segunda-feira, 15 de março de 2021

Médicos peregrinos, monges guerreiros, defensores humanitários e a trajetória da Ordem de Malta nas Relações Internacionais

 


Por Luiz Otávio Cruz de Alcântara Pereira*

    Os conceitos que os estudiosos da política internacional criam e empregam para explicá-la têm muitas vezes uma pretensão universalista. Estudamos que originalmente só se pensava nos Estados como sujeitos internacionais, como postulava a ótica realista, e que só posteriormente foram surgindo novas instituições no cenário mundial, que foram assumindo importância conforme as relações entre os povos ficavam mais complexas e conectadas. Essa progressão está naturalmente correta em termos gerais e é uma excelente maneira de explicar como as Relações Internacionais tomaram a forma que têm atualmente, mas há mais nessa história do que isso. Por mais abrangentes e coerentes que as teorias e acerca da evolução da comunidade internacional sejam, há casos que fogem do padrão. Exceções que, cobertas de história e de significado, acrescentam riqueza ao estudo das RIs, mostrando que o mundo sempre é mais curioso e surpreendente do que nossas teorias possam nos levar a crer. 

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Bandeira da Ordem de Malta e brasão de seus trabalhos humanitários

    Como exemplo de “anomalia” entre os sujeitos internacionais, vejamos o caso da Soberana Ordem Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta (felizmente abreviada para Ordem de Malta) que por seus quase 1000 anos de história e participação proeminente em muitos eventos importantes da Europa, é até hoje considerada uma entidade respeitável e detentora de um papel sui generis na comunidade internacional. 
    Sua origem remonta a cerca de 1048, quando comerciantes italianos apoiados pela Igreja obtiveram autorização do califa do Egito para construir um templo e hospital para peregrinos em Jerusalém. Com a chegada das Cruzadas, a Ordem de São João assumiu um caráter militar, auxiliando o esforço de guerra dos cristãos com seus monges-cavaleiros, sem abandonar seus deveres médicos e de auxílio aos doentes e viajantes à Terra Santa, ganhando assim a alcunha de Cavaleiros Hospitalários. Os Hospitalários participaram de muitas batalhas cruciais nas Cruzadas, combatendo inclusive o famoso sultão aiúbida do Egito, Saladino, ao lado dos guerreiros do Reino de Jerusalém e outra ordem monástica, os Cavaleiros Templários, com quem os Hospitalários mantinham uma relação alternada de cooperação e rivalidade dentro dos domínios cristãos no Oriente Médio. 

            Vatican celebrates Knights of Malta's 900 years - Stripes     Pin on Middle Ages 


As atuais vestes da ordem e a representação de um antigo cavaleiro hospitalário de armadura 

    Após a perda definitiva da Terra Santa em 1290, A Ordem de São João transferiu-se primeiro para o Chipre e depois para Rodes, perdendo gradativamente seu caráter cruzado e assumindo funções administrativas e políticas como uma entidade soberana da época. Governaram Rodes até 1523, quando foram expulsos pelo sultão otomano Suleiman, o Magnífico, partindo então para Malta, que lhe foi conferida pelo papa e pelo imperador romano-germânico da época. Após séculos na ilha, Napoleão Bonaparte expulsou a ordem durante sua campanha no Egito, sem nenhuma oposição por parte dos cavaleiros devido à proibição de combater outros cristãos. Finalmente, a Ordem foi transferida para Roma, onde mantém sua sede até os dias atuais. 
    Foi então que a Ordem retornou à sua missão original de atender e amparar os doentes e começou a ampliar suas operações para hoje atuar em mais de 120 países (incluindo nações do Oriente Médio, antigos alvos dos cruzados), fundando e administrando hospitais, amparando refugiados e vítimas de desastres naturais e provendo assistência social para necessitados de todas as nacionalidades e religiões. 

https://www.orderofmalta.int/wp-content/uploads/2020/06/c54d5ace-4de1-4a5d-ad8f-2b7931d0a8c6-800x470.jpg Training exercise with Order of Malta. - Killarney Cardiac Response Unit 
Um médico a serviço da Ordem realizando testes de Covid-19 no Líbano e uma ambulância da Ordem na Irlanda

    Estabelecida a história e valor humanitário da atual Ordem de Malta, resta a pergunta: por que ela é considerada um ator internacional independente, até mesmo, um sujeito de Direito Internacional? A resposta se relaciona com seu histórico como entidade soberana detentora de um território e sua relação dicotômica de autonomia e dependência da Igreja Católica. Como visto, a Ordem de Malta possui séculos de história, sendo que por grande parte deles foi considerada um ente político soberano por seus pares, sejam cristãos ou islâmicos. Governar Rodes e Malta e estabelecer uma estrutura robusta de governo nessas ilhas tornava inquestionável a autoridade e independência da Ordem – o que foi posto em evidência nas ocasiões em que tal independência foi violada, como na ocupação francesa, e posteriormente britânica, da ilha de Malta, que gerou um incidente diplomático resolvido somente após o Congresso de Viena. 
    Já em relação à Igreja, o óbvio caráter religioso da Ordem e seus votos monásticos a incluem entre todas as outras ordens eclesiásticas e garantem a ela todo o histórico prestígio que a Igreja Católica possuía, mas o diferencial da Ordem de Malta é que essas características não trouxeram consigo uma clara subordinação à Roma, que passou a vê-la como uma organização integrada ao poderio católico, mas autônoma em sua manutenção, como uma ramificação única da Igreja em si. Mesmo assim, coube à Santa Sé confirmar, em 1953, a completa autonomia da Ordem de Malta, em decisão judicial do Tribunal Cardinalício, garantindo aos cavaleiros a posição de um ente jurídico dentro do sistema internacional. 
    A Ordem, assim, comporta-se como um Estado e é reconhecida como tal por seus pares e demais instituições internacionais, mesmo não possuindo mais um território independente. É um membro-observador das Nações Unidas e pronuncia-se com frequência em seus fóruns sobre direitos humanos e tópicos médicos, inclusive participando ativamente de campanhas de auxílio contra a pandemia de Covid-19. Possui passaportes – fornecidos a cerca de 500 indivíduos a serviço da Ordem por todo o mundo – embaixadas e representações diplomáticas em mais de 100 países. Possui governo, moeda, hino e símbolos “nacionais” próprios; todas as regalias próprias de um país, sem um povo ou um território independente. 
                  Pope Francis Received the Grand Master of the Sovereign Order of Malta in  Audience - Order of Malta 
 O Grão-Mestre da Ordem encontra o Papa Francisco em uma visita diplomática em Roma

    Em conclusão, a Ordem de Malta conseguiu seu espaço no cenário internacional não por seu poder militar, capacidade econômica ou projeção política (permanecendo em grande parte desconhecida) mas por sua singular histórica e proeminência no campo humanitário dos dias atuais, transcendendo seu papel como instituição puramente religiosa e abandonando suas antigas inclinações bélicas para servir à paz e a todos os credos do mundo. O estudo de seu caso como ator internacional não apenas serve de curiosidade histórica ou por seu papel “anômalo” dentro de nossas teorias, mas também para nos mostrar que não importa o quão complexo e rico achemos que o mundo seja, ele sempre tem algo mais a oferecer – uma exceção à regra, um caso obscuro que serve para saciar nossas curiosidades e, com sorte, nos impulsionar a querer descobrir ainda mais sobre o mundo em que vivemos e que sempre será maior que todas as nossas concepções.

*Luiz Otávio Cruz de Alcântara Pereira é aluno de Relações Internacionais pelo Centro Universitário Curitiba - UNICURITIBA e aluno de Direito pela Universidade Federal do Paraná - UFPR.

Referências

1048 to the Present Day. ORDER OF MALTA. Acesso em 13 de março de 2021. Disponível em <https://www.orderofmalta.int/history/1048-to-the-present/>.

FRALE, Barbara, ECO, Umberto. (2011). The Templars: The Secret History Revealed. Arcade. History. DIPLOMATIE HUMANITAIRE. Acesso em 13 de março de 2021. Disponível em <https://diplomatie-humanitaire.org/en/the-order-of-malta/ >.

PAPANTI-PELLETIER, Paolo. O Ordenamento Jurídico da Ordem Soberana Militar de Malta na Idade Moderna. Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. 2007 Disponível em <https://www.revistas.usp.br/rfdusp/article/view/67749>.

This is the World’s Most Exclusive Passport and Only 500 People Have It. INDEPENDENT. Acesso em 13 de março de 2021. Disponível em <https://www.independent.co.uk/life-style/passports-worlds-most-exclusive-sovereign-order-malta-catholics-travel-borders-a7787431.html>.

The Christians helping Bethlehem shepherd families give birth safely. BBC. Acesso em 13 de março de 2021. Disponível em <https://www.bbc.com/news/stories-50856272>.


  






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terça-feira, 9 de março de 2021

Volta ao Mundo em 7 Dias - Notícias de 01/03 a 07/03



  • África

    Na Nigéria, a libertação de quase 300 meninas foi comemorada nesta terça-feira (02). As meninas foram sequestradas em internato no noroeste do estado nigeriano de Zamfara, na sexta-feira (26/02) e foram libertas através da negociação liderada por funcionários do governo nigeriano. Através de um tweet, o presidente Buhari disse estar “satisfeito que sua provação tenha chegado a um fim feliz sem qualquer incidente”.

    No sábado (06) o presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi visitou o Sudão para dar retorno às negociações sobre a barragem no rio Nilo. El-Sisi se encontrou com o chefe do Conselho Soberano, Abdel Fattah al-Burhan, no palácio presidencial, além de se reunir com o Primeiro-ministro Abdalla Hamdok, e o general Mohammed Hamdan Dagale, alertando sobre a continuidade do enchimento da represa no rio Nilo Azul pela Etiópia.

    Na cidade de Bata, na Guiné Equatorial, 20 pessoas foram mortas e cerca de 600 ficaram feridas após uma grande explosão em uma base militar ontem, 07 de março. Segundo o presidente Teodoro Obiang, as explosões foram causadas por negligência de uma unidade militar “encarregada de armazenar explosivos, dinamite e munição no campo militar de Nkoa Ntoma”. 

  • Américas

    Em El Salvador, os resultados preliminares das eleições legislativas, no dia 01 deste mês, demonstram a consolidação do poder de Nayib Bukele, presidente do país. O resultado aponta 65% dos votos ao partido Novas Ideias, dando ainda mais liberdade e poder ao atual presidente de El Salvador, que durante os seus 20 meses de mandato, tem agido através de decretos presidenciais, em razão ao bloqueio dos demais partidos e ao desenho do sistema político do país, que impede a monopolização do poder pelo presidente. 

    Nos Estados Unidos, a Polícia do Capitólio pediu ao Pentágono que prorrogue a missão da Guarda Nacional de proteger o Capitólio dos EUA por mais dois meses nesta quinta-feira (04). As tropas, compostas por cerca de 5.200 soldados, foram enviadas ao Capitólio depois do ataque em janeiro e estavam para se retirar no dia 12 de março. Já no dia 06 o senado aprovou o plano de ajuda do presidente Joe Biden de 1,9 trilhão de dólares, marcando a primeira grande vitória legislativa do mandato de Biden. Segundo Biden o plano “dará cheques a partir deste mês para o povo americano, que precisa desesperadamente da ajuda”, e o planejamento é de 400 bilhões de dólares sejam repassados em pagamentos únicos de US$ 1.400 para muitos americanos, com uma eliminação gradual começando para aqueles com renda anual acima de US $ 75.000, incluindo também 300 dólares por semana em benefícios aos desempregados, estendido para cerca de 9,5 milhões de pessoas desempregadas na crise. 

  • Ásia

    Em desafio à ordem que proíbe reuniões públicas Bangkok na Tailândia, centenas de pessoas se reuniram neste sábado (06) para exigir a libertação dos líderes do protesto que pedia a renúncia do primeiro-ministro Prayuth Chan-ocha. Os tribunais tailandeses negaram pedidos recentes de fiança para alguns dos líderes de protesto presos. 

    Na China, duas declarações do principal diplomata do governo chinês, o conselheiro de Estado Wang Yi, chamaram atenção neste domingo (07): o diplomata declarou que o sistema eleitoral em Hong Kong deve ser melhorado para a estabilidade a longo prazo, dizendo que a reforma traria um “futuro mais brilhante” para a cidade, dando reforçando o plano chinês de reformar o sistema eleitoral de Hong Kong, revelado esta semana durante a sessão parlamentar anual do país, e que segundo a Reuters deverá acabar com o governo do território e garantir que os legalistas de Pequim estejam no comando. Além disso, Wang Yi pediu a remoção das “restrições irracionais” impostas à China pelos Estados Unidos e pediu cooperação entre os Estados. O conselheiro também declarou: “Espera-se que os Estados Unidos e a China se encontrem na metade do caminho e levantem as várias restrições irracionais colocadas à cooperação sino-americana até o momento o mais rápido possível, e não criem novos obstáculos artificialmente."

  • Europa

    Na segunda-feira (01), Nicolas Sarkozy foi condenado a três anos de prisão por corrupção e tráfico de influência pelo Tribunal de Paris. O Tribunal denunciou o ex-presidente francês (2007–2012) por “utilizar seu status de ex-presidente da República e as relações políticas e diplomáticas que teceu quando estava em exercício para gratificar um magistrado que atendia ao seu interesse pessoal”, apesar disso ainda cabe recurso sobre a sentença, que também foi imputada sobre seu advogado Thierry Herzog e o ex-advogado-geral (procurador) da Corte de Cassação, Gilbert Azibert. 


    No Reino Unido, o órgão regulador de concorrência abriu uma investigação contra a Apple no dia 04 deste mês, após denúncias sobre as condições injustas da App Store. Segundo a Autoridade de Concorrência e Mercados (CMA), a investigação deve revelar se a Apple tem posição dominante na distribuição de apps para iPhone e iPad no Reino Unido, além de investigar se a Apple "impõe condições injustas ou anticoncorrenciais aos desenvolvedores". A presidente do CMA, Andrea Coscelli, declarou que as "reclamações de que a Apple está usando sua posição de mercado para definir termos injustos ou que restringem a concorrência e escolha - potencialmente causando perdas aos clientes - merecem um exame cuidadoso". 

  • Oriente Médio

    No Oriente Médio, o Iraque foi palco de dois acontecimentos: o ataque à base dos Estado Unidos em Ain al-Asad no dia 03 de março e a visita do Papa Francisco no dia 05 do mesmo mês. O ataque em Ain al-Asad foi confirmado pelas forças americanas e iraquianas e, segundo Washington, comandado pelas milícias apoiadas pelo Irã — cerca de dez foguetes atingiram a base na quarta-feira. 

    Ao contrário do que se pensava, a visita do pontífice não foi remarcada, e o Papa Francisco chegou ao Iraque no dia na sexta-feira. A visita, considerada de alto-risco, é um marco histórico já que o pontífice foi o primeiro a visitar o país. Além de visitar diversas cidades, como Mossul e Najaf, o Papa encontrou-se com o Aiatolá Ali al-Sistani no sábado, e agradeceu ao líder xiita “por erguer a voz em defesa dos mais fracos e perseguidos, afirmando que o sagrado é a importância da unidade do povo iraquiano”. 


Referências
BBC News. O encontro histórico entre o papa Francisco e o líder xiita no Iraque, onde o 'cristianismo está perigosamente perto da extinção'. 06 mar. 2021. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-56309301>. 
BASSET, Marc. Nicolas Sarkozy é condenado a três anos de prisão por corrupção e tráfico de influência. El País, 01 mar. 2021. Disponível em <https://brasil.elpais.com/internacional/2021-03-01/nicolas-sarkozy-e-condenado-a-tr es-anos-da-prisao-por-corrupcao-e-trafico-de-influencia.html>. 
GARCÍA, Jacobo. Nayib Bukele consolida seu poder com uma vitória sem precedentes na eleição legislativa de El Salvador. El País, 01 mar. 2021. Disponível em:  <https://brasil.elpais.com/internacional/2021-03-01/nayib-bukele-consolida-seu-poder -com-uma-vitoria-sem-precedentes-na-eleicao-legislativa-de-el-salvador.html>. 
Al Jazeera. Multiple rockets land at Iraq’s Ain al-Asad airbase: Officials. Al Jazeera, 03 mar. 2021. Disponível em: <https://www.aljazeera.com/news/2021/3/3/multiple-rockets-land-at-iraqs-ain-al-asad- air-base-reports>. 
Al Jazeera. Huge blasts in Equatorial Guinea’s Bata kill many, wound hundreds. Al Jazeera, 07 mar. 2021, Disponível em: <https://www.aljazeera.com/news/2021/3/7/four-large-explosions-hit-equatorial-guine a-city-of-bata-reports>. 
Al Jazeera. Egypt’s el-Sisi visits Sudan for Nile dam talks. Al Jazeera, 06 mar. 2021. Disponível em <https://www.aljazeera.com/news/2021/3/6/egypts-el-sisi-visits-sudan-for-nile-dam-tal ks>. 
Al Jazeera. Nigeria: Kidnapped schoolgirls released, says governor. Al Jazeera, 02 mar. 2021. Disponível em: <https://www.aljazeera.com/news/2021/3/2/kidnapped-nigerian-students-released-go vernor>. 
Reuters. Capitol Police ask National Guard to stay for two more months: defense official. Reuters, 04 mar. 2021. Disponível em: <https://www.reuters.com/article/us-usa-capitol-security-nationalguard/capitol-police- ask-national-guard-to-stay-for-two-more-months-defense-official-idUSKBN2AW2A5>. 
COWAN, Richard; BRICE, Makini; MORGAN, David. Democrats push Biden's $1.9 trillion COVID bill through Senate on party-line vote. Reuters, 06 mar. 2021. Disponível em: <https://www.reuters.com/article/us-health-coronavirus-usa-congress/democrats-pus h-bidens-1-9-trillion-covid-bill-through-senate-on-party-line-vote-idUSKBN2AY07M>. 
Reuters. China says Hong Kong needs electoral reform for 'brighter future'. Reuters, 07 mar. 2021. Disponível em: <https://www.reuters.com/article/us-china-parliament-hongkong/china-says-hong-kon g-needs-electoral-reform-for-brighter-future-idUSKBN2AZ056>. 
Reuters. Hundreds of Thai protesters rally to demand leaders' release. Reuters, 06 mar. 2021. Disponível em: <https://www.reuters.com/article/us-thailand-protests/hundreds-of-thai-protesters-rally -to-demand-leaders-release-idUSKBN2AY0AA>. 
G1. Reino Unido abre investigação contra Apple sobre acusações de monopólio na loja de aplicativos. G1, 04 mar. 2021. Disponível em: <https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2021/03/04/reino-unido-abre-inves tigacao-contra-apple-sobre-acusacoes-de-monopolio-na-loja-de-aplicativos.ghtml>. 



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segunda-feira, 8 de março de 2021

Especial Dia da Mulher: a trajetória da ONU Mulheres

Na foto: Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora-executiva da ONU Mulheres e vice-secretária geral da ONU.

    O dia 8 de março transformou-se ao longo dos anos. Uma data em que as mulheres ganhavam flores, chocolates e presentes tornou-se um momento de reflexão em relação ao que as mulheres realmente gostariam de ganhar: respeito. Para que isso aconteça, é necessário o apoio de organizações internacionais e nacionais que versem sobre a proteção do direito da mulher.

    Esse é o caso da ONU Mulheres, criada em 2010 com o objetivo de fortalecer a defesa dos direitos humanos das mulheres ao redor do mundo. A organização foi fundida com a então United Nations Development Fund for Women - UNIFEM -, criada em 1978 para prover assistência técnica e financeira a programas inovadores que contribuam para assegurar os direitos das mulheres, sua participação na política e segurança econômica. Seu escopo envolve todas as diferentes vivências femininas: negras, indígenas, jovens, trabalhadoras domésticas e trabalhadoras rurais. Dentre suas áreas de atuação, estão:

  • liderança e participação política das mulheres
  • empoderamento econômico; 
  • fim da violência contra mulheres e meninas;
  • paz e segurança e emergências humanitárias;
  • governança e planejamento, para garantir a participação de mulheres e a igualdade de oportunidades para a liderança em todos os níveis de tomada de decisão da vida política, social e econômica; 
  • normas globais e regionais, através do Grupo de Trabalho Gênero, Raça e Etnia, para incorporação de interseccionalidade da perspectiva dessas três esferas.

    As sedes da ONU Mulheres estão espalhadas ao redor do mundo: Nos EUA, o escritório fica em Nova Iorque. Na África, Américas, Ásia e Europa, há escritórios regionais. Aqui nas Américas, ele fica no Panamá e seu escopo abrange o Caribe também. No Brasil, é em Brasília que a ONU Mulheres possui seu escritório.

    A organização, necessitando do apoio de outras áreas, conta com a ajuda da sociedade civil, Executivo, Legislativo e Judiciário, além de universidades e empresas. Dessa forma, com esse vasto grupo é possível defender os compromissos internacionais assumidos pelos Estado-Membros da ONU em relação ao direito das mulheres, como Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher e Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (Convenção Belém do Pará, 1994), importantes momentos, uma vez que a primeira é considerada a carta de direitos humanos das mulheres, com força de lei no Brasil, e a segunda determinou que a violência contra a mulher é uma violação de direitos humanos.

    A ONU Mulheres também atua como um secretariado da Comissão da ONU sobre a Situação das Mulheres, que se reúne há mais de 60 anos para discutir negociações e monitoramento de compromissos internacionais sobre direitos humanos das mulheres.

    Dentre os muitos projetos da ONU Mulheres, encontram-se os Princípios de Empoderamento da Mulher, diante do importante papel das empresas para o crescimento das economias e para o desenvolvimento humano. Esses Princípios foram pensados com o objetivo de incluir em seus negócios de valores e práticas a presença da mulher, a equidade de gênero e o empoderamento da mulher. 

    No site da ONU Mulheres, é possível encontrar oportunidades de trabalho na organização, além de informações importantes sobre cada área de atuação na qual a organização está presente. Para mais informações, acesse https://www.onumulheres.org.br/.

    O movimento HeForShe(ElesPorElas), que tornou-se famoso, foi criado pela ONU Mulheres com o intuito de ser um esforço global para envolver homens e meninos na luta dos direitos das mulheres, uma vez que sendo ambos partes da sociedade, devem trabalhar juntos na busca por um futuro melhor. "O alcance da igualdade de gênero requer uma abordagem inclusiva, que reconheça o papel fundamental de homens e meninos como parceiros dos direitos das mulheres e detentores de necessidades próprias baseadas na obtenção deste equilíbrio." De acordo com a organização, homens e meninos são parte essencial do movimento de igualdade de gênero, que é um benefício para todos. 

    A ONU Mulheres reforça uma necessidade de integração e trabalho em equipe para preservar e defender os direitos das mulheres, ainda tão violados no século XXI. É preciso explicar e entender os motivos pelos quais essa e outras tantas organizações estão na ativa. O conhecimento sobre o assunto, que não deve ser delicado, quiçá um tabu, é necessário para que as próximas gerações não questionem Lei Maria da Penha, feminismo e igualdade de gênero ou a Marcha Mundial das Mulheres. O dia 8 de março deve ser comemorado como uma mostra de força e resistência da mulheres, mas também deve ser uma data para refletir, além de abraçar todas as mulheres - trans, cis, indígenas, negras, trabalhadoras, donas de casa - o próprio papel no movimento de defesa dos direitos das mulheres. 

Referências 

SOBRE a ONU Mulheres. ONU Mulheres Brasil. 7 mar. de 2021. Disponível em: https://www.onumulheres.org.br/onu-mulheres/sobre-a-onu-mulheres/

EMPRESAS. ONU Mulheres Brasil. 7 mar. de 2021. Disponível em: http://www.onumulheres.org.br/referencias/principios-de-empoderamento-das-mulhe res/.

ELESPORELAS. ONU Mulheres Brasil. 7 mar. de 2021. Disponível em: http://www.onumulheres.org.br/elesporelas/




 

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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Por Onde Anda: Henrique Santos de Albuquerque, Analista de Produtos e Serviços na Amcham Curitiba e Joinville


Nome Completo: Henrique Santos de Albuquerque 

Ano de ingresso no curso de Relações Internacionais: 2013

Ano de conclusão do curso de Relações Internacionais: 2018 (2 anos trancado)

Ocupação atual: Analista de Produtos e Serviços na Amcham Curitiba

Cidade em que reside: Curitiba


Blog Internacionalize-se: Conte-nos um pouco sobre sua trajetória profissional.

Henrique: Minha trajetória profissional começou em 2015, quando morava nos EUA, logo após trancar a faculdade entre 2015 e 2016. Lá tive a oportunidade de trabalhar em uma ONG, o Hispanic Center Lehigh Valley, que prestava serviços aos imigrantes latinos perto da região em que eu morava na Pensilvânia. Foi uma experiência profissional bem enriquecedora, já que tive contato com culturas e realidades totalmente diferentes da minha. As atividades do trabalho eram basicamente de operacional administrativo e também de relacionamento e apoio direto aos imigrantes da região.

Ao voltar pro Brasil, em 2016, consegui um estágio no departamento de Contas a Pagar de uma multinacional química, a Solvay, onde trabalhava na área de suporte aos fornecedores dos Estados Unidos. Esse emprego foi extremamente importante para a minha carreira profissional, já que tive a vivência da realidade operacional de uma multinacional, além de ter consolidado meu inglês e desenvolvido habilidades profissionais essenciais como agilidade, comunicação efetiva e resiliência.

Depois disso, acabei migrando mais para perto da área de RI, e entrei na Hussein KS, consultoria especializada em processos de imigração e realocação. Nessa oportunidade tive contato com expatriados de diversas nacionalidades - executivos de alto escalão de grandes empresas - e pude entender mais sobre a realidade do ambiente executivo. Ao trabalhar com o apoio no processo documental de imigração, também pude aprender muito sobre alguns órgãos federais do governo e suas especificidades.

Após isto, e logo no fim da faculdade, tive a grande oportunidade de trabalhar na agência de promoção de investimentos do estado do Paraná, a Paraná Invest. Lá foi onde tive minha maior experiência trabalhando com Relações Internacionais, já que apoiava diretamente a presidência da agência com projetos especiais, análises de mercado e articulação estratégica com as demais agências.

Por fim, após me formar, entrei na Câmara Americana de Comércio, a Amcham, pra trabalhar na área de Produtos e Serviços. A Amcham é o principal ‘clube de empresas’ do Brasil, reunindo mais de 5 mil organizações por 15 regionais do Brasil. Meu trabalho é voltado para a região Sul, mais especificamente Paraná e Santa Catarina, desenvolvendo projetos especiais, atividades estratégicas e conteúdos corporativos que auxiliem diretamente pela melhora do ambiente de negócios da região. Além disso, sou o responsável das regionais pelas Relações Governamentais, realizando projetos com entes governamentais e outras instituições relevantes. Ao longo dessa jornada que já dura 2 anos, pude liderar eventos com Cônsul Geral dos EUA, Governador do PR, CEOs de multinacionais como Intel, Microsoft e Bayer, além de compor a gestão do maior festival de inovação da Amcham Curitiba.

Blog Internacionalize-se: Como é o dia a dia no teu trabalho?

Henrique: O dia de trabalho na Amcham é extremamente dinâmico, algo que sempre prezei muito no meu plano profissional. A área de Produtos e Serviços é responsável por conectar estrategicamente os associados da Câmara através de iniciativas e projetos especiais que focam no networking de qualidade e capacitação empresarial. Assim, meu trabalho diário é dividido em várias atividades de planejamento e execução de projetos em conjunto com outras regionais, com demais áreas do escritório e com as empresas associadas. Em épocas de eventos presenciais, essas atividades se tornam ainda mais emocionantes, já que temos que fazer todo o processo de desenho e montagem de atividades grandes que envolvem até 1500 pessoas. Para conseguir gerir tantas atividades é muito importante ter uma organização efetiva, agilidade nas ações e muita energia pra fazer sempre melhor.  bastante agilidade, flexibilidade para saber organizar bem, priorizar bem as. Além disso, é uma realidade de trabalho muito colaborativa já que trabalho diretamente com meus colegas da equipe de P&S e das demais áreas que estão sempre envolvidos nos projetos que desenvolvemos. Por fim, um ponto de destaque do dia-a-dia do trabalho é o constante relacionamento écom executivos C-Level, Diretores, Gerentes e executivos estratégicos de grandes empresas da região. Como trabalhamos diretamente com os executivos associados, temos que construir boas redes de networking.

Blog Internacionalize-se: Quais as aptidões e conhecimentos desenvolvidos no curso de Relações Internacionais que mais o ajudam na sua carreira atualmente?

Henrique: Primeiro de tudo, as habilidades de relacionamento interpessoal eque desenvolvi com vivências do curso foram essenciais para minha trajetória. No curso de RI temos um cuidado muito grande em estudar não só as pautas mais conceituais, mas também a importância do relacionamento, da comunicação, do entendimento cultural nessa dinâmica para negociações efetivas e construção de relacionamentos e de redes fortes e estratégicas. Dou hoje muito valor para esse conhecimento adquirido na faculdade. Além disso, hoje meu trabalho depende muito de pesquisas técnicas, e estudos de contexto e de tendências, algo que aprendi muito no curso de Relações Internacionais. Ter a habilidade de entender e analisar  de forma abrangente o contexto, seja ele político, social, econômico ou internacional foi algo que me foi muito ensinado durante a formação acadêmica. Por fim, hoje dentro da minha atuação com Relações Governamentais e Institucionais tenho a oportunidade de desenvolver projetos com o governo, consulados, embaixadas e instituições relevantes. Grande parte do conhecimento técnico que tenho sobre essas instituições, suas especificidades e operações internas, vieram da época de faculdade e foram cruciais para a assertividade do relacionamento e projetos que construí.


Blog Internacionalize-se: Qual foi a experiência mais desafiadora que já teve profissionalmente?

Henrique: ​Bom, já tive algumas experiências bem desafiadoras dentro dessa trajetória profissional, especialmente na Amcham. Acredito que o mais desafiador de todos foi o Amcham Talks. Esse foi o maior festival já criado pela Amcham Curitiba e reuniu mais de 1200 pessoas, dezenas de atrações espalhadas por vários pontos do Shopping Pátio batel para dialogarem sobre Inovação. Esse projeto foi idealizado pelo meu líder (e grande amigo), Bruno, e ‘tocado’ por ele e por mim. O projeto inteiro foi extremamente desafiador, mas destataco especialmente o planejamento organizacional e a montagem física do evento como os principais. Organizar e planejar uma iniciativa gigantesca, com mais de 20 convidados especiais, dezenas de fornecedores, gestão da equipe interna foi um daqueles desafios gigantescos. A montagem do evento foi ainda mais desafiadora, já que tivemos que executar tudo em uma madrugada (já que os shoppings permitem esse tipo de atividade apenas nesse horário). Lidamos com diversas adversidades, inúmeros fornecedores e com um tempo curtíssimo. Mas no fim tudo deu certo e fizemos a iniciativa mais histórica da regional.

Mas deixo aqui algumas menções honrosas de desafios profissionais: ser o responsável por áudio e vídeo em um evento para mais de 700 pessoas na Ópera de Arame; idealizar e liderar o Reset PR, projeto que auxiliou executivos no processo de retomada durante a pandemia do covid-19; e liderar o encontro estratégico entre o Cônsul Geral dos EUA no Brasil e C-levels das principais empresas de Curitiba. 

Blog Internacionalize-se: ​Qual a lembrança mais marcante do período de faculdade?

Henrique: ​É bem complicado escolher apenas uma lembrança mais marcante da faculdade que foram anos e períodos importantes na minha vida que eu passei na UNICURITBA fazendo curso de RI. Uma das principais e mais marcantes foram os primeiros dias de faculdade. Sair do colégio e entrar em um outro ambiente, com outras pessoas, uma dinâmica de vida diferente foi muito especial. Mas acredito que o principal momento foi da minha aprovação com 10 na banca de monografia. Me entreguei por completo para a construção da pesquisa, foi um período extremamente desafiador mas que foi muito recompensador no final. Ser aprovado e com muitos elogios por uma banca de peso (Violeta e Marlus) e finalizar com chave-de-ouro junto do meu orientador Gustavo foi um dos momentos mais marcantes da minha vida.

Blog Internacionalize-se: ​Qual conselho deixaria para os nossos alunos, em especial para aqueles que ainda estão em dúvida quanto ao futuro profissional?

Henrique:Acho que eu tenho dois principais conselhos para os estudantes de R.I. O primeiro é: não deixem de aproveitar as oportunidades que vocês tem, seja Universidade como fora dela. Aproveite os grupos especiais, semanas acadêmicas, iniciações científicas e aulas eletivas. Isso vai fazer muita diferença no profissional que você será no futuro. Mas não deixe de aproveitar também a oportunidade de fazer bons amigos, se divertir nas festas e no bar e viver uma fase muito importante e especial da vida. 

Segundo, e não menos importante, é: não deixem de olhar para dentro, de se conhecer mais, de se curar mais. Acredito que aproveitamos ao máximo as oportunidades das nossas vidas e os momentos que vivemos quando nos conhecemos e entendemos de verdade nosso propósito e objetivos de vida. Então, além do importante estudo de RI que vivenciam na faculdade, não deixem de conhecer vocês mesmos. Eu costumo dizer que o mundo e as suas histórias seriam muito diferentes (e melhores!) se muitos dos líderes que já viveram e ainda vivem (as pessoas que estão à frente das tomadas de decisão e que influenciam diretamente a sociedade) cuidassem mais de si, conhecessem mais a si.


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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Por Onde Anda: Bruno Hendler, professor adjunto e coordenador do curso de Relações Internacionais na Universidade Federal de Santa Maria

 


Nome Completo: Bruno Hendler
Ano de ingresso no curso de Relações Internacionais: 2007
Ano de conclusão do curso de Relações Internacionais: 2010
Ocupação atual: Professor adjunto e coordenador do curso de Relações Internacionais na Universidade Federal de Santa Maria
Cidade em que reside: Santa Maria/RS

Blog Internacionalize-se: Conte-nos um pouco sobre sua trajetória profissional.
Bruno: “Sou graduado em Relações Internacionais pelo Unicuritiba, mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e Doutor em Economia Política pela UFRJ. Durante o mestrado eu passei um mês como pesquisador visitante na Johns Hopkins University, no departamento de sociologia e no doutorado fiquei quatro meses na Renmin University, que é uma das principais universidades em Pequim, na China. Atualmente eu sou professor da graduação e da pós-graduação da Universidade Federal de Santa Maria, e eu também coordeno o curso de Relações Internacionais nesta instituição. É também relevante lembrar que passei dois anos no Unicuritiba como professor da casa.”

Blog Internacionalize-se: Quando tomou a decisão de seguir a carreira acadêmica? Como se preparou durante a graduação em Relações Internacionais para essa escolha?
Bruno: “Antes de decidir pela carreira acadêmica eu fui experimentando outras coisas, acho que esse é o segredo para os alunos de graduação: você ampliar o máximo possível o leque de oportunidades e de experiências que você tem, e com o passar do tempo você vai descobrindo suas principais afinidades e aquilo que você é bom e o que você não é tão bom.

Durante a graduação eu fiz estágio numa Trading de exportação de madeira, trabalhei na Câmara Americana de Comércio, e aí eu fui gradualmente sentindo que tinha vocação para a carreira acadêmica. Ao longo da graduação eu passei dois anos dando aula num cursinho beneficente, chamado Creação e vinculado ao CREA, onde eu dei aula de história moderna e contemporânea, ali eu tive certeza que trabalhar com ensino e sala de aula era o que eu queria - no cursinho eu descobri e senti um pouco da importância social que o professor tem, para preparar os alunos, não só para o mercado de trabalho, mas como seres humanos, como seres pensantes. Eu também trabalhei em eventos internacionais que aconteceram em Curitiba na época que eu estava na graduação, eventos do Mercosul, da ONU, a COP.

Eu também cursei um ano de história da UFPR junto com a graduação de RI, e isso foi bem importante para minha pesquisa que viria depois. Assim fui me preparando, me envolvi em grupos de iniciação científica, o tema de TCC que construí já fiz pensando em como amarrar para uma possível pesquisa de mestrado, e participei de eventos acadêmicos - quando você vai amadurecendo você vai vendo, eu hoje que sou doutor vejo que publicações escritas valem muito mais que eventos acadêmicos, em termos profissionais, porém quando você está construindo seu caminho de pesquisa, participar de encontros acadêmicos é fundamental, inclusive de ser cara de pau e entrar em contato com os grandes pesquisadores da tua linha de pesquisa, pedir dicas, indicações, falar sobre sua própria pesquisa, ouvir críticas. Então eu diria que me preparei ao buscar coisas diferentes do que eu imaginava, fazendo testes e buscando nos diversos campos de atuação em RI, e quando eu decidi pela carreira acadêmica, fui construindo o caminho com iniciação científica, eventos.”

Blog Internacionalize-se: Como é o dia a dia no teu trabalho?
Bruno: “Bom, existe o antes e o depois da pandemia, né? As atividades como coordenador tem um lado burocrático e um lado de pensar em longo prazo. O lado burocrático é despacho, processo, revalidação de diplomas do exterior, assinaturas de certificados de alunos - não é nada muito emocionante. Mas o segundo aspecto é interessante, que é pensar na reestruturação das disciplinas com base nas diretrizes do MEC, fazer o rastreamento dos egressos, para entender como os nossos alunos estão se inserindo no mercado de trabalho, pensar também em mecanismo de auto-avaliação das disciplinas.
Além da gestão, tem também os trabalhos mais convencionais da docência (que são o ensino, a pesquisa e a extensão): eu leciono duas disciplinas por semestre na graduação e alterno com uma disciplina no mestrado em RI, também faço a orientação (que gosto muito) de TCC e dissertações de mestrado, e relativo com o TCC tenho também um grupo de pesquisa em Ásia Pacífico, que estuda a ascensão da China, ou do Ásia Oriental, a partir de uma perspectiva da economia internacional - e os grupos de pesquisas são muito interessantes e muito valiosos para quem tá começando, e a ideia é essa escadinha, de colocar para trabalhar graduandos, mestrandos, doutorandos, e professores para orientar os trabalhos de pesquisa.

E também temos a parte de extensão, com a comunidade, de cursos beneficentes (que os alunos aqui tocam), projeto de carreiras internacionais - que é exatamente para trazer profissionais de RI para conversas com nossos alunos - tem também o pessoal que faz o trabalho com a região de fronteira, e trabalha com comunidades locais e humildes nessa região de fronteira. Enfim, o dia a dia, ainda que as atividades de gestão sejam mais burocráticas, as atividades de pesquisa e de ensino principalmente, me agradam muito e eu me sinto muito realizado pela carreira em que segui.” 

Blog Internacionalize-se: Quais as aptidões e conhecimentos desenvolvidos no curso de Relações Internacionais que mais o ajudam na sua carreira atualmente?
Bruno: “Em primeiro lugar eu acho que é pensar os problemas de forma sistêmica e multidisciplinar, que é a vocação do curso de Relações Internacionais. Junto com isso são bem importantes as atividades de simulação de organismos internacionais, que trazem as habilidades de negociação, de busca de consenso, de empatia, de entender os interesses e as posições da sua contraparte de negociação - essas foram as habilidades que eu desenvolvi ao longo do curso, né? 
E além disso, o pensamento crítico e científico. Os professores que eu tive aí no Unicuritiba e depois nas pós-graduações foram muito importantes para pensar a realidade de uma forma mais objetiva possível e de forma crítica a origem das RIs como disciplina é essencialmente norte-americana, então é muito interessante como a gente do Sul global tem que subverter um pouco os princípios que a gente aprende a partir do viés norte-americano e trazer para a nossa realidade.” 

Blog Internacionalize-se: Qual foi a experiência mais desafiadora que já teve profissionalmente?
Bruno: “Acho que o primeiro grande desafio para mim foi na graduação mesmo, identificar que a minha vocação era a carreira acadêmica. Há muitos preconceitos em relação a isso, a desvalorização, tanto salarial como social da carreira do professor, e todos os desafios que envolvem a pesquisa no Brasil, né? A falta de condições de trabalho, o pesquisador e pós-graduando não ser visto como trabalhador, mas como um estudante - como se ser cientista não fosse uma carreira, não fosse uma profissão. Então no final da graduação para o mestrado, em termos pessoais, foi muito desafiante isso de reconhecer e estar seguro dessa opção acadêmica, mas com o passar do tempo fui vendo como é maravilhoso, e que os perrengues são muito poucos, ainda que a gente precise avançar em muitos setores, é uma carreira maravilhosa.
Em termos profissionais, de pesquisa, o principal desafio que eu tive foi fazer a minha pesquisa e cumprir com o que eu me propus, que foi estudar a ascensão da China e compreender a sociedade chinesa. É muito desafiante você conseguir penetrar na academia chinesa, nos principais centros de pesquisas, com os pesquisadores, é tudo muito diferente. Até hoje é um desafio que eu não superei totalmente, mas viver na China por quatro meses, como estudante, entendendo a cultura e os meandros da política e da economia da China, com professores chineses, e estando imerso na cultura chinesa foi, e continua sendo, um dos grandes desafios da minha carreira - principalmente para tentar trazer um pouco dessa experiência, dos contatos e da minha pesquisa para gestar aqui no Brasil o pensamento crítico sobre como lidar com a ascensão da China.” 

Blog Internacionalize-se: Qual a lembrança mais marcante do período de faculdade?
Bruno: “A primeira lembrança, que não é bem uma lembrança em si, mas é o convívio com os colegas e os professores, e o ótimo nível das aulas e de conteúdo que a gente teve - você sabe bem que no começo tinha algumas lacunas na grade, mas ao longo do tempo as coisas foram melhorando bastante e eu acho que me marcou muito essa fase das aulas mesmo. Como eu já sabia que queria ser professor, eu sempre buscava entender os pontos fortes dos professores, quais métodos deles estavam sendo bem utilizados e bem aproveitados pela turma, quais não eram tão legais, e eu pensava: ‘quando eu for professor, acho que eu mudaria isso, ou me inspiraria nisso, naquilo’. Enfim, a lembrança mais marcante é essa, eu podendo entender o jeito de cada professor e utilizando aquilo pro momento em que eu me tornasse professor.
Mas um segundo momento, de forma mais objetiva, foi a participação nas simulações. Eu adora as simulações de organismos internacionais - eu já representei a Rússia, a Venezuela, os Estados Unidos, enfim... Eram momentos de confraternização e de aprendizado na prática, de como as coisas funcionam.” 

Blog Internacionalize-se: Qual conselho deixaria para os nossos alunos, em especial para aqueles que ainda estão em dúvida quanto ao futuro profissional?
Bruno: “Eu diria que não é uma forma tão objetiva e clara, mas aproveite os dois primeiros anos da faculdade para experimentar de tudo em termos acadêmicos. Não diga não a nada, tudo que aparecer tope, abrace, vá e faça, experimente, que então aos poucos você começa a se descobrir e a entender quais são as suas aptidões, suas vocações, suas habilidades, inclusive seus defeitos, suas lacunas. 
Então eu diria que aproveitem o começo da faculdade para isso, para experimentar todas as possibilidades que aparecerem dentro da carreira de RI, e quando você for chegando mais para o final da faculdade, aí é a hora de começar a afunilar, a se dedicar, não só no TCC, mas àquilo que você foi acumulando ao longos dos anos na faculdade. Se dedicar ao estágio numa área que você descobriu que você tem mais afinidade, fazer um intercâmbio pela Universidade mesmo, ou não - e no caso da carreira acadêmica, que é o meu caso, se você tem interesse, se você participou de grupo de pesquisa, de iniciação científica ou mesmo de simulações e acha que tem vocação para pesquisa, comece já a utilizar o que você estudou nas disciplinas para pensar num tema de TCC que seja também útil, válido e apto para continuar como um projeto de mestrado. Vá atrás dos professores, tente descobrir quais são as correntes de debate de pesquisa dentro do tema que você tá estudando, entre em contato com os professores medalhões - porque às vezes a cara de pau compensa, foi assim que eu consegui estágio na Johns Hopkins, consegui ir pra China, é você dando a cara a tapa, você entrando em contato com as pessoas que estão mais a sua frente.” 

Blog Internacionalize-se: Gostaria de acrescentar mais alguma informação?
Bruno: “Sobre ser acadêmico, eu diria que é muito gratificante. Eu no começo tinha esse dilema, essa coisa de ‘um engenheiro constrói uma ponte, um médico salva uma vida, e professor, faz o quê?’ Mas o legado do professor não é material, ele é imaterial. Então eu acho que talvez seja a carreira mais importante, porque você molda a forma como outras carreiras são, e o internacionalista molda a forma como as pessoas vão ver o mundo, e é um legado imaterial essa coisa de pensar a partir de uma forma científica, de pensar a partir de um viés crítico, e isso é o que molda a cabeça das pessoas. Por isso eu acho que essa carreira é tão importante e precisa tanto de pessoas preocupadas e até um pouco idealistas, para tornar o mundo um lugar melhor.” 
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O início do governo Joe Biden e seu impacto no Brasil


Por Leonardo Guebert*

    Uma das principais políticas que marcou as relações internacionais do governo Bolsonaro foi o que muitos analistas entendem como um alinhamento automático ao governo de Donald Trump, isto é, uma forte aproximação entre ambos os executivos dos Estados no âmbito internacional. Bolsonaro buscava o apoio norte-americano para facilitar a entrada do país na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), conhecido como o “clube dos países ricos”. 

    Dessa forma, o governo brasileiro realizou algumas medidas pró-estadunidenses não somente na esfera doméstica, como a decisão da eliminação de vistos para visitantes norte-americanos, rompendo com uma tradição de reciprocidade do Itamaraty; mas também no campo externo, com a renúncia ao tratamento diferenciado na OMC como país em desenvolvimento, impactando diretamente na relação do país com o Brics e outros Estados emergentes, além de ter aumentado a importação de trigo e etanol norte-americanos. 

    Não obstante, essas decisões não receberam resposta à altura por parte do governo trumpista, revelando uma amizade assimétrica que não gerou grandes frutos para o Estado brasileiro. Inclusive, Trump foi o primeiro presidente norte-americano desde Jimmy Carter, no final da década de 70, que não visitou o Brasil durante seu mandato. Agora, o governo Bolsonaro presenciará um adiamento indesejado na entrada do país na OCDE com a perda do que considerava ser seu principal aliado internacional devido à eleição de Joe Biden. 

    O governo democrata, em um primeiro momento, enfrentará um contexto doméstico muito conturbado, um país fragmentado graças a um “resiliente nacionalismo religioso” deixado por Trump, como aponta o cientista político e professor Guilherme Casarões. Sendo assim, as pautas do democrata provavelmente encontrarão muitas resistências dentro da sociedade norte-americana, que agora conta com um grupo religioso cristão organizado empoderado pelo ex-presidente. Além disso, o país passa por uma crise sanitária avassaladora que o coloca como um dos Estados com mais óbitos por coronavírus no mundo, ultrapassando a marca de 400 mil mortes e trazendo dados alarmantes como no condado de Los Angeles, onde a doença faz uma vítima a cada seis minutos. 

    Na esfera comercial, o democrata Joe Biden, assim como seu antecessor, de maneira igualmente nacionalista, porém menos populista, continuará adotando medidas econômicas protecionistas agora com o nome de “Buy American”, substituindo o “America First” intitulado pelo ex-presidente republicano, porém com a mesma estratégia de valorização da indústria nacional, injetando dinheiro público na economia e aumentando investimentos em tecnologia. 

    Em termos de política externa, Joe Biden, nos seus discursos na época das eleições, manifestou seu interesse no resgate dos EUA às instituições internacionais, adotando políticas voltadas para o multilateralismo, com o objetivo de retornar o protagonismo ocidental norte-americano no sistema internacional em esferas como meio ambiente, mudanças climáticas, saúde e direitos humanos. O democrata buscará valorizar a OMC e a própria ONU além de recolocar os Estados Unidos na OMS e no Acordo de Paris, o qual foi abandonado pelo governo Trump, que justificava que o pacto prejudicava a economia do país. 

    Durante os debates presidenciais, Biden deixou clara sua crítica ao governo Bolsonaro em relação ao meio ambiente, prometendo a criação de um fundo global para a preservação da Amazônia, o que acabou provocando uma reação imediata do presidente brasileiro que sugeriu o uso da pólvora para resolver a questão. Apesar das críticas e ameaças de sanção e de barreiras comerciais ao Brasil, analistas acreditam que o democrata conduzirá os interesses nacionais norte-americanos de maneira pragmática em sua diplomacia, tanto no âmbito interno em sua articulação com o Senado quanto no campo internacional. 

    O governo brasileiro vai buscar se adequar à situação em que se colocou, também com uma política pragmática característica tanto brasileira quanto norte-americana. Bolsonaro chegou até a afirmar que Trump não era “a pessoa mais importante do mundo”, passando a adotar discurso mais moderado com a impossibilidade do retorno do republicano ao poder, já que Biden foi eleito o 46° presidente legítimo dos EUA. 

    Na carta enviada ao novo presidente norte-americano, congratulando o democrata por sua posse, apesar de ter considerado anteriormente a eleição de Biden como uma “ameaça à liberdade do Brasil”, Bolsonaro ressaltou o histórico de fraternidade entre os países. Ademais, classificou o “desenvolvimento sustentável e proteção do meio ambiente, em especial, da Amazônia", como áreas de interesse comum, além de ter reforçado o pedido de apoio para a entrada na OCDE. 

    É importante ressaltar que o Brasil não é prioridade para os assuntos externos dos EUA no momento (que tem a China como ator mais preponderante, por exemplo), porém é interessante lembrar que Joe Biden já visitou o país em três oportunidades durante sua carreira como vice-presidente de Barack Obama. É de se esperar então que o democrata realize mais alguma visita para assegurar uma boa relação de cooperação entre ambos os Estados, aproximando-se também da América Latina como um todo.

*Leonardo Guebert é acadêmico do 7º Período do curso de Relações Internacionais do UniCuritiba.

Referências

DA REDAÇÃO. Trump ‘não é a pessoa mais importante do mundo’, diz Bolsonaro. VEJA, 2020. Disponivel em: <https://veja.abril.com.br/mundo/trump-nao-e-a-pessoa-mais-importante-do-mundo-diz-bolsonaro/>. Acesso em: 22 Janeiro 2021. 

LOZANO, A. V. 1 person dies every 6 minutes: How L.A. became the nation's largest coronavirus hot spot. NBC News, 2021. Disponivel em: <https://www.nbcnews.com/news/us-news/1-person-dies-every-6-minutes-how-l-became-nation-n1254003>. Acesso em: 22 Janeiro 2021. 

PASSARINHO, N. O que o Brasil perde e ganha se entrar na OCDE, o ‘clube dos países ricos’. BBC News Brasil, 2020. Disponivel em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51121488>. Acesso em: 22 Janeiro 2021. 

VENTURA, M. Carta de Bolsonaro a Biden é ‘bastante construtiva’, diz embaixador dos EUA. O Globo, 2021. Disponivel em: <https://oglobo.globo.com/mundo/carta-de-bolsonaro-biden-bastante-construtiva-diz-embaixador-dos-eua-1-24849107>. Acesso em: 22 Janeiro 2021. 

BBC NEWS BRASIL. Biden ou Trump? Como fica a relação com dos EUA com o Brasil.​ ​2020.​ ​Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=fkkbC651wvY

BBC NEWS BRASIL. O que pode mudar nos EUA com a eleição de Joe Biden. 2020. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=dO1y-3OKxXM

EM DUPLA COM CONSULTA. EDCC Debate: Biden e o futuro dos Estados Unidos. 2020. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=12fqisJ6L7Y&t=1689s



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quinta-feira, 21 de janeiro de 2021