segunda-feira, 3 de novembro de 2014

As "Comfort Women" e a Segunda Guerra Mundial




Por Victoria A. Karam*


As “comfort women” foram mulheres e garotas – vindas do próprio Japão, Coreia, China, Filipinas, Burma, Tailândia, Taiwan, entre outros países - forçadas, pelo Império Japonês, a serem escravas sexuais, antes e durante a Segunda Guerra Mundial. O termo “comfort women” deriva de uma interpretação da palavra japonesa “ianfu” que significa prostituta.
Durante a Segunda Guerra Mundial, aproximadamente, 200.000 mulheres foram levadas as “comfort stations” pelo Exército Imperial Japonês e abusadas sexualmente, ficando conhecidas como as “Comfort Women”, assim, configurando o maior caso de tráfico humano durante todo o século XX.
            A situação das “comfort women” consistiu em uma grande violação aos direitos humanos que é pouco conhecida no Ocidente, fazendo com que essas mulheres ficassem presas em meio a todo o tabu que permeia as vidas dos asiáticos nos últimos sessenta e nove anos.
            As “comfort stations” foram criadas a pedido das autoridades do Exército Imperial como parte de sua presença na China. Tinham como objetivo diminuir o sentimento anti-japonês que crescia, conforme os oficiais do exército estupravam e violentavam mulheres por onde passavam – sentimento que apenas evoluiu com o Massacre de Nanquim, quando oficiais japoneses mataram e estupraram milhares de vítimas. Dessa forma, os segredos militares japoneses eram protegidos, uma vez que a cúpula militar acreditava que dentre as mulheres que se relacionavam com o contingente poderia haver alguma espiã, afinal, a maior parte das “comfort women” não dominava a língua japonesa.
Segundo conta a história, os primeiros sinais desses prostibulos podem ser encontrados por volta de 1931, ou seja, desde o Incidente da Manchúria. Com o transcorrer dos conflitos esses estabelecimentos se espalharam e em 1937, com o começo da Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945), sua presença no território asiático tornou-se ainda mais forte.  As mulheres e jovens eram recrutadas em colônias – como Taiwan e Coréia – e outros territórios dominados pelo Japão. Geralmente eram enganadas com a ideia de que estavam sendo escolhidas como enfermeiras, garçonetes, empregadas e tipógrafas, outras eram compradas de suas famílias, dadas como pagamento de dívidas com a promessa que dentro de um ano retornariam para suas casas. Porém, a volta ao lar nunca era fácil e, muitas vezes, não chegava a acontecer, pois as mulheres não deixavam as “comfort stations” ou eram sequestradas e consideradas suspeitas de terem envolvimento com a resistência.
Com a expansão da Guerra, a presença japonesa continuava muito marcante e com isso as mulheres “recrutadas” passaram a viajar com uma autorização e sob vigilância militar, assim como novas mulheres passaram a integrar o grupo das “comfort women”, como garantia de que viveriam, mesmo que sacrificando sua liberdade. Entretanto, quando os japoneses começaram a perder sua força e a Guerra teve seus papéis invertidos - em decorrência ao ataque japonês à base militar Pearl Harbor, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França declararam guerra ao Japão. Assim, a Guerra Sino-Japonesa, a Guerra do Pacífico e a Segunda Guerra Mundial misturaram-se e Chiang Kai-Shek passou a ser apoiado e a receber suprimentos e armamentos dos Estados Unidos. Nesse momento, o objetivo chinês passou a ser a vitória, essas mulheres, muitas vezes distantes de suas casas eram abandonadas ou deixadas para trás com militares que não tinham mais condições de acompanhar o exército.
A Segunda Guerra chegou ao fim em 1945, mas, para essas mulheres, mesmo sem guerra, não existia mais a paz que conheceram quando mais novas. Muitas delas deixaram de voltar para suas cidades natais e as que retornaram sofriam com doenças (venéreas ou não), feridas, estavam estéreis e viviam uma vida miserável, impedidas de esquecer tudo pelo que haviam passado, sem poder casar, além de serem obrigadas a esconder seu passado.
Atualmente, existe uma estimativa da Anistia Internacional sobre o número de mulheres que foram levadas às “comfort stations”, mas, o que vale ressaltar é que mesmo sessenta e nove anos depois, as sobreviventes vivem, todos os dias, com as marcas deixadas pelo tempo em que foram abusadas, mal tratadas e exploradas e com a sensação de impunidade, uma vez que ninguém foi responsabilizado pelo que essas mulheres passaram ao longo da Segunda Guerra Mundial.
Em 2000, o “The Women's International War Crimes Tribunal on Japan's Military Sexual Slavery”, foi criado por organizações não governamentais e entidades de proteção aos direitos humanos, com apoio de ex-membros de tribunais especiais do Tribunal Penal Internacional, para julgar os crimes cometidos contra as mulheres pelo exército imperial japonês. Em questão de um ano, a sentença foi proferida – em Haia, sede do TPI - e declarou culpados todos os indiciados. O Imperador Hirohito não foi condenado como indivíduo e sim como superior, tendo o poder de impedir que os crimes se perpetuassem. A sentença também exige um pedido de desculpas publicamente; que o Japão assuma a responsabilidade pelo ocorrido; que haja compensação por violar os Direitos Humanos e a reparação às vítimas. Esse tribunal teve como objetivo dar voz à dor das vítimas e levar os crimes japoneses ao conhecimento da comunidade internacional, focando-se em uma parte da história pouco abordada.

Por fim, até hoje, o Japão se recusa a ouvir os pedidos de reconhecimento e nega que tenha havido crimes contra a humanidade e violação dos direitos humanos no caso das “comfort women”. Alega que o veredito do “Women’s Tribunal” não deve ser considerado válido e nega-se a dar margem ‘as especulações sobre os crimes ocorridos entre 1931 e 1945.

*Victoria A. Karam é graduanda dos Cursos de Direito e Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba – UNICURITIBA. 

Referências:
STETZ, Margaret. Legacies of the Comfort Women of World War II. Armonk, N.Y.: M.E. Sharpe, 2001.
TANAKA, Yuki. Japan’s Comfort Women: Sexual Slavery and Prostitution during World War II and the U.S. Occupation. London: Routledge, 2002.
THOMA, Pamela. "Cultural Autobiography, Testimonial, and Asian American Transnational Feminist Coalition in the "Comfort Women of World War II"Conference." Frontiers: A Journal of Women Studies 21, no. 1/2 (2000): 29-54.
UENO, Chizuko. "The Japanese Responsibility for Military Rape During World War II." Asian Studies Review 17, no. 3 (1994): 102-107. 
WATANABE, Kazuko. "Militarism, Colonialism, and the Trafficking of Women:'Comfort Women' Forced into Sexual Labor for Japanese Soldiers." Bulletin of Concerned Asian Scholars 26, no. 4 (October-December 1994): 2-17.
Yoshimi, Yoshiaki. Comfort Women: Sexual Slavery in the Japanese Military during World War II. New York: Columbia University Press, 2000. 

Imagem: As vitimas do Exército Imperial Japonês durante a Segunda Guerra Mundial e seus apoiadores em uma manifestação durante uma reunião entre o Primeiro Ministro Sinzo Abe e o Presidente Beingno Aquino III, em 2013.http://static.rappler.com/images/comfort-women-rally-mendiola-epa-20130727-001.jpg

Um comentário:

  1. A guerra em si é um crime com todas suas implicações. Estupros fazem parte mas não só dos vencidos, como também dos vencedores na conquista. Os soviéticos (em suas diversas etnias) levaram a fama na Europa Central pós 1944, enquanto silencia-se sobre osamericanos e a soldadesca das colônias francesas e britânicas. A versão do vencedor é a do libertador, do que veio instaurar a democracia, a moral e os bons costumes.. Enfim, a imagem do good boy...

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