terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Opinião: GKS 2017 - Impressões sobre a Coreia do Sul depois de um mês de estudos e vivência no país


O aluno do sétimo período de Relações Internacionais do UNICURITIBA, Gabriel Thomas Dotta, participou de um programa estudantil oferecido pelo  governo sul-coreano. Hoje, ele relata a experiência no Blog Internacionalize-se. 

GKS 2017: Impressões sobre a Coreia do Sul depois de um mês de estudos e vivência no país
Gabriel Thomas Dotta[1]

            Em junho do corrente ano, fui acariciado com uma das melhores notícias que já recebi: havia sido aceito no Global Korea Scholarship for Undergraduate Students from Africa and Latin America. O GKS é um programa do governo sul-coreano que tem por objetivo auxiliar na promoção do desenvolvimento dos países-parceiros da Coreia por meio da educação. Para tanto, o governo seleciona estudantes de graduação do mundo em desenvolvimento e os leva à Coreia, onde passam um período estudando questões consideradas afeitas ao desenvolvimento de seus países de origem.
            Em 2017, foram selecionados oitenta estudantes, quarenta da África e quarenta da América Latina. Para nossa região, os campos prioritários foram as ciências materiais e a ciência política e estudos internacionais, sendo dedicadas vinte vagas para cada. Assim, para o eixo em que participei, foram selecionados vinte graduandos de áreas relacionadas à ciência política de todos os países latinoamericanos, tendo em conta o rendimento acadêmico, a elaboração de projeto de pesquisa e o perfil dos estudantes.
            O governo coreano arcou com todos os custos relevantes ao programa: passagens aéreas de ida e volta, alimentação, hospedagem e outros. Na ciência política, dos vinte estudantes selecionados dez foram brasileiros, os outros sendo da Nicarágua, República Dominicana, Honduras, Argentina, Peru, México e Colômbia. A composição de nossa turma foi surpreendente, uma vez que a seleção não tinha cotas nacionais, apenas de avaliação comum. Por isso, foi interessante ver o grande peso da América Central.
            Passamos cinco semanas na Coreia, tendo aula de segunda à sexta das 9:00h às 18:00h. Os conteúdos abordados tratavam de administração pública, cooperação internacional e logística, com foco na experiência coreana. Além das aulas, tivemos que desenvolver pesquisas, que ao final do programa foram apresentadas e avaliadas em uma feira científica. Ao menos uma vez por semana era realizada também alguma visita técnica: a órgãos públicos, organizações internacionais sediadas no país, empresas nacionais de peso, como a Samsung, e também a sítios históricos.
            Residimos e estudamos na Universidade Nacional de Incheon, localizada em Songdo, em Incheon, cidade portuária vizinha da capital Seul. Songdo é um território que até recentemente era mar, tendo sido transformado em terra sobre a qual se edificou uma cena urbana. É chamada de “cidade do futuro”, planejada desde o zero há menos de uma década, repleta de tecnologias. Ali estão sediadas organizações como o escritório regional do Banco Mundial e a UNESCAP, comissão sub-regional com funções iguais às de nossa CEPAL; e também as principais indústrias do país, que ali são sujeitas a um regime tarifário diferenciado, visando promover a ocupação do território.
 Durante a estadia, tive a sorte de estabelecer fortes amizades com coreanos, como os que residiam no dormitório da faculdade. Com isso tive a oportunidade de vivenciar vários aspectos da sociedade e me engajar em temas não abordados dentro da sala de aula. Enquanto internacionalista, as questões que mais me chamaram a atenção foram a Coreia do Norte e os Estados Unidos dentro do imaginário social sul-coreano.
Fui com a ideia de que os sul-coreanos viviam em um estado permanente de insegurança por conta da Coreia do Norte, e que por isso nutriam sentimentos negativos contra o país. Na verdade, a despeito da ressonância mediática no Ocidente, nenhum dos coreanos com quem conversei acreditava na possibilidade de um ataque ou guerra, acreditando se tratarem de ameaças retóricas, sem qualquer influência em seu cotidiano.
Ademais, os sul-coreanos tendem a partir de uma distinção muito clara entre povo e governo norte-coreano, que permite uma visão de irmandade. Um discurso que ouvia com frequência era o de que “a Coreia é uma há cinco mil anos; foi dividida há pouco mais de cinquenta e em razão de disputas políticas entre estrangeiros”. A reunificação das Coreias é considerada uma realidade inevitável para a maioria das pessoas; ao ponto de eu ter ouvido, uma vez, que é até bom que o Norte desenvolva armamentos nucleares, já que assim, quando reunificada, a Coreia nasceria como potência nuclear.
Com relação aos Estados Unidos, fui com o estereótipo de que os sul-coreanos teriam uma visão quase natural em favor do país. A verdade é que é bastante comum uma visão bastante crítica, sobretudo em se tratando das relações com o Norte, em que o papel estadunidense é muitas vezes visto como contrário aos interesses do Sul. Quando estive lá, a discussão da vez era o THAAD, sistema antimíssil em instalação pelos EUA na fronteira. Era frequente a leitura de que o THAAD não visava proteger à Coreia, mas sim ao Ocidente, e de que sua instalação mais promoveria que dissiparia tensões.
Embora a segurança não seja tópico comum, ela reflete em uma das questões sociais do país: o serviço militar, ponto de reclamação constante dos jovens. Na Coreia, todos os homens devem passar pelo serviço militar, sem exceções. O serviço obrigatório dura dois anos e, mesmo após seu término, os homens são constantemente convocados para treinamentos. Naturalmente, essa obrigatoriedade tem efeitos sobre a sociedade coreana como um todo, sobretudo na construção de seus estritos papéis de gênero.
 Algumas outras questões sociais me chamaram a atenção, como o sistema educacional. O adolescente coreano tem a rotina comum de iniciar seus estudos assim que acorda e finalizá-los apenas antes de ir dormir. A educação pré-universitária é pública e de alta qualidade, mas por ser omnipresente é considerada insuficiente para muitas famílias, que sonham que seus filhos ingressem nas melhores instituições do país.
Por isso, os estudantes frequentam os hagwon, escolas privadas especializadas em uma disciplina. A rotina comum é ir à escola pública, depois ir a uma escola de matemática, uma de inglês e uma de coreano; e então ir para casa estudar. O vestibular é unificado, como nosso ENEM, e é um grande evento: no dia, aeronaves não podem circular em espaços aéreos que possam perturbar os estudantes durante a prova. Todo esse sistema é considerado bastante abusivo, existindo forte mobilização em seu contrário.
Além de intensa, a educação pré-universitária é bastante mecânica. Uma história que me surpreendeu foi a de um amigo que contou que, nas provas de literatura, um modelo comum de questão é o em que há um enxerto de um livro com lacunas em que os alunos devem preencher a exata palavra utilizada pelo autor: os estudantes precisavam decorar capítulos inteiros dos livros. Felizmente, a atual geração reconhece a inadequação pedagógica desse sistema, ao qual os jovens comumente atribuem a culpa por seu mau desempenho nas universidades, onde o sistema de avaliação tem carga reflexiva.
A obsessão pela educação no país cria também um desequilíbrio: uma massa de mão-de-obra hiper-qualificada para qual não há trabalho, sendo a emigração a saída mais comum. Os empregos de baixa especialização são ocupados por estrangeiros e, principalmente, idosos: a terceira idade coreana é a faixa mais pobre da população, não tendo acompanhado o boom do país, que ocorre a partir da década de 1980.
Outra questão social notável diz respeito ao álcool, elemento central na cultura coreana, de forma que é rotina comum beber todas as noites, mesmo durante a semana e dentro da faculdade. A mais comum é o soju, destilado de arroz ou batata doce. A “prática de beber” é marcada por uma ritualística que induz a sua autoreprodução: se alguém mais velho, e isso inclui idades muito próximas (a idade tem um papel inestimável nas relações sociais coreanas), lhe oferece uma bebida, é desrespeitoso rejeitar. No trabalho, se espera de um bom empregado, homem ou mulher, que saia beber com seu patrão sempre que convidado. Naturalmente, o alcoolismo é um problema muito comum.
Falando em cultura, não há como deixar de mencionar a cultura “em sentido estrito”. A Coreia possui uma indústria cultural muito robusta e o entretenimento ocupa uma parcela considerável da economia. K-pop, k-drama, k-movie, k-beauty: a cultural comercial consumida pela maior parte da população é a produzida dentro do país. Isso reflete diretamente no padrão estético coreano, bastante particular tanto em relação ao ocidental quanto ao japonês e chinês, sociedades próximas.
Me surpreendeu também o fato de que, diferente do que esperava, não é tão comum encontrar estrangeiros na Coreia. Por isso, existe toda espécie de reação ao se deparar com um estrangeiro, às vezes bastante negativas. Na maior parte das vezes, porém, é apenas curiosidade. Uma vez, no metrô, uma senhora sentou ao meu lado e começou a passar a mão na minha perna, fazendo perguntas muito espantada. Pelo que pude entender com meu coreano meia-boca, estava inquieta com o calor que eu devia estar passando por ter pelos na perna, fato incomum entre os homens coreanos.
Finalmente, preciso comentar a comida. São várias as questões que tornam a gastronomia coreana particular: pratos muito apimentados, frios (uma refeição comum é o nengmyeon, macarrão em água com gelo e melancia ou pasta de pimenta), e, em casos extremos, vivos (como o sannakji, polvo). O maior estranhamento, porém, foi a inexistência de separação em comidas de café-da-manhã, almoço e janta. Um “café-da-manhã” comum no refeitório da faculdade era o combo de uma cumbuca de arroz, uma de sopa, uma de saladas e um prato com alguma proteína apimentada. O almoço de um dia era o “café” do dia seguinte, a janta do dia anterior e assim por diante.
O programa de que participei contribuiu muito para a minha formação pessoal e acadêmica. Cada país tem uma cultura própria que se imprime em um universo e sistema de pensamento absolutamente particulares. Ainda assim, por uma série de fatores, o Ocidente partilha de determinadas premissas que tornam as diversas culturas algo assimiláveis entre si. A vivência em um país como a Coreia, por sua vez, mostra contornos da realidade que raramente encontraríamos nos países com que estamos acostumados.  
Estudar em uma turma de internacionalistas de diferentes fundos latinoamericanos foi igualmente inestimável. Nos tornamos muito próximos quase que naturalmente, em razão de semelhanças que nos tornavam estranhos na sociedade coreana. Ao mesmo tempo em que muitas vezes nossos pensamentos eram similares, evidenciando o histórico comum de nossa região, em outras eram irreconciliáveis. Uma aula que muito me marcou foi sobre democracia, quando discutíamos nossas percepções; tema sobre o qual nossos colegas da América Central têm histórias (e presentes) muito diferentes da nossa.
Academicamente, além de impulsionar a desconstrução de paradigmas tomados como dados pelas ciências ocidentais, o programa me apresentou a uma série de temáticas e abordagens que, acredito, já são visíveis em meus esforços de pesquisa.
Para finalizar, há duas dicas que dou a qualquer aluno que tenha se interessado pela experiência. A primeira é que acompanhe as embaixadas dos países no Facebook. Foi ali que tomei ciência do processo seletivo para o programa. E a Coreia não é caso raro: muitos países possuem programas de bolsas desse tipo. A segunda é que se empenhe nas avaliações da faculdade. Sabemos que o método de avaliação na graduação é um tanto injusto, padrão que não é exclusivo da instituição ou mesmo do país. Infelizmente, porém, o GPA, média de todas as notas da faculdade, é o primeiro, talvez o mais importante, critério de seleção para bolsas desse tipo na maior parte dos países.



[1] Graduando do sétimo período de Relações Internacionais no UNICURITIBA

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