sexta-feira, 15 de junho de 2012

Barão de Mauá: O Primeiro Empresário Brasileiro

Priscila Alcântara



Batizado como Irineu Evangelista de Souza, Barão de Mauá e posteriormente Visconde de Mauá, nasceu em 1812, na cidade de Arroio Grande, Rio Grande do Sul, durante o Império de Dom Pedro II, uma monarquia constitucional. Foi influente no comércio, na indústria, no ramo bancário, na política e na agricultura, sendo que no seu apogeu, chegou a ter mais dinheiro que o Império.
O Barão possuía um grande talento para o empreendedorismo, porém à época em que se encontrava não era para empreendedores, já que a elite política dominante se compunha de latifundiários mais preocupados em manter a vocação agrária do país, de fácil administração e rentabilidade certa. A escravidão inibia a demanda e consequentemente a formação de um mercado interno consistente, contribuindo para congelar o país em ciclos agrários (café, açúcar), além de não desenvolver o conhecimento necessário e especializado para a indústria. É importante ressaltar ainda a ausência de um mercado financeiro estruturado para auxiliar os investidores, que eram levados a buscar apoio direto do Estado ou assumir os riscos de investirem sozinhos.
            Aos cinco anos de idade Irineu ficou órfão e aos nove se mudou para o Rio de Janeiro a fim de trabalhar. Começou como um simples caixeiro e logo mostrou aptidão para o comércio, vindo a ser contratado pela Companhia Inglesa de Comércio, a Carruthers, onde posteriormente, virou gerente e sócio.
            Através da maçonaria, conquistou certo apoio político e concessões. Criou inúmeros projetos de industrialização, utilizando-se de mão-de-obra assalariada, segue os principais: seu primeiro investimento foi o Estaleiro de Ponta Areia (1846), financiado a princípio pelo próprio Barão e com ajuda a do Estado, sendo este o seu único e exclusivo cliente; a Companhia de Iluminação a Gás do Rio de Janeiro (1852) foi o projeto considerado mais bem sucedido e também logrou com concessões governamentais; investiu na Estrada de Ferro de Petrópolis (1852), porém não havia nem passageiros, nem carga para movimentação e sofreu ainda com concorrência de outra estrada de ferro que estava sendo construída e novamente Irineu pede ajuda ao Governo; a Navegação a Vapor do Rio Amazonas (1852) teve iniciativa governamental e Mauá entrou como sócio responsável pela execução do projeto, recebendo o monopólio da navegação por 30 anos; na disputa da Bacia do Prata (1850), a pedido do Imperador, Mauá investiu nos Uruguaios (contra os argentinos), por motivo de privilégios em demarcação de fronteira e disputa territorial. Porém, Mauá estava ciente que ao tomar esta medida, ele também sairia ganhando, pois o governo uruguaio iria ficar em dívida com ele. Após a guerra, decidiu então abrir um banco no país, o Mauá y Cia. Porém Mauá foi caloteado pelo governo uruguaio o que contribuiu com a sua falência.
Outro projeto destacável é a São Paulo Railway (1859), ferrovia que ligaria o porto de Santos ao planalto paulista para atender a demanda da produção cafeeira. Por necessitar de grande capital, Irineu foi buscar ajuda da companhia inglesa Rothschild & Sons. Porém o projeto logo se mostrou muito mais caro do que imaginara e passou a ter a concorrência desleal de uma ferrovia com o mesmo trajeto que estava sendo construída pelo governo. Consequentemente, os ingleses se retiraram do negócio, o que fez com que o Barão terminasse de pagar sozinho as obras; contudo Mauá tentou angariar o capital inglês não aplicado (apenas prometido) nos tribunais brasileiros, não obtendo sucesso, pois o juiz da corte determinou que como o caso envolvia cidadãos ingleses, estes deveriam ser julgados por uma corte inglesa e logicamente Mauá perdeu o caso, o que potencializou a sua falência mais tarde.
Como a elite nacional e o Imperador possuíam uma relação conturbada com o Barão pelo fato de não estarem interessados numa industrialização imediata, este assentou sem ajuda financeira nenhuma, cabos telegráficos submarinos que ligaram a Europa ao Brasil em 1872, um sonho antigo de Dom Pedro.
            Importante destacar como procedia nos seus investimentos. Os bancos fundados por Mauá, a priori, serviam como alavanca para os negócios industriais, utilizando-se do capital de terceiros como empréstimos, para que posteriormente o capital voltasse multiplicado. Porém tal método era arriscado, pois se os depósitos eram baixos, não haveria dinheiro suficiente para saudar os investidores e um negócio não desse retorno, os bancos iriam ficar devendo. E foi justamente o que aconteceu, quando o Banco no Uruguai quebra, os aplicadores brasileiros correram para o Banco (nacional) Mauá e Cia a fim de retirar seu dinheiro, porém, parte do dinheiro não existia, pois foi aplicado nos negócios de Mauá que não deram certo. Com isso, o Barão pede moratória de três anos, porém não conseguiu saldar suas dívidas a tempo, o que levou a cassação do seu registro de negociante.
            Devido à falência múltipla de seus negócios, Mauá chegou a leiloar até a casa em que morava e itens pessoais para liquidar suas dívidas, o que acabou se concretizando, vindo a recuperar sua matrícula de comerciante em 1884.
            Considerando que os interesses pessoais do Barão compatibilizavam com os nacionais, obteve inúmeras vezes apoio governamental, sendo poucas as situações que este agiu contra. No final, a razão de sua derrocada se encontra nos muitos calotes e injustiças, além de sua imprudência e falta de foco, porém o que devemos lembrar antes de mais nada, é o seu desejo de melhorar as condições industriais e sociais do Brasil a fim de torná-lo uma potência.

Referências:
BERTERO, C. O.; IWAI, T. Uma visita ao barão. Disponível em:  http://www.scielo.br/pdf/rac/v9nspe2/v9nesp2a02.pdf
FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961.
REZENDE, Sérgio. Filme: “Mauá, O Imperador e o Rei”,1999).

Priscila Alcântara é aluna do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba

Um comentário:

  1. Muito bonita e empreendedora a História do Barão de Mauá, pena que naquela época ele tinha que travar e acabou travando uma “guerra” com a Monarquia Imperial, e com os latifundiários produtores de café. A Monarquia Imperial nesta época de certa forma estava a serviço dos cafeicultores brasileiros, que não queriam de maneira alguma um Brasil industrializado, e esta “guerra” foi travada até a Revolução de 1930,quando Getúlio Vargas,chegou ao poder e rompeu com a Burguesia confeicultora, e só assim o país começou a ter seus laços de industrialização e desenvolvimento, muitíssimo atrasado em relação aos países europeus e até mesmo os das Américas, que estavam bem à frente de nós, é o caso dos EUA com o fordismo. Sem falar que a Europa já tinha duas grandes potências econômicas, que se unificaram nos fins do século XIX, que foi a Alemanha e Itália, e na Ásia tínhamos a fúria japonesa, que havia vencido os russos numa guerra que aconteceu no início do século XX, e em meados da década de 40, os mesmos estavam em guerra com os chineses, invadindo a região riquíssima da Manchúria. E que só veio ocorrer à desocupação japonesa no fim da década de 1940, precisamente em 1948 onde os nacionalistas de Chiang Kai-shek, se uniram com os comunistas maoistas em prol da libertação do povo chinês da invasão japonesa.

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