falência como no caso somali. A maioria dos exemplos quenianos, inclusive, evidenciou que as disputas não eram por terras, mas sim por desavenças muitas vezes pessoais ou familiares.
O choque entre o tradicional e o moderno em um primeiro momento pode até ser evidenciado como um possível motivador de conflitos civis, já que em ambos os casos, a população originalmente nômade, encontrou dificuldade em aceitar as delimitações territoriais. Em sendo pastores em sua maioria, estavam acostumados a transitar entre as terras comuns, assim como utilizar os recursos locais.
Com o advento do Estado moderno e o estabelecimento da propriedade privada, grande parcela dos novos cidadãos não compreendia o porquê de ser obrigada a abandonar tradições milenares assim como malograram perceber a utilidade de se pagar impostos. Essa realidade apresenta-se como verdadeira em ambas as sociedades, no entanto, apenas na Somália é considerada um condicionante direto da guerra civil, já que no Quênia não se verificou um conflito em termos nacionais.
Mas então, qual o segredo do Quênia? Algumas razões podem ser apontadas: uma percentagem maior da classe média se comparada à realidade Somali; uma fragmentação étnica demasiada; a noção de identidade ser diferenciada nos dois países e principalmente a estabilidade política.
Quênia, diferentemente de seu país vizinho, possui uma forte presença da classe média e esta acabaria tendo perdas substanciais em caso de um conflito civil, logo tende a apoiar a paz.
Sobre a fragmentação, no Quênia nenhuma etnia é grande ou homogênea o suficiente para coordenar ou mesmo ter uma probabilidade plausível de vitória para se engajar em um conflito generalizado. Por ser deveras dividida, a população não se identifica intensamente com sua etnia, caso justamente contrário da Somália, em que a noção de individualidade está, intrinsicamente, associada a seu clã. As aspirações pessoais do somali são as mesmas de seus consanguíneos sendo possível fazer a conexão do motivo pelo qual o Somali é fortemente engajado às atividades de sua família, mesmo em termos de conflitos, enquanto que o queniano não possui semelhante apelo à sua linhagem.
Talvez o grande responsável pelo advento de conflitos civis, todavia, seja a constante troca de regimes. A Somália, por exemplo, desde sua independência passou por diversas experiências políticas, até mesmo socialista, antes de entrar em colapso em 1991. Já o Quênia experimentou um único regime de 1978 à 2002. Independente da qualidade do governo, os quenianos, ao menos, não vivenciaram constantes transformações políticas.
Os casos de Somália e Quênia, vizinhos e com grandes similaridades, evidenciam que particularidades de cada nação interferem diretamente no advento ou não de guerras civis. As causas para o conflito generalizado, além de não serem assim tão evidentes, não podem, então, ser apresentadas como comuns aos países do nordeste africano.

Gisele Passaura é acadêmica do oitavo semestre do Curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba.

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