sexta-feira, 8 de junho de 2012

A Terra das Neves em chamas

(Nota originalmente publicada na coluna Sociomídia da Revista Sociologia, Ano IV, Edição 40, Junho-Julho de 2012, p. 59.)



Quatro anos após as Olímpiadas de Beijing, o Tibete volta às manchetes. A razão é a mesma: a população tibetana protesta contra a ocupação chinesa, iniciada em 1951, e o governo central a reprime severamente. Todavia, desta vez há um elemento novo.  Antes, os manifestantes saiam às ruas, exibindo faixas e gritando palavras de ordem. Agora, eles lançam mão de uma nova tática, a autoimolação, que consiste em atear fogo ao próprio corpo em público. Mais de trinta pessoas sacrificaram-se desde fevereiro de 2009, em sua maioria monges budistas. À parte considerações sobre a sua legitimidade, a autoimolação é um indicador da deterioração das condições de vida dos tibetanos, particularmente no que diz respeito ao gozo de direitos básicos, assim como do seu desespero e da sua vontade inquebrantável por mudanças. Desde 1994, a repressão aos tibetanos tem aumentado tanto em alcance quanto em intensidade. Além de ser forçada a renunciar à liderança espiritual do Dalai Lama, a comunidade monástica foi submetida à fiscalização da polícia chinesa e a programas de “reeducação”. O ensino da língua tibetana nas escolas, assim como o seu uso no serviço público, foi proibido. Paralelamente a isso, o governo chinês tem implementado políticas de desenvolvimento regional que afetam negativamente o modo de vida tradicional dos tibetanos, em especial os pastores nômades. Observe-se que ações dessa natureza não são realizadas em outras regiões da China desde a morte de Mao Zedong e o fim da Revolução Cultural em 1976.


Por George Wilson dos Santos Sturaro, mestre em Relações Internacionais pela UFRGS, professor da UNICURITIBA e pesquisador do NEPRI/UFPR e do NEADI/PUC-PR. E-mail: gesturaro@hotmail.com
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domingo, 3 de junho de 2012

Primeira Guerra Mundial Africana: uma apreciação histórica




Gisele Passaúra

A República Democrática do Congo está localizada na parte central da África Subsaariana. Possui grandes riquezas naturais especialmente em jazidas de minérios tais como: cobre, ouro, estanho, assim como uma vasta área para a exploração de diamantes. Paradoxalmente, esse país rico em recursos esteve imerso em uma das mais sangrentas guerras civis da história moderna.

Os conflitos iniciaram-se em 1996 ocasionando em massiva destruição das atividades político-econômicas e sociais do país. Após o primeiro estágio, o país foi palco do que se conhece como a Primeira Guerra Mundial Africana. O novo estágio se intensificou pela quantidade de atores envolvidos: sendo tanto grupos internos congoleses quanto praticamente todos os seus países vizinhos.

Em dois de Agosto de 1998, apenas catorze meses após o final da Guerra iniciada pela coalizão anti-Mobutu (primeira guerra civil congolesa), emerge, então, um novo movimento armado anunciando o começo de uma possível continuidade da “Guerra pela libertação”. Entretanto, dessa vez, a rebelião era contra o regime de Laurent Désiré Kabila. O conflito teve início pelas diferenças entre os membros fundadores da Alliance des Forces Démocratiques pour la Libération du Congo (ADFL), aliança essa responsável por colocar Kabila no poder em 1997 após a derrubada de Mobutu.

Kabila não conseguiu se desvencilhar dos compromissos assumidos na primeira Guerra com Uganda e Ruanda, concomitantemente esses países não estavam dispostos a deixar a “mina de ouro” congolesa lhes escapar às mãos. O que se viu, então, foi uma repetição da “fórmula mágica” que surtira efeito no primeiro conflito: pedir ajuda aos outros países e formar coalizões. Como resultado, o que se presenciou foi vários grupos tentando defender seus interesses. A segunda Guerra Congolesa foi desenhada por um emaranhado de distintos atores que incluem:
ü  O governo Congolês versus diversos grupos rebeldes;
ü  O governo Ruandês versus o governo congolês;
ü  O governo Ruandês versus insurgentes ruandeses;
ü  O governo Ugandês versus rebeldes apoiados pelo Sudão;
ü  O governo Sudanês versus rebeldes sudaneses apoiados por Uganda;
ü  O governo Ugandês versus o governo Congolês;
ü  Os governos de Uganda e Ruanda versus os governos de Zimbábue e Angola;
ü  Rebeldes congoleses apoiados por Ruanda versus rebeldes congoleses apoiados por Uganda;
ü  O governo Ugandês versus o governo Ruandês;
ü  O governo Burundi versus facções rebeldes de Burundi;
ü  O governo Angolano versus UNITA e qualquer um que apoiasse UNITA
ü  O governo Sudanês versus o governo Ugandês.

Após quase um ano de conflitos, em julho de 1999, líderes de Uganda, Ruanda, Congo, Zimbábue, Namíbia e Angola assinaram um acordo de paz em Lusaka, Zâmbia. A retirada das tropas estrangeiras do território congolês era uma dos pontos principais. O acordo também chamou para as negociações os principais grupos armados participantes no conflito.

Em janeiro de 2001, entretanto, o presidente Kabila foi assassinado, e seu filho (Joseph Kabila) foi nomeado presidente. Em 2002, após várias rodadas de negociações as partes concordaram com a instauração de um governo transitório encabeçado pelo presidente Kabila e quatro vice-presidentes. Em 2003, os vice-presidentes foram empossados.

Depois de ser nomeado chefe do governo transitório Joseph Kabila foi declarado presidente para um mandato de cinco anos, podendo servir a um segundo, caso eleito. Em 2006, após conturbado processo de votação, Kabila foi reeleito, não podendo assumir uma terceira vez conforme a constituição congolesa.

Em 2011, entretanto, Kabila realizou modificações na constituição para que o presidente pudesse concorrer a um terceiro mandato. Não apenas isso, como nomeou um aliado público Pastor Daniel Mulunda Ngoy, como chefe da comissão eleitoral.
Em um processo conturbado e com denúncias de corrupção e fraude, Kabila foi declarado vencedor das eleições de Novembro de 2011, fomentando diversos protestos e escalando a violência na República Democrática do Congo, especialmente nas províncias de North Kivu, South Kivu e Orientale.

Depois dos acordos de paz e os processos eleitorais, ocorrem tensões e lutas entre forças leais a Kabila e diversos grupos armados tais como: ADF, Mai Mai, FDLR e LRA. O leste e o norte do país continuam voláteis e alvos de contínuos ataques a civis, especialmente violências sexuais contra mulheres e meninas. Aproximadamente 1,7 milhões de pessoas foram retiradas de suas casas e cerca de 476.000 estão refugiados nos países vizinhos. Ainda estão atuantes no país antigos grupos armados tais como: FDLR, ADF e LRA. Essas organizações também são responsáveis por vários ataques a civis.

Outro mecanismo que perpetuou e até mesmo legitimou os diferentes tipos de violência foi que um dos itens dos acordos de paz previa que membros dos antigos grupos armados fossem incorporados na criação de um exército único congolês. Ou seja, não apenas esses grupos mantiveram suas metas como agora possuem meios legítimos para os fazerem. Não é ao acaso que há grandes denúncias de que o exército promova ataques à população.

Em síntese, a situação atual da República Democrática do Congo ainda apresenta-se delicada por um conglomerado de motivos tais como corrupção, fraude eleitoral, mas também por grupos armados, especialmente os de origem ruandesa, ugandesa e sudanesa ainda estarem atuantes e impondo o terror à população em território congolês.

Gisele Passaura é acadêmica do 8º semestre do Curso de Relações Internacionais do UniCuritiba.


REFERÊNCIAS

CONGO AT WAR. A Briefing on the internal and external players in the Central African conflict. International Crisis Group Report n°2, Nov. 1998, p. 1.
DAGNE, T. The Democratic Republic of Congo: background and current developments, Report for American Congress, 2011.
PRENDERGAST, J; SMOCK, J. Putting humpty dumpty together: reconstructing peace in Congo. Special report from United Institute of Peace. 1999.
VEHNAMAKI, M. Diamonds and warlords: the geography of war in the democratic republic of Congo and Sierra Leone. Nordic Journal of African Studies.
WEINSTEIN, J. M. Africa’s scramble for africa. World policy journal. 2000.
The agreement on a cease-fire in the Democratic Republic of Congo. International Crisis Group Democratic Republic of Congo Report N° 5, 1999.


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sexta-feira, 1 de junho de 2012

Sarney e o Plano Verão: o início do estrago


AMANDA TODESCHINI ROVERI SIDNEY
RENATA JEROLA MARTINS


O combate inflacionário foi eleito como meta principal na condução da política econômica da nova República. De 1986 a 1991, houve programas de combate à inflação praticamente em todos os anos. O país tentou atingir este objetivo de diferentes formas, com uma série de planos econômicos que visavam a queda abrupta da inflação, intercaladas por períodos de controle ortodoxo. Entre os planos, destacaram-se Cruzado (1986), Bresser (1987), Verão (1989), Collor I (1990), Collor II (1991). Esses planos tinham por base o diagnóstico da inflação inercial, trazendo como principal elemento o congelamento de preços. A cada plano incorporavam-se novas características, visando aperfeiçoar os planos anteriores, na tentativa de não incorrer nos mesmos erros.
Apesar disso, o fato de o Plano Verão de 1989 ter sido antecedido pelo Cruzado e Bresser não foi suficiente para fazer com que ele não se tornasse um dos planos com piores consequências para a economia brasileira na história do país. No início da década de 1990, com o fracasso do Plano, a economia brasileira vivenciou a hiperinflação. Antes disso, a inflação já era alta, impulsionada pelo acúmulo da dívida externa nos anos 70, o Segundo Choque do Petróleo, o choque de juros e junto a isso a suspensão de financiamentos externos desde 1982. Porém é no momento em questão que a situação foge do controle. A taxa de inflação chega a 56% em janeiro de 1990, 73% em fevereiro e 84% em março, números impraticáveis na economia atual.
Em 1988, Maílson da Nóbrega, o quarto e último ministro da Fazenda do governo Sarney, referiu-se às ações futuras como “feijão com arroz”, querendo dizer que nada inovador seria tentado, tendo como objetivo estabilizar a inflação em 15% a.m. e concomitantemente reduzir o déficit operacional do governo de 8% do PIB para 4%, sem sucesso. Um ano depois, em 1989, instaurou o Plano Verão, que englobava, entre outras medidas, um novo congelamento de preços e salários, a criação do Cruzado Novo, a contenção salarial, a redução no prazo de recolhimento dos impostos e o comprometimento de conter os gastos públicos. Essa política conteve a inflação abaixo dos 20% a.m. no primeiro semestre, mas, no segundo, houve intenso processo de aceleração inflacionária.
O Plano Verão foi de curta duração. O governo não realizou nenhum ajuste fiscal, o que mantinha elevados e crescentes os déficits públicos. Essa dificuldade foi maior devido às eleições no final de 1989, com um grande número de congressistas se candidatando, o que levava à não-aceitação de qualquer medida impopular naquele ano. O descontrole fiscal levava ao descontrole monetário e esses aspectos, juntamente com as incertezas do último ano do governo Sarney e um profundo imobilismo da política econômica, levaram a inflação a acelerar-se rapidamente, fazendo com que se caminhasse a largos passos para a hiperinflação.
A aceleração da inflação brasileira até atingir o nível de hiperinflação ocorreu por etapas. No segundo semestre de 1989 a inflação brasileira superou a marca dos 30% ao mês. O limiar de 50% foi ultrapassado em dezembro de 1989 e, em março do ano seguinte, a inflação atingiu incríveis 84%.
A principal característica de todo o governo de Sarney foi um grande descontrole das contas públicas, com aumento nos déficits operacionais e crescimento do endividamento interno, a prazos mais curtos, com giro diário, e cuja necessidade de rolagem inflexibilizava a taxa de juros. Ao final de tudo isso, tanto a política fiscal como a monetária tornaram-se prisioneiras da rolagem da dívida interna.
Mas, como sempre, há quem discorde. Exemplificando este grupo de pessoas, cita-se o próprio Sarney e sua opinião a respeito do ocorrido, divulgadas em seu blog: “A inflação no fim do governo Sarney é alta, mas seus efeitos sobre a economia popular são reduzidos pela manutenção do regime de correção monetária plena, que mantinha o poder de compra dos salários. Ao mesmo tempo, e como resultado do empenho pessoal de Sarney na administração da crise, não houve estagnação: os dados indicavam crescimento da economia, manutenção do emprego e recuperação da renda per capita.”
Sarney só se esqueceu de citar que os dados que indicavam crescimento têm como base de comparação os do governo de Figueiredo, período de total estagnação da economia brasileira devido à crise da dívida. Porém, mesmo se estes resultados positivos citados por ele realmente tivessem sido significantes, logicamente não valeriam a pena mediante o alto custo pago como a moratória e a hiperinflação.
Apesar de a hiperinflação enfrentada pelo Brasil não ter nem ao menos chegado perto da hiperinflação alemã pós I Guerra Mundial (mais de um bilhão por cento), gerou inúmeros impactos na economia do país e dor de cabeça para os brasileiros. Como exemplo de prejudicados, citam-se aqueles que fizeram investimentos em poupança na primeira quinzena do mês janeiro de 1989 tiveram grandes perdas por causa da mudança do índice de correção realizada com o Plano Verão. Para recupera-las, o IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) moveu, desde o início da década de 90, ações judiciais contra as instituições financeiras. Apesar do valor do prejuízo, que afetou 64 milhões de contas, ser de difícil avaliação, os bancos causaram perdas no rendimento das poupanças que variam entre 8% e 45%. Mediante a apresentação de documentos de janeiro e fevereiro de 1989, cidadãos prejudicados foram ressarcidos, amenizando um dos diversos impactos causados pelo plano.
A par de sua carreira política, José Sarney encontra tempo para ser autor de contos, crônicas, ensaios e romances. A respeito de Brejal dos Guajas, uma de suas obras, Millôr Fernandes disse que se tratava de "uma obra-prima sem similar na literatura de todos os tempos, pois só um gênio poderia fazer um livro errado da primeira à última frase". Cruzado, Bresser, Verão são obras-primas, dessa vez políticas, feitas por este mesmo gênio que errou e continua errando.
Adversários, jornalistas e cientistas já se referiram ao período de preponderância da família Sarney na política maranhense como uma época de "dominação da mais antiga oligarquia política vigente no país". Sarney lidera o ranking de corrupção e erros econômicos significativos com consequências sentidas até os dias de hoje, assim como o estado do Maranhão lidera o ranking brasileiro de subdesenvolvimento. Apesar de tudo isso, Sarney continua recebendo votos e exercendo papel de destaque no governo atual. Tolerar silenciosamente constantes absurdos políticos é uma escolha nossa.
Tendo em vista que o Brasil é um país democrático no qual o poder de tomar importantes decisões políticas e sociais está nas mãos do povo, cabe a este responsabilidade e consciência na hora do voto. Falando nisso, você lembra em quem você votou nas últimas eleições?

AMANDA TODESCHINI ROVERI SIDNEY e RENATA JEROLA MARTINS são alunas do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba.
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segunda-feira, 28 de maio de 2012

A compreensão de Política Internacional





Rafael Pons Reis

No segundo capítulo do livro “A Política entre as Nações”, Hans Morgenthau constrói uma linha de pensamento quanto à possibilidade de elaborar uma “ciência da política internacional”, todavia, não deixa de apresentar certo ceticismo na possibilidade de fazê-la. A principal dificuldade encontrada por ele está relacionada com as limitações acerca do entendimento dos processos utilizados na política internacional devido à ambiguidade do material com a qual o investigador tem de trabalhar, isto é, ao mesmo tempo que os eventos internacionais são ocorrências únicas, eles são semelhantes uma vez que são manifestações de forças sociais. Nesse contexto, questiona-se Morgenthau: “(...) submetidas a condições similares, essas forças se manifestarão de modo análogo. Contudo, cabe perguntar: onde devemos traçar a linha que separa o similar do único?” (p.32). Morgenthau assevera que comparações entre eventos internacionais podem ajudar o investigador a conhecer os princípios da política internacional, mas ao mesmo tempo adverte acerca do perigo das “falsas analogias”:

A primeira lição a ser aprendida, e jamais esquecida, pelo estudante de política internacional consiste em entender que as complexidades dos assuntos internacionais tornam impossíveis quaisquer profecias simples e fidedignas. É a partir deste ponto que o estudioso se distância do charlatão. O conhecimento das forças que determinam a política entre as nações, e das maneiras pelas quais se desenrolam as relações políticas, revela a ambiguidade dos fatos atinentes à política internacional. Em qualquer situação política, estarão em jogo tendências contraditórias. Em determinadas condições, algumas dessas tendências terão maiores probabilidades de predominar mas, dentre essas várias possibilidades, saber qual delas irá realmente ocorrer constitui área que fica aberta à capacidade de especulação de cada um. O máximo que o especialista poderá fazer, nesse caso, é traçar as diferentes tendências que, como potencialidades, são inerentes a uma determinada situação internacional. Ele poderá também assinalar as diferentes condições que tornam uma tendência mais suscetível de prevalecer sobre as demais e, finalmente, avaliar as distintas probabilidades que as diversas condições e tendências têm de predominar na realidade. (p. 38-9).
           
Diante desse contexto, cita como exemplo o modo como a Agência Central de Inteligência (CIA) foi criticada por não ter prevenido a tempo às autoridades políticas norte americanas sobre as consequências dos distúrbios que acarretaram na expulsão do xá Reza Pahlevi, no Irã, em 1979. Nesse contexto, pergunta-se:

A que devemos atribuir essa falha por parte de pessoas normalmente inteligentes e responsáveis? A resposta reside na natureza do material empírico com o qual aquelas pessoas tinham de trabalhar. O observador é confrontado com uma multidão de fatores que, em sua totalidade, conformam o futuro. Para poder prever o futuro, o nosso observador teria de conhecer todos esses fatores, todas as suas dinâmicas, suas ações e reações mútuas e assim por diante. Mas o que ele sabe, e pode saber, não passa de um pequeno fragmento do quadro total. Ele apenas pode conjecturar e somente o futuro revelará quem soube, entre as muitas opções plausíveis, escolher corretamente. (p. 41).
           
A despeito da defesa de Morgenthau da perspectiva que a formulação de uma teoria da política internacional deve necessariamente apresentar um objetivo ético e prático para contribuir para a paz mundial, o autor menciona que a paz poderá ser mantida por meio do expediente de dois instrumentos: de um mecanismo auto regulador das forças sociais sob a forma de um equilíbrio de poder; e o outro consiste nas limitações normativas referentes à luta em busca de poder no cenário internacional, manifestadas sob o manto do direito internacional público, da opinião pública e da moralidade internacional, solução esta que serviu como origem para a formulação do tema da sociedade internacional da Escola Inglesa, diante da importância da difusão e socialização das normas estabelecidas entre os Estados nacionais.
Na próxima semana discutiremos a visão do autor acerca de um dos mais importantes conceitos na literatura especializada das Relações Internacionais, a questão do poder. Veremos as quatro distinções feitas pelo autor, respectivamente, entre: i) poder e influência; ii) poder e amor; iii) poder utilizável e não utilizável; e iv) poder legítimo e poder ilegítimo.

Rafael Pons Reis é Doutorando em Sociologia Política (UFSC), Mestre em Relações Internacionais (UFRGS), e professor do Curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Curitiba.
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sábado, 26 de maio de 2012

O Programa Nuclear Iraniano



Por Andrew Patrick Traumann*

O programa nuclear iraniano tem sido um dos temas mais debatidos nas Relações Internacionais nos últimos anos. Previsões apocalípticas de como seria o mundo com um Irã nuclear tem pipocado frequentemente na mídia. O problema é que essas notícias não são novas.
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domingo, 20 de maio de 2012

Resenha do livro “Caos e governabilidade no moderno sistema mundial”



                                                                                                          Bruno Hendler[1]

O professor de sociologia da Universidade Johns Hopkins, Giovanni Arrighi, faleceu em 2009 deixando uma vasta literatura em que buscou, em última instância, responder aos atuais questionamentos sobre as transformações da economia política mundial nos últimos quarenta anos. Suas principais obras são, em ordem de publicação: “O Longo Século XX” (1996), “Caos e Governabilidade no Moderno Sistema Mundial” (2001) e “Adam Smith em Pequim” (2008). Junto com Immanuel Wallerstein, seu nome é um ícone da abordagem interdisciplinar da economia política dos sistemas-mundo, dialogando com conceitos da economia clássica, da historiografia da Escola de Annales, ciência política e sociologia.
O livro “Caos e Governabilidade” (CG), fruto da parceria de Arrighi com Beverly J. Silver, é o segundo da trilogia do autor, em que se estabelece uma espécie de ponte entre a densa análise histórico-teórica do “O Longo Século XX” e as perspectivas do século XXI apontadas em “Adam Smith em Pequim”. Por esta razão é importante o debate sobre a obra que condensa, de forma concisa e didática, a perspectiva do sistema-mundo, sendo acessível para os iniciantes e elucidativa para os já familiarizados com a teoria.
Na introdução de CG, Arrighi deixa claro que o sistema internacional oscila entre momentos de caos e governabilidade. Esta deriva de um poder hegemônico que exerce papel central na economia-mundo e é capaz de liderar os demais Estados por meio do consenso. Já o caos decorre da crise hegemônica, em que a típica anarquia internacional dá lugar a “uma escalada da competição e dos conflitos que ultrapassa a capacidade reguladora das estruturas existentes” (ARRIGHI; SILVER, 2001, p. 42), ou seja, as estruturas da ordem vigente são confrontadas por novos modelos desafiantes.
Desde seu surgimento em fins da Idade Média, o sistema-mundo moderno testemunhou a ocorrência de três hegemonias mundiais: a holandesa, no século XVII; a inglesa no século XIX; e a norte-americana no século XX. As transições de uma hegemonia a outra foram marcadas pelo aumento do caos sistêmico e a hipótese do livro é que vivemos, desde a década de 1970, um novo caos, marcado pela crise da hegemonia norte-americana.
Portanto, a proposta do livro é estabelecer analogias, identificar rupturas e continuidades entre as transições do passado e a suposta transição que estaria ocorrendo neste exato momento, da hegemonia dos EUA para um rumo ainda desconhecido (ARRIGHI; SILVER, 2001, p. 13).
O primeiro capítulo foca-se na questão dos Estados nacionais e em como a disputa por poder entre eles levou a escaladas de violência que colapsaram a lógica de governo vigente e reorganizaram o sistema sob o comando de uma hegemonia nova e mais abrangente. Na transição da hegemonia holandesa para a inglesa, Arrighi demonstra como a disputa entre França e Inglaterra no século XVIII provocou a exclusão de Estados “protonacionais” como a Holanda. Já na transição da hegemonia inglesa para a norte-americana foram excluídos os Estados nacionais que não possuíam complexos industriais bélicos em escala continental, sobrevivendo apenas as duas superpotências da Guerra Fria.
O segundo capítulo trata dos agentes empresariais, enfocando o sucesso e fracasso das diferentes alianças entre o capital privado e os Estados. As companhias de comércio holandesas foram verdadeiras “máquinas de acumulação de poder e riqueza” que fizeram de Amsterdã o centro financeiro mundial. Porém, aos poucos foram suplantadas pela lógica industrial das empresas familiares inglesas. De forma homóloga, estas mesmas empresas sofreram concorrência e foram substituídas, um século depois, por grandes corporações cuja lógica de acumulação baseava-se na otimização dos recursos tecnológicos disponíveis e no protecionismo estatal – principalmente nos EUA, Alemanha e Japão.
O terceiro capítulo examina como os pactos sociais, estabelecidos durante períodos hegemônicos, se desfizeram em épocas de caos sistêmico, gerando insatisfação e revoltas tanto no centro quanto na periferia do sistema-mundo. O modelo colonial mercantilista, implantado pelos ibéricos e adotado por holandeses e franceses, sofreu severos golpes no século das luzes e as elites coloniais, bem como as massas das metrópoles monárquicas, sublevaram-se contra seus governos, dando origem a uma série de independências e revoluções de cunho iluminista. De forma homóloga, ao final do século XIX e durante as guerras mundiais, as massas de trabalhadores se organizaram em busca de melhores condições de vida e os soldados, movidos pelo nacionalismo, voltaram para casa armados, assustados com a destruição e dispostos a fazer uma revolução contra o sistema pelo qual lutaram (ARRIGHI; SILVER, 2001, p. 199).
No quarto e último capítulo, os autores colocam as hegemonias ocidentais em perspectiva histórica mundial, afirmando que para o resto do mundo, estes poderes foram apenas dominação sem consentimento culminando, após cerca de cinco séculos, numa revolta contra o Ocidente iniciada no século XX (Arrighi; SILVER, 2001, p. 228). Em contrapartida, os autores percebem a ascensão do Leste da Ásia como “o centro mais dinâmico dos processos de acumulação de capital” em que a China exerce o papel central e pode por fim ao ciclo de supremacia ocidental sobre o resto do mundo.
Na conclusão da obra, Arrighi e Silver enumeram cinco hipóteses (proposições) a serem verificadas à luz do desdobramento dos fatos no século XXI.
1)   A expansão financeira iniciada na década de 1970 é o sinal mais claro de que vivemos uma crise hegemônica que pode acabar em uma catástrofe maior ou menor dependendo do comportamento desta hegemonia.
2)   Ao contrário dos caos sistêmicos do passado, hoje se percebe uma bifurcação entre poder militar e poder financeiro – aquele restando nas mãos dos EUA e este migrando para o Leste da Ásia. Para os autores, este processo reduz a chance de guerra entre as potências mas não reduz a possibilidade de um caos sistêmico prolongado.
3)   Enquanto as ondas de globalização do passado estiveram associadas ao aumento de poder dos Estados nacionais, a globalização do século XX é marcada pela perda de poder estatal frente às empresas transnacionais e outros agentes internacionais.
4)   Tal como nos caos sistêmicos do passado, é esperada uma onda de conflitos sociais que reflitam a crescente proletarização, feminização e mudança geográfica e étnica das forças de trabalho mundiais.
5)   Por fim, segundo os autores, o grande desafio para o futuro não está no choque de civilizações mas na transformação do mundo moderno em uma comunidade de civilizações que reflita a mudança do equilíbrio de poder entre as civilizações ocidentais e não ocidentais.

Referências bibliográficas

ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo. Rio de Janeiro: Contraponto; São Paulo: Editora Unesp, 1996.
______; SILVER, Beverly J. Caos e governabilidade no moderno sistema mundial. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora UFRJ, 2001.
______; Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. São Paulo: Boitempo, 2008.


[1] Egresso da UNICURITIBA, Bruno Hendler atualmente cursa o Mestrado em Relações Internacionais da UNB.
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sábado, 19 de maio de 2012

HIATOS DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO BRASILEIRO: DIMINUIÇÃO DA POBREZA PARA UMA ECONOMIA MAIS FORTE

Por Fernando Henrique Alves e Luiza Mariani



“O desenvolvimento verdadeiro só existe quando a população em seu conjunto é beneficiada” assim Celso Furtado, um dos maiores expoentes da economia brasileira, refere-se à desigualdade social. Ao mesmo tempo em que somos a sexta maior economia do planeta, com altos níveis de crescimento, lidamos com grandes hiatos sociais que nos remetem à falta de políticas públicas eficientes.

Hoje no Brasil há um grande abismo no que concerne à distribuição de renda: 10% da parcela mais rica da população possui 42,77% da renda total e os 10% mais pobres não chegam a um por cento, 0,96%. Mais de 19 milhões de pessoas, ou seja, o estado de Minas Gerais (o segundo mais populoso do Brasil) inteiro na miséria. O Censo 2010 aponta que a renda per capita destas pessoas gira em torno de setenta reais mensais. Além disso, elas não têm acesso à infraestrutura. Segundo dados do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), aproximadamente 20% da população urbana do país não tem acesso à rede de esgoto, inferior ao das áreas urbanas de países como Jamaica, Filipinas e Angola.

É uma característica dos novos países emergentes a má distribuição de renda. A situação se repete em Estados que encontram dificuldades em solucionar o problema, e em outros que são acusados de usar a má distribuição de renda como“arma econômica”, no caso do dumpingsocial da China. Para Celso Furtado “O processo de desenvolvimento tem seu verso e reverso [...] na forma de distribuição de renda”. No Brasil a diminuição da desigualdade pode ser uma forte ferramenta para o desenvolvimento econômico e uma vantagem em relação a outros emergentes na formação do presente cenário mundial.

Podemos exemplificar este caso com a crise ocorrida em 2008, que impactou fortemente as economias mundiais e que até hoje tem seus efeitos refletidos no sistema internacional, culminando nesta nova crise na Zona do Euro. Vários economistas confirmam que a ascensão das classes sociais, principalmente C e E, fizeram com que o país saísse pouco afetado da crise de 2008. Essas pessoas saíram da faixa da pobreza e passaram a integrar o mercado consumidor, sustentando a indústria e a produção brasileira, enquanto as classes mais ricas diminuíam seu consumo. Marcelo Neri pesquisador da FGV descreve que esta tendência se deu porque“Talvez, as periferias sejam menos conectadas aos mercados externos via exportação ou aos mercados financeiros, que foram os mecanismos de transmissão da crise. O mercado interno gera atividade, emprego e renda. É um ciclo virtuoso no qual, as periferias, em particular, protegem a economia brasileira dos efeitos da recessão mundial”.

A classe média brasileira é composta por cerca de 120 milhões de pessoas, o que faz com que o consumo interno seja muito grande, e a economia brasileira mais influenciada pelo mercado interno em detrimento ao externo. Essa classe demonstra hoje poder de consumo, mesmo não possuindo rendas elevadas, e mostra-se importante para a economia brasileira. Nos últimos 8 anos, segundo dados da Secretária de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, os gastos com consumo dessa classe subiram quase 50%. A quantidade de brasileiros ainda com propensão a consumir mais é enorme, e reflete o alto crescimento que tivemos nos últimos anos.

As políticas públicas, como a reforma tributária e os programas de assistência social, devem ser aplicados ainda mais fortemente para que as classes que ainda devem ascender possam participar mais ativamente da economia. Assim, sinalizando preocupação contínua com a inflação e crescimento, o governo destaca medidas de aumento do crédito (por exemplo, a diminuição da taxa SELIC) importantes para a manutenção da indústria nacional e para a manutenção do crescimento.

À medida que avançamos e instrumentalizamos o desenvolvimento social, poderemos enxergar uma economia mais forte, igualitária e capaz de superar problemas internos e externos de ordem econômica. Fatores primordiais para o nosso posicionamento no sistema internacional e na nova ordem emergente de países que precisam transformar suas possibilidades em realidade.

BIBLIOGRAFIA:
FURTADO, Celso. Em busca de novo modelo: reflexões sobre a crise contemporânea. 2 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
______. Teoria e política do desenvolvimento econômico. 10 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS. Crise passa longe das classes D e E. Disponível em < http://www3.fgv.br/ibrecps/Clippings/lc1710.pdf>. Acesso em 10 mai. 2012
PNUD Brasil. Em esgoto, Brasil rural é pior que Sudão. Disponível em: <http://www.pnud.org.br/saneamento/reportagens/index.php?id01=3440&lay=san> Acesso em 3 mai. 2012.
SECRETARIA DE ASSUNTOS ESTRATÉGICOS DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Nova classe média brasileira assume protagonismo. Disponível em: < http://www.sae.gov.br/site/?p=11401> Acesso em 5 mai. 2012


Fernando Henrique Alves e Luiza Mariani são alunos do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba.
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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Reforma imigratória será decisiva na eleição presidencial dos EUA





Protesto contra as deportações de imigrantes em Los Angeles, na Califórnia. Fonte: Jason Redmond/Reuters



Artigo de Rodolfo Stancki, com a colaboração de Gisele Barão e entrevista com Andréa Benetti, professora do Curso de Relações Internacionais do UniCuritiba.


Obama deixou de cumprir a promessa de rever as leis imigratórias e agora deve retomar o tema durante a disputa com o republicano Romney.

Quando assumiu o posto de presidente dos Estados Unidos, Barack Obama prometeu tirar o país da crise, trabalhar em políticas igualitárias, reformar a saúde e as leis imigratórias. “Sim, nós podemos” era o slogan da campanha. Agora, ele concorre à reeleição carregando consigo algumas pendências.
A economia do país teve um crescimento discreto e o novo sistema de saúde está travado na Suprema Corte. Semana passada, um sinal de mudança nas políticas sociais do presidente veio com seu posicionamento favorável em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. No momento, as dúvidas parecem cair sobre a reforma imigratória: se eleito, Obama vai rever a situação dos 11 milhões de estrangeiros que vivem nos EUA?
Seu oponente, o candidato republicano Mitt Romney, já se manifestou contra a ampliação dos direitos dos imigrantes ilegais no país e disse que vai vetar o Dream Act – projeto que regulariza os estudantes nessas condições.
“Todos os dias em que não temos uma reforma imigratória no país, cerca de duas pessoas morrem. Precisamos arrumar um jeito para essas pessoas entrarem legalmente aqui”, diz Enrique Morones, responsável pela ONG Border Angels, que presta socorro aos imigrantes em San Diego, na Califórnia.
Para a eleição que ocorre no fim do ano, democratas e republicanos buscam o apoio da comunidade latina. Em estados como a Califórnia, ela representa 24% da população. Morones diz que a questão da reforma imigratória será decisiva para o eleitorado latino.
Para o ex-embaixador brasileiro em Washington Rubens Antônio Barbosa, a vitória republicana pode representar uma mudança significativa nas políticas imigratórias no país. “Se ele ganhar, vai haver radicalização interna e a situação dos imigrantes sem visto não será legalizada”, afirma.
Um exemplo da radicalização citada por Barbosa seria a lei do Arizona, proposta pela governadora republicana Jan Brewer em 2010. O projeto, que foi parcialmente vetado, previa a criminalização de todo imigrante ilegal que estivesse no estado. Criticada, a ideia já ganhou versões semelhantes em estados como Utah, Indiana e Alabama.
Diante desse quadro, a professora do curso de Relações Internacionais da UniCuritiba Andrea Benetti defende que a atuação de Obama na questão imigratória foi positiva nos últimos três anos. “[George W.] Bush era bastante fechado para essas discussões. Ele não via os imigrantes com bons olhos. Obama sempre teve uma posição mais social diante do problema”, diz.
Brasileiros
Em março deste ano, o governo americano anunciou o Global Entry, projeto que deve facilitar a entrada de brasileiros nos Estados Unidos. Inicialmente, a proposta quer facilitar a entrada de empresários e profissionais que viajam com frequência ao país.
Na análise de Andrea, essa iniciativa mostra que os norte-americanos deixaram de ver os brasileiros como uma “ameaça imigratória”.
“O crescimento do Brasil nos últimos anos, tanto econômico quanto político, tem mostrado para os EUA que os brasileiros já não estão indo como imigrantes ilegais, mas como turistas. Então, para eles, é vantajoso”, explica.

Publicado no Jornal Gazeta do Povo em 13 de maio de 2012. 
Disponível em: http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/conteudo.phtml?tl=1&id=1253981&tit=Reforma-imigratoria-sera-decisiva-na-eleicao-presidencial-dos-EUA

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