segunda-feira, 19 de junho de 2017

Por Onde Anda: Marco Aurélio Bomm, empresário, fundador da trading agrícola TresBomm Agronegócios



A seção "Por onde anda" entrevista egressos do Curso de Relações Internacionais do UNICURITIBA sobre experiências acadêmicas, profissionais e de vida concretizadas após o término do curso e é coordenada pela Prof. Michele Hastreiter e pela Prof. Angela Moreira.



Nome Completo: MARCO AURÉLIO RIEDI BOMM
Ano de ingresso no curso de Relações Internacionais: 2003
Ano de conclusão do curso de Relações Internacionais: 2007
Ocupação atual: Empresário



Blog Internacionalize-se: Conte-nos um pouco de sua trajetória profissional após a formatura no curso de Relações Internacionais.


Marco Aurélio Bomm:
Me formei em junho de 2007 e comecei a buscar oportunidades na área. Na época, as vagas para Relações Internacionais eram bastante limitadas, então foquei em agronegócios, um setor que estava em pleno crescimento e que minha família atua desde 1956. O primeiro emprego pós RI foi na Cooperativa Agroindustrial Castrolanda, de Castro-PR, na posição de assessor de novos negócios. Lembro que durante a entrevista de emprego me perguntaram porque uma pessoa formada em RI teria aptidão para a vaga. Minha resposta foi bem sucinta: o curso é bastante dinâmico, pois ensina história, economia, direito e política; Isso nos dá uma visão macro das coisas e me ajudará a buscar oportunidades de negócios para a empresa. Como assessor de novos negócios desenvolvi diversos projetos. O primeiro foi uma indústria de salgadinhos em parceria com um grupo americano. Trabalhamos na concepção da planta industrial, fizemos a implantação e chegamos a atingir 7.000 pontos de vendas. Outro feito foi o evento Agroleite Internacional 2008, hoje a maior feira da cadeia leiteira do Brasil. Também fiz o projeto de uma Indústria de Farelo e Óleo de Soja, que me laureou com a melhor monografia do MBA de Agronegócios da Esalq/USP. Em 2011 resolvi mudar os ares e me mudei para Palotina, minha cidade natal, onde comecei a trabalhar nas fazendas da família. Para trabalhar na terra a pessoa tem que ter virtude, e não me sentia tão virtuoso assim. Então resolvi abrir uma empresa de comércio de grãos com um sócio trader. O início foi difícil, começamos comprando lotes de soja e milho de produtores rurais com estrutura de armazenagem. Fizemos alguns negócios pontuais até conseguir a habilitação de exportação pela Receita Federal. Em alguns momentos pensei que nunca atuaria com RI. A maioria das exportações eram feitas através de corretores. Fomos pegando o fio da meada e a empresa cresceu vertinosamente. No ano passado abri uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas que faz os negócios internacionais da empresa. Estamos atuando bastante com o mercado externo!


Blog Internacionalize-se: O que é a TresBomm Agronegócios? Como foi a ideia por trás da fundação da empresa?

Marco Aurélio Bomm: A TresBomm Agronegócios é uma trading agrícola. Originamos grãos como soja, milho e trigo de agricultores, cooperativas e cerealistas e vendemos para os mercados interno e internacional. Fazemos a proteção de mercado através de contas de derivativos agrícolas e financeiros na Inglaterra e EUA. Nossos principais mercados internacionais são a Europa, Oriente Médio e o Sudeste Asiático, com predominância da China. Temos a offshore em BVI onde tramitam boa parte desses negócios internacionais. A ideia de abrir a empresa surgiu após eu ter sido assaltado quando voltava da fazenda. Levei dois tiros que não me acertaram, foi um trauma. Quis abrir um negócio para ser dono do meu próprio nariz e do meu futuro. Nesse momento conheci um trader que passou a ser meu sócio.


Blog Internacionalize-se: Para quais e quantos países exportam soja e milho atualmente?

Marco Aurélio Bomm: Pergunta difícil. São muitos os países. Muitas vezes eu só sei para onde vai o navio poucos dias antes do embarque. É um mercado de troca de papéis entre as grandes tradings. Quem determina o destino é sempre o último que toma o papel, ou seja, o importador. Já exportamos para o Kuwait, Portugal, Espanha, Holanda, Itália, Turquia, China, Japão, Coréia do Sul, Tailândia, Filipinas, dentre outros.


 Blog Internacionalize-se: Como é o dia a dia no seu trabalho?

Marco Aurélio Bomm: O meu dia a dia é puxado. Telefone o dia inteiro. Negócios e cobranças. As vezes algumas viagens para resolver problemas. O lado que eu mais curto é o desenvolvimento de novos projetos.


  Blog Internacionalize-se: Qual foi a experiência mais desafiadora que já teve profissionalmente?

Marco Aurélio Bomm:  A experiência mais desafiadora está sendo agora. Enfrentar a crise na direção de uma empresa não é fácil. A responsabilidade é grande, temos muitos funcionários e uma função social muito importante, que é alimentar o mundo. Vejo muitas empresas quebrando por causa da crise, e outras inadimplente. Para quem acha que a crise não chegou ao agronegócio, chegou sim! Enfim, vamos enfrentar a crise com garra e sabedoria pensando num futuro melhor para nosso país. O que tem acontecido com o nosso Brasil é uma vergonha e o reflexo de uma sociedade de maus princípios!


Blog Internacionalize-se: Qual conselho deixaria para os nossos alunos?

Marco Aurélio Bomm:  Após a Faculdade, façam o que gostariam de fazer. Busquem seus sonhos. Tracem o próprio caminho. Sejam felizes independente da função, cargo, dinheiro. Representem o nosso país com princípios, otimismo e perseverança. Sejam exemplos para o mundo!


Blog Internacionalize-se: Você daria alguma dica específica para quem deseja empreender o seu próprio negócio?
Marco Aurélio Bomm:  Faça o curso Empretec e descubra se tem aptidão para isso. Empreender é um rumo sem volta, então se entrar no negócio não pode pensar em sair. Seja persistente, corra atrás. Enfrente as dificuldades com unhas e dentes. Lembre-se que aqui é o Brasil, um dos piores países para empreender. Boa sorte, você vai precisar!
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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Redes e Poder no Sistema Internacional: A origem e utilização da teoria da guerra justa


A seção "Redes e Poder no Sistema Internacional" é produzida pelos integrantes do Grupo de Pesquisa Redes e Poder no Sistema Internacional (RPSI), que desenvolve no ano de 2017 o projeto "Redes da guerra e a guerra em rede" no UNICURITIBA, sob a orientação do professor Gustavo Glodes Blum. A seção busca compreender o debate a respeito do tema, trazendo análises e descrições de casos que permitam compreender melhor a relação na atualidade entre guerra, discurso, controle, violência institucionalizada ou não e poder. As opiniões relatadas no texto pertencem aos seus autores, e não refletem o posicionamento da instituição.




A origem e utilização da teoria da guerra justa
Luiz Guilherme G. Schinzel *


Discutir o tema da guerra é sempre algo bastante delicado. Muito além dos heróis e vilões que surgem delas, há os inocentes que sofrem com a barbárie do campo de batalha e morrem no anonimato. Sem dúvida alguma, pode-se afirmar que são sempre os mais prejudicados. O século passado definiu toda uma era para o gênero humano: duas guerras em escala global seguidas de quarenta anos de Guerra Fria. E hoje, mais do que nunca, temos a sensação de que a era do fim dos conflitos não está tão longe quanto imagiávamos.

Diante das mais diferentes atrocidades que temos testemunhado neste século, fica difícil imaginar que uma guerra seja realmente justa. Em abril deste ano, os jornais do mundo inteiro noticiaram o bombardeio norte-americano a uma base militar síria que deixou setenta mortos e mais de cem feridos. Este bombardeio foi realizado em retaliação a um ataque feito pelo governo de Bashar al Assad na província de Idlib, perto da fronteira com a Turquia, ao norte do país. Imagens, depoimentos e relatórios de organização humanitárias apontaram para o uso de armas químicas por parte do ditador sírio. Na ocasião, o presidente norte-americano Donald J. Trump se pronunciou, dizendo as seguintes palavras:


Meus compatriotas americanos, 


Na terça-feira, o ditador sírio Bashar al-Assad lançou um terrível ataque com armas químicas contra civis inocentes usando um agente nervoso mortal. 

Assad sufocou a vida de homens, mulheres e crianças inocentes. Foi uma morte lenta e brutal para muitos. Até mesmo lindos bebês foram cruelmente assassinados neste ataque tão bárbaro. Nenhum filho de Deus deve sofrer tal horror. 

[...] Nesta noite, apelo a todas as nações civilizadas para que se juntem a nós na busca para acabar com o massacre e o derramamento de sangue na Síria, e também para acabar com o terrorismo de todos os tipos. [...]



Ao sair em defesa dos inocentes, e apelando “a todas as nações civilizadas” na luta contra “o massacre e o derramamento de sangue na Síria”, o presidente Donald Trump aparentemente recorre ao conceito de guerra justa. O seu predecessor, Barack Obama, galardoado com o Prêmio Nobel da Paz em 2009, recordou esse conceito em seu discurso, afirmando que “ao longo da história ele raramente foi observado”.

Apesar de a doutrina da guerra justa ter suas origens em Cícero, ilustre senador e orador romano dos últimos anos da república, é com os chamados “Santos Doutores” da Igreja Católica que ela encontra seus grandes defensores. A razão disso é por conta da noção cristã de luta contra o mal, isto é, para teólogos como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, a guerra, como último recurso, seria um meio para reparar um mal. Santo Ambrósio, bispo de Milão e tutor de Santo Agostinho, afirmou que “aquele que não afasta o mal que atinge seu amigo, se está em condição de fazê-lo, tem tanta culpa quanto aquele que causa o mal”.

Muitos outros autores também teorizaram sobre a guerra justa. Na era que sucedeu ao período medieval, o padre dominicano Francisco de Vitória, considerado como um dos “pais do Direito Internacional” – título muitas vezes dividido com o jurista holandês Hugo Grócio – afirmou que uma guerra justa é aquela que é defensiva, mas defendeu a guerra ofensiva como uma punição por uma agressão. É necessário compreender neste caso que a vingança só é algo moralmente reprovável no momento em que ela busca promover o mal e disseminar ódio; quando busca aplicar uma punição justa, ela se torna um dever.

O padre dominicano viveu na época dos descobrimentos e, portanto, com o contato do homem europeu com os nativos do Novo Mundo. De Vitória foi responsável por separar as questões morais e éticas da religião por conta da diferença de fé entre os índios da América e os europeus. Na época da expansão marítima, o Cristianismo fora usado como razão para a expansão do império português e espanhol; De Vitória afirmava que todos têm direito a sua religião e, portanto, a guerra contra os indígenas por causa de religião não seria uma guerra justa[1].

Posteriormente, outros pensadores menos alinhados a Igreja Católica defenderam e estabeleceram princípios para que se fosse travado um combate justo. O filósofo político inglês John Locke, em sua obra “Segundo Tratado Sobre o Governo Civil”, defendia os direitos dos cidadãos a se rebelarem contra um governo ilegítimo. O direito de resistência tornou-se um dos principais motivadores para a intervenção da OTAN na Guerra Civil da Líbia em 2011, quando um grupo de rebeldes procuraram derrubar o governo de Muamar al-Kadaffi, que para muitos havia perdido a sua finalidade ao violarem os direitos do povo ao invés de protege-los. O Conselho de Segurança da ONU, através da aprovação da Resolução 1973, autorizou os estados-membros a utilizarem todas as medidas necessárias para proteger civis e áreas civis densamente povoadas sob ameaça de ataque na Líbia.

A respeito do ataque norte-americano à base síria em abril deste ano, o governo russo encarou o ataque dos Estados Unidos aos seus aliados sírios como uma violação à legislação internacional e ameaçou romper a cooperação entre Moscou e Washington no país. Muito foi discutido se por conta desse ataque não estaríamos próximos de um novo conflito em escala mundial, pois mesmo após o fim da URSS, Estados Unidos e Rússia ainda são capazes de ser protagonistas no cenário internacional.

Infelizmente, é necessário encarar a realidade de que os Estados não agem de forma desinteressada e altruísta. Depositar a confiança de que um Estado promoverá a paz é correr o risco de que ele promoverá a sua paz. Ainda assim, o que vemos quase que diariamente nos noticiários e nas redes sociais sobre as guerras que estão acontecendo em pleno século XXI pede por algum tipo de justiça. 


REFERÊNCIAS


CARNEIRO, Pedro Erik. Teoria e Tradição da Guerra Justa: do Império Romano ao Estado Islâmico. Campinas, SP: Vide Editorial, 2016.



* Luiz Guilherme G. Schinzel é acadêmico do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA), e membro do Grupo de Pesquisa "Redes e Poder no Sistema Internacional".


[1] Francisco de Vitória também defendia que os europeus tinham que ter a liberdade de pregar o Evangelho. Caso encontrassem resistência por parte dos indígenas, só em último caso é que uma guerra contra eles seria justa.
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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Acontece no UNICURITIBA: Visita técnica dos alunos de Relações Internacionais ao Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil, no Rio de Janeiro - RJ




Os alunos dos cursos de Relações Internacionais e Direito do UNICURITIBA foram conhecer o Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB), no Rio de Janeiro. A viagem, que aconteceu entre os dias 31 de maio e 2 de junho, foi acompanhada pela coordenadora do curso de Relações Internacionais, Profª Patricia Tendolini Oliveira.

No dia 1º pela manhã, os estudantes assistiram palestras sobre Operações de Paz com o comandante do CCOPAB, Coronel Carlos Augusto Ramires Teixeira, e com o assessor de Doutrina do CCOPAB, Tenente-Coronel Carlos Cavalcanti, entre outros.

No período da tarde, eles acompanharam o treinamento dos novos observadores militares que serão desdobrados no segundo semestre deste ano nas mais diversas missões de paz da ONU pelo mundo.
A Profª Patricia afirma que a visita fortalece a parceria entre o CCOPAB e o UNICURITIBA, iniciada em 2016. “Foi uma experiência única para os alunos, pois puderam aprofundar o diálogo entre os conhecimentos da academia e a prática vivenciada no dia a dia do CCOPAB”, completa.

O Blog Internacionalize-se enviou algumas perguntas aos participantes, para que comentassem sobre a experiência. Confira algumas respostas. 

Blog Internacionalize:  O que esperava da visita ao CCOPAB? E o que mais lhe surpreendeu?

"Esperava ter acesso ao dia a dia de um centro de treinamento militar-civil voltado às missões de paz. É difícil decidir por apenas uma grande surpresa. A cordialidade dos militares em geral (e a paciência em responder qualquer dúvida que tivessem os) sempre me surpreende, não por acreditar que a força nacional seja “dura” ou desinteressada, mas é inspirador ver o empenho destes profissionais com os objetivos de sua carreira, com os interesses do Brasil e com a resolução de conflitos." (Eduardo Leme  Mazzafera - estudante do segundo período de Relações Internacionais). 

"Esperávamos que fizemos uma visita pela CCOPAB e conhecer um pouco mais do que eles fazem. O que mais me surpreendeu foi o fato deles realmente se preocuparem com a qualidade de ensino, pesquisa e colocar isso tudo na pratica, o cuidado que eles têm em passar informação e de dar uma formação de extrema capacidade para atuar em cenários difíceis. Além disto, o fato deles fazerem pesquisas e colocarem na pratica a questão de igualdade de gênero, que em lugares com militares é difícil de ser encontrado, realmente me surpreendeu. ". (Brenda Kauane - estudante do segundo período de Relações Internacionais).
 

Blog Internacionalize:  Qual foi o ponto alto da visita?

 "A experiência do treinamento de campo, e é claro a missão de subir no caminhão do exército, rs" (Jonathan Henrique - estudante do segundo período de Relações Internacionais). 

"Quando a gente foi em campo e vimos como é na pratica."(Brenda Kauane - estudante do segundo período de Relações Internacionais).
 
"Minha resposta é, provavelmente, a mesma dos meus colegas: observar o treinamento na simulação de campo". (Eduardo Leme  Mazzafera - estudante do segundo período de Relações Internacionais). 



Blog Internacionalize:  O que aprendeu com a experiência que lhe ajudará em sua formação?
 

"As palestras que tivemos ainda dentro das instalações do CCOPAB foram todas bastante proveitosas. A área de segurança e defesa me parece um terreno interessante e bastante inexplorado academicamente e é importante começar cedo à internalizar conceitos inerentes ao assunto. Vou guardar com bastante apreço as experiências que tive no CCOPAB, pretendo voltar no futuro e, quem sabe, participar também de algum treinamento. E, é claro, agradecer à recepção e atenção dadas aos estudantes durante os dias que estivemos no Rio de Janeiro." (Eduardo Leme  Mazzafera - estudante do segundo período de Relações Internacionais).

"A experiência no CCOPAB foi enriquecedora, com conhecimentos que me proporcionaram um entendimento maior sobre missão de paz, essa visita despertou uma paixão e um interesse maior sobre missão de paz, isso é mérito da capacidade do CCOPAB em atender e ensinar atenciosamente. Foi uma experiência incrível que espero repetir novamente. O que eu tenho a dizer é obrigado Ccopab, e obrigado professoras Patrícia Tendolin e Karla Pinhel". (Jonathan Henrique - estudante do segundo período de Relações Internacionais).



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terça-feira, 13 de junho de 2017

Análise em Relações Internacionais e Política Externa: A luta de Warris Dirie (ex-modelo e embaixadora da ONU) pela erradicação da mutilação genital.

Artigo apresentado na disciplina de Análise das Relações Internacionais e Política Externa no curso de Relações Internacionais do Unicuritiba, ministrado pela Profa Dra Janiffer Zarpelon.

 Por: * Bianca Bartholo Fabbri


O INICIO DA HISTÓRIA

O artigo conta de forma breve a vida de Waris Dirie, ex modelo, e hoje embaixadora da ONU na luta pela erradicação da mutilação genital, e mostra como a teoria construtivista é aplicada na sua vida e história.
Waris Dirie nasceu em 1965 em  Galkayo, Somália. Em relatos de sua história, ela discorre sobre a sua infância, na vila aonde vivia, cercada de animais e natureza. Desfrutava de uma vida, segundo ela, de liberdade e felicidade. 
            Não demorou muito para que ela percebesse a difícil vida que teria que enfrentar, a vida que era e ainda é destinada a maioria das meninas que vivem inseridas naquela realidade. Em grande parte dos países africanos as mulheres fazem a maioria do trabalho, e de forma inversamente proporcional, tem pouco poder na hora da tomada de decisões, não tem voz nem na hora de tomar decisões que impactem sua própria vida, como a escolha  de um marrido.
Questões, como por exemplo, mutilação genital[1], era algo corriqueiro para Waris, pois se tratava de uma prática extremamente comum. Não se sabia exatamente em que consistia, apenas que o ritual da mutilação era algo mágico, quando as meninas finalmente se tornariam mulheres, e que seria responsável pela remoção de partes sujas e indesejadas do seu corpo, que as deixariam mais desejaveis na hora de encontrar um marido. As despesas relacionadas e esta prática eram muito altas, mas consideradas um bom invetimento, que tornaria suas filhas aptas a conseguirem bons casamentos, algo considerado de extrema importância.
Para Waris, o ritual não demorou a se tornar realidade. Com apenas cinco anos, com o aval dos pais, ela foi mutilada, na sua própria casa. A dor foi tanta que não demorou que ela desmaiasse, o que não impediu que as lembranças ficassem, como ela mesma conta nos relatos de sua vida[2]:

A próxima coisa que eu senti foi minha carne sendo cortada. Eu ouvi e senti a lâmina indo e vindo pela minha pele. O sentimento foi indescritível. Eu não me mexi, dizendo para mim mesma que quanto mais eu o fizesse, mais tempo duraria aquela tortura. Infelizmente minhas pernas começaram a se mexer de forma descontrolada, e eu orei, por favor, Deus, permita que isso acabe rápido. Logo aconteceu, porque eu desmaiei.

Por conta de sua mutilação, Waris acabou sofrendo muito. Porém ela mesma reconhece que teve muita sorte, pois foi uma sobrevivente. Grande parte das meninas acabam morrendo de sangramentos, infecções e tétano, por conta das condições precárias e da forma que o procedimento é feito.

O CASAMENTO

 Casamentos arranjados são muito comuns em comunidades africanas, e constituem ai um grande problema. Meninas que não chegam nem a atingir a adolescência são entregues a homens muito mais velhos, que tem muitas vezes, idade para serem seu avôs. Com Waris não foi diferente. Quando completou treze anos, seu pai anunciou que finalmente tinha encontrado um marido para ela, um homem com mais de sessenta anos e que lhe daria cinco camelos em troca da filha. Nesse momento, ela percebeu que teria que fugir, caso quisesse sair da vida que lhe tinha sido imposta e previamente determinada. Foi então que naquela mesma noite, com ajuda de sua mãe, ela fugiu.  


DESERT FLOWER FOUNDATION 

Após fugir de casa, Waris foi parar em Mogadishu, capital da Somália e também cidade onde morava sua irmã e alguns familiares. Surgiu então a oportunidade de ela ir para Londres, trabalhar cuidando e limpando a casa de seus tios. Foi ali porém que a sua vida começou a mudar, e depois de alguns anos trabalhando naquela casa, ela foi descoberta como modelo. Não demorou para que sua carreira decolasse e ela ficasse conhecida, aparecendo em diversos comerciais e revistas.
            Mal sabia Waris que não demoraria para que outra mudança radical acontecesse em sua vida, mudança que começaria graças a uma entrevista concedida a uma revista de moda[3], onde segredos mais profundos de sua vida, como a mutilação que ela sofrera aos cinco anos, seriam revelados. No dia seguinte à sua entrevista, o sentimento era de alívio e embaraço. Agora as pessoas sabiam aspectos pessoais da sua vida, que lhe traziam dor e lembranças. Foi neste momento que ela percebeu que deveria falar mais abertamente sobre sua circuncisão; Primeiramente este era um aspecto que a incomodava profundamente. Além disso existiam vários problemas de saúde que ela ainda enfrentava por consequência, ela nunca tinha conhecido os prazeres da vida sexual, além de se sentir incompleta. Milhares de meninas ainda sofrem com esta prática nos dias de hoje, e ela passou a se sentir no dever de fazer algo sobre.Logo começaram a vir mais entrevistas, palestras em comunidades, escolas, organizações, e qualquer outro lugar onde ela pudesse ser ouvida, onde o problema pudesse vir a tona.
            Em 1997, uma fundação vinculada a ONU convidou Waris a se juntar a luta contra a mutilação genital feminina (FGM). Este tipo de mutilação é praticada em 28 países africanos. Esta prática já atingiu mais de 130 milhões de meninas e mulheres ao redor do mundo.A estimativa é que, por ano, 2 milhões de meninas venham a ser vítimas da prática.Estes dados alarmantes publicados pela organização mundial da saúde, fizeram com que ela entendesse que este não era apenas um problema dela. Foi então que orgulhosamente o convite feito pela ONU foi aceito, e ela se tornou embaixadora para a abolição do FGM, e lutar contra algo, que nas palavras dela, seria um crime, se tornando uma importante ativista dos Direitos Humanos. Além disso, um filme e um livro contando a sua história forma publicados, alcançando milhares de mulheres[4].
            Com o passar dos anos, o trabalho de Waris obteve reconhecimento mundial, sendo inclusive reconhecido por presidentes de países europeus e africanos (Premios como “Bischof Oscar Romero Preis” pela Igreja Católica 2005 em e “Chévalier de la Légion d’Honneur” entregue pelo ex presidente francês Nicolas Sarkozy,em 2007) Em 2002 ela cria a sua própria organização, a Desert Flower Foundation, com sede em Viena. O objetivo da fundação é o lançamento de campanhas públicas de conscientização  contra a mutilação genital, e apoiar campanhas existentes. Além do apoio direto que é oferecido ás vítimas, e um completo serviço de informações que é oferecido através de plataformas. Até o momento, mais de 60.000 pessoas foram beneficiadas e alcançadas pela fundação. Outro projeto criado um pouco mais tarde, o “The Africa Found- Invest in Africa” é um fundo que investe em empresas africanas que promovem o crescimento sustentável da África, e também em empresas na sua fase inicial. Desta forma o fundo procura proporcionar as mulheres empregos e renda , lhes dando mais independência e melhorando seus status social, para que a mentalidade dessas mulheres mude, e elas não submetam suas filhas e as futuras gerações a práticas como o FGM e casamentos forçados.

A HISTORIA DE WARIS, E A TEORIA CONSTRUTIVISTA

            Apesar de ter o nome de teoria, o construtivismo dentro da Relações Internacionais, deve ser pensado como forma de raciocínio, já que ele salienta dimensões culturais e de  identidade, ignoradas pelas perspectivas tradicionais.
            Como o nome nos mostra, o construtivismo se baseia na ideia de que a realidade é socialmente construída, e as estruturas internacionais se definem por ideias compartilhadas, o os interesses dos atores, no âmbito internacional ou não, são construídos de acordo com tais ideias. Isso significa dizer que as ideias tem um papel fundamental na constituição da realidade, interesses e identidade.
            O construtivismo vem para se contrapor a todas as teorias vigentes na época, que considerava apenas questões materiais e normas dos estados, mas que excluíam fatores imateriais como os valores das sociedades, suas interações, cultura, religião, que são a base dos indivíduos e nações, e que portanto, influenciam diretamente nas ações deles e na forma como fazem política .
       Em resumo, segundo Nicholas Onuf, grande teórico construtivista, as próprias pessoas, sendo policy makers ou não, possuem uma enorme relevância como agentes de mudança e manutenção da estrutura, o que acontece muitas vezes através de discursos, que representam as verdades existentes no mundo.
            Este é exatamente o caso da vida de Waris Dirie, e o papel que ela representa na comunidade internacional. Através de seu discurso e do fato de sua história ter sido contada abertamente, questões como mutilação genital, e a cultura imposta pelo patriarcado, na África, passaram a ser melhor conhecidas e ouvidas, e puderam ser a porta de entrada para o inicio de uma ação, algo mais concreto. Aos poucos, a vida de meninas e mulheres vem sendo impactada, e outra realidade pode ser apresentada a elas. O início de uma mudança gradual, de um sistema e de uma realidade.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS




[1] Prática ocorrida principalmente no Oriente Médio e África, onde acredita-se que meninas que tem seus lábios vaginais e clitóris removidos, se tornam mais bonitas, sexulamente desejáveis, além de terem questões morais e de virgindade garantidas.
[2] The Female Genital Cutting Education and Networking Project, Testimonies, The Waris Dirie Story
[3] Entrevista conceida a Laura Ziv, da revista Marie Claire, em 1999.
[4] O livro “Flor do Deserto” foi publicado em 1997, e em 2010 foi lançado um filme, com o mesmo nome.

* Bianca Bartholo Fabbri: estudante do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba.
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