domingo, 8 de março de 2020

Acontece no UNICURITIBA: LANÇAMENTO DO LABORATÓRIO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS







Aconteceu nesta quinta (05/03) a inauguração do primeiro Laboratório de Relações Internacionais do UniCuritiba, o LABRI. 


       O lançamento do laboratório foi marcado com explicações sobre o seu funcionamento geral, feitas pela Coordenadora Patrícia Tendolini e explicações sobre o trabalho inicial do laboratório - que contará com um Núcleo de Migrações - realizadas pela professora Michele Hastreiter. Além disso, compareceram Ana Bela Batista (Coordenadora do Centro Estadual de Informação do Migrante) e João Guilherme de Mello Simão (Coordenador Estadual de Políticas Públicas para Migrantes, Refugiados e Apátridas do Estado do Paraná). Os dois falaram a respeito da Migração sob o aspecto das políticas públicas e do trabalho do CEIM (Centro de Informação ao Imigrante, Refugiados e Apátridas no Estado do Paraná). 

     O laboratório servirá, de modo geral, para que os alunos do curso possam vivenciar experiências práticas dentro do ambiente das Relações Internacionais. Ao todo, estão programadas quatro áreas de atuação: Migrações, Comércio Exterior, Simulações e Análise de Cenários.

   Neste semestre, começam as atividades do LABRI, com a atuação no setor de Migrações. Para estabelecer a programação e objetivos do LABRI com as migrações, a professora Michele estabeleceu uma parceria com o CEIM e passou por um tempo de experiência na organização. A partir disso, o LabRi atuará em duas esferas: a primeira, com os alunos da Disciplina de Direito Internacional Público desenvolvendo um aplicativo voltado para imigrantes e refugiados; e a segunda, com alunos da faculdade realizando atendimentos a imigrantes e refugiados, para a regularização de sua situação migratória no Brasil.

     Para o atendimento aos refugiados, está aberto um edital (até dia 09/03) para seleção dos alunos. Os interessados deverão seguir as especificações do edital lançado pela coordenação do curso.

      O Laboratório de R.I. ganha, assim, vida para cumprir com seu slogan “um novo espaço, para um novo mundo”.
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sexta-feira, 6 de março de 2020

Resumão: O que aconteceu enquanto você estava de férias?




Por Ligia Penia, Manuela Paola, Maria Leticia Cornassini e Vinicius Canabrava



O relaxamento acadêmico do final do ano foi um mergulho entre várias tensões políticas: um quase “fim do mundo” nuclear, um possível fim virótico, repressões religiosas, protestos em Hong Kong, Líbano, Índia, perfeito para um post polêmico com updates de algumas situações de grande impacto que aconteceram no período.

CORONAVÍRUS
O coronavírus, vírus que está assustando a comunidade global como a mais nova emergência internacional, é uma classe virótica antiga que afeta a capacidade respiratória; apesar de antigo, foi nos últimos meses que a proporção e evolução de contágio se intensificou, vinda de uma variação originada na China, a partir do contato com algum animal. Foi no início deste ano, entretanto, que a primeira morte ocorreu.
Hoje, o contágio pode acontecer a partir do consumo de algum animal silvestre, mas também a partir das pessoas infectadas. As pessoas mais vulneráveis são as com mais idade e algum outro problema de saúde, o que as faz ficarem mais frágeis.
Relativas ao vírus, entretanto, estão diversas fake news e desproporcionalidades; vários casos de violência estão acontecendo às pessoas com traços orientais, com discursos de ódio e violência física, que foi o que motivou a criação da hashtag #JeNeSuisPasUnVirus (Eu não sou um vírus), uma vez que a epidemia -  apesar de ter se originado na China – não pode servir para desumanizar nacionais chineses, além dos traços serem confundidos com pessoas de outras origens (Vietnã, Japão, Coréia…).

EUA X IRÃ
          Logo após a virada de 2019 para 2020, o mundo ficou paralisado com a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial - o que, de fato, é muito difícil de acontecer. No dia 2 janeiro, um ataque aéreo foi autorizado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para acontecer em Bagdá, na capital do Iraque. O ataque ocasionou a morte do general Qassem Soleimani, um dos homens mais poderosos do Irã. O general comandava a força Al Quds, uma unidade especial da Guarda Revolucionária, o que significava que Soleimani estava por trás de toda estratégia geopolítica e militar do país. As relações entre os dois países esfriaram ainda mais após esses assassinato, levando o aiatolá Ali Khamenei - um dos principais líderes iranianos - falar sobre vingança. A retaliação foi uma série de mísseis em bases aéreas americanas no Iraque, sem vítimas fatais.

BREXIT
          O BREXIT - saída do Reino Unido da União Europeia – é uma história longa, que começou pouco de três anos atrás. O Reino Unido ingressou no bloco em 1973, quando ainda era chamada de Comunidade Econômica Europeia. Em 2016, 52% da população decidiu, em um plebiscito, que o país deveria deixar o bloco. De acordo com o Tratado de Lisboa, o desligamento deve ser feito 2 anos depois do comunicado. No entanto, em 2019, a primeira-ministra Theresa May ainda estava fazendo acordos de saída, quando 3 deles foram rejeitados pelo Parlamento do Reino Unido. Antes de conseguir um acordo, May deixou o posto de primeira-ministra. Em seu lugar, Boris Johnson foi eleito, prometendo conseguir o Brexit com ou sem acordo. Coincidência ou não, o Parlamento Britânico aprovou uma lei que impedia a saída da União Europeia sem um acordo. O bloco deu um novo prazo para o desmembramento: 31 de janeiro de 2020. Como os parlamentares não chegavam a um consenso sobre a polêmica, Johnson fez uma jogada audaciosa: convocou novas eleições gerais. Vencendo com a maioria avassaladora, ele colocou o parlamento ao seu lado e aprovou o acordo de retirada. Até o dia 31 de dezembro de 2020, ocorrerá o período de transição, necessário para que o Reino Unido e a União Europeia negociem um novo acordo de livre comércio. Durante esse tempo, o país seguirá as mesmas regras da UE, assim como sua relação comercial permanecerá a mesma.

IMPEACHMENT DO TRUMP

Teve fim o processo de impeachment do Presidente Donald Trump. Em dezembro, a Câmara dos Deputados dos EUA aprovou que duas acusações fossem feitas contra ao Presidente norte americano, uma por abuso de poder, e a outra por obstrução de Congresso. Figurando como o terceiro presidente do país e ser réu de um processo de impeachment, Trump foi acusado de pressionar o Governo da Ucrânia a investigar seu possível adversário nas eleições de 2020 e de proibir algumas pessoas a prestar depoimentos ao Congresso. Contudo, quando o processo prosseguiu para o Senado norte americano, muitos já sabiam que o resultado seria favorável ao atual presidente. De fato, o Presidente Trump sai deste processo mantendo seu cargo e com as acusações contra ele derrubadas. Muitos apontam, por outro lado, que o processo pode trazer consequências negativas para a tentativa de reeleição de Trump.

HONG KONG

Em Hong Kong a tensão começou ainda em abril de 2019 quando o projeto de lei que propôs possível a extradição de pessoas condenadas por certos crimes para a China. O medo, desde então, foi da forte repressão e dos julgamentos arbitrários e injustos. O projeto foi retirado, mas as manifestações continuaram, em busca de outros pontos, tal como a possibilidade de escolha do chefe executivo localmente.
Hong Kong tem suas peculiaridades por conta de ter sido, por longo tempo, colônia britânica desvinculada da China. Apesar de hoje estarem vinculados novamente, o sistema ainda é diferente, com maiores liberdades e direitos, tudo isso dentro do prazo estipulado na união acordada, sendo que assim que ele acabar, estarão vinculados inclusive politicamente. O prazo ainda não acabou, o que não impediu o governo chinês de propor o projeto, e de ser o responsável por escolher o líder político na região.
Fato é que esse jogo de controle e liberdade esteve, apesar de pouco falado, movimentando milhares de pessoas em protestos e muitos confrontos.




INCÊNDIO NA AUSTRÁLIA

Os incêndios na Austrália foram alarmantes: pela extensão da destruição, totalizando uma área maior que a de vários países, morte de pessoas e 1 bilhão de animais, além da destruição de casas, redes de energia. Os incêndios começaram em setembro, com a combinação da alta temperatura, da seca e fortes ventos. Mesmo as cidades não afetadas foram tomadas pela fumaça e cinzas. Diversas personalidades fizeram grandes doações para ajudar na contenção do incêndio. Os incêndios continuam e podem ser acompanhados a partir da plataforma “MyFireWatch”  criada a partir da parceria entre o Landgate (departamento do governo australiano voltado à terra) e a universidade Edith Cowan.

OMC
Dezembro marcou o início das férias e também o fim da atuação -sem tempo definido para retorno- do Órgão de Apelação da Organização Mundial do Comércio. O encerramento das atividades vem após um longo período de turbulência dentro da Organização, em que uma das maiores partes, os Estados Unidos vem fazendo ataques à sua existência desde 2017, o início do mandato Trump. Apesar de outros  mecanismos de solução de controvérsias da OMC continuarem funcionando, o fechamento do Órgão de Apelação põe fim à possibilidade dos países de levarem suas causas à segunda instância.
 O fechamento, ao contrário do que pode se pensar, não decorreu de problemas financeiros, e sim, pela falta de juízes. Ocorre que, mesmo tendo espaço para a contratação de 7 juízes, são necessários somente três juízes para que os julgamentos possam ser realizados. Era este o número de magistrados na composição do Órgão de Apelação, mas chegou ao fim, em dezembro, o mandato de 2 dos 3 juízes. Todas as sugestões de nomes para novos juízes, que deveriam ocupar todos os 7 lugares do Órgão de Apelação, vinham sendo vetadas pelos EUA desde 2017. Como a OMC funciona pela regra de consenso de seus membros, os nomes não puderam ser aprovados por conta dos vetos estadunidenses. Como consequência, o Diretor Geral da OMC, Roberto Azevedo, teme que os países passem a tomar medidas unilaterais, tornando a OMC obsoleta.

ÍNDIA - LEI DA CIDADANIA

A Índia é o lar de diversos estrangeiros de países próximos, muitos que foram para lá para fugir de perseguição religiosa, vindos de Bangladesh, Afeganistão e Paquistão, que receberão cidadania desde que se identifiquem entre religiosos que seguem o hinduísmo, cristianismo e outras que acabam sendo minorias nesses países. O questionamento, entretanto, é se a fé pode ser considerada um requisito de cidadania, o que não deveria acontecer considerando a constituição do país. O fato se torna mais preocupante quando a religião islâmica não é incluída na lei, sendo que também sofrem perseguição sendo grupos minoritários no Paquistão e em Myanmar, por exemplo - e por isso foi considerada discriminatória. Fato é que a implementação da lei provocou diversos protestos e motivou cenas de violência contra muçulmanos em diversas cidades: muitas pessoas foram espancadas e quatro mesquitas foram queimadas em Délhi, a capital do país. O conflito é consequência da grande polarização do país, e não foi resolvido até agora.

MORTE DE MUBARAK

          Após passar várias semanas na UTI, o ex-presidente egípcio Hosni Mubarak veio a falecer no dia 25/02/2020, com 91 anos.
Mubarak governou o Egito de forma ditatorial por 30 anos, de 1981 a 2011, utilizando de um Estado de Emergência para restringir o direito dos cidadãos e impedir a ação de militantes islâmicos. Dentre seus feitos, o ex-ditador reconstruiu as relações diplomáticas com os países árabes, que foram quebradas quando Egito e Israel assinaram o acordo de paz. Além disso, Mubarack mantinha relações econômicas e políticas com os Estados Unidos e Israel, o que o fez ser odiado no Oriente Médio e sofrer alguns atentados terroristas, que ele utilizava para justificar seu governo autoritário. Enquanto esteve à frente do Estado egípcio, a situação da população não melhorou, a pobreza persistiu e seu partido foi acusado de corrupção e manipulação das eleições de 2010 no país.
Com isso, em 2011, o povo se revoltou, inspirado nas grandes manifestações que estavam ocorrendo no mundo árabe, como na Tunísia. Mubarak não acreditou que os protestos trariam resultados e os reprimiu fortemente. No entanto, ao perder grandes aliados, como os Estados Unidos, que passou a apoiar as demandas populares, o então presidente renunciou. Mais tarde, em agosto do mesmo ano, Mubarak foi preso e na época já doente, respondia pelos crimes de conspirar para matar manifestantes. Por fim, Hosni Mubarak foi absolvido de seus crimes, após o processo ser abandonado em 2014 e o Egito viveu um curto período de democracia, em 2012, com Mohamed Morsi, vencendo as eleições, porém o poder foi tomado por um militar, Abdel Fattah al-Sisi, que comanda o país até hoje.
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terça-feira, 3 de março de 2020

Me indica um livro: O Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago





Por Manuela Paola



Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago,  pode ser considerado um dos livros mais conhecidos do mundo, assim como Cem anos de solidão e Anna Karenina. No entanto, sua história e a forma como ela é contada está bem longe de ser ordinária. Os personagens não têm nome e sua descrição se resume a apenas um fato: o médico, a mulher do médico, o primeiro cego, e por aí vai. No começo, pode parecer um pouco confuso, mas conforme a leitura anda, nota-se que essa lacuna é essencial para o desenvolvimento da história. Esta autora, particularmente, sempre gostou de saber o nome dos personagens, mas surpreendeu-se quando apreciou a falta deles. Sinceramente, deixar esse mistério foi uma jogada surpreendente de Saramago - com certeza, é um dos fatores que prende o leitor ao livro.

A cegueira mencionada no título da obra é a base do enredo. O primeiro cego, um dos personagens, encontra-se de repente numa total branquitude - diferente da escuridão que imaginamos ao falar de cegueira. A partir dele, outras pessoas são “contaminadas” e também param de enxergar, como o homem que ajudou o primeiro cego e o médico que o atendeu. Quando uma quantidade considerável de pessoas não mais enxerga, o governo fica alarmado e decide colocá-las em quarentena, assim como aquelas que entraram em contato com os cegos. Mais preocupados em parar a disseminação da “doença” do que em descobrir a causa, as autoridades isolam os infectados em um manicômio abandonado, sem nenhum auxílio médico, contando apenas com a própria noção de sobrevivência. Curiosamente, uma das personagens escapou do destino que assolou a todas as outras: a mulher do médico é a única que enxerga. Para não se separar do marido, ela deixou que todos os outros acreditassem que também tinha perdido sua visão. Dessa forma, ela foi uma personagem essencial na sobrevivência de tantos outros.

Em todos os capítulos, José Saramago mostra como o egoísmo e a maldade podem aflorar em uma situação única, assim como o instinto de sobrevivência e proteção de outros seres humanos. A selvageria é uma constante em determinados personagens e nos lembra de que nunca conhecemos alguém verdadeiramente. Mas mais importante que isso, a situação em Saramago colocou seus personagens principais fez com que a união em prol do bem de todos prevalecesse, causando a sua sobrevivência.

A vida imita a arte é uma frase comumente usada para designar uma situação real que já foi descrita anteriormente em algum livro, filme ou até mesmo pintura. O paralelo com a realidade e a obra de José Saramago é bem clara. No começo do ano, o ressurgimento de um conhecido vírus chamado coronavírus fez com que o governo chinês isolasse uma cidade inteira - Wuhan - em quarentena. Tem-se pouca informação da quarentena, logo, é interessante observar o modo como as notícias sobre a doença atingiram as pessoas. Algumas entraram em pânico, comprando máscaras e álcool em gel; outras deixaram aflorar o mais puro racismo que existe dentro de si. Pelo simples fato de que o vírus se originou na China, pessoas desta nação passaram a ser alvo de xenofobia em tantos outros países. Como na famosa obra, o pânico transformou e aflorou nas pessoas o que nelas há de pior. 
O brilhantismo com o qual José Saramago escreveu Ensaio sobre a cegueira se estenderá por inúmeras gerações. Mesmo escrito em 1995, a obra permanece atual, nos permitindo fazer diversos paralelos com o contemporâneo. Esta autora espera poder fazer, também, um paralelo com o final do livro. Boa leitura!
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Em pauta: Coronavírus e xenofobia




Medo, aversão ou profunda antipatia. Desconfiança em relação às pessoas que possuem uma cultura, raça, religião e/ou nacionalidade diferente. Compartilhando diversas características similares ao racismo, a xenofobia pode se manifestar de diversas formas envolvendo as relações e percepções do “endogrupo” em relação ao “exogrupo”, incluindo o medo de perda de identidade, suspeição acerca de suas atividades, agressão e desejo de eliminar a sua presença para assegurar uma suposta pureza.

O fenômeno da xenofobia está de volta. Ou ele nem sequer foi superado? Normalmente só se discute sobre isso quando um perigo emergente já se torna tão perceptível que a situação possa vir a piorar. Até então, costuma-se acreditar que esse problema seja coisa passada e que a discriminação nos últimos anos tenha diminuído. Mas a realidade, que novamente confirma o caráter contraditório da existência humana, demonstra que a história não necessariamente ruma numa direção positiva, como se quer acreditar, mas que avanços contrastam com recuos. Idéias que se tinha como fora de moda, absurdas e retrógradas, podem novamente vir a ser atuais e modernas. Isso significa que as idéais não morrem pelo simples decurso do tempo e que, em conformidade com o espírito de uma época, podem retornar.[i]

Depois (ou em conjunto) dos episódios de preconceito e xenofobia aos haitianos e, mais recente, aos venezuelanos, nos deparamos agora com outras vítimas: os asiáticos. 

Isso ocorre porque epidemias, doenças contagiosas e crises sanitárias são momentos que revelam o racismo, o estigma e os discursos colonialistas que se perpetuam no mundo. Essas situações provocam medo, especialmente quando causadas por um novo patógeno, como o coronavírus. Entretanto, muitos destes temores não possuem qualquer base na ciência ou na saúde, mas sim no medo do desconhecido, expondo, não raramente, uma profunda e enraizada xenofobia. 

Infelizmente, não é novidade essa relação entre as epidemias e os comportamentos xenofóbicos. Já no século XV encontrava-se discriminação devido à peste bubônica, do mesmo modo como ocorreu posteriormente com a cólera, com a varíola, com a SARS, com o ebola, com a gripe aviária e suína. Em todos os casos há uma particularidade em comum: a presença de um “bode expiatório”, o qual leva a culpa pela difusão da doença.

Há quem diga que a história das epidemias mostra que, diante da dificuldade de as pessoas lidarem com o inexplicável, já sempre uma necessidade em nomear culpados, na tentativa de buscar razões morais que expliquem o adoecimento.

Em geral, os bodes expiatórios costumam ser aqueles que não estão bem integrados à comunidade, pessoas de outras nacionalidades. Essa busca por um “culpado” aumenta ainda mais quando a epidemia se dá em uma localização geográfica bem definida, acarretando em reações bastante agressivas contra as pessoas desta localidade. Enraizadas nessas reações, há algo muito familiar e profundamente insidioso: os insultos feitos contra uma suposta selvageria, atrasado ou imundice dos estrangeiros como pretexto para a exclusão, ejeção ou eliminação deles. Assim, os estereótipos sobre o outro tendem à hostilidade ou desdém, transformando-o exótico, distante ou até monstro.

No que tange os asiáticos, a expressão “perigo amarelo” é utilizada desde o século XIX para caracterizá-los como “ameaça” às nações ocidentais. Além disso, há pelo menos 30 anos, a imprensa liberal ocidental recorre à expressão “infestação” ao falar sobre a produção de manufatura barata oriunda, principalmente, da China – como quem quer afirmar que os chineses estão “contaminando o mundo” de alguma forma.  

Dentre as principais calúnias dirigidas aos chineses – para que pareçam estranhos, inassimiláveis e inadmissíveis aos países “civilizados” – são aquelas relacionadas à comida e higiene. Inclusive, já foram rotulados como “comedores de ratos sujos e pagãos”, no início do século XIX, sendo utilizados até em anúncios de venenos para pragas (“Rough on Rats”), que sugeriam ser quase tão eficazes no controle aos animais quanto o povo chinês faminto.  Enquanto isso, a mídia pregava e expandia esse estereótipo, elevando-o a percepções monstruosas e temerosas, influenciando até mesmo assassinato em massa em Los Angeles, em 1871[ii]. Na ocasião, mais de 500 pessoas invadiram o bairro de Chinatown matando, ao menos, 20 homens enforcados e, posteriormente, mutilando seus cadáveres. Anos depois, em 1882, a raiva sinofóbica nos Estados Unidos levou à aprovação da Lei de Exclusão Chinesa, proibindo novos imigrantes da China e tornando ilegal que os já existentes se tornassem cidadãos. Tal lei só foi revogada em 1943, pela Lei Magnuson, a qual permitia a cota de entrada de (apenas) 105 chineses ao ano.

A atual repercussão do coronavírus na China reabre esse debate que, em última instância, é sobre produção de conhecimento e poder. Assim, aparecimento de uma epidemia é um forte modo de revelar o totalitarismo e doença que ronda a sociedade, nas suas mais diversas formas. Alimentado também pela desinformação, o preconceito vêm se alastrando ainda mais, além de levar a ações infundadas, como deixar de consumir produtos e comidas típicas do país, bem como evitar o próprio contato com pessoas com traços asiáticos.

Então, a ignorância (no seu mais puro significado de falta de conhecimento), associado à disseminação de falsas notícias pelas redes sociais, levantou o clamor de fechar as fronteiras para toda e qualquer pessoa chinesa. Seria como deixar os “ratos” do lado de fora, para que apodreçam e morram, sem qualquer direito à defesa e cuidados. Sem qualquer solidariedade, compressão ou até mesmo empatia – aquela mesma que ocupa tantas frases motivacionais (e hipócritas) na geração da “gratidão”.

Destaca-se, entretanto, que tal desconhecimento – e falta de interesse em conhecer – leva à discriminação não apenas dos chineses, apontados pela sociedade como culpados pelo vírus, mas também a toda e qualquer outra pessoa “com os olhos puxados”. Chineses, japoneses, coreanos, taiwaneses, tailandeses, mongóis e tantos outros, bem como seus descendentes de primeira, segunda, terceira geração... Ninguém fica imune ao veneno dos insultos, que veem nas redes sociais como uma “arena”.

Enquanto isso, o número de casos de preconceito não param de crescer, levando asiáticos de todas as origens a até brincarem com a irritante e constante suspeita que os permeiam; muitos deles planejam tossir alto em público apenas para “ver quem é racista”.

Na Malásia, na Coreia do Sul e em Singapura, por exemplo, foram lançadas petições buscando banir a entrada de cidadãos chineses em seus países[iii]. Já na Itália, há relatos não só de ameaças a chineses, mas também bares que proibiram a entrada deles, alegando inexistentes “medidas de segurança internacionais”[iv]. Países como França, Reino Unido, Canadá e Estados Unidos também tiverem incidentes de racismo e xenofobia.

Já no Brasil, não é diferente; aquela ideia de país cordial e receptivo só funciona na literatura. Por aqui, já houve registro de preconceito a uma descendente de japoneses (Marie Okabayashi de Castro Lemos, 23) em um metrô do Rio de Janeiro, à imigrante chinesa e professora de mandarim (Si Liao, 32) e, até mesmo, segregação em condomínios comerciais. Sobre estes últimos casos, foram noticiados os edifícios Berrini 550 e Meridian, ambos na capital paulista, os quais solicitavam que os asiáticos utilizassem um elevador privativo, bem como evitassem contato com outras pessoas durante duas semanas. Nem mesmo o Instituto Sociocultural Brasil-China (Ibrachina) ficou imune; em vários vídeos e publicações recentes é possível encontrar comentários discriminatórios[v]

Embora este coronavírus seja novo, as doenças da xenofobia e do racismo não são; ocorre que, como a própria história demonstra, estas últimas são muito mais difíceis de conter e muito mais letais. 

Aliás, isso explica, em parte, porque as pessoas parecem se importar muito mais com as doenças “importadas” do que aquelas que realmente representam um risco para suas vidas, como dengue, febre amarela e o próprio sarampo, que voltou às notícias no último ano. Acredita-se que a fonte dos nossos problemas é o exterior, que o conflito só existe porque vem alguém de fora perturbar a nossa paz e a harmonia, enquanto as doenças que já estão entre nós são “normais”.

Quando os interesses particulares das pessoas são manipulados de tal forma, que o passado não tenha mais sentido e que as perspectivas racionais de futuro sejam concebidas como inalcansáveis, operam idéias que nem sequer mais eram levadas a sério.[vi]

Xenofobia e racismo são crimes previstos na Lei 9.459/1997, com pena de até cinco anos de prisão.


[i] ANDRIOLI, Antonio Inácio. O retorno da xenofobia. Revista Espaço Acadêmico. Ano II. n. 13. jun. 2002. Disponível em: <https://web.archive.org/web/20080526123304/http://www.espacoacademico.com.br/013/13andrioli1.htm>.
[ii] WALLACE, Kelly. Forgotten Los Angeles History: The Chinese Massacre of 1871. Los Angeles Public Library. 19 mai. 2017. Disponível em: < https://www.lapl.org/collections-resources/blogs/lapl/chinese-massacre-1871>.
[iii] MOREIRA, Matheus. Em meio a surto de coronavírus, orientais no Brasil relatam preconceito e desconforto. Folha de S. Paulo. 03 fev. 2020. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/02/em-meio-a-surto-de-coronavirus-orientais-no-brasil-relatam-preconceito-e-desconforto.shtml>.
[iv] CHINESES sofrem xenofobia na Itália: ‘Vocês têm coronavírus’. Terra. 10 fev. 2020. Disponível em: <https://www.terra.com.br/noticias/mundo/chineses-sofrem-xenofobia-na-italia-voces-tem-coronavirus,45d6cbcbdc36d8cfe8066e8151de0818figjogrq.html>.
[v] MOREIRA, Matheus. Em meio a surto de coronavírus, orientais no Brasil relatam preconceito e desconforto. Folha de S. Paulo. 03 fev. 2020. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/02/em-meio-a-surto-de-coronavirus-orientais-no-brasil-relatam-preconceito-e-desconforto.shtml>.
[vi] ANDRIOLI, Antonio Inácio. O retorno da xenofobia. Revista Espaço Acadêmico. Ano II. n. 13. jun. 2002. Disponível em: <https://web.archive.org/web/20080526123304/http://www.espacoacademico.com.br/013/13andrioli1.htm>.
 


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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Inscrições abertas - Vem ser blogueiro com a gente!

Estão abertas 5 vagas para alunos de Direito e 5 vagas para alunos de Relações Internacionais para compor a equipe de produção de conteúdo dos Blogs "Unicuritiba Fala Direito" e "Internacionalize-se". Os alunos selecionados ficarão responsáveis por produzir conteúdo para o Blog de uma das seguintes maneiras: entrevistando alunos egressos, entrevistando palestrantes que participam de eventos do UNICURITIBA, entrevistando alunos que participaram de eventos, intercâmbios e viagens institucionais, entrevistando professores sobre temas atuais relacionados aos cursos, coletando com professores e acadêmicos textos de opinião sobre temas atuais relacionados aos cursos, alimentando as Seções "Me indica um livro" e "Me indica um Filme" com indicações de livros e filmes que abordem temas relacionados aos cursos, entre outras atribuições.
  •  Acesse este link para saber mais informações sobre o processo seletivo.

Processo Seletivo:

Inscrições: 
De 20 de fevereiro a 5 de março.

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