quarta-feira, 3 de julho de 2019

Em pauta: O caos no Sudão e porque ninguém está falando sobre isso





As fronteiras da África foram definidas por potências europeias, de acordo com seus interesses econômicos. De forma alguma esses governos - que invadiram territórios que não eram seus - se preocuparam em separar corretamente as inúmeras culturas e tradições que há no vasto continente. Guerras e conflitos por conta das diferentes etnias são um marco na história da África. Em 2011, um novo país foi criado: o Sudão do Sul proclamou sua independência do Sudão. Desde então, ambas as partes vivem em constante conflitos e crises - humanitárias, políticas e econômicas.

O Sudão

Omar Hassan al-Bashir governou o Sudão por 30 anos. Ditador como era, o povo sofreu incondicionalmente em suas mãos. Um conflito em Darfur que aconteceu em 2003, na região oeste do Sudão, deixou mais de 300.000 mortos e 2,5 milhões de deslocados, segundo a ONU. Por crimes de guerra e contra a humanidade, o ditador é procurado pelo Tribunal Penal Internacional. Em 2010, o TPI adicionou genocídio à lista de crimes de Bashir. 
Em dezembro de 2018, quando o governo aumentou o preço do pão em plena crise econômica, protestos começaram a surgir. Após tentar reprimir as mobilizações, al-Bashir decretou estado de emergência em fevereiro de 2019. Não demorou muito para que os protestos chegassem ao seu ápice: em abril deste ano, os manifestantes se reuniram em frente ao quartel-general para pedir apoio aos militares, que acabaram por destituir Bashir.
 Desde então, um Conselho Militar de Transição, liderado pelo general Abdel Fattah al-Burhan, foi criado até que um novo governante tome o poder do país. Os protestantes pediram que o governo fosse para as mãos dos civis, o que não foi bem recebido pelo Conselho, que utilizou de sua força militar para, novamente, reprimir as manifestações. 
No dia 3 de junho, as Forças de Intervenção Rápida mataram 118 pessoas, de acordo com médicos sudaneses. A diretora do Centro de Traumas Ahfad em Cartum, Sulaima Sharif, contou que a equipe do Centro tratou dezenas de mulheres que sofreram abusos pelas Forças de Intervenção. A estimativa é de que 15 delas foram estupradas. Para que as informações não cheguem para o resto do mundo, o Conselho fechou a internet do país.
 Até onde sabemos, o número de mortos e feridos pode ser bem maior do que queremos acreditar. Por enquanto, o Conselho deseja conversar com os protestantes, mas estes recusam o convite e demandam que o poder seja transferido para os civis. Em 2017, os Estados Unidos impuseram um embargo econômico ao Sudão por conta das atrocidades cometidas no país. Um ano depois, o embargo chegou ao fim, e apesar de aparentemente abrir novas oportunidades para o país, não trouxe os benefícios esperados. Ademais, o Sudão foi suspenso da União Africana, até que um governo civil seja formado.

O Sudão do Sul

Desde de 1962, ideias separatistas já povoavam a mente de alguns sudaneses. Quando um líder favorável à separação, Coronel Jaafar Muhammad Numeiri, chegou ao poder, estratégias para a criação de um novo Estado em 1970 surgiram, mas a descoberta de reservas de petróleo na parte do Sul do Sudão não permitiu que as negociações se concretizassem. Sem cumprimento das promessas por parte de Numeiri, os separatistas entraram em conflito com o governo em 1983, iniciando uma guerra civil que durou 20 anos e matou centenas de milhares de pessoas. Enfim, em 2002, o governo e os separatistas entraram em um acordo para retomar as negociações da separação. 
A partir de 2005, um governo conjunto foi criado, com a duração de 6 anos, para depois ser feito um referendo, onde a população decidiria sobre a separação. Com 99% dos votos a favor, o Sudão do Sul se separou do Sudão, e novos conflitos entre tropas do norte e do sul voltaram a surgir. Por conta de sua população etnicamente diversificada, embates étnicos causaram milhares de mortes e refugiados. Os conflitos entre o jovem país e o Sudão continuaram, especialmente por causas das reservas de petróleo no sul sudanês.
Para ajudar o Sudão do Sul a passar por sua guerra civil,  o Conselho de Segurança da ONU aprovou um projeto contando com um efetivo de cerca de 13000 colaboradores, entre soldados e agentes de negociação da paz. No entanto, a execução do projeto tem sido dificultada pela fuga das famílias, que se instalam em locais de difícil acesso, tanto para os conflitos quanto para a ajuda humanitária. Mesmo assim, a ONU insiste nas missões de paz e de proteção aos civis. Por pressão internacional e temendo embargos, os rebeldes e o governo assinaram acordos de paz, mas os embates continuam e o sofrimento da população não tem fim.

Por que ninguém fala sobre o Sudão?

A empatia seletiva está muito presente. Um incêndio destruiu uma catedral na França, e mesmo que não tenha machucado ninguém, a comoção internacional foi gigantesca. A situação de países como o Sudão parece não sensibilizar tanto, quando na verdade deveria ser a prioridade na ordem do dia de preocupações. 
Pessoas estão morrendo, mulheres sendo estupradas e mais inúmeros direitos humanos, inclusive os políticos, são violados todos os dias e os grandes veículos de comunicação pouco noticiaram sobre isso. Os civis estão impedidos de exercer seus direitos de cidadãos e a democracia está em xeque. Para inverter essa situação, a ajuda internacional entra em foco com o poder de pressionar as decisões do governo e por isso, ela é de extrema necessidade. A situação do Sudão e do Sudão do Sul é caótica e é urgente que a comunidade internacional se mobilize para devolver uma vida digna para seus cidadãos. O papel da imprensa também tem sua relevância, uma vez que é seu dever informar à todos os cantos do mundo a precária situação de países que não ganham a devida atenção.

Referências

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terça-feira, 2 de julho de 2019

Acontece no UNICURITIBA: Grupo de Extensão "De Portas Abertas para o Mundo" realiza evento para celebrar o Dia Mundial do Refugiado





Por Vinícius Canabrava


No último dia 20/06 foi comemorado o Dia Mundial do Refugiado. À Assembleia Geral das Nações Unidas decidiu que a partir de 2001, todos os países deveriam celebrar esta data, mostrando respeito a coragem, perseverança e força que os refugiados têm ao deixarem seus lares de forma forçada.

Para incentivar isto, o grupo de extensão, De Portas Abertas Para o Mundo, que tem por objetivo integrar os refugiados e conscientizar as pessoas sobre o tema, promoveu uma festa cultural, na Rua Pagu, em Curitiba. Com a orientação do Professor Thiago Assunção, o evento contou com o apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados e da Cáritas, organização da Igreja Católica para tratar com o tema.

A programação do evento permitiu que os refugiados, migrantes e brasileiros pudessem interagir, se aproximar e ter, principalmente mais empatia uns com os outros, algo primordial para quebrar barreiras. Para alcançar este objetivo o grupo utilizou de apresentações artísticas, desde poesia, músicas e dança, até mágica.

Para começar, o poeta angolano Moises Antonio,  recitou suas poesias que falam sobre migração, o autor já foi citado em diversos trabalhos acadêmicos e fala “tudo é terra, não importa se aqui ou lá”

 




 
Após ele, dançarinas típicas de cada região da Venezuela mostraram para o público como a dança se tornou uma forma de celebrar a cultura venezuelana em Curitiba e também como esta pode ser uma forma de resistência. Uma delas, em poucas palavras, conseguiu mostrar quão resistente o povo venezuelano é, emocionando o público.



Além destas atrações, umas das que mais empolgou as pessoas que estavam presentes foi a da cantora e instrumentista Ninoska Potella, da Venezuela, com a dançarina Meliarqui Ybarra, também venezuelana. Ybarra dançou ao som do joropo, gênero típico de seu país que de origem que foi entoado por Potella.

Assim, o evento conseguiu cumprir com sua função, criou um ambiente descontraído, onde todos puderam aproveitar e aprender, aliando a arte com o conhecimento e, assim, eliminando preconceitos.


*Fotos: Thiago Lisboa
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segunda-feira, 1 de julho de 2019

Mulheres de Destaque: Alexandria Ocasio-Cortez, a mais nova congressista estadunidense da história.


Por Maria Letícia Cornassini



“Mulheres como eu não devem concorrer para o cargo”. É com esta frase que Alexandria Ocasio-Cortez, ou AOC como ficou conhecida popularmente, começa seu vídeo de campanha eleitoral. De fato, quando olhamos o cenário representativo norte-americano -composto 81% por homens brancos e em sua maioria empresários-, mulheres como Alexandria realmente não parecem se encaixar no Congresso. E foi justamente por esta razão que Alexandria concorreu à vaga de deputada do Partido Democrata pelo 14º Distrito contra o, até aquele momento, atual deputado, que permanecia no poder há 14 anos.

No começo de sua candidatura, parecia impossível que uma mulher, jovem, latina, residente de uma comunidade periférica e pertencente a classe trabalhadora pudesse destronar um candidato consolidado e com o apoio financeiro de diversas corporações. Em uma campanha eleitoral movida 100% por voluntários e sem receber doações de corporações, Alexandria priorizou ouvir a comunidade, e pensar nos problemas que ela mesma já havia sentido na pele, para escolher os objetivos que comporiam sua plataforma eleitoral.

Dentre os objetivos que compõem sua plataforma, estão: saúde e moradia como direitos básicos e coletivos; suporte à comunidade LGBTQ+,  à população idosa e aos direitos femininos; controle de armas; meio ambiente limpo e aumento do salário mínimo. Não só isso, durante toda sua campanha fez questão de distribuir materiais eleitorais nos idiomas de seus eleitores: inglês, espanhol e iemenita.

E agora você deve estar se perguntando: Falar é fácil, mas o que ela tem feito até agora?

Após ter sido eleita, e agora ter o título de representante mais jovem da história do Congresso Estadunidense, Alexandria tem feito campanha para a aprovação do “Green New Deal” –que propõe um modelo mais sustentável com objetivo de eliminar a poluição e diminuir as mudanças climáticas-; critica abertamente a liberdade e falta de controle concedida pela lei aos atos Presidente; luta pelo fim e critica os campos de detenção em que atualmente ficam os imigrantes e iniciou uma coalisão com o deputado que é seu maior crítico para propor uma lei que barre antigos políticos de participarem de atividades de lobby.

Sua trajetória em busca do cargo de deputada foi registrada pelo Netflix, e, junto à trajetória de mais três mulheres em busca de voz política, compõe o documentário “Virando a Mesa do Poder”. Como espectadores, ficamos cientes das dificuldades enfrentadas pela atual deputada ao desafiar um candidato cercado por lobistas e cujo poder lhe foi dado a tempos: estabelecimentos não permitem que ela exponha suas propostas; o representante não participa de debates dentro da comunidade junto à ela; tentam a intimidar. Em um momento, se preparando para o maior debate contra seu oponente, ela diz “Eu debaterei representando o movimento hoje. Não se trata de me eleger ao Congresso. Trata-se de nós chegarmos ao Congresso”. Vem daí o papel de destaque de Alexandria.

Isto porque ela não representa somente um novo rosto na política. Representa mais. Representa a ascensão de mulheres num lugar em que nunca foram muito ouvidas, nem mesmo no maior país democrático do mundo: o meio político. Representa a luta e o reconhecimento dos interesses de minorias, sejam elas étnicas ou sociais. Representa a nova política desmantelando o castelo de cartas sob o qual a velha política se baseava. Representa cada cidadão que se deparou com interesses de multinacionais, grandes corporações ou indústrias sendo colocados em primeiro plano na política de um país e pensou “mas não deveria ser assim...”.
Mais que tudo, Alexandria representa a democracia como ela, de fato, deveria ser: do povo e para o povo.

 
Referências:

Documentário “Virando a mesa do poder”- Netflix

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