sábado, 17 de março de 2018

Bangabandhu Sheikh Mujibur Rahman

O Pai da Nação

No dia de hoje o Sheikh Mujibur Rhaman nascido em 17 de Março de 1920 estaria completando 98 anos de idade. Foi na cidade de Tungipara, distrito de Gopalgonj que ele nasceu, cresceu e desenvolveu um nato espírito de liderança e carisma que o levariam a presidência de Bangladesh.

Em 1938 já na a escola secundária o Sheikh Mujib, como também é carinhosamente chamado por seu povo, demonstrou seu elevado potencial de liderança durante a visita do Ministro Chefe da então província de Bengala, onde reuniu alguns alunos para chamarem a atenção do visitante para as precárias condições da sua região. Em 1946 foi eleito Secretário Geral da União dos Estudantes da Faculdade Islâmia além de também participar como ativista da Liga Muçulmana da província de Bengala. Em 1947 entrou para a Universidade de Dhaka onde cursava a Faculdade de Direto, mas acabou sendo expulso em 1949 sem concluir o curso, devido à sua participação em movimentos contra a Universidade por não atender demandas legítimas de seus funcionários.

Sua carreira política teve início após sua saída da Universidade de Dhaka e sua eleição como um dos secretários da recém-formada Liga Muçulmana Awami do Paquistão Oriental, onde permaneceu até se tornar o Presidente do Partido.

Durante sua vida política o Sheikh Mujib se destacou em vários momentos, sendo um dos mais importantes em 1955 quando se colocou a frente do povo de Bengala contra a imposição do Paquistão em manter somente a língua Urdu como língua oficial do país. Este movimento além de também garantir o Bengali como língua oficial do país culminou mais tarde com a oficialização do dia 21 de Fevereiro, pela UNESCO, como o Dia Internacional da Língua Materna.

Como Presidente da Liga Awami sua maior contribuição foi em 1966 com a proposta do chamado Programa de Seis Pontos, onde enumerou seis condições de governança que dariam os primeiros passos para a independência do país.

O lançamento desta idéia, não agradou o governo do Paquistão Ocidental que era detentor da província de Bengala chamada de Paquistão Oriental. A movimentação em prol de uma eventual independência colocou o Shikh Mujib atrás das grades sob a acusação de conspiração contra o Estado. Este caso ficou conhecido como a Conspiração de Agartala, mas durante o seu julgamento houveram inúmeros e vultuosos protestos em favor do carismático Sheikh Mujibur Rahman. Tentando evitar uma guerra civil, Yahya Khan, então presidente do Paquistão decidiu encerrar o caso e liberar o acusado sem nenhuma restrição.

Após sua liberação da cadeia, o Sheikh Mujib ganhou mais força e foi recebido com uma emblemática festa onde recebeu o título de Bangabandhu ou Amigo do Povo Bengali, título que ainda seria complementado mais tarde por “Pai da Nação”.

Esta não foi a primeira vez que o Sheikh Mujib havia sido detido, devido a sua personalidade forte e sua incansável luta pelos injustiçados, somou mais de dez anos na prisão tendo sido encarcerado doze vezes, em 1938, 1940, 1948, 1949, 1950, 1954, 1958, 1962, 1964, 1966, 1968 e em 1971.

Em 1970 a Liga Awami obteve uma vitória épica nas eleições gerais do Paquistão tornando o Sheikh Mujibur Rahman o líder do Paquistão Oriental, mas ele nunca conseguiu assumir esta função, pois o Presidente Khan barrou a possibilidade da Liga Awami formar um governo naquela província.

Foi então que no dia 07 de Março de 1971 o Bangabhandu Sheikh Mujibur Rahman realizou um histórico discurso para mais de um milhão de pessoas, chamando seu povo para a Independência de Bangladesh. Bangabandhu propôs um movimento de não cooperação, com greve geral, paralisação de empresas, órgãos públicos e o fim das remessas financeiras para o Paquistão Ocidental. Ele pediu que cada um construísse um forte em sua residência e que resistisse ao inimigo paquistanês e o combatesse com qualquer coisa que tivesse em mãos. O grito de guerra era JOY BANGLA!

Após esse discurso, o Presidente do Paquistão Yahya Khan decretou Lei Marcial no país, prendeu o Sheikh Mujib por conspiração e na noite de 25 de Março de 1971 iniciou um grande genocídio que causou a morte de milhares de inocentes Bengalis. Começava então a Guerra da Liberação. Passados nove meses de sangrentas batalhas e mais de três milhões de mortos, Bangladesh se torna finalmente um país independente.  
           
            O Pai da Nação, aquele que formou os pilares para este acontecimento, continuou preso durante todo o período da Guerra no Paquistão Ocidental, sendo somente libertado no dia 10 de Janeiro de 1972 quando retornou heroicamente ao novo país Bangladesh, para assumir seu papel de liderança na reconstrução de uma nação de pós-guerra.
           
            O Bangabandhu Sheikh Mujibur Rahman assumiu o governo com propostas de reconstrução, crescimento econômico, geração de empregos e fim da fome no país, mas seu governo durou apenas três anos e meio. Em 15 de Agosto de 1975 teve sua residência invadida por um grupo de militares insurgentes e foi brutalmente assassinado juntamente com outros membros de sua família e alguns funcionários.

Este foi um dos vários golpes militares ocorridos em Bangladesh até que em 1996 a Liga Awami reassumiu o governo e lidera o país com a atual Primeira Ministra Sheikh Hassina Wazed, filha sobrevivente do Pai da Nação o Bangabandhu Sheikh Mujibur Rahman.

The Father of the Nation

Born in the city of Tungipara, Gopalgonj district in March 17, 1920, Sheikh Mujibur Rhaman would be completing today 98 years of age.  In this hometown he grew up and started developing his great spirit of leadership and charisma that would lead him to the presidency of Bangladesh.

In 1938 at the secondary school, Sheikh Mujib, as he is kindly called by his people, demonstrated his great potential of leadership during the visit of the Chief Minister of the Bengal province, where he gathered some students to get the visitor attention toward the precarious conditions in their region. In 1946 he was not only elected General Secretary of the Students Union at the Islamia College but also participated as an activist of the Muslim League of Bengal province. In 1947 he entered the University of Dhaka to study Law, but he was expelled in 1949 without completing the course due to his participation in protests against the University for not attending legitimate demands of its employees.

His political career started after he leaves University of Dhaka and become one of the elected secretaries of the newly formed Awami Muslim League of East Pakistan, where he remained until become the President of the Party.

During his political life, Sheikh Mujib had to take many decisive actions in different occasions; one of the most important was in 1955 when the Bengali people were facing the Pakistani government imposition to make Urdu the only official language of the country. This crusade had not only also recognized Bengali as the official language, but culminated later in the UNESCO establishment of the International Mother Language Day on February 21.

As a President of the Awami League his greatest contribution was in 1966 with the proposed of the Six Points Program, where he listed six conditions of governance that would take the first steps towards the independence of the country.

The Six Points Program did not please the government of West Pakistan which held the province of Bengal than called East Pakistan. The move toward eventual independence has put Shikh Mujib behind bars on charges of conspiracy against the state. This case became known as the Agartala Conspiracy; during its trial there were numerous and massive protests in favor of the charismatic Sheikh Mujibur Rahman. Trying to avoid a civil war, Yahya Khan, then president of Pakistan decided to close the case and release the accused without any restriction.

After been released from prison, Sheikh Mujib gained strength and was received back in Dhaka with an emblematic party where he was given the title of Bangabandhu or Friend of the Bengali People, a title which would later be supplemented by "Father of the Nation".

This was not the first time Sheikh Mujib had been detained because of his strong personality and tireless struggle for the wronged, he had been in prison for more than ten years and was imprisoned twelve times in 1938, 1940, 1948, 1949, 1950, 1954, 1958, 1962, 1964, 1966, 1968 and 1971.
In 1970 the Awami League had an epic victory in Pakistan's general election making Sheikh Mujibur Rahman the leader of East Pakistan, but the President Khan barred the possibility of the Awami League forming a government in that province.

It was then that on March 7, 1971 the Bangabhandu Sheikh Mujibur Rahman held a historic speech to a public of more than one million, calling his people to the Bangladesh Independence. Bangabandhu proposed a non-cooperation movement, with general strike, shutdown of companies, public agencies and the end of the financial remittances to West Pakistan. He asked each Bengali to build a fort in their home and to resist the Pakistani enemy and fight them with whatever they have in hands. The war cry was JOY BANGLA!

After this speech, the President of Pakistan Yahya Khan decreed Martial Law in the country, arresting Sheikh Mujib for conspiracy. On the night of March 25, 1971 the Pakistani army initiated a great genocide that caused the death of thousands of innocent Bengalis and so the Liberation War began. After nine months of bloody battles and more than three million deaths, Bangladesh finally becomes an independent country.

The Father of the Nation, who formed the pillars for this event, remained imprisoned during the entire period of the War in West Pakistan, only to be released on January 10, 1972 when he heroically returned to the new country of Bangladesh to assume his leadership role in the reconstruction of a post-war nation.

Bangabandhu Sheikh Mujibur Rahman took over the government with proposals of reconstruction, economic growth, job creation and to put an end to the country starvation; but unfortunately his government lasted only three and a half years. On August 15, 1975, he was invaded by a group of insurgent soldiers and was brutally murdered along with other members of his family.

This was one of several military coups that occurred in Bangladesh until in 1996 the Awami League resumed the government and leads the country with the current Prime Minister Sheikh Hassina Wazed, surviving daughter of Father of the Nation Bangabandhu Sheikh Mujibur Rahman.


                                                                                   Profº Marcelo Grendel Guimarães
                                                                                            Consul de Bangladesh - em processo
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quinta-feira, 8 de março de 2018

A Teoria Feminista e As Ondas do Movimento Feminista

Artigo apresentado na disciplina de Análise em Política Externa e Relações Internacionais, ministrada pela Profa Dra Janiffer Zarpelon, do curso de Relações Internacionais UNICURITIBA. 


* Eliana Gabriela Opuchkevich



Segundo o livro The Globalization of World Politics, dos autores John Baylis, Steve Smith e Patricia Owens, temos cinco tipos de visões teóricas feministas desde 1980, são elas a Liberal, socialista/marxista, ponto de vista, pós-moderna e pós-colonialista. O termo gênero geralmente se refere a construção social de homem e mulher, algumas das cinco teorias abordam diferenças biológicas outras não, mas o mais importante é analisar como os conceitos de gênero afetam as consequências para homens e mulheres no mundo político.
No final dos anos 1980, o feminismo liberal teve mais força com a questão ‘onde estão as mulheres no mundo político?’. Na sociedade os indivíduos determinados homens ou mulheres possuem direitos específicos. Os direitos devem ser concedidos igualmente. A feminista e escritora Cynthia Enloe começou a premissa de que se nós simplesmente nos perguntarmos ‘onde estão as mulheres no mundo político?’ veremos a exclusão que o mundo político faz das mulheres, pela consequência ‘natural’ biológica.
A segunda vertente é o feminismo socialista/marxista, que diz que a vida da mulher é determinada por forças materiais e econômicas.  Para o feminismo marxista a desigualdade vem do sistema capitalista e derrubá-lo é necessário para realização da igualdade.  Para o feminismo marxista o capitalismo é o principal opressor e para o socialista além do capitalismo é o patriarcado.
Uma terceira vertente é o ponto de vista feminista, que emergiu do feminismo socialista e da ideia de um sistema de classe particular. A posição da vertente é identificar a subordinação das mulheres como uma classe particular em virtude do sexo e não da posição econômica.
O feminismo pós-moderno como quarta vertente, faz críticas sobre a distinção entre sexo e gênero e os papéis não naturais da mulher e do homem na política mundial, isso influencia na explicação das diferentes posições do homem e da mulher no mundo.
A última forma do feminismo é o pós-colonial, com a visão de classes, raça e gênero em uma escala global, e especialmente a análise dos efeitos de gênero da cultura transnacional, a desigual divisão do trabalho na economia política global, e uma crítica ao Ocidente, mostrando a dificuldade da combinação do patriarcado e o sofrimento do colonialismo.
Segundo Gilberto Sarfati, não há uma epistemologia única dentro do feminismo. No campo positivista encontra-se, as liberais, que buscam estender às mulheres os direitos garantidos aos homens. Há ainda as feministas que se associam ao Marxismo, socialismo e ao Neoliberalismo. Entretanto, a maior parte das perspectivas feministas de Relações Internacionais vem do projeto pós-positivistas, incluindo as visões associadas ao Construtivismo, Teoria Critica e Pós-modernismo. Segundo Jordan Peterson, o termo feminismo denomina os estudos e as teorias que são criticas à hierarquia do gênero. Portanto, é bastante forte dentro da visão feminista das Relações Internacionais a ideia da necessidade da reconstrução teórica.
As mulheres ao longo da história até os dias de hoje lutam com dificuldade para adquirir direitos que os homens conquistaram com muita facilidade, essa luta nos remete as Ondas do Movimento feminista, que são movimentos diversos, tendo como principal objetivo garantir a participação igualmente ativa de mulheres e de homens na realidade da sociedade onde vivem.
O termo ondas é usado por Platão, e significam as dificuldades a serem enfrentadas para construir uma cidade justa. Neste caso e no feminismo, a ênfase são as dificuldades a serem vencidas, necessárias para uma sociedade mais justa. A cada onda dos feminismos, assim como a cada onda da kallípolis (da bela e boa cidade de Platão), os obstáculos se apresentam, uma nova onda é algo necessário de ser reconhecido e apontam os equívocos da sociedade falocêntrica e patriarcal.
As mulheres em várias partes do mundo conquistaram vários desafios, como o poder de voto, poder trabalhar fora de casa, direito ao divórcio, mas alguns desafios ainda não foram conquistados, ainda temos a violência de gênero antes chamada de “crimes passionais”, que são hoje relacionados com as condições históricas e sociais de desigualdade de gênero que mata diariamente muitas mulheres.
A disparidade nos cargos e remunerações ainda é um desafio a ser enfrentado no mercado de trabalho. No Brasil de acordo com uma pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento as mulheres brancas ainda ganham em média 30% e as mulheres pretas 35% menos do que os homens para exercer a mesma atividade e função. No Brasil a cada 12 segundos uma mulher é violentada, de acordo com uma pesquisa da Secretaria de Políticas para Mulheres do Governo Federal, a cada 10 minutos, uma mulher é estuprada, de acordo com o Mapa da Violência, e a cada 90 minutos uma mulher é assassinada, de acordo com o IPEA. Todas essas violências estão relacionadas à questão de gênero. Mesmo inseridas no mercado de trabalho, as mulheres são responsáveis pelo trabalho doméstico, acumulando funções dentro e fora de casa. Esses debates são importantes para os movimentos feministas e para a sociedade como um todo, que é composta primariamente por pessoas que devem ter seus direitos garantidos e respeitados.
Na passagem do século XIX para o século XX, as sociedades ocidentais eram notadamente influenciadas por correntes liberais, pautadas em ideais de liberdade individual e igualitarismo. Esse liberalismo era, no entanto, marcado pelo patriarcalismo. Nessa época, surge a denominada primeira onda do feminismo, por mulheres brancas, de classe média e insatisfeitas com a submissão e opressão.
A primeira onda, a partir da Revolução Industrial até o período entre guerras, reivindicava o direito ao sufrágio, divórcio e educação para as mulheres. Nesta primeira onda, cujos movimentos já se revelavam mesmo antes da era iluminista, como na literatura e poesia de mulheres renascentistas. Em 1791, a francesa Olympe de Gouges redige a conhecida Declaração dos direitos da mulher e da cidadã, escrevendo no preâmbulo que a mulher tanto é o sexo superior em beleza quanto em coragem, nos sofrimentos da maternidade, além do que, nos dezessete artigos do documento, escreve os princípios que deveriam reger em direitos e obrigações a vida da mulher e do homem, correlacionando liberdade, justiça e resistência à opressão, um modelo explicitamente provocador da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 na França.
A luta por liberdade foi, muitas vezes, recompensada com a vida, em 1793 Olympe de Gouges foi executada. Numa época onde as leis eram criadas por homens, as mulheres começam a tomar consciência histórica de sua cidadania e a enxergar a possibilidade de romper as correntes repressivas que as deixavam em posição de submissão e inferioridade aos homens.
A inglesa Mary Wollstonecraft, em Vindication of rights of woman, de 1792, entendia que o simples ato de nascer mulher já comporta em si inferioridade, opressão e desvantagem, mas apenas aparentam ser por falta de escolaridade. Para De Gouges e Wollstonecraft, era necessário que, ao lado do homem, a mulher pudesse ter uma individualidade autônoma, reconhecida em sua dimensão racional e moral.
A Segunda Onda começa na década de 1950 e vai até 1980, com a busca do direito sobre o próprio corpo. Através do livro "O segundo sexo", da francesa Simone de Beauvoir, com a frase “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, tem início à eclosão da segunda grande onda, o que influenciou na organização de protestos públicos para garantir a igualdade de gênero, que envolve o direito à contracepção e ao aborto. Fomentou-se, então, principalmente na esfera intelectual, a noção de dominação que as mulheres sempre foram submetidas.
Como interlocutoras de Beauvoir, feministas norte-americanas como Betty Friedan, Kate Millet e a australiana Germaine Greer, entre outras, lançam-se a movimentos pela emancipação das mulheres, provocando novas iniciativas práticas e teóricas para que a violência sobre os corpos femininos pudesse ser freada. Para Friedan, as mulheres deveriam reivindicar o poder, destituir-se da mística feminina, abrindo novos espaços para o questionamento do eixo central da sexualidade fundado no patriarcado.
Durante as duas grandes guerras mundiais, as mulheres tiveram que trabalhar fora de casa no lugar de seus maridos nas fábricas, já que eles se encontravam em combate. Com o fim da guerra, e não precisando mais que as mulheres continuassem na fábrica e desejando que elas voltassem a cuidar dos afazeres domésticos, as propagandas de eletrodomésticos reafirmavam o papel de dona de casa das mulheres, para que estas não deixassem sua maior ´obrigação` e vocação.
Foi na segunda onda que se originou o dia internacional da mulher, em 25/03/1911, nos Estados Unidos, acontecia um protesto feito por operárias para diminuição da carga horário no trabalho, elas protestavam dentro de uma fábrica, que foi incendiada e parte das grevistas foi trancada no galpão deixando aproximadamente 140 mulheres mortas.
A terceira onda (a partir de 1990 até a presente data) surge como uma forma de resposta às falhas da segunda onda, se recusando a perceber o movimento como um projeto único, moldado para a mulher ocidental, branca, de classe média e instruída e sim pela multiplicidade de feminismos. Este novo movimento se caracteriza por ser mais relativista, o que significa dar especial atenção às questões relativas aos diferentes tipos de mulher, considerando aspectos culturais, sociais e étnicos.
Ainda há países onde as mulheres não têm direito à educação, ao voto, ao trabalho. No mundo as mulheres ainda recebem menores salários, e algumas vezes cargas de trabalho maiores além de serem vítimas de violência doméstica, física e psicológica. Muitas vezes não tem direito de escolha sobre sua vida ou nem sobre seu próprio corpo. A luta das mulheres é antiga e se hoje as mulheres têm direitos como: de voto, de trabalho fora de casa, de divórcio, de educação, dentre outros, é porque outras mulheres lutaram por isso.

Bibliografia

ALVES, Branca Moreira e PITANGUY, Jacqueline. O que é feminismo? São Paulo: Ed. Abril Cultural e Brasiliense, 1985.
BAYLIS, SMITH, OWENS.  The globalization of World politics – 4ª Edição.
SARFATI,Gilberto. Teoria das Relações Internacionais. São Paulo: Ed. Saraiva, 2015.

Sítios consultados:
https://ensaiosdegenero.wordpress.com/category/teoria-feminista/
http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2015/12/lei-maria-da-penha-reduziu-em-10-o-numero-de-homicidio-de-mulheres
http://azmina.com.br/2017/03/esqueca-o-incendio-na-fabrica-esta-e-a-verdadeira-historia-do-8-de-marco/

*  Eliana Gabriela Opuchkevich: estudante do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba.
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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

21 de Fevereiro - Dia Internacional da Língua Materna - UNESCO



Em 1999 a UNESCO oficializou o dia 21 de Fevereiro como sendo o dia Internacional da Língua Materna. Esta data foi utilizada para marcar um trágico evento ocorrido em 1952.

Após a queda do domínio Inglês sobre a Ásia, em 1947 dois novos países foram formados, a Índia e o Paquistão. O Paquistão ainda se dividiu em Paquistão Ocidental e Paquistão Oriental, pois se encontrava em terras descontínuas tendo o território indiano como seu divisor.

Em Março de 1948 o Governador Geral do Paquistão declarou que a língua URDU seria a única língua oficial do país em despeito a maioria da população que vivia no Paquistão Oriental e falava a língua BENGALI. Imediatamente houve protestos contra a determinação do Governador pedindo para que houvesse duas línguas oficiais no país, o Urdu e o Bengali.

Em 21 de Fevereiro de 1952 um grupo de estudantes promoveu um protesto pelas ruas de Dhaka, levando milhares de pessoas às ruas exigindo que o Bengali fosse também declarado língua oficial do país. A polícia foi acionada para conter o protesto e entrando em confronto com os participantes deixou inúmeros feridos e alguns estudantes mortos. Aqueles que pereceram neste dia são considerados os Mártires da Linguagem. Somente quatro anos mais tarde, após outros inúmeros protestos, em 1956 o governo Paquistanês acabou por declarar a língua Urdu e Bengali como línguas oficiais do país. Dentre este e outros motivos, em 1971 o Paquistão Ocidental se tornou independente e é atualmente conhecido como Bangladesh.

A República Popular de Bangladesh cultua o dia 21 de Fevereiro como uma das datas mais importantes em seu calendário, o Dias dos Mártires da Linguagem - Sahid Dibash - que é um feriado nacional. Um monumento a estes mártires - Shaheed Minar Memorial - foi erguido próximo a Universidade de Dhaka e desde então todos os anos o local é coberto com flores vermelhas e amarelas que simbolizam a luta pela manutenção da língua mãe no país. 

Segundo a UNESCO, aproximadamente sete mil línguas são faladas atualmente ao redor do mundo, mas perto da metade delas irão desaparecer em mais algumas gerações. Destas sete mil línguas, apenas algumas centenas são oficialmente utilizadas em sistemas educacionais e menos de cem encontram-se no mundo digital.

Quando uma língua morre, um complexo emaranhado cultural é perdido, além de tradições, memórias, maneiras únicas de pensar e se expressar. Preservar a língua mãe é uma maneira de manter viva a história e as tradições culturais de uma nação, garantindo às futuras gerações o recebimento de toda essa herança.

- BANGLA -


In 1999, UNESCO officially declared the 21st of February as the International Mother Language Day. This date was used to mark a tragic event that occurred in 1952.

After the end of the British dominion over Asia, in 1947 two new countries were formed, India and Pakistan. Pakistan was still divided into West Pakistan and East Pakistan, because it was in uncontiguous lands having the Indian Territory as its divisor.

In March of 1948 the Governor-General of Pakistan declared that the URDU language would be the only official language of the country in spite of the majority of the population living in East Pakistan and speaking the BANGLA language. Immediately there were protests against the Governor's determination that there should be two official languages ​​in the country, Urdu and Bangla.

On February 21st, 1952 a group of students organized a protest in the streets of Dhaka, taking thousands of people to the streets demanding that Bangla must also be declared the official language of the country. Police were enforced to contain the protest and entering into confrontation with the participants left countless injured and some students dead. Those who perished on this day are considered the Martyrs of Language. Only four years later, after numerous other protests, in 1956 the Pakistani government eventually declared the language Urdu and Bangla as official languages ​​of the country. Among other reasons, in 1971, West Pakistan became independent and is now known as Bangladesh.

The People's Republic of Bangladesh celebrates February the 21st as one of the most important dates in its calendar, the National Martyr's Day - Sahid Dibash - which is a national holiday. A monument to these Martyrs - Shaheed Minar Memorial - was built near to the University of Dhaka and since then every year the place is covered with red and yellow flowers symbolizing the struggle for the maintenance of the mother tongue in the country.

 According to UNESCO, approximately seven thousand languages ​​are spoken around the world today, but close to half of them will disappear in a few more generations. Of these seven thousand languages, only a few hundred are officially used in educational systems and less than a hundred are in the digital world.

When a language dies, not only a complex cultural entanglement is lost, but also people traditions, memories, unique ways of thinking and expressing. Preserving the mother tongue is a way of keeping alive the history and cultural traditions of a determinate nation, guaranteeing future generations to receive this entire heritage.






                                                                                  Profº Marcelo Grendel Guimarães
                                                                                            Consul de Bangladesh - em processo
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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Opinião: Nacionalista e Neoliberal - O Discurso do Estado da União de Trump


O "Discurso do Estado da União" de Donald J. Trump, proferido ontem, dia 30 de janeiro, fala mais sobre o Governo estadunidense que sobre seu Presidente, e deixa tudo muito claro: trata-se de uma plataforma política pautada num misto de políticas nacionalistas e neoliberais.

Por Gustavo Glodes Blum *

Nos últimos dias, alguns círculos denunciavam a falta de relevância de ouvir o Discurso do Estado da União de Donald J. Trump, proferido ontem (30) em uma reunião conjunta do Congresso estadunidense. Segundo essa linha de pensamento, não é necessário ouvir um presidente que tanto fala no Twitter aquilo que bem pensa num discurso que, nas últimas décadas, tem servido aos Chefes de Estado dos EUA para "falarem à nação". Através de seus tuítes, Trump já indicaria tudo o que pensa, sendo desnecessário "saber o quê o Presidente pensa" sobre seu país, sua situação doméstica e mundial, e suas propostas de ação.

O Disrcuso do Estado da União

Ainda assim, o discurso de ontem foi um momento muito importante para tentar dar sentido a essa que tem sido uma das mais polêmicas da história dos EUA. Isso em razão daquilo que o Discurso do Estado da União representa para o país: iniciado pelo governo de George Washington, primeiro presidente estadunidense, foi feito de forma escrita entre 1801 e 1913. Naquele ano, Woodrow Wilson (um ilustre conhecido da área das Relações Internacionais) iniciou a tradição de ler pessoalmente o discurso, numa prática que têm continuado desde então.

O Discurso, porém, é muito mais que apenas uma tradição. O pronunciamento do presidente estadunidense junto ao Congresso, reunindo a Câmara dos Deputados e  o Senado daquele país, tem dois principais objetivos. Ao mesmo tempo em que mira no público, que atualmente assiste não apenas pela TV, mas também pela internet ao redor do mundo, foca na reunião destes dois relevantíssimos órgãos de funcionamento do governo norteamericano. 




Enquanto busca apresentar a sua versão a respeito de fatos que ocorreram durante o período anterior, o Chefe de Estado tenta convencer a população e o Congresso de sua visão a respeito do país e do mundo. Assim, busca construir uma lógica que justifique as propostas que quer colocar em jogo e que pretende fazer valer no período legislativo que se inicia. Embora possa ser observado o avanço de "ordens executivas", emitidas diretamente pelo Poder Executivo em uma situação similar àquela das Medidas Provisórias Brasileiras, o Presidente dos Estados Unidos ainda depende fortemente do Congresso para poder emitir legislação que coloque em funcionamento suas propostas governamentais.

Assim, o Estado da União representa não apenas um discurso oficial do Presidente, mas a apresentação, de certa forma, daquilo que virá num futuro próximo, e um anúncio das batalhas legislativas que se colocam na esfera política dos Estados Unidos da América para o ano.

Nenhuma novidade no front, mas fazendo toda a diferença

O discurso do Estado da União de Donald J. Trump não apresentou, realmente, nenhuma diferença com relação às já conhecidas opiniões do "líder do mundo livre" que atualmente senta na cadeira principal do Salão Oval. Ainda assim, o discurso fez toda a diferença com relação àquilo com que estamos nos acostumando a observar na política americana.

No último ano, fomos literalmente bombardeados com polêmica após polêmica do governo de Donald Trump - que só não são superados pelas polêmicas de sua contraparte tupiniquim, Michel Miguel Temer. Semana após semana, a "presidência mais longa da história dos Estados Unidos", como definiu o comediante/apresentador/comentador político Stephen Colbert, tem se envolvido nos mais diversos escândalos de várias naturezas.

Ainda assim, me parece que ainda que não seja uma estratégia consistente por parte da Casa Branca, este tipo de atitude política continua sendo interessante para diversos setores da política americana. Assim como no "capitalismo de desastre" do governo de George W. Bush (descrito por Naomi Klein em seu "A doutrina do choque"), o "governo da polêmica" de Donald Trump serve muito bem a uma parte muito relevante do Partido Republicano estadunidense. 

Enquanto todas as atenções se voltam aos tuítes de Trump ou suas declarações que mobilizam toda a mídia internacional, os Republicanos - que controlam atualmente a Câmara dos Deputados, o Senado e a Suprema Corte americana - virtualmente governam os Estados Unidos de maneira unilateral. Apenas recentemente os Democratas, partido opositor, conseguiram algum tipo de vantagem política, ao bloquear o acesso a recursos do governo federal, suspendendo seu funcionamento. Porém, essa vitória ainda parece pequena diante de um ano de "tratoragem" de legislação anti-Obama, liderada pelo Presidente da Câmara, Paul Ryan.


Essa é a grande diferença do discurso de ontem. Ao invés de declarações esparsas e lutas virtuais com dissidentes, o discurso de ontem se apresentou enquanto uma plataforma de governo consistente. Enquanto em alguns aspectos (como na Política Externa) repetiu-se o que já se sabia, outras questões apresentadas por Trump indicam a forma como seu governo encarará, propositiva ou executivamente, questões relevantes como a economia, a política, a questão da imigração e a área policial-militar do seu país.

Nacionalista e neoliberal: Trump adepto da Reagonomics?

O discurso de ontem foi um típico showdown republicano, no qual o Presidente, enquanto legítimo representante de seu partido, apresentou um tom altamente nacionalista e neoliberal. 

Embora apenas ao fim do discurso tenha sido possível os gritos típicos dos apoiadores de Trump ("USA! USA!", vindos sobretudo de seus filhos, nas galerias do Salão), o discurso como um todo adotou um tom nacionalista muito representativo. Este discurso, inclusive, se pautou em alguns "direitos de resposta" que o Presidente considerou que tinha em relação a questões polêmicas relevantes na vida política americana dos últimos anos.

Estas respostas envolveram, por exemplo, um ataque direto ao jogador de futebol americano Colin Kaepernick. Ainda no início do discurso, após citar as inúmeras tragédias naturais ou humanas do último ano nos EUA (envolvendo furacões e tiroteios em massa), Trump afirmou que "americanos de verdade", que ele pretende representar, "levantam-se orgulhosos para ouvir seu hino nacional". 

Ele busca, assim, atacar diretamente Kaepernick, que a partir de 2016 começou a utilizar o momento do hino nacional para um protesto silencioso contra a desigualdade racial do país. É sintomático, também, que o único negro convidado para o discurso do Presidente enquanto representante da comunidade para o discurso seja um empregado de uma família branca, num dos vários jogos simbólicos durante o discurso.

Esses jogos foram, de certa forma, uma tentativa de demonstração de força de Trump com relação à oposição Democrata no Senado e na Câmara. Ao adotar esse discurso nacionalista, e aliando ele a um discurso muito próximo daquele do Partido Republicano, Trump busca capitalizar tanto no momento do discurso como no futuro. Ele poderá, por exemplo, acusar a falta de apoio simbólico dos Democratas ao não se levantarem em aplauso quando ditava algumas questões relevantes para o governo. Ao mesmo tempo, ao aliar a ideia de nacionalismo com a adoção de uma política mais dura com relação ao crime, às drogas e à imigração, Trump também poderá indicar que os Democratas "não são americanos verdadeiros", "traidores da pátria", como já tem acusado a mídia americana.

Tratou-se, também, de um discurso altamente alinhado com alguns pressupostos conservadores da direita americana, ainda que Democrata. Ao lembrar que o lema dos EUA era "Em Deus acreditamos" ("In God we trust"), indicou o seu alinhamento a setores religiosos muito fortalecidos nos últimos anos de crise econômica no país. 

Ao apontar que o aspecto relevante dos EUA é a Cristandade (tanto ao indicar que essa crença é mais relevante que aquela no governo, ou ao apresentar um desertor nortecoreano que "após conhecer cristãos resolveu que queria ser realmente livre"), assim como ao relembrar seu reconhecimento de Jerusalém como capital do Estado de Israel, pressão sobretudo de setores evangélicos norteamericanos, Trump indicou que a relação entre cristandade e nacionalidade dos EUA é uma condição importante para considerar-se um "verdadeiro americano". Ataca assim, então, comunidades imigrantes não-cristãs (sobretudo muçulmanas), ao mesmo tempo em que protegeu a "liberdade religiosa" no sentido da permissão às organizações religiosas de agirem como acharem melhor, e não da aceitação de diversas religiões no mesmo espaço público.

Por outro lado, é visível a forma como o Trump se aproxima cada vez mais de uma "linha dura" do Partido Republicano, caracterizada sobretudo por sua visão neoliberal do mundo. Assim, o atual presidente lembra algumas das ações de dois presidentes republicanos recentes, Ronald Reagan e George W. Bush, que aplicaram em várias situações ações de exceção ou processos de desregulamentação do mercado "pela segurança do povo americano".

Trump indicou, por exemplo, que "num país em que cada pessoa é um trabalhador", a educação deveria ser direcionada á formação profissional, técnica, e as reformas estruturais (como aquelas da prisão e da imigração) devem ter como foco criar "pessoas que aproveitem as oportunidades" e "demonstrem bom caráter", estando "qualificadas" para estarem nos EUA (no caso dos imigrantes) ou serem "reintroduzidas na sociedade" (como no caso dos detentos).

Numa nova "Guerra às Drogas", declarada dessa vez contra os chamados "opióides" - substâncias que agem no sistema nervoso das pessoas e que agem de maneira parecida ao ópio, como relaxantes musculares e ansiolíticos. Essa guerra, porém, ligou também ao "sistema imigratório quebrado" e que "tem várias lacunas jurídicas" e permite "a entrada de gangues e traficantes" por meio das fronteiras. Trump conseguiu, assim, demonstrar sua visão sobre a imigração: é visível que o Presidente - e seu governo - enxergam na imigração a fonte da criminalidade em "comunidades vulneráveis" de imigrantes. Trouxe, inclusive, pais que perderam suas filhas para gangues formadas por imigrantes - para justificar, também o seu famoso muro que diz que construirá na fronteira com o México.

Instrumentalização do governo para alcance de objetivos: Política Externa e as instituições americanas

Também foi relevante a apresentação de alguns aspectos da Política Externa de Donald Trump em sua presidência. Assim como em outros aspectos, não houve muita novidade, embora a colocação dessas questões em conjunto tenha conseguido dar uma ideia de "plataforma" às suas práticas internacionais. Além de garantir que não fechará a base naval de Guantánamo em Cuba, usada para a detenção extrajudicial de "terroristas", Trump anunciou que a caça a terroristas se organizará também contra regimes que apoiam o terrorismo, listando os já listados "inimigos da liberdade" segundo sucessivos governos americanos: Irã, Cuba, Venezuela e a Coreia do Norte.

Porém, talvez um dos aspectos "novos", por assim se dizer, do discurso de Trump foi o seu pedido ao Congresso que reveja os programas do governo americano de ajuda internacional. Segundo o presidente, esse tipo de ajuda "não pode ir para inimigos dos EUA", tendo que necessariamente "atender aos interesses americanas e ir apenas para os amigos da América". 

Alinhando-se à já citada "linha dura" do Partido Republicano, provavelmente veremos, no futuro próximo, outras ações como aquelas que já ocorreram. A retirada do país da Unesco e a pressão para que países se alinhem à política dos EUA na Organização das Nações Unidas (ONU) simplesmente pelo fato de que eles são os maiores financiadores da organização devem ser seguidas por outras ações da mesma natureza.

Essa instrumentalização, porém, parece não estar relacionada apenas com a política externa. Em um determinado momento, o presidente indicou que um de seus objetivos era "tomar conta do judiciário", também, indicando o maior número de Ministro da Suprema Corte e, mais estrategicamente, juízes de segunda instância ("circuit judges") alinhados com as propostas do governo Republicano. Instrumentalizar, portanto, todo o governo, montando um plano de "governo de longo prazo".

E é a consolidação política, judiciária e econômica desse governo de longo prazo que podemos esperar das próximas ações do governo Trump, instrumental em incluir essa lógica dentro do governo estadunidense e abrir as portas para um possível novo governo republicano com Trump ou, possivelmente, Pence à frente nas eleições de 2020.

* Gustavo Glodes Blum é Professor de Geografia Política e Política Internacional Contemporânea do curso de Relações Internacionais do UNICURITIBA, e líder do grupo de pesquisa "Redes e Poder no Sistema Internacional".
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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Experiência Internacional: A aluna Maria Giulia Gaede Senesi relata sua experiência em programa de formação da ONU


A aluna Maria Giulia Gaede Senesi participou do programa de Formação Complementar na Missão Permanente do Brasil junto à Organização das Nações Unidas e Outros Organismos Internacionais em Genebra (Delbrasgen) no período de 18 de abril a 14 de julho de 2017. 

Confira mais detalhes sobre a experiência em sua entrevista para o Blog Internacionalize-se. 




Blog Internacionalize-se: Conte-nos um pouco mais a respeito da Delegação Permanente do Brasil para as Nações Unidas em Genebra (DELBRASGEN).

Maria Giulia: A Delegação Permanente do Brasil para as Nações Unidas em Genebra é composta por vários diplomatas, conselheiros, ministros, oficiais de chancelaria, contratados locais e dois embaixadores que atuam em temas cruciais da conjuntura internacional. A rotina de trabalho é cheia, já que durante todo o ano, diversos eventos sobre variados temas que competem à missão ocorrem em Genebra e o impacto e decisões concernentes a esses eventos  devem ser reportadas para o Brasil, bem como todo o processo de preparação anterior necessário para que as tomadas de decisões estejam em consonância com o interesse nacional. Toda a equipe então, tem um caráter dinâmico, de boa estruturação de  suas funções e de verdadeira sinergia com a equipe que atua em Brasília sobre os temas correlatos.

Blog Internacionalize-se: Como foi participar das atividades da DELBRASGEN? Em que tipo de atividades você se engajou em seu período junto à Delegação? 
 
Maria Giulia: A minha participação no programa de formação complementar foi uma experiência incrível e extremamente marcante positivamente nos aspectos profissionais e pessoais. Poder ter acesso e livre entrada a diversas agências da ONU, conviver com a atuação dessas na prática e cotidianamente, conhecer novas áreas de atuação, me integrar do funcionamento de tomadas de decisão em negociações,  conhecer profundamente a atuação  do Brasil em um posto multilateral, dentre tantas outras atividades e conhecimentos depreendidos, foi algo verdadeiramente fantástico. As nossas atuações variavam de acordo com a agenda do momento, que por vezes exigia atividades nos próprios organismos internacionais, e por outras, atividades de preparação e pesquisa dentro da missão.  De modo mais específico, algumas dessas  atividades eram: auxílio à delegação brasileira lotada na DELBRASGEN em suas atividades internas e junto aos organismos internacionais ali sediados;Apoio à delegação brasileira em reuniões de interesse da missão; Pesquisa aplicada e acompanhamento de temas de interesse da DELBRASGEN; Preparação de material de apoio para reuniões internas com delegados brasileiros ou convidados, de outras delegações, organismos internacionais ou organizações não-governamentais;Manejo de documentação e operação de bases de dados de instrumentos internacionais relacionados aos temas afetos à DELBRASGEN,auxílio em relatórios oficiais, entre outras.
  

Blog Internacionalize-se: Quais foram os principais temas abordados durante a sua estadia?
 
Maria Giulia: Os principais temas abordados foram diplomacia pública, direito internacional, direitos humanos, assuntos humanitários,temas sociais como saúde  e trabalho, meio ambiente, desenvolvimento sustentável, e  paz e segurança internacional com enfoque no desarmamento.


Blog Internacionalize-se: Quais foram as Instituições Internacionais do Sistema ONU com as quais você teve contato?
 

Maria Giulia: Além da própria sede da ONU, chamada de “Palais des Nations” que abrigava uma série de eventos de grande porte e impacto, como a Assembleia Mundial de Saúde, Conselho de Direitos Humanos, Conferência Internacional do Trabalho e Conferências do Desarmamento,  tive contato com outras instituições como a  OIT (Organização Internacional do Trabalho), OMS (Organização Mundial da Saúde), UNAIDS, (programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids), UNODA (Escritório das Nações Unidas para Assuntos de Desarmament), a OIM (Organização Internacional para as Migrações), OMM (Organizaçāo Metereológica Mundial), ECOSOC (Conselho Econômico e Social)  e UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento).

 
Blog Internacionalize-se: Como você percebe essas atividades? Como percebe a representatividade da DELBRASGEN?

Maria Giulia: As atividades de todas as áreas de atuação da missāo sāo de altíssimo valor para o Brasil. Por serem realizadas em âmbito multilateral, assuntos de importante impacto global são discutidos, analisados e negociados e que tem impacto em todos os cidadãos brasileiros. Desse modo, um posto multilateral exerce importância de destaque e responsabilidade dentro do Itamaraty. Tive a oportunidade de ver a diplomacia atuante do Brasil, que atua em várias frentes da conjuntura global, com uma delegação muito bem estruturada, diligente e preocupada em como o Brasil pode impactar o Sistema Internacional e como negociar para que o Sistema melhor favoreça os seus cidadãos. 



Blog Internacionalize-se: Durante sua estadia, quais foram os conhecimentos de Relações Internacionais que mais pode aplicar? Como lhe auxiliaram a desempenhar suas atividades?
 

Maria Giulia:A grade curricular de Relações Internacionais como um todo, possui uma interconexão com o mundo e capacita seus estudantes a ver além de acontecimentos e temas de interesse global. Como os temas que trabalhei na DELBRASGEN foram variados, diversos conhecimentos práticos foram utilizados. Poderia listar aqui o Direito Internacional, Teoria das RI, Política Internacional e outros.Entretanto, de modo geral, acredito que as análises críticas de forma ponderada e multicultural  e as institucionais e históricas que adquirimos durante o curso foram de grande valia, tanto para tarefas mais simples como preparação de materiais internos, quanto para análise e relatos de negociação de eventos importantes que o Brasil havia participado.Colaborando então, para a compreensão da complexidade dos temas abordados dentro de um cenário multilateral, e facilitando na execução de tarefas, bem como na assimilação de todos os conteúdos vistos.


Blog Internacionalize-se: O que acha da formação em Relações Internacionais para esse tipo de atividade?

Maria Giulia: Acredito que a formação em Relações Internacionais está extremamente atrelada tanto a atividade diplomática, quanto com a atuação em Organizações Internacionais, que foram as duas das atividades que mais tive contato durante o Programa. A grade ampla do curso, permite que o internacionalista desenvolva capacidades analíticas e críticas extremamente importantes, principalmente quando se trata de posicionar e entender  o Brasil no cenário internacional. Desse modo, acredito o profissional formado nesse curso estará altamente apto a compreender a missão e objetivos que norteiam uma Organização Internacional, seja lá qual seja sua área específica de atuação, ou então representar diplomaticamente um país e negociar importantes temas com outras nações. Na minha avaliação, esse profissional tem toda a  base para ser alguém que busca o entendimento mútuo entre partes de um cenário plural, enxergando todas as suas complexidades e cria pontes, mesmo em assuntos ou temas que parecem inconciliáveis.


 
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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Opinião: Por que as pessoas estão protestando no Irã?


Por que as pessoas estão protestando no Irã?

Por Andrew Traumann*



Manifestantes da Diáspora Iraniana protestam contra o regime em Londres. Observe a utilização de bandeiras do Antigo Regime, que se tornou símbolo dos oposicionistas.




Nos últimos dias de 2017, o mundo foi pego de surpresa por uma onda de manifestações políticas no Irã. Imediatamente, o presidente norte-americano Donald Trump demonstrou seu apoio ás manifestações e afirmou que “o grande povo iraniano se levantou e está faminto por comida e liberdade”. Curiosa declaração de respeito para alguém que sequer permite a entrada de iranianos em seu país e que há poucos meses chamou o Irã de “uma nação de terroristas”. A embaixadora norte-americana na ONU Nikki Haley propôs uma reunião de emergência para discutir como a ONU poderia apoiar os manifestantes.

Mas afinal, quem são esses manifestantes, quais os interesses envolvidos neste jogo e o que originou a maior onda de protestos no país desde 2009?

As razões primárias dos protestos se originaram em Mashhad (segunda maior cidade iraniana) e depois se espalharam para Teerã e outras grandes cidades são econômicas: o acordo intitulado P5+1 de 2015 (que envolveu os 5 países membros do Conselho de Segurança, mais a Alemanha), propunha que as sanções contra o Irã, que já duram quase 40 anos, seriam suspensas em troca de um drástico recuo no programa nuclear do país. Criou-se então uma enorme expectativa entre a população de que, com o fim do embargo o Irã finalmente sairia do sufoco econômico, receberia maciços investimentos estrangeiros, empregos seriam gerados e que sua qualidade de vida daria um salto qualitativo. Não foi o que aconteceu. 

Na verdade, quase três anos depois, muitas das sanções seguem em vigor. Pra piorar, o presidente Donald Trump logo no início de seu mandato, aprovou dois novos pacotes de sanções e, em outubro não certificou o Acordo, empurrando, sem consultar os demais países signatários, a decisão final sobre a sobrevivência do mesmo para o Congresso Norte-Americano. Assim, o  povo iraniano se sente duplamente enganado: pelo seu governo que prometeu que o Acordo valia a pena e pelo P5+1 que,em sua visão,não tem honrado o mesmo. A iniciativa privada local não se sente encorajada a investir em projetos de longo prazo num país marcado por sanções econômicas.    Segundo dados oficiais, o desemprego no país é de cerca de treze por cento, mas há analistas que afirmam que esse índice na verdade pode ser bem maior.

Claro que nem todos os problemas do país tem origem nas sanções.  O Irã é um país com sérios problemas estruturais que se arrastaram por todo o século XX e que ainda não foram solucionados a contento. Burocracia excessiva, corrupção, dependência do petróleo, altos impostos, aumentos nos preços dos alimentos e até do combustível. No mês passado quando foi votado o orçamento do país, o presidente reeleito Hassan Rohani justificou o aumento do preço da gasolina com a necessidade da manutenção de instituições religiosas pelo Estado. Essa declaração foi um dos estopins da revolta, especialmente no clima de frustração de expectativas que vive o país.   Há também uma enorme dependência dos investimentos da Guarda Revolucionária, instituição criada em 1979 para proteger o Irã de um golpe que reconduzisse o Xá Reza Pahlevi ao poder,que teve uma atuação fundamental na Guerra Irã-Iraque e que hoje representa uma elite não apenas militar,mas principalmente econômica do país,responsáveis pela maior parte dos investimentos,com um fortíssimo lobby no Parlamento e respondendo somente ao Líder Supremo, o Aiatolá Ali Khamenei.


Porém, o que começou como um protesto pela alta dos preços de produtos básicos passou a ser instrumentalizado tanto pela oposição interna ao regime (entre eles muitos saudosos do regime monárquico) quanto por elementos externos. Assim, as manifestações legítimas do povo iraniano têm sido sequestradas por grupos políticos com agendas próprias. Vários opositores do regime no exterior têm usado as redes sociais para estimular as manifestações e transformar um protesto pontual (como os ocorridos em 1999 e 2009) num questionamento do regime como um todo. Como sempre acontece quando há protestos no Irã, analistas internacionais e a mídia, especialmente anglo-americana, prevê a implosão do regime, algo muito improvável,dado tanto ao substancial apoio que o regime possui entre o grosso da população (que também tem saído ás ruas), quanto pelo controle total que o governo possui  dos meios de comunicação,da economia e das Forças Armadas,amplamente fiéis  ao regime.

 Após as malfadadas invasões de Iraque e Líbia devemos ficar sempre muito atentos a quais são os interesses ocultos por detrás de cada discurso em nome da “democracia, liberdade e direitos humanos”. 

*Andrew Traumann é Professor de História das Relações Internacionais no UNICURITIBA.
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