No mês marcado pelas ainda sucessivas quebras de recordes em número de
casos e de mortes na pandemia, o Brasil teve espaço na mídia estrangeira também
pelo desastre da política anticorrupção.
O jornal francês Le Monde destacou, em uma matéria extensa e detalhada, a
operação Lava-Jato como uma armadilha orquestrada por um juiz parcial na defesa
de interesses políticos. A maior operação anticorrupção do mundo era vista como
uma esperança para a salvação do Brasil em um contexto de crise política,
econômica, social e ambiental, segundo o jornal. No entanto, a operação tinha
métodos contestáveis e ilegais, além de contar com forte apelo midiático e violações
de regras processuais. Suas irregularidades foram expostas e uma de suas maiores
“conquistas”, a prisão do ex-presidente Lula, foi anulada. Dessa forma, o Brasil
aparece mais uma vez nas manchetes com um escândalo político e judiciário para
somar ao descrédito da opinião pública internacional.
A BBC NEWS anuncia o número de mortes atingido pelo Brasil no mês de
abril. Foram mais de 400 mil no mesmo mês em que o Brasil chegou a bater o
recorde de mais de 4 mil mortes em um só dia e o índice de ocupação nos hospitais
permanece em torno de 90% em pelo menos 1 terço dos estados. A matéria aponta
os números como consequência de uma política insuficiente de vacinação e cita o
inquérito aberto contra o presidente Bolsonaro. A Comissão Parlamentar de
Inquérito (CPI) investiga o comportamento do atual presidente perante a crise
sanitária, especialmente no que diz respeito à aquisição das vacinas, e poderá
resultar em impeachment. O Brasil tem sido frequentemente citado por tais dados e
principalmente pelas novas variantes decorrentes da administração desastrosa do
país com relação à pandemia.
O artigo especial do EL País espanhol, além de apontar o número de mortos,
é repleto de frases de pesar, destacando os relatos de famílias que perderam entes
queridos e que buscam justiça. Através da Associação de Vítimas e Familiares de
Vítimas da Covid-19 (Avico), movimento organizado para denunciar as autoridades
brasileiras e responsabilizar o Estado, sobreviventes do COVID e familiares
denunciam que vidas poderiam ter sido salvas se o sistema de saúde estivesse
mais preparado e bem equipado, bem como se os órgãos competentes tivessem se
esforçado em salvar vidas e comprar vacinas ao invés de incentivarem o uso do “Kit
Covid” de eficácia contestada. A matéria também cita a CPI do Covid e faz
referência às diversas situações em que houve desprezo por parte do Estado como,
por exemplo, quando sucedeu a falta de oxigênio no estado de Manaus.
Na Argentina, a negativa da Anvisa para a vacina russa Sputnik V foi notícia
no El Clarín. O país vizinho fechou contrato com o laboratório eslavo ainda em 2020
e vacina a maioria da sua população com doses russas. O jornal portenho traz
trechos da declaração oficial do laboratório responsável pela fabricação fármaco
recusado pela agência reguladora sanitária brasileira.
Em nota, representantes da Sputnik alertam que a decisão de vetar a vacina
foi meramente política e apontam para uma interferência norte-americana na
Anvisa. Apesar disto, lembra Clarín, o imunizante foi revisado e publicado pela
prestigiada revista científica “The Lancet”, que lhe aferiu 92% de eficácia contra o
coronavírus.
Ainda em Buenos Aires e na polêmica das vacinas no Brasil, o La Nacion
manchetou o áudio vazado do ministro Luiz Eduardo Ramos. Em conversa, o
general confessa ter recebido a vacina em segredo. Já com idade e requisitos para
ser vacinado dentro das diretrizes do Plano Nacional de Imunização, o ministro
preferiu manter segredo para que o presidente Bolsonaro “não soubesse e se
irritasse”.
Na toada do negacionismo crônico do governo federal brasileiro, Nacion
relembra as recentes declarações – também vazadas – do ministro da economia
Paulo Guedes criticando a CoronaVac e chamando o SarsCov-2 de “vírus chinês”.
Assim como Ramos, Guedes não sabia que estava sendo gravado. Ambos vieram a público se retratar, mas o economista recebeu indiretas do embaixador chinês no
Brasil.
O Brasil é posto ao lado de China e índia como adversário da agenda
climática do partido democrata estadunidense, grifa o The New York Times.
Segundo o jornal, a administração de Joe Biden consegue costurar acordos com
Japão, Canadá e Coréia do Sul, mas enfrenta no Brasil o maior oponente para
negociações ambientais.
No contexto da cúpula do clima, o Times noticia críticas que Biden recebe por
militantes climáticos por sua tentativa de negociar planos para a Amazônia com o
“conservador” Bolsonaro, cuja administração é “lúgubre”.
O mesmo tom é observado no The Wall Street Journal. O jornal do rentismo
internacional ironiza um diálogo de Bolsonaro com Biden, como se o Brasil dissesse
“pague-me para não arrasar a Amazônia". “O pedido é provavelmente apenas um dos
primeiros de muitos semelhantes a seguir quando
os países em desenvolvimento começam a negociar com os países industrializados sobre
quem paga por programas caros para lidar com a
mudança climática.”
Na catari Al-Jazeera, o plano bolsonarista de priorizar a economia sobre
saúde em meio à pandemia põe o presidente em “risco político e vidas em jogo”. A
maior rede árabe de notícias mostra que, enquanto o sistema de saúde brasileiro
colapsa, o governo tem publicações retiradas pelo Twitter por propagar mentiras
sobre a covid-19. A campanha “O Brasil não pode parar” também foi proibida de ser
veiculda em tevê e rádio pela justiça.
Ouvindo especialistas na política e na saúde, Al-Jazeera repercute que a
intenção de Bolsonaro é “lavar as mãos” e culpar quem pede lockdown pela
derrocada econômica brasileira.
O Jornal da Angola foi contundente ao classificar o Brasil como o pior país do
mundo para se estar neste começo de 2021. “Celeiro de novas variantes”, o país
enfrenta o aumento no número de casos enquanto sofre para acelerar a vacinação.
Tomando números somente deste ano, o jornal mostra que o Brasil era o 24o em
números fúnebres relativos na pandemia antes de janeiro. Desde então, o país já
galgou 6 posições no ranking do desastre.
Mês a mês, as aparições brasileiras na mídia internacional só pioram. A CPI
instalada no Senado pode, quiçá, achar responsáveis e omissos nas mais de 400
mil vidas que a covid-19 ceifou no Brasil: mas vem com mais de um ano de atraso.
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